Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
História Moderna II
Professor Dr.Severino Vicente da Silva
Escrito por:
John Keven Nunes
Manoel de Carvalho Niño Júnior
Patrícia Gomes
Raphael Wellington
Raquel Barbosa Lopes
Recife, outubro de 2008.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.....................................................................................................4
1. A mulher e o casamento........................................................5
2. A prostituição feminina no século XVI........................................10
3. A mulher na Igreja: o feminino e o conflito..................................14
4. Ocultismo e magia............................................................18
5. A mulher trabalhadora e administradora.......................................22
REFERÊNCIAS.....................................................................27
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem por finalidade expor e analisar determinados aspectos pertinentes às mulheres na Idade Moderna, aspectos estes que geram a discussão de problemas referentes ao gênero, como sua condição quando inseridas nos mais diversos campos, como a família, a sociedade civil e a Igreja. Também são abordados os parâmetros comportamentais exigidos pelos grupos sociais das quais fazem parte, bem como as retaliações sofridas pela quebra dessas expectativas.
Buscou-se, então, delimitar o objeto de pesquisa em áreas as quais são as mais marcantes no que concerne o universo feminino, utilizando-se de contrapontos para uma melhor captação dos extremos de uma mesma questão considerada.
Por fim, procuramos trazer uma pequena contribuição para manter aceso o debate acerca da condição feminina através dos tempos, como forma de tentar obter respostas que satisfaçam a resolução dessa demanda.
1. A MULHER E O CASAMENTO
Raquel Barbosa Lopes
Independente da sua classe social, a menina, quando fruto de um casamento legítimo, assim que nascia estaria sob a tutela de um homem. Primeiro seria o seu pai, que teria por função sustentar a sua filha até o casamento, e depois o marido, que seria responsável pelo bem-estar da esposa. Este modelo se aplicava, sobretudo, às classes médias e altas da sociedade entre o período que se enquadra o Renascimento e a Idade Moderna.
A mulher para se casar teria que ter um dote. No livro História das Mulheres no Ocidente há um trecho escrito por Olwen Hufton que descreve que “uma filha levava da sua família dinheiro e recursos que tinham que comprar o seu bem-estar futuro e, idealmente, através da nova aliança, elevar a posição social dos seus parentes” (HUFTON, p. 25). Percebe-se, então, que os casamentos realizados entre as classes mais abastadas economicamente tinham o caráter de negócio.
É importante ressaltar que as mulheres cujas famílias não possuíam recursos para tal tinham que trabalhar para juntarem dinheiro para o seu dote. Além disso, independente de serem casadas ou solteiras, as mulheres das classes trabalhadoras tinham que se sustentar pelos rendimentos do seu trabalho, o que não significava que estas poderiam viver em plena independência. A mulher pobre solteira que não conseguia manter sua própria casa tinha que procurar um patrão que a abrigasse e este, então, passaria a ser seu responsável até esta mudar de emprego, casar ou voltar para a casa dos pais.
Por volta dos 12 anos, a menina pobre deixava a casa dos seus pais e saía em busca de trabalho. Até o final do século XVIII, nas zonas rurais o trabalho nas pequenas fazendas abrigava boa parte da mão-de-obra dessas moças. O que era uma grande vantagem visto que estas não se afastariam tanto da sua família e do padrão de vida a que estavam acostumadas. Quando não conseguiam trabalho nas fazendas, procuravam emprego nas cidades próximas, onde se submetiam ao trabalho doméstico das casas. “As criadas constituíam o maior grupo trabalhador na sociedade urbana, chegando a cerca de doze por cento da população total de qualquer vila ou cidade européia nos séculos XVII e XVIII” (HUFTON, p. 31). Isso se explica porque se ter criados era sinônimo de status social, além disso, havia a oferta farta e barata de mão-de-obra feminina nesse período. Nas zonas industriais, também foi notável a utilização de mulheres nas indústrias têxteis européias.
No que se refere ao casamento, as mulheres das classes aristocráticas e médias se casavam bem menos do que as das classes operárias, fato que se explica pelo valor elevado do dote. O dote das filhas poderia levar à falência das famílias. Geralmente, só as duas primeiras filhas se casavam, enquanto as outras ficavam em casa ou moravam em locais “modestos”. Lembrando que as mulheres da aristocracia só podiam casar com alguém do mesmo grupo social. A mulher de família mais pobre e que lutava por seu dote quase nunca deixava de se casar, pois não havia motivos para o impedimento do casamento.
De modo geral, havia uma tendência das mulheres em não se casar com alguém de condição econômica inferior a sua. As da aristocracia poderiam escolher o melhor partido; as filhas dos médicos também se casavam com médicos; as que trabalhavam nas fazendas se casavam com os agricultores; as que trabalhavam na indústria de tecido se casavam com algum tecelão; e assim por diante, enfatiza Olwen Hufton. Por sua vez, o número de criadas que se casavam com alguém de mesmo ofício era praticamente inexistente, pois estas aproveitavam o dinheiro do dote para, junto com o seu marido, abrir um negócio. O casamento tinha por finalidade proporcionar apoio econômico entre as partes, mas isso não significa que o amor romântico não ocorresse. Após o casamento, o papel da mulher consistia basicamente em ser uma boa companheira e de cuidar dos filhos.
A mãe desse período deveria alimentar o bebê e mantê-lo sempre aquecido e limpo. Houve uma tendência dos historiadores daquela época de taxarem que as mães eram indiferentes com seus filhos, pois era um hábito comum, no século XVII, as crianças serem alimentadas por amas de leite. As mães que permitiam isso comumente pertenciam à aristocracia, às classes médias urbanas ou trabalhavam nos negócios de família e, devido ao perigo do ambiente de trabalho, preferiam evitar expor seus filhos. No século XVIII, o número de mães que contratavam os serviços de uma ama tenderam a diminuir entre as primeiras classes citadas, pois os médicos e filósofos faziam uma propaganda que enfatizava o caráter negativo e “antinatural” dessa prática.
Segundo Olwen Hufton, após a infância, a mãe passava a exercer o papel de educadora, que variou de acordo com o tempo, a classe e o lugar. As mães das classes aristocráticas ensinavam suas filhas a se comportarem a fim de arranjarem um bom casamento, que nesse caso, a mãe seria o reflexo do sucesso da filha. Aprendiam a bordar, a dançar, a falar, a administrar os criados, a ler, a falar francês etc. Para a plebe a importância da leitura tinha um papel secundário, até porque o ensino da leitura dependia de uma mãe também letrada, as habilidades culinárias e a costura eram as prendas mais requisitadas por esta classe. A mãe pobre ensinava, sobretudo, a filha a se “virar” nas fases mais críticas. A educação moral da filha era função quase que exclusiva da mãe. “Uma filha era o que a mãe fazia dela” (HUFTON, p. 63).
Até o fim do século XVIII, as meninas, “com exceção de algumas, que eram enviadas às ‘pequenas escolas’ ou a conventos, a maioria era educada em casa, ou também nas casas de outras pessoas, uma parenta ou vizinha” (ARIÈS, p. 233).
Segundo Lawrence Stone, a preocupação com uma melhor educação para as meninas teve início no século XVII, quando algumas mulheres inmglesas, das classes média e alta, se inspiraram nos princípios de pensadores como, por exemplo, John Locke, William Law, Jonathan Swift, John Dunton e Daniel Defoe. Essas mulheres acreditavam que a educação seria um fator de enriquecimento da relação com os seus maridos, pois melhor preparadas seriam, conseqüentemente, melhores companheiras. Locke defendia que uma mulher bem preparada para o casamento deveria ler inglês perfeitamente, entender latim, aritmética e conhecer alguns dados cronológicos da história.
Lawrence Stone explica que a educação feminina mais ampla resultou em melhorias nas condições de vida, visto que poderiam ter uma maior autonomia na escolha de seus parceiros, ter maior participação nas decisões familiares, uma postura sexual mais relaxada, restringir o número de filhos etc.
Ao ficar viúvo, o pai tinha a obrigação de substituir a figura materna. A solução nesses casos poderia ser, por exemplo: mandar os filhos para a casa de uma irmã; trazer uma parenta solteira para a sua casa; deixar que a filha mais velha tomasse conta dos outros irmãos; ou casar-se novamente. A mulher viúva enfrentava muito mais problemas do que o homem, e, geralmente, sobrecarregavam ainda mais as suas filhas. Fato que nas classes mais favorecidas economicamente significava, muitas vezes, uma chance da mulher se tornar independente, pois poderiam levar o negócio da família adiante ou porque o dote do casamento ainda lhe garantia uma vida confortável e, dessa forma, poderiam escolher um tutor com mais cautela.
As mulheres possuíam uma vida muito difícil quando longe da família e fora dos papéis a que estava destina, de esposa e mãe. As solteiras, quando as famílias não podiam sustentá-las e devido aos baixos salários oferecidos, chegavam a se agrupar e tentar levar uma vida em conjunto.
De modo geral, o casamento era visto mais como uma união temporária do que um contrato vitalício, pois poucos casais conseguiam permanecer juntos até a velhice. Sara F. M. Grieco explica que quanto mais jovem mais alta seria a probabilidade de um recasamento. E enfatiza que para os homens o tempo para uma nova união era bem mais curto. O direito canônico não estipulava prazos para um novo casamento, mas recomendava pelo menos um ano de luto, principalmente no caso das viúvas. Outro dado curioso se relaciona à idade dos novos pares, a maioria dos homens, após o primeiro casamento, se juntava com mulheres mais jovens, ao contrário das mulheres, cujos recasamentos tendiam a ser com homens mais velhos. No sul da França, até o início do século XVII, o clero chegou a se recusar a fazer recasamentos, pois se questionava se tais pessoas teriam a chance de uma nova vida após a morte.
No que se refere à traição, as mulheres deveriam fingir que não se preocupavam com os casos do marido, além disso, deveriam tentar manter a virgindade até o casamento e serem fiéis ao relacionamento. Para a sociedade, um homem traído era sinônimo de falta de habilidade para manter a sua propriedade.
Nas áreas rurais, os maridos traídos e as mulheres infiéis eram submetidos à rituais de vergonha pública. Na aristocracia, a infidelidade tinha outra conotação; era comum homens e mulheres manterem relações extraconjugais. O único empecilho, no caso das mulheres, seria cumprir suas obrigações de esposa.
No que se refere ao divórcio, este processo era bem mais simples para o homem, às vezes, bastava alegar simplesmente a infidelidade da esposa. O seguinte trecho nos dá uma idéia de como era complicado para a mulher se divorciar do marido: “mesmo em 1857, em Inglaterra, a Lei do Divórcio tornou possível ao marido obter o divórcio alegando simples adultério da sua mulher, mas esta apenas o obteria se a infidelidade do marido fosse agravada por outras circunstâncias tais como crueldade, abandono, bigamia, violação, sodomia ou bestialidade” (GRIECO, p. 115).
2. A PROSTITUIÇÃO FEMININA NO SÉCULO XVIII
John Keven Nunes
O século XVI, além de ter sido um período de grandes descobertas, também conheceu uma forte mudança na concepção da imagem feminina, sendo apontado por alguns pensadores, como Reay Tannhill, por exemplo, um dos séculos mais críticos nessa mudança. Desde o período das cruzadas que vários agentes transformadores vieram atuando para uma nova forma de ver e entender a mulher, tais como: choques com a civilização mulçumana e sua forma de tratar suas mulheres, a ida de muitos membros intolerantes da sociedade européia para os campos de batalha, o que levou muitas mulheres a administrar os feudos dos seus esposos ausentes, um desenvolvimento de uma literatura palaciana, onde as mulheres passaram à condição de DAMAS e principalmente o desenvolvimento do culto à Maria. Esse último item ganhou força na Europa medieval a partir do contato com os bizantinos que já tinha uma devoção à Maria bastante amplificada, e sua divulgação na Europa se deu através de eclesiásticos como Bernard De Clairvaux, de trovadores, nobres, burgueses e ordens religiosas. Logo, Maria conquista toda a igreja cristã ocidental.
Como o século XV ficou conhecido como o “o século dos bastardos”, a igreja passou a ver a prostituição feminina como um mal necessário que servia para conter as demasias. Em sua obra Reay Tannahill faz menção a um bordel pertencente à igreja de Avinhão (França), onde as moças dividiam o tempo entre orações e favores sexuais aos clientes. Lugares como esse, foram difundidos pela Europa, porém proibidos para judeus e pagãos. Evocou-se o arquétipo de Maria Madalena (a prostituta arrependida dos evangelhos) para servir de exemplo às prostitutas e levá-las à conversão. Jacques Le Goff, conhecido medievalista francês, cita também que a igreja admitia a prostituição como “resultado do pecado original e da fraqueza da carne humana” (LE GOFF, p. 154). Porém essa prostituição deveria ser praticada apenas como necessidade de sobrevivência e não por prazer, ficando sempre aberto o caminho do arrependimento.
Uma epidemia de sífilis no final de século XVI freou o desenvolvimento dos bordéis e das casas de banhos. Cada lugar denominou essa doença venérea como os nomes próprios, que em geral evocava lugares aquém de suas fronteiras, tais como sarna espanhola, na Alemanha, e doença francesa, na Espanha. O retrocesso sofrido pela prostituição ganhou nova roupagem a partir do século XVIII com as inovações promovidas nos bordéis na Europa, já que eles deveriam satisfazer seus novos, ricos e influentes clientes, advindos da aristocracia e do clero em especial.
Uma das grandes novidades foi a divulgação dessas casas e de suas especificidades que deu fôlego ao negócio do sexo. Um dos ícones desse período eram os estabelecimentos de Miss Fawkland, que segundo Nickie Roberts eram decorados como templos e suas garotas tinham amplo treinamento para agradar clientes de todos os gostos, inclusive os mais excêntricos, para a época, como o sadomasoquismo, por exemplo. Outra inovação bastante difundida, ainda de acordo com Roberts, foi o uso de dramatizações nesses recintos, pois era grande a ligação entre o teatro e a prostituição, sendo o primeiro uma vitrina para as prostitutas recentes mostrarem seus talentos, onde muitas prostitutas – atrizes conseguiam também bons casamentos.
Um fato bastante interessante verificado nessa pesquisa foi a existência, também, de prostituição masculina, que servia para satisfazer os desejos de senhoras abastadas das classes aristocráticas. E a demanda por esses serviços másculos era grande, como atestam as movimentações nos prostíbulos das senhoras Hayes e Banks em Londres, onde se oferecia sexo comercial a ambos os sexos, sem nenhuma distinção, segundo Nickie Roberts. Em “As prostitutas na História”, Nickie Roberts, nos informa que “Londres era já no século XVIII a mais avançada cidade do ocidente” (ROBERTS, p. 205), onde o mercado da prostituição tinha grande profusão, às vezes escancarada.
Toda essa liberação era facilitada pelo desenvolvimento de ideais liberais, onde a economia de mercado se preocupava menos com questões morais, que com os lucros. O aumento da pobreza, a expulsão de camponeses de suas terras e grande quantidade de mulheres sem meios para casar, aumentou o número de prostitutas pobres, uma vez que a prostituição dava muitas oportunidades a essas desafortunadas, desde se livrarem de trabalhos exaustivos a conseguirem juntar dinheiro e com isso arrumar um marido. Não havia nas classes mais baixas um apego à moralidade. Era comum nos bordéis londrinos um número notório de prostitutas negras, muitas delas escravas trazidas das colônias por seus antigos senhores e abandonadas à dura sorte na metrópole inglesa. Entre os comportamentos profissionais das prostitutas estava o de receptar seus clientes entre os transeuntes de determinada rua e levá-los para os aposentos das mesmas e lá desenvolverem seus trabalhos sexuais; sendo comum que várias ruas tanto em Londres, como em várias cidades da Europa, fossem identificadas por esse tipo de oferta.
Ao contrário do que se pode pensar, as crianças não estavam livres de serem envolvidas por esse negócio. Devido à necessidade constante de virgens para aplacar os desejos dos clientes ricos e do aumento da pobreza, muitas meninas a partir de 11 anos de idade seguiam para uma triste vida nos prostíbulos, de onde muitas vezes só saiam mortas. Infelizmente a prostituição infantil atual, também tem suas raízes em várias sociedades modernas. Muitos espaços serviam para o oferecimento de serviços sexuais, tais como muitos cafés, que possuíam quartos para essas finalidades, quanto nas famosas tavernas, sendo, estas últimas, foco das prostitutas das classes trabalhadoras. Muitas festas eram realizadas com o intuito de promover encontro entre aristocratas e prostituas em geral essas festas se davam em festas, de bailes de máscaras, com lugares exclusivos para a sua realização. O escritor Thomas Brown faz alusão em sua obra a uma das numerosas tavernas: “aquela imunda escola de sodomia, que pela competência na ciência da devassidão, chamados de flogging Cillies pagam um preço exorbitante para serem açoitados em seus traseiros pelas Posture Molls”.
Outras cidades também foram foco de prostituição, tais como Paris e Viena, porém as prostitutas sofriam forte repressão por parte do estado, que utilizava de métodos brutais, como marcação a ferro nas prostitutas, banimentos e até decapitação das mesmas. Outros métodos mais brandos foram bastante disseminados nessas regiões, como trabalhos forçados em lavanderias, prisões etc., o que acarretou maior vigilância sobre as mulheres. Porém, como muitas vezes ao longo da História, a prostituição sobreviveu na clandestinidade, se destacando o papel dos cafetões, que aliciavam as prostitutas para seus clientes, e o disfarce que muitas utilizavam para oferecerem seus serviços. O resultado dessa prostituição clandestina foi a disseminação de muitas doenças sexualmente transmissíveis. Na França, também, foram tomadas muitas medidas para o controle da prostituição o que Foucault chamou de Grand Renferment, através dos quais prostitutas foram enviadas às instituições de saúde para serem tratadas e reintegradas à sociedade. Por ser considerada pelo governo francês uma necessidade de manter a prostituição ativa, porém controlada, paradoxalmente eram concedidas licenças para o funcionamento de bordéis (casas de tolerância) devidamente fiscalizados e mantidos em áreas restritas para tais fins. Muitas sociedades civis e particulares foram criadas para combater a prostituição, devido aos apelos por moralização das classes burguesas emergentes, numa tentativa desenfreada de “civilizar” a prostituição. Esses movimentos “pró-moral” também tiveram seus correspondentes na Inglaterra, onde a nova burguesia de ressaca puritana apostava na família nuclear, onde a mulher seria o eixo. Temos em Rousseau (filósofo iluminista), um simpatizante dessas teorias, onde a mulher se encontra em posição inferior aos homens e s mesma deve dar continuidade a uma carreira maternal. Devido a muitas perseguições de ordem moral, muitos freqüentadores dos submundos europeus desenvolveram gírias que facilitaram sua conversação sem serem entendidos por pessoas não afins, em Londres essas gírias levaram o nome de talking flash.
Pelo que podemos perceber o século foi Sui Generis na história das mulheres. Toda a liberdade que elas obtiveram plantou sementes que séculos mais tarde culminariam em movimentos de cunho feminista em todo o mundo. No presente século muitas mulheres ainda são vítimas de exploração e violência sexual e doméstica e em geral recebem salários mais baixos que os homens. Esperamos que o presente trabalho possa servir de base para outros estudos que demonstrem os papéis brilhantes que o erroneamente chamado “sexo frágil” desempenhou no percurso da História.
3. MULHER NA IGREJA: O FEMININO E O CONFLITO
Patrícia Gomes
A luta pela emancipação das mulheres tem se dado, em todos os segmentos da sociedade, numa batalha secular e sempre esteve presente em todas as formas de sociedade, sendo mais intensa nas patriarcais. Muitas foram as conquistas, porém o caminho ainda é longo, especialmente no tocante a religião, em especial a Igreja Católica, tema que iremos abordar neste breve estudo sobre a posição, a luta e as conquistas das mulheres na Igreja Católica nos últimos tempos.
Nosso ponto de partida é um dos períodos da historiografia onde se deu uma das maiores repressões às mulheres. No livro “A mulher numa estrutura eclesial masculina”, um dos autores, Ida Raming, destaca as atitudes tomadas no intuito de relegar à mulher a um segundo plano na Igreja: “assim evoluiu o cristianismo ortodoxo, estabelecendo-se cada vez mais como religião do Estado, numa atitude de defesa contra as comunidades tidas como heréticas, hostil à mulher e a sua emancipação. Contribuíram para esta evolução não só os teólogos da Igreja Antiga como também os padres da Igreja do quarto até o sexto século. Impregnados da idéia de inferioridade antropológica e ética da mulher, reduziram-lhe a vida a duas formas: primeiro à situação de mulher casada e dona-de-casa, com obrigação de submeter-se, obediente, ao seu marido e viver, como matrona honesta, totalmente isolada do público; e mais tarde, ao estado da virgindade, ao qual está associada à exigência de transcender o sexo feminino, resumo da inimizade a Deus, de perigo e fraqueza morais e de assim torna-se homem espiritualmente”.
Essas foram as primeiras formas assumidas para fechar os caminhos da Igreja à mulher, apoiados no direito romano e por uma passagem bíblica (Gn 3,6; 6,2) ao qual a mulher é julgada como fonte de pecado e sedutora do homem. Deste período em diante os padres da Idade Média tem uma elevada autoridade em suas afirmações que valiam como jurisprudência equiparada às decisões conciliares e aos decretos papais. Desta forma o afastamento da mulher da esfera do ministério eclesiástico assume, neste tempo, uma forma cada vez mais jurídica.
Com o decreto de Graciano (1140), é revelado o concreto estado de escravidão da mulher e é autenticado, quando diz: “a mulher deve está sujeita ao homem em tudo”. E com este decreto é negado à mulher o exercício de funções pastorais, atividades culturais e litúrgicas.
Temos neste momento a concretização do que seriam os longos séculos de perseguição e opressão à mulher dentro e fora do mundo religioso católico.
Em contraponto, temos o trabalho realizado por Bárbara Pataro Bucker que faz um estudo detalhado de como a Igreja lidou com o feminino, sem deixar de pontuar os momentos de maior conflito nos conceitos psíquico-sócio- antropológicos, podendo começar no destaque dos estereótipos teológicos mais negativos e aceitos sobre a mulher que a autora destaca:
• A mulher existe só para a reprodução;
• A mulher existe para o uso, serviço, prazer e beneficio do varão;
• A mulher é a origem do mal e do pecado, fonte de perversão.
O trabalho de Bucker trás a conflitividade vivida dentro da Igreja Católica desde a leitura e interpretação do Antigo Testamento até os dias atuais, mas a perspectiva do seu trabalho não é de crítica ou de contestação ao que foi feito contra a mulher. Ela trás a Igreja como algo do ser e da fé, não como um campo de batalha entre homens e mulheres. A autora ressalta que Deus não fez restrições a sexo e via a todos como sua imagem e semelhança, defendendo homens e mulheres no campo da fé e com uma proposta de vida melhor para todos. Obviamente esse processo de divisão dentro da Igreja entre homens e mulheres tem raízes históricas e está em processo de mudança, logo requer dados para uma melhor compreensão da historiografia religiosa e a mulher neste contexto, começando esse panorama através das três principais idéias da teologia que estão bastante difundidas numa sociedade cristã patriarcal e secular. Embora a autora também destaque que esse quadro vem mudando lento, mais definitivamente a atuação da mulher na vida religiosa, e temas nunca antes discutidos agora já permeiam as reflexões do mistério eclesial, por exemplo: a ordenação de mulheres ao sacerdócio ministerial e uma das mais polêmicas como o celibato masculino. Neste ponto vale nos ater um pouco mais, como afirma, sobre este assunto, Nadine Foley (a mulher numa estrutura eclesial masculina): “o celibato é uma das questões mais intransponíveis para as mulheres, o celibato foi elevado à categoria do sagrado e passa pela questão do poder e das conseqüências do exercício do poder. O celibato institucionalizado distancia efetivamente a mulher da casta sacerdotal e constitui uma afirmação implícita de que a Igreja, em sua expressão hierárquica, não tem necessidade da mulher”. Podemos então observar dois pontos críticos de discordância entre os autores sobre as conquistas feministas na Igreja nos dias de hoje.
Segundo Bucker, foram fundamentais as mudanças ocorridas a partir do Concílio do Vaticano II (1962) realizado para a discussão dos oprimidos econômica e politicamente, logo a mulher estava inserida neste contexto e como os padres se relacionavam com estas comunidades. A Igreja é pressionada a mais uma renovação diante das mudanças sociais em todas as partes do mundo e novos estudos e condutas são adotas no intuito de acompanhar as exigências de todos aqueles que lutam por igualdade. A Igreja “sente” a necessidade de mudar e reformular o papel da mulher dentro da esfera religiosa dos dias atuais, nos vários pronunciamentos da Igreja, a mulher é persistentemente considerada como tendo uma “natureza própria” e um papel específico a desempenhar na empresa humana.
Ser mulher passa a ter outra conotação e para cristalizar essa mudança a Igreja busca a nova figura da mulher espelhada em Maria uma das mulheres que foi lida dentro de tudo aquilo que a Igreja sempre procurou valorizar na mulher. O Papa Paulo VI, em 1972, apontou que o que explica a diferença única da mulher não consiste numa formalista ou materialista igualdade com o outro sexo, mas em reconhecer o que a personalidade feminina tem característica essencialmente especifica: a vocação materna da mulher.
• A mulher como companheira;
• A mulher como esposa;
• A mulher como mãe.
Outros ramos de pesquisa tiveram ascensão e ocupam lugar de destaque na Igreja Católica “renovada” como a teologia feminista e a mariologia (estudo específico sobre Maria considerada Mãe da Igreja), sem dúvida com a luta e dedicação não só pelas mulheres mais também por homens memoráveis. O feminino deve ter seu lugar na sociedade e na Igreja para que a riqueza, dada por Deus à humanidade através da mulher, permita o desenvolvimento dela e as contribuições específicas como companheira, esposa e mãe.
4. OCULTISMO E MAGIA
Raphael Wellington
Para entendermos a visão moderna sobre as mulheres e como muitas foram parar nas fogueiras da Inquisição sob acusação de bruxaria precisamos entender o cerne do problema: o período medieval. A Idade Média foi consagrada como um período negro e cheio de superstições, etapa da história onde os ritos pagãos ainda eram praticados em várias regiões do norte da Europa. O curandeirismo e os rituais de fertilidade dos celtas são a essência da bruxaria tanto no período medieval quanto na sucessiva Era Moderna e tinham nas mulheres as maiores praticantes de tais rituais pagãos. Esta afirmação segue uma lógica histórica, pois, no geral, as mulheres ficavam em seus lares sendo criadas para manter suas moradias e questões mais práticas da comunidade, enquanto os homens, com exceção dos sacerdotes, tratavam de ações no campo da tradição guerreira.
O envolvimento das mulheres com a religião gerou muitos avanços, como o conhecimento do poder das ervas usadas na cura de doentes e alívio da dor do parto. Outro ganho a ser citado seria o primeiro calendário, o calendário lunar, utilizado por muito tempo e supõe-se ter origem no procedimento de mulheres que observavam seus ciclos menstruais e os comparavam com os ciclos da Lua. As mulheres desenvolveram também os idiomas, a agricultura, a culinária, a cerâmica, entre outros. As contribuições das mulheres para as culturas humanas são inúmeras e nunca tiveram o devido crédito e valor.
Após a cristianização da Europa, o catolicismo começou a perseguir e condenar as práticas pagãs, tratando-as como diabólicas. As mulheres, antes com importante destaque pelos seus conhecimentos, começam a ser vistas como as portadoras do pecado, tal visão pautada no livro do Gênesis, em que Eva leva o seu companheiro Adão a cometer o pecado original, tornando a si e seus sucessores mortais. Também por ser a primeira mulher, fruto de uma costela de Adão, foi interpretado como conseqüência de que as mulheres não poderiam ser retas em suas condutas. Esses argumentos serão as bases para teólogos da Igreja que se exprimem em obras como o volumoso tratado dos dominicanos Malleus Maleficarum, de 1486, e a Summis desiderantes affectibus, de Inocêncio VIII. O primeiro coloca na sexualidade a porta para entrada do demônio, pois é através do sexo que o demônio poderia entrar no corpo e na alma do homem. Segundo a obra, as mulheres são o maior canal para a ação demoníaca.
No Malleus Maleficarum, sua principal característica é afirmar que as feiticeiras adquirem todos os seus poderes por copularem com o demônio. Todos os males, como aborto, destruição de colheitas, doenças em animais, impotências masculina, impossibilidade do homem se livrar das paixões desordenadas, entre outros, são causadas pelas feiticeiras. A sexualidade era o ponto mais crítico, pois é um aspecto vulnerável no ser humano, e segundo o livro “mas a razão natural está em que a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidência pelas suas muitas abominações carnais”. Desse modo, qualquer mulher disposta a tratar pequenas enfermidades ou ferimentos com preparados domésticos à base de ervas, morasse sozinha e tivesse um animal de estimação (um gato, por exemplo), tivesse comportamento pernicioso, entre outras alegações superficiais, podia ser acusada de bruxaria.
O pensamento moderno nos primeiros séculos sobre a feitiçaria teve como base teorias e superstições medievais, pois o pensamento racional voltado a explicação e a visão dos fatos do “sobrenatural” só viria a amadurecer por volta do século XVIII. A forma de descobrir uma bruxa e julgá-la na Era Moderna ainda seria a mesma praticada na Idade Média. A tortura, como é sugerida no próprio Malleus Maleficarum, era o método convencional utilizado para extrair as confissões das supostas bruxas, com o uso comum de aparelhos como A dama de ferro e a Cadeira das bruxas. Havia também métodos menos sofisticados, como aquecimento dos pés ou introdução de ferros sob as unhas. Deste modo, a ré passava por tantos suplícios que acabava por admitir as sentenças elaboradas pelo inquisidor.
O mundo anglo-saxão aderiu à luta contra a bruxaria tardiamente. Na Inglaterra, os procedimentos jurídicos de proibição à feitiçaria somente foram fixados em 1664, com os Suffolk Assizes, de Sir Mathew Hale. Ainda assim não podem ser comparadas às funestas dimensões da caça às bruxas dos países católicos. A explicação para isso deve-se há não existência entre os protestantes de uma instituição tão poderosa como a Igreja Católica, que via na heresia a marca da subversão. Contrário a toda visão “hiperbólica” da caça as bruxas e em defesa da Igreja católica, cito Zenit Manfred Hauke, sacerdote, professor de teologia dogmática da Faculdade de Teologia de Lugano e presidente da Sociedade Mariológica Alemã:
“A deplorada (caça as bruxas) não foi causada simplesmente pela crença na bruxaria, mas por uma histeria coletiva desencadeada ao início da era moderna, e pelos métodos absolutamente inaceitáveis empregados para detectar bruxas e bruxos. A tortura com efeito levava a «confissões» de delitos inventados, sugeridos pelos acusadores. A responsabilidade direta de ter mandado à fogueira supostos maléficos é da autoridade pública. A histeria coletiva (que culmina nos anos 1550-1650), estendia-se sobretudo pelos países germânicos e eslavos e muito menos no âmbito mediterrâneo”.
Dados apresentados pelo mesmo teólogo mostram as execuções de supostas bruxas no transcurso de quatro séculos quando se praticava a perseguição ativa da bruxaria. Foram mortas 50.000 pessoas, dos quais cerca de 20% eram homens. Na Espanha, Itália e Portugal, de meados do século XVI ao final do século XVIII, houve 12.000 processos contra supostas bruxas e bruxos. Só 36 pessoas, nestes milhares de processos, foram submetidas à pena capital. A imensa maioria dos processos da inquisição romana encerrou por falta de provas.
Um exemplo marcante dessa histeria coletiva acabou com um triste episódio gerado pela superstição e credulidade, levando, na América do Norte, aos últimos julgamentos por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts, numa noite de outubro de 1692. O medo da bruxaria durou cerca de um ano, durante o qual vinte pessoas, na sua maior parte mulheres, foram declaradas culpadas e executadas. Temos na História casos de mulheres que se declararam bruxas e foram executadas sem mudar suas convicções, este é o caso de Isobel Gowdie, escocesa julgada por bruxaria em 1662, aparentemente sem tortura, confessou com detalhes seus atos de bruxaria, mantendo assim o folclore da época vivo.
Como existiam bruxas também existiam os caçadores de bruxas na época, um exemplo é Matthew Hopkins (1620 – 1647). Filho de um ministro puritano, que se auto intitulou “caçador de bruxas” e organizou caças às bruxas em Suffolk, Norfolk, Essex e Huntingdonshire, na Inglaterra. Ele empregava a técnica do “banho das bruxas”, em que mergulhava num lago as suspeitas de bruxaria, como a água é associada ao batismo cristão, pressupunha-se que o lago rejeitaria a bruxa, fazendo-a flutuar. Uma pessoa inocente afundaria, possivelmente morrendo afogada.
Na Inglaterra, observou-se um número crescente de juízes que começaram a desconsiderar as sucessivas denúncias de bruxarias que chegavam às cortes, apesar da legislação contra aquelas práticas só ter sido revogada em 1736. A perda do medo às bruxas também pode ser creditada à crescente expansão das luzes, aos avanços da razão, da educação e da lógica científica que culminaram na máxima "se não há diabo, não há Deus." Em 1782, na Suíça é registrada a última mulher européia que foi executada como feiticeira.
5. AMULHER TRABALHADORA E ADMINISTRADORA
Manoel Carvalho Niño Júnior
Geralmente as mulheres dos séculos XVII e XVIII são expostas, no que diz respeito ao seu papel social, elas são definidas como simples elementos de propriedade do chefe da família, seja ele o pai ou o esposo, cuja atuação remete apenas ao âmbito doméstico, ou seja, cuidar do lar, da prole e do cônjuge, tendo exíguas atividades externas a casa, como ir à igreja, por exemplo.
Entretanto, descobriu-se que a mulher dessa época, ora considerada submissa e apenas detentora de deveres, teve seus episódios de autonomia a partir do momento em que exerceu uma das suas facetas mais interessantes: a de administradora. Com efeito, quando se aborda essa característica, somos remetidos ao seio do lar, tendo a mulher apenas como protagonista das atividades domésticas, todavia, ao nos aprofundarmos em pesquisas sobre o cotidiano, veremos que essa habilidade vai além do que dita o senso comum.
Segundo Nicole Castan, a mulher, de modo geral, é alijada das funções de caráter público e dos encargos externos (políticos, administrativos, corporativos, etc.), cabendo a ela “o papel oficioso [gratuito, serviçal] – reconhecido não sem acrimônia, aliás -, porém não oficial”.
Entre os séculos XVI e XVIII, todavia, têm-se registros de corporações de ofícios femininos, ou mistos, em geral, formadas por integrantes das classes populares: é o caso das arrumadeiras, das costureiras, comerciantes de moda, bem como das vendedoras e vendedores de grãos, entre outros. Ainda nesta época, várias mulheres trabalharam em Paris como “moças maiores”, termo que denomina mulheres independentes, nem casadas, nem viúvas.
A mulher, então tida como serva, entretanto, passava a se posicionar como senhora a partir do momento em que o chefe da família deixava expor suas limitações, quando, por exemplo, em suas mãos caíam assuntos de trato doméstico para uma resolução. Tal situação atribui à mulher um controle tal que, estando o elemento feminino, suprido de suas virtudes básicas como a modéstia, dedicação e economia, aliás, virtudes bastante demandadas, que faz com que se reconsidere a opinião de uma sujeição austera ao chefe familiar. O que vem a ocorrer, segundo Nicole Castan, é mais um repartimento de domínio e funções.
A inclusão feminina no mercado de trabalho ocorre pelo caminho da filantropia, empregada pela mulher da classe dominante para obter um pretexto para se retirar das restrições domésticas. A relevância do lar e da vida em família nas classes médias, desde o século XVII, reforçam o conceito de que as funções caseiras e educativas diziam respeito ao universo feminino. Acompanhando esse mesmo incitamento, as mulheres das classes populares procuram diferentes alternativas, vindo a agir de modo coletivo, como demonstrado anteriormente.
A partir do momento em que a estrutura familiar se altera, por volta do século XVIII, devido ao avanço burguês e ao início do processo industrial, a mulher é levada a ficar restrita ao âmbito doméstico, diferentemente do período pré-industrial, no qual a casa abrigava tanto o ambiente familiar quanto o laboral, tendo a família, principalmente a esposa-mãe, de auxiliar o esposo-pai nos seus negócios, o que dava à mulher um contato maior com o mundo externo ao lar, visto que a atividade envolvia a todos. Isso podia ser visto tanto no ambiente urbano como no rural. A mulher podia gerenciar com o marido o empreendimento, ainda que com restrições. E, muitas vezes, tais empreendimentos eram originários dos valores correspondentes aos dotes matrimoniais, que acompanhavam a esposa.
Salvo algumas exceções, sendo integrante das classes superiores ou viúva, por exemplo, a mulher não participava efetivamente da economia externa, mercantil: não é vista no fechamento de contratos ocorrentes nas feiras; a manipulação do dinheiro e do crédito não faz parte da sua alçada, bem como a gerência do patrimônio. Até a solicitação de dinheiro ao marido era, para muitas esposas, motivo de acanhamento e vergonha.
Entretanto, se nos aprofundarmos no universo feminino, podemos observar uma circulação secreta e informal de valores monetários, bens materiais, mantimentos, roupas, serviços, diversas vezes efetuada sem que os homens tomassem conhecimento. Armava-se, então, uma rede solidária na qual ficava evidente a flexibilidade de manobras exercidas pelas mulheres, de modo que elas exerciam uma autonomia de ações sem, no entanto corromper as expectativas de posicionamento impostas pela sociedade. Casos como o de camponesas que, em plena madrugada, reúnem-se em grupos de três ou quatro componentes, e partem para o mercado próximo no intuito de comercializar ovos e/ou produtos de sua horta, tendo o produto desse comércio, como destino certo, seus cofres pessoais, segundo exemplifica Castan.
No tocante às mulheres do meio rural, aliás, podemos dizer que elas não passaram por tantas alterações nas suas relações laborais e administrativas, visto que o grosso das mudanças no campo socioeconômico se concentrava com mais intensidade nas áreas urbanas. As divisões funcionais do campesinato obedeciam aos costumes de há muito determinados, podendo-se, inclusive, afirmar com alguma firmeza de argumento, que as atividades entre homens e mulheres no campo se equivaliam, excetuando-se, evidentemente, aquelas do interior do ambiente do lar.
Os primeiros movimentos organizados de luta de emancipação feminina tiveram origem no século XVIII, tendo nos escritos da francesa Olympe de Gourges (1748-1792) e da inglesa Mary Woolstonecraft (1759-1797), entre outras, as bases para atender aos anseios das mulheres por uma participação mais incisiva na formação geral da sociedade na qual viviam, através da conquista da cidadania, o que incluía também o direito a usufruir das benesses advindas do trabalho.
Encontramos algumas ocupações exercidas pelas mulheres que apresentam peculiaridades interessantes, como por exemplo, as taberneiras que, em geral, são viúvas e herdam o empreendimento do marido; dependendo em que local as tabernas se situam, estas também podem ter a função de estalagens e, ainda não raro, de bordéis, nos quais as taberneiras poderiam obter um lucro considerável, a ponto de algumas delas acumular uma fortuna razoável com o mercado do sexo.
Outro caso típico de empreendimento é o caso das religiosas internas em conventos que, para colaborar com a manutenção de suas ordens, algumas destas investiam na atividade de costura e trabalhos manuais, bem como na produção de artigos culinários, do qual são famosos os doces oriundos dos conventos portugueses. Os conventos femininos também merecem destaque pelo fato de serem espaços nos quais as mulheres, ainda que estivessem submetidas à hierarquia da Igreja, dominada pelos homens, puderam construir uma estrutura própria de relações, sua própria administração, com práticas por elas determinadas, o que fez com que as religiosas experimentassem um nível de autonomia, enquanto grupo, de aspecto magnífico.
Podemos chegar ao máximo extremo da atuação feminina na Idade Moderna, se exemplificarmos o caso de duas mulheres que regeram suas nações, de modo tal que tiveram seus nomes inscritos juntos aos de outros grandes lideres, homens em sua maioria. A primeira é a rainha Elizabeth I (1533-1603), da Inglaterra, que governou de 1588, até à sua morte. Filha do rei Henrique VIII, seu reinado foi denominado Período Elizabetano ou Era Dourada. Seu governo foi marcado por medidas que elevaram o reino inglês a um patamar de potência, que seria uma marca profunda na história mundial durante séculos.
Entre os fatos que fizeram a história de seu reinado, está a retomada da adoção do anglicanismo como religião oficial, revogando a ação de sua irmã Maria I (Mary Stuart), que havia tornado o catolicismo a religião do Estado, promovendo, inclusive, perseguições aos protestantes. Outro evento que marcou o governo de Elizabeth I foi a supremacia política na Europa, obtida através de vitórias contra a Espanha e sua Invencível Armada, o que contribuiu sobremaneira para a expansão do que seria o Império Britânico.
A outra personagem monarca que obteve relevância no continente europeu durante a Era Moderna, foi Catarina II, da Rússia (1729-1796), cujo reinado foi caracterizado pelo chamado “despotismo esclarecido”, tendência que alguns monarcas europeus seguiram, que visava adequar as estruturas econômicas de seus países à burguesia, ora em ascensão, bem como mesclar idéias iluministas ao modo absolutista de governo.
Autocrata convicta, Catarina II, entretanto, estabeleceu laços de proteção com filósofos e artistas, tendo, inclusive, mantido correspondência com Voltaire.
Entre suas ações de governo, estão a construção de escolas, hospitais, reformas no sistema de saneamento básico em São Petersburgo, além de promover uma importante reforma administrativa. No campo político, sufocou, em 1744, a Revolta dos Cossacos, e empreendeu também a expansão do território russo, graças às conquistas frente à Turquia (1787) e à Polônia (1793 e 1795).
Enfim, no decorrer da Idade Moderna, a mulher sempre buscou administrar não só o seu lar, um negócio, ou até mesmo um país, mas, principalmente, os rumos do seu destino.
REFERÊNCIAS
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terça-feira, 7 de outubro de 2008
terça-feira, 30 de setembro de 2008
O jovem na Idade Moderna
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: IDADE MODERNA II
PROF. SEVERINO VICENTE DA SILVA
ALUNOS:
CRISTHIANE ANDRADE,
FERNANDO CARVALHO,
MARIA CRISTINA,
RAFAEL CRUZ,
TALITA ALBUQUERQUE.
O JOVEM NA IDADE MODERNA
OS TUTORES DA DESORDEM: RITUAIS DA CULTURA JUVENIL NNOS PRIMÓRIDIOS DA IDADE MODERNA
Nos séculos XVI e XVII, na Europa ainda saindo do medievo, ainda não se traçava uma demarcação nítida entre infância e juventude e ainda não se tinha uma noção precisa daquilo que hoje chamamos de adolescência, existia ainda uma compatibilidade na epistemologia das palavras “criança” e “adolescente”, por denominarem muitas vezes a mesma coisa, no fim a significação segundo o autor, “aqueles que não eram responsáveis por suas próprias ações”, o que abre uma nova discussão, por buscar a delimitação do fim da infância e juventude para a fase adulta, tal delineação era determinada e até hoje muitas vezes é, pelo advento do matrimônio, da saída da casa da família e da instituição da sua própria família, abarcando responsabilidades em relação a outras pessoas, porém, ao analisar-se a questão social, em estruturas camponesas, a questão de responsabilidade era definida muito cedo por conta da iniciação nos campos para auxiliar a família, e o casamento adiado por questões sociais, tal transição espaçada por questões de subsistência e meios de sustentabilidade.
Esta ausência de responsabilidades e, muitas vezes, apoio silencioso legitimador por parte dos adultos originava uma cadeia de eventos provocados pelos jovens, “anônimos regentes da noite”; aqui já não se encontra diferenciação entre as práticas dos jovens seja no campo ou em núcleos urbanos, os mesmos agiam livres das fundamentações adultas, seus atos revelavam reivindicações “coletivas” que serviam para proteger os mesmos através de suas práticas que procuravam abalar os sistemas que regiam o certo e o errado na sociedade em que viviam.
Os jovens reinavam nas noites promovendo arruaças, gritarias e estragos, tal ritualização de atos acabava por se caracterizar como uma afirmação da masculinidade e da coragem. Arrastando pelas ruas o que estivesse pelo caminho, invadindo casas e campos de colheita sejam de uvas ou de cerejas e outros itens mais; nossa pesquisa nos indica que é visível a forte oposição à figura religiosa local, por conta da imagem reprovadora e moralizadora que o mesmo passava, servindo assim tal figura para ataques noturnos aos bens do mesmo, além de ataques verbais sobre sua moral e costumes; enfrentavam também, aqueles que por medidas de segurança foram colocados como meio de tentar controlar os jovens e manter a paz noturna, a ponto de o governo permitir o uso da violência para com os jovens.
Porém, na segunda metade do século XV medidas foram tomadas para controlar as ações juvenis que desafiavam as relações de poder impostas pelos adultos, através dos “Decretos Comunais”, criaram-se penas como trancar em torres e multas, para aqueles que provocassem desordens; locais conhecidos como “berlindas”, “casa dos loucos” eram construídos para alocar tais jovens e utilizá-los como exemplo para outros mais; as ruas receberam lampiões para uma maior iluminação. Muitas dessas medidas serviram para incentivar e provocar maior audácia em burlar e atacar os costumes e regulamentos da sociedade. Ainda como parte de tais intervenções, foi instituído o caráter de “furto” às tradicionais brincadeiras em atacar às casas; e isso dava maior amplitude na hora de julgar e aplicar pena aos jovens, colocados como “garantia ‘orgânica’ da transformação social”. Porém tais penalidades eram brandas, se comparadas com as dos adultos, as próprias práticas juvenis serviam de estrutura para sua proteção dificultando o entendimento de até onde o ato juvenil era de desaforado ou reprovador.
Estudiosos levantam a questão da existência da juventude e da adolescência no começo da era moderna e a forma como esta permeia a consciência de si que teriam os jovens, passando pela dimensão cultural de sua auto-definição. A distinção entre infância e juventude era feita pelos próprios grupos juvenis que, em defesa de seus privilégios específicos perante os jovens do início da Idade Moderna tinham sua força social através do princípio em que as pessoas permanecem unidas porque já se conhecem há muito tempo. Mecanismo social simples, pois eles se encontravam regularmente à noite na praça, em pequenos grupos ligados por amizade, vizinhança ou parentesco. As conversas giravam, sobretudo, em torno das moças e de como atrair a sua atenção. O ponto nodal da cultura dos grupos jovens eram essas práticas para estabelecer contatos com o sexo oposto, visando à escolha matrimonial. Estas formas organizadas de se cortejar constituíam um controle sobre o “mercado matrimonial”.
A atitude de pretendentes estranhos que tentavam cortejar as moças da comunidade, era tida como “invasão”. Os jovens locais os rechaçavam e, às vezes ocorriam lutas brutais. Os jovens solteiros assumiam a função patriarcal de guardiões das moças núbeis da comunidade. Consideravam-se os tutores da moral e da honra das moças que estavam em idade de casar da própria aldeia. Era difundido o costume de indicar pessoalmente para cada moça um jovem, que durante algum tempo seria o guardião da sua honra. Um tipo de “teste de casamento temporário” para os futuros papéis matrimoniais.
Aos jovens era reservada a função de preparar o carnaval e os costumes carnavalescos, onde eles eram considerados os verdadeiros protagonistas. Essa dimensão cultural dava um perfil de grupo à cultura juvenil masculina. A função social dos jovens enquanto detentores de costumes típicos do “mundo às avessas” era, segundo a concepção adulta, que nada mais natural que aqueles em fase de transição administrassem os jocosos rituais de transformação e renovação do carnaval.
Nas cidades suíças havia numerosas organizações juvenis associadas ao carnaval, que por seus nomes criativos provocavam por vezes problemas de interpretação aos historiadores. Nomes divertidos representavam a auto-ironia, como a “Corporação da Porca” e a “Sociedade do Pontíssimo, Grandioso e Insuperável Conselho”. Fazia-se paródia da ordem constituída e de reivindicações do poder. Demonstrações essas que a juventude assumiria no futuro.
O papel dos jovens como detentores dos costumes carnavalesco assumiu relevância social. Eram atividades exclusivas deles as preparações de festas de passagem. Aos jovens eram também concedidas certas funções de manutenção da ordem, de censura moral, que ampliava a atividade de controle das moças solteiras, e também exerciam sobre os adultos infratores da moralidade. O grupo de jovens considerava como infração aqueles que abandonavam o teto conjugal por certo período, condenando-os e pretendendo como reparação certa quantidade de vinho que era bebida pelo grupo. Caso não pagasse o vinho a transgressão seria dada ao conhecimento de todos da comunidade. Eles exerciam sua censura controlando de maneira geral a moral e a ordem da vida cotidiana.
Nossas leituras indicam que as regulamentações meticulosas entre comportamento “justo” e “errado”, criadas ao longo dos séculos XV e XVI. Constituem a formação de um o projeto burguês de “bom comportamento”, e tiveram sua origem numa das funções mais simples dos grupos juvenis, o controle da sexualidade. O campo de ação dos jovens era atravessado por verdadeiras contradições, e esse caráter paradoxal reflete-se nas atitudes em que os jovens solteiros resguardam a virgindade de “suas” moças, mas o fazem para que elas a entreguem só a eles no fim.
Nos seus júris simulados os jovens Imitavam do modo mais próximo possível os procedimentos judiciários oficiais. As obscenidades contidas em protocolos como nos do “Tribunal da Porca” demonstravam como o espírito carnavalesco das organizações juvenis levava ao absurdo os rituais do poder dominante.
Sobre a juventude feminina, não se conhece formas de organização como os rapazes.
Algumas fontes documentais isoladas mostram ações de grupo de jovens solteiras. Porém, existiu sempre uma forte reação a inversão dos privilégios do grupo juvenil masculino. Numa política cada vez mais severa de separação dos sexos em lugares públicos e o delineava-se com mais força que o lugar da mulher era em casa e não em lugares públicos.
Nesta política de privilegiar um âmbito exclusivamente doméstico, observa-se o propósito de encerrar mulheres e moças, numa função meramente reprodutora e sexual, com papel de “donas de casa” e de “mães”, tendo pouco espaço para a socialização externa. Nesse contexto social público, o comportamento dos jovens demonstra o privilégio do sistema patriarcal.
Na Itália podemos observar que a Igreja da Contra-Reforma se dedicou a um projeto de disciplina, que, sob a bandeira da “moralidade”, tentou disciplinar os súditos aos seus ideais cristãos. No entanto, esse projeto sofreu resistência dos jovens, que chegavam a brincar e protestar contra a postura da Igreja, como o fato da obrigatoriedade de freqüência às funções religiosas.
A cultura popular, como os relacionamentos entre jovens, que faziam parte do rito de passagem para a vida adulta, era duramente criticada pela Igreja reformada. Esta utilizava de abstratas argumentações morais para criticar e reprimir alguns costumes, como as danças e o carnaval, caracterizando tais costumes como sendo “escandalosos”. O autor entende que a Igreja reformada estava incapacitada de compreender a lógica social e a cultura popular, vendo apenas distúrbios e imoralidade em atos como brincadeiras e namoros entre os jovens.
Nesse choque entre moralidade cristã e cultura popular, foi inevitável o conflito no início da Idade Moderna entre eclesiásticos, extremamente rigorosos acerca dos valores cristãos, e os jovens, com suas necessidades de auto-afirmação e as vontades pela oposição, típicas da juventude. Com a vontade dos eclesiásticos de “reformar” os costumes, tentando reprimir atos considerados “heréticos” pela Igreja, os jovens atacavam o “campo ético” da Igreja, tornando-se uma espécie de “braço armado” em defesa dos direitos e costumes de suas comunidades, fazendo, como maneira de protestar, algum tipo de “bagunça”, como os párocos costumavam dizer de suas ações. Com esses atos, os jovens buscavam demonstrar o descontentamento da comunidade, numa tentativa de aconselhar o pároco a não ir de encontro aos costumes da aldeia.
Podemos analisar também a relação entre os jovens e os adultos. O que se observa é que os jovens não eram reprimidos por suas atitudes. Existia certo elo entre jovens e velhos, tendo os jovens certa liberdade cedida pelos velhos, num tipo de preparação para a vida adulta. Não se tratava de um complô, mas uma permissão aos jovens de agir. Podemos observar essa “preparação” em alguns acontecimentos, como a participação da juventude de certas comunidades em momentos importantes, como as assembléias eleitorais. Essa certa liberdade cedida pelos adultos pode ser mais bem compreendida se analisarmos os aspectos culturais no sistema da sociedade rural da época.
É fácil se observar que, no início da era moderna, adotava-se o partido de deixar que os jovens se virassem sozinhos em seus negócios. Além de criar espaços específicos para os jovens, essa liberdade aliviava as responsabilidades dos adultos, que se dedicavam aos seus negócios, como os necessários contatos sociais. Os jovens, por si, admiravam os adultos e suas atividades sem que fosse necessário os ensinar os valores da sociedade rural, tendo os jovens a imagem do que queriam ser na fase adulta.
Apesar disso, preocupante eram certas atitudes violentas dos jovens, nas arruaças por eles cometidas. Podemos entender isso como a maneira que os jovens possuíam de se mostrarem como seres existentes. Gritavam, agrediam e usavam do próprio corpo como maneira de declarar a sua presença. Os rapazes solteiros utilizavam desses meios para se mostrarem para as moças, ou pra impor respeito entre os outros rapazes, que eram seus rivais em potencial. É possível comparar essa situação com a dos rapazes hoje em dia, que saem cantando pneu com seus carros em frente a discotecas com o intuito de impressionar. Apesar da tentativa das autoridades de controlar essas arruaças e gritos noturnos, a cultura e valor social desses “ritos de passagem” dos jovens não permitiu que a situação mudasse. Apenas o Absolutismo e algumas mudanças rígidas na maneira de tratar esses jovens fizeram com que a situação apaziguasse.
Podemos dizer que, apenas com a mudança cultural, com o mundo do consumismo do século XX, além da defesa dos interesses burgueses que fez com que as instituições tivessem um apoio maior, a juventude deixou de ser um ponto de inquietação e construiu-se então uma visão positiva dos jovens. O jovem deixou de ser visto como um “quase adulto” que tinha que caminhar sobre suas próprias pernas, e o sonho de “eterna juventude” se difundiu. Ocorreu uma inversão: o jovem começou a ser visto como um ser perto da infância, e sendo doutrinados a se aprisionar com a nova cultura industrial e missionária do capitalismo. A troca de gerações deixou de ser uma atitude de confiança na sociedade, orientada para o futuro.
JOVENS NOBRES NA ERA DO ABSOLUTISMO: AUTORITARISMO PATERNO E LIBERDADE
A partir do século XVI houve uma maior difusão da instituição da primogenitura, e ela era usada de forma mais firme que em outros períodos. Havia variações em cada Estado, mas se tornou comum nesse período que os pais passassem todo o seu patrimônio, bem como o seu nome e o direito de perpetuá-lo a um único herdeiro, o filho mais velho. Quanto aos filhos mais moços, cabiam-lhes a vida religiosa, o exército ou, em poucos casos, um casamento menos vantajoso.
Porém, essa questão da primogenitura variava de acordo com o sexo dos filhos. Se fossem homens, teriam essa oportunidade de gozar dos bens paternos. No entanto, se fossem mulheres, as primogênitas quase sempre estavam destinadas ao claustro. Isso ocorria por conta dos valores dos dotes de casamento, que despendiam quantias bastante altas (que às vezes chegavam a ser cerca de 5 anos de renda familiar). Às filhas mais novas era destinado o casamento em virtude de haver um maior tempo para que essa quantia fosse guardada.
Com relação à liberdade de escolha, alguns teóricos vão se posicionar a respeito, bem como os que estavam ligados à área religiosa. A educação deveria ser rígida, com pouca afetuosidade, porém, deveria ser respeitada a “vocação” de cada um. Baseados no Quarto Mandamento, os pais deviam obediência aos pais. Contudo, cabia aos pais observar também a “natureza” de cada filho, não o condenando a viver uma vida de dissabores.
No que diz respeito à educação dos rapazes, pode-se dizer que existia um padrão até pelo menos a adolescência, não importando a quais carreiras profissionais as crianças estavam mais ou menos predestinadas: todos, primogênitos ou caçulas, meninos ou meninas, eram educados da mesma forma.
Com relação aos valores morais cultivados e incutidos nos jovens, há uma grande diferença comportamental que distingue as crianças dos adolescentes, e a passagem de uma fase para outra não pode ser outra coisa senão conflituosa. Graça, vivacidade, exuberância e vitalidade são virtudes moralmente aceitas numa criança, ao passo que a obediência e principalmente a modéstia e a humildade são as virtudes que guiarão o comportamento dos jovens rumo à fase adulta.
Sem dúvida, o fato de a península itálica abrigar a sede da Igreja Católica - e, por conseguinte, a presença dessa instituição ser especialmente forte nessa região – contribuiu consideravelmente para a difusão desses valores (humildade, modéstia, retidão, recato), uma vez que as famílias italianas estavam sempre repletas de membros do clero. Mas esses valores morais não têm só raízes eclesiásticas. Inúmeros tratados de pedagogia, escritos por pensadores como Erasmo de Rotterdam, propalavam a idéia de que a modéstia e a humildade serviam como um antídoto a um dos mais censuráveis defeitos da época: o orgulho, característica que faz parte da natureza dos adolescentes.
Mas é claro que, além das questões de ordem moral e religiosa, os interesses sociais e familiares também estavam em jogo. Os pais acreditavam que através dessas virtudes, os filhos galgariam importantes lugares-sociais, obtendo êxito nas carreiras escolhidas. Existia também o temor de que os jovens, moralmente frágeis, inseguros e altamente influenciáveis, fossem desvirtuados por más companhias, maculando a honra da família. Por isso era recomendável que eles só andassem acompanhados por um preceptor ou por um membro adulto da família, principalmente quando em público.
Essa fragilidade moral dos jovens foi uma das razões pelas quais se difundiu pela Europa o hábito de mandar os rapazes para colégios. Essa instituição era vista pelos pais como uma garantia de uma boa disciplina e educação, além de encaminhamento profissional; servia tanto aos primogênitos, futuros grandes proprietários e chefes de família, tanto aos caçulas, que seguiriam na magistratura ou no clero, tendo a educação formal desses últimos um enfoque ainda maior. Os jovens poderiam ser enviados para os colégios propriamente dito, de onde geralmente sairiam formados em ciências jurídicas; poderiam ir para a escola de pajens, onde ingressariam na vida militar, ou ainda enviados para convetos-seminários, iniciando carreira no clero.
A decisão das carreiras profissionais dos jovens ocorria por volta de doze ou treze anos. Eram fortemente influenciadas pelos pais, mas não de forma totalmente arbitrária. As decisões eram baseadas ao menos em dois fatores: a vocação, necessária para o êxito profissional, e os interesses familiares, a partir dos quais os pais persuadiam os filhos. Portanto, pode-se dizer que o livre-arbítrio do jovem era quase sempre respeitado, mas os pais tratavam de encaminhar seus filhos desde cedo para os caminhos que mais convinham às famílias.
Da mesma maneira os pais se posicionavam em relação ao casamento dos filhos. Ao contrário do que geralmente se imagina, os casamentos não eram de todo forçado: também as afeições entre os noivos eram relevadas. Os pais levavam em consideração a felicidade do filho, e talvez por isso mesmo se imbuíam do compromisso de arranjar-lhe uma boa parceira, pois, segundo o pensamento corrente da época, abandonar criaturas tão moralmente frágeis e inseguras à própria sorte seria desumano. É claro que essa escolha estava intimamente ligada aos interesses da família, mas não era totalmente arbitrária.
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: IDADE MODERNA II
PROF. SEVERINO VICENTE DA SILVA
ALUNOS:
CRISTHIANE ANDRADE,
FERNANDO CARVALHO,
MARIA CRISTINA,
RAFAEL CRUZ,
TALITA ALBUQUERQUE.
O JOVEM NA IDADE MODERNA
OS TUTORES DA DESORDEM: RITUAIS DA CULTURA JUVENIL NNOS PRIMÓRIDIOS DA IDADE MODERNA
Nos séculos XVI e XVII, na Europa ainda saindo do medievo, ainda não se traçava uma demarcação nítida entre infância e juventude e ainda não se tinha uma noção precisa daquilo que hoje chamamos de adolescência, existia ainda uma compatibilidade na epistemologia das palavras “criança” e “adolescente”, por denominarem muitas vezes a mesma coisa, no fim a significação segundo o autor, “aqueles que não eram responsáveis por suas próprias ações”, o que abre uma nova discussão, por buscar a delimitação do fim da infância e juventude para a fase adulta, tal delineação era determinada e até hoje muitas vezes é, pelo advento do matrimônio, da saída da casa da família e da instituição da sua própria família, abarcando responsabilidades em relação a outras pessoas, porém, ao analisar-se a questão social, em estruturas camponesas, a questão de responsabilidade era definida muito cedo por conta da iniciação nos campos para auxiliar a família, e o casamento adiado por questões sociais, tal transição espaçada por questões de subsistência e meios de sustentabilidade.
Esta ausência de responsabilidades e, muitas vezes, apoio silencioso legitimador por parte dos adultos originava uma cadeia de eventos provocados pelos jovens, “anônimos regentes da noite”; aqui já não se encontra diferenciação entre as práticas dos jovens seja no campo ou em núcleos urbanos, os mesmos agiam livres das fundamentações adultas, seus atos revelavam reivindicações “coletivas” que serviam para proteger os mesmos através de suas práticas que procuravam abalar os sistemas que regiam o certo e o errado na sociedade em que viviam.
Os jovens reinavam nas noites promovendo arruaças, gritarias e estragos, tal ritualização de atos acabava por se caracterizar como uma afirmação da masculinidade e da coragem. Arrastando pelas ruas o que estivesse pelo caminho, invadindo casas e campos de colheita sejam de uvas ou de cerejas e outros itens mais; nossa pesquisa nos indica que é visível a forte oposição à figura religiosa local, por conta da imagem reprovadora e moralizadora que o mesmo passava, servindo assim tal figura para ataques noturnos aos bens do mesmo, além de ataques verbais sobre sua moral e costumes; enfrentavam também, aqueles que por medidas de segurança foram colocados como meio de tentar controlar os jovens e manter a paz noturna, a ponto de o governo permitir o uso da violência para com os jovens.
Porém, na segunda metade do século XV medidas foram tomadas para controlar as ações juvenis que desafiavam as relações de poder impostas pelos adultos, através dos “Decretos Comunais”, criaram-se penas como trancar em torres e multas, para aqueles que provocassem desordens; locais conhecidos como “berlindas”, “casa dos loucos” eram construídos para alocar tais jovens e utilizá-los como exemplo para outros mais; as ruas receberam lampiões para uma maior iluminação. Muitas dessas medidas serviram para incentivar e provocar maior audácia em burlar e atacar os costumes e regulamentos da sociedade. Ainda como parte de tais intervenções, foi instituído o caráter de “furto” às tradicionais brincadeiras em atacar às casas; e isso dava maior amplitude na hora de julgar e aplicar pena aos jovens, colocados como “garantia ‘orgânica’ da transformação social”. Porém tais penalidades eram brandas, se comparadas com as dos adultos, as próprias práticas juvenis serviam de estrutura para sua proteção dificultando o entendimento de até onde o ato juvenil era de desaforado ou reprovador.
Estudiosos levantam a questão da existência da juventude e da adolescência no começo da era moderna e a forma como esta permeia a consciência de si que teriam os jovens, passando pela dimensão cultural de sua auto-definição. A distinção entre infância e juventude era feita pelos próprios grupos juvenis que, em defesa de seus privilégios específicos perante os jovens do início da Idade Moderna tinham sua força social através do princípio em que as pessoas permanecem unidas porque já se conhecem há muito tempo. Mecanismo social simples, pois eles se encontravam regularmente à noite na praça, em pequenos grupos ligados por amizade, vizinhança ou parentesco. As conversas giravam, sobretudo, em torno das moças e de como atrair a sua atenção. O ponto nodal da cultura dos grupos jovens eram essas práticas para estabelecer contatos com o sexo oposto, visando à escolha matrimonial. Estas formas organizadas de se cortejar constituíam um controle sobre o “mercado matrimonial”.
A atitude de pretendentes estranhos que tentavam cortejar as moças da comunidade, era tida como “invasão”. Os jovens locais os rechaçavam e, às vezes ocorriam lutas brutais. Os jovens solteiros assumiam a função patriarcal de guardiões das moças núbeis da comunidade. Consideravam-se os tutores da moral e da honra das moças que estavam em idade de casar da própria aldeia. Era difundido o costume de indicar pessoalmente para cada moça um jovem, que durante algum tempo seria o guardião da sua honra. Um tipo de “teste de casamento temporário” para os futuros papéis matrimoniais.
Aos jovens era reservada a função de preparar o carnaval e os costumes carnavalescos, onde eles eram considerados os verdadeiros protagonistas. Essa dimensão cultural dava um perfil de grupo à cultura juvenil masculina. A função social dos jovens enquanto detentores de costumes típicos do “mundo às avessas” era, segundo a concepção adulta, que nada mais natural que aqueles em fase de transição administrassem os jocosos rituais de transformação e renovação do carnaval.
Nas cidades suíças havia numerosas organizações juvenis associadas ao carnaval, que por seus nomes criativos provocavam por vezes problemas de interpretação aos historiadores. Nomes divertidos representavam a auto-ironia, como a “Corporação da Porca” e a “Sociedade do Pontíssimo, Grandioso e Insuperável Conselho”. Fazia-se paródia da ordem constituída e de reivindicações do poder. Demonstrações essas que a juventude assumiria no futuro.
O papel dos jovens como detentores dos costumes carnavalesco assumiu relevância social. Eram atividades exclusivas deles as preparações de festas de passagem. Aos jovens eram também concedidas certas funções de manutenção da ordem, de censura moral, que ampliava a atividade de controle das moças solteiras, e também exerciam sobre os adultos infratores da moralidade. O grupo de jovens considerava como infração aqueles que abandonavam o teto conjugal por certo período, condenando-os e pretendendo como reparação certa quantidade de vinho que era bebida pelo grupo. Caso não pagasse o vinho a transgressão seria dada ao conhecimento de todos da comunidade. Eles exerciam sua censura controlando de maneira geral a moral e a ordem da vida cotidiana.
Nossas leituras indicam que as regulamentações meticulosas entre comportamento “justo” e “errado”, criadas ao longo dos séculos XV e XVI. Constituem a formação de um o projeto burguês de “bom comportamento”, e tiveram sua origem numa das funções mais simples dos grupos juvenis, o controle da sexualidade. O campo de ação dos jovens era atravessado por verdadeiras contradições, e esse caráter paradoxal reflete-se nas atitudes em que os jovens solteiros resguardam a virgindade de “suas” moças, mas o fazem para que elas a entreguem só a eles no fim.
Nos seus júris simulados os jovens Imitavam do modo mais próximo possível os procedimentos judiciários oficiais. As obscenidades contidas em protocolos como nos do “Tribunal da Porca” demonstravam como o espírito carnavalesco das organizações juvenis levava ao absurdo os rituais do poder dominante.
Sobre a juventude feminina, não se conhece formas de organização como os rapazes.
Algumas fontes documentais isoladas mostram ações de grupo de jovens solteiras. Porém, existiu sempre uma forte reação a inversão dos privilégios do grupo juvenil masculino. Numa política cada vez mais severa de separação dos sexos em lugares públicos e o delineava-se com mais força que o lugar da mulher era em casa e não em lugares públicos.
Nesta política de privilegiar um âmbito exclusivamente doméstico, observa-se o propósito de encerrar mulheres e moças, numa função meramente reprodutora e sexual, com papel de “donas de casa” e de “mães”, tendo pouco espaço para a socialização externa. Nesse contexto social público, o comportamento dos jovens demonstra o privilégio do sistema patriarcal.
Na Itália podemos observar que a Igreja da Contra-Reforma se dedicou a um projeto de disciplina, que, sob a bandeira da “moralidade”, tentou disciplinar os súditos aos seus ideais cristãos. No entanto, esse projeto sofreu resistência dos jovens, que chegavam a brincar e protestar contra a postura da Igreja, como o fato da obrigatoriedade de freqüência às funções religiosas.
A cultura popular, como os relacionamentos entre jovens, que faziam parte do rito de passagem para a vida adulta, era duramente criticada pela Igreja reformada. Esta utilizava de abstratas argumentações morais para criticar e reprimir alguns costumes, como as danças e o carnaval, caracterizando tais costumes como sendo “escandalosos”. O autor entende que a Igreja reformada estava incapacitada de compreender a lógica social e a cultura popular, vendo apenas distúrbios e imoralidade em atos como brincadeiras e namoros entre os jovens.
Nesse choque entre moralidade cristã e cultura popular, foi inevitável o conflito no início da Idade Moderna entre eclesiásticos, extremamente rigorosos acerca dos valores cristãos, e os jovens, com suas necessidades de auto-afirmação e as vontades pela oposição, típicas da juventude. Com a vontade dos eclesiásticos de “reformar” os costumes, tentando reprimir atos considerados “heréticos” pela Igreja, os jovens atacavam o “campo ético” da Igreja, tornando-se uma espécie de “braço armado” em defesa dos direitos e costumes de suas comunidades, fazendo, como maneira de protestar, algum tipo de “bagunça”, como os párocos costumavam dizer de suas ações. Com esses atos, os jovens buscavam demonstrar o descontentamento da comunidade, numa tentativa de aconselhar o pároco a não ir de encontro aos costumes da aldeia.
Podemos analisar também a relação entre os jovens e os adultos. O que se observa é que os jovens não eram reprimidos por suas atitudes. Existia certo elo entre jovens e velhos, tendo os jovens certa liberdade cedida pelos velhos, num tipo de preparação para a vida adulta. Não se tratava de um complô, mas uma permissão aos jovens de agir. Podemos observar essa “preparação” em alguns acontecimentos, como a participação da juventude de certas comunidades em momentos importantes, como as assembléias eleitorais. Essa certa liberdade cedida pelos adultos pode ser mais bem compreendida se analisarmos os aspectos culturais no sistema da sociedade rural da época.
É fácil se observar que, no início da era moderna, adotava-se o partido de deixar que os jovens se virassem sozinhos em seus negócios. Além de criar espaços específicos para os jovens, essa liberdade aliviava as responsabilidades dos adultos, que se dedicavam aos seus negócios, como os necessários contatos sociais. Os jovens, por si, admiravam os adultos e suas atividades sem que fosse necessário os ensinar os valores da sociedade rural, tendo os jovens a imagem do que queriam ser na fase adulta.
Apesar disso, preocupante eram certas atitudes violentas dos jovens, nas arruaças por eles cometidas. Podemos entender isso como a maneira que os jovens possuíam de se mostrarem como seres existentes. Gritavam, agrediam e usavam do próprio corpo como maneira de declarar a sua presença. Os rapazes solteiros utilizavam desses meios para se mostrarem para as moças, ou pra impor respeito entre os outros rapazes, que eram seus rivais em potencial. É possível comparar essa situação com a dos rapazes hoje em dia, que saem cantando pneu com seus carros em frente a discotecas com o intuito de impressionar. Apesar da tentativa das autoridades de controlar essas arruaças e gritos noturnos, a cultura e valor social desses “ritos de passagem” dos jovens não permitiu que a situação mudasse. Apenas o Absolutismo e algumas mudanças rígidas na maneira de tratar esses jovens fizeram com que a situação apaziguasse.
Podemos dizer que, apenas com a mudança cultural, com o mundo do consumismo do século XX, além da defesa dos interesses burgueses que fez com que as instituições tivessem um apoio maior, a juventude deixou de ser um ponto de inquietação e construiu-se então uma visão positiva dos jovens. O jovem deixou de ser visto como um “quase adulto” que tinha que caminhar sobre suas próprias pernas, e o sonho de “eterna juventude” se difundiu. Ocorreu uma inversão: o jovem começou a ser visto como um ser perto da infância, e sendo doutrinados a se aprisionar com a nova cultura industrial e missionária do capitalismo. A troca de gerações deixou de ser uma atitude de confiança na sociedade, orientada para o futuro.
JOVENS NOBRES NA ERA DO ABSOLUTISMO: AUTORITARISMO PATERNO E LIBERDADE
A partir do século XVI houve uma maior difusão da instituição da primogenitura, e ela era usada de forma mais firme que em outros períodos. Havia variações em cada Estado, mas se tornou comum nesse período que os pais passassem todo o seu patrimônio, bem como o seu nome e o direito de perpetuá-lo a um único herdeiro, o filho mais velho. Quanto aos filhos mais moços, cabiam-lhes a vida religiosa, o exército ou, em poucos casos, um casamento menos vantajoso.
Porém, essa questão da primogenitura variava de acordo com o sexo dos filhos. Se fossem homens, teriam essa oportunidade de gozar dos bens paternos. No entanto, se fossem mulheres, as primogênitas quase sempre estavam destinadas ao claustro. Isso ocorria por conta dos valores dos dotes de casamento, que despendiam quantias bastante altas (que às vezes chegavam a ser cerca de 5 anos de renda familiar). Às filhas mais novas era destinado o casamento em virtude de haver um maior tempo para que essa quantia fosse guardada.
Com relação à liberdade de escolha, alguns teóricos vão se posicionar a respeito, bem como os que estavam ligados à área religiosa. A educação deveria ser rígida, com pouca afetuosidade, porém, deveria ser respeitada a “vocação” de cada um. Baseados no Quarto Mandamento, os pais deviam obediência aos pais. Contudo, cabia aos pais observar também a “natureza” de cada filho, não o condenando a viver uma vida de dissabores.
No que diz respeito à educação dos rapazes, pode-se dizer que existia um padrão até pelo menos a adolescência, não importando a quais carreiras profissionais as crianças estavam mais ou menos predestinadas: todos, primogênitos ou caçulas, meninos ou meninas, eram educados da mesma forma.
Com relação aos valores morais cultivados e incutidos nos jovens, há uma grande diferença comportamental que distingue as crianças dos adolescentes, e a passagem de uma fase para outra não pode ser outra coisa senão conflituosa. Graça, vivacidade, exuberância e vitalidade são virtudes moralmente aceitas numa criança, ao passo que a obediência e principalmente a modéstia e a humildade são as virtudes que guiarão o comportamento dos jovens rumo à fase adulta.
Sem dúvida, o fato de a península itálica abrigar a sede da Igreja Católica - e, por conseguinte, a presença dessa instituição ser especialmente forte nessa região – contribuiu consideravelmente para a difusão desses valores (humildade, modéstia, retidão, recato), uma vez que as famílias italianas estavam sempre repletas de membros do clero. Mas esses valores morais não têm só raízes eclesiásticas. Inúmeros tratados de pedagogia, escritos por pensadores como Erasmo de Rotterdam, propalavam a idéia de que a modéstia e a humildade serviam como um antídoto a um dos mais censuráveis defeitos da época: o orgulho, característica que faz parte da natureza dos adolescentes.
Mas é claro que, além das questões de ordem moral e religiosa, os interesses sociais e familiares também estavam em jogo. Os pais acreditavam que através dessas virtudes, os filhos galgariam importantes lugares-sociais, obtendo êxito nas carreiras escolhidas. Existia também o temor de que os jovens, moralmente frágeis, inseguros e altamente influenciáveis, fossem desvirtuados por más companhias, maculando a honra da família. Por isso era recomendável que eles só andassem acompanhados por um preceptor ou por um membro adulto da família, principalmente quando em público.
Essa fragilidade moral dos jovens foi uma das razões pelas quais se difundiu pela Europa o hábito de mandar os rapazes para colégios. Essa instituição era vista pelos pais como uma garantia de uma boa disciplina e educação, além de encaminhamento profissional; servia tanto aos primogênitos, futuros grandes proprietários e chefes de família, tanto aos caçulas, que seguiriam na magistratura ou no clero, tendo a educação formal desses últimos um enfoque ainda maior. Os jovens poderiam ser enviados para os colégios propriamente dito, de onde geralmente sairiam formados em ciências jurídicas; poderiam ir para a escola de pajens, onde ingressariam na vida militar, ou ainda enviados para convetos-seminários, iniciando carreira no clero.
A decisão das carreiras profissionais dos jovens ocorria por volta de doze ou treze anos. Eram fortemente influenciadas pelos pais, mas não de forma totalmente arbitrária. As decisões eram baseadas ao menos em dois fatores: a vocação, necessária para o êxito profissional, e os interesses familiares, a partir dos quais os pais persuadiam os filhos. Portanto, pode-se dizer que o livre-arbítrio do jovem era quase sempre respeitado, mas os pais tratavam de encaminhar seus filhos desde cedo para os caminhos que mais convinham às famílias.
Da mesma maneira os pais se posicionavam em relação ao casamento dos filhos. Ao contrário do que geralmente se imagina, os casamentos não eram de todo forçado: também as afeições entre os noivos eram relevadas. Os pais levavam em consideração a felicidade do filho, e talvez por isso mesmo se imbuíam do compromisso de arranjar-lhe uma boa parceira, pois, segundo o pensamento corrente da época, abandonar criaturas tão moralmente frágeis e inseguras à própria sorte seria desumano. É claro que essa escolha estava intimamente ligada aos interesses da família, mas não era totalmente arbitrária.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
O Ser Soldado na Idade Moderna
Universidade Federal de Pernambuco
Centro de filosofia e ciências humanas
Departamento de História
Moderna II – Professor: Severino Vicente da Silva
O SER SOLDADO NA IDADE MODERNA
Equipe: Alex Moura, Diego Carvalho, Diogo Cordeiro, Mozart Anderson
1. Introdução
Inicialmente o tema de nosso trabalho foi, “o ser soldado na idade moderna”, mas resolvemos abranger mais o campo do estudo para a nossa apresentação. Até porque as fontes que dispomos não ajudam numa pesquisa tão especifica. Então a partir disso, resolvemos falar não só do “ser” soldado, mas dos exércitos formados por esses homens, sejam eles mercenários, sejam eles nacionais. Falar de como esses corpos militares influenciaram na formação do novo continente europeu. Agora formado por Estados nacionais, onde os exércitos tiveram papel fundamental. Resolvemos analisar isso de um pouco antes, de forma a tentar esclarecer mais como foram surgir tais tropas, a relação entre o príncipe e os seus soldados, inicialmente. Para isso vou falar um pouco dos estados principescos e como os exércitos se encaixavam nesse contexto.
Phillip Bobbit define quatro características dessas cidades-reino italianas que são o claro exemplo do estado principesco, usando como exemplo a cidade de Florença. A primeira dessas marcas segundo ele, é que elas eram definidas por meios geográficos, o que fazia com que tivessem uma maior consolidação, tanto cultural, quanto política. Outro fator muito importante é a grande receita dessas cidades, o texto mostra que Florença tinha um ganho anual maior do que o do rei da Inglaterra, o que dava a essa república condições de sustentar a sua burocracia e seus gastos, inclusive os com os militares. Terceiro ponto, é que essa riqueza era objeto de cobiça alheia, e para proteger-se disso que se tornava necessária a proteção armada do seu reino, já que, geralmente, as cidades italianas tinham populações muito reduzidas para que pudessem criar milícias eficazes, elas contratavam exércitos mercenários. Por fim, as novas tecnologias, como canhões muito mais móveis, por exemplo, fez com que essas cidades passassem à fase seguinte. O Estado teve que mudar para dar respostas, não só as inovações tecnológicas, que não os deixavam mais seguros atrás de suas muralhas, mas também como forma de garantir a legitimidade de um líder em uma forma de governo recém criada, dar a esse representante a proteção que ele necessitava.
O estado nesse período vai tomando um caráter jurídico, que antes não possuía. Vai ganhando seus traços característicos, personalidade, legitimidade, continuidade, integridade e soberania. Na península italiana, a intrincada questão de alianças tornava difícil confiar em mercenários que pertencem à outra região que não a sua. Nesse momento que aparece a figura do Condottiere que vou falarei mais a frente. O que importa agora é saber que com a aquisição desses guerreiros se tornou cada vez mais necessário à formação de uma burocracia para financiar os Condottes e também adquirir artilharia. Foi nesse contexto que a figura dos mercenários ganhou força, mas se engana que pensa que eles eram só condottieres italianos, havia na própria Itália mercenários de todas as partes do mundo. Eram esses grupos de homens que lutavam em busca do ganho financeiro, sem nenhum envolvimento pessoal com a batalha que travavam.
2. As tropas Mercenárias
Os soldados mercenários eram “Soldados que, mediante pagamento em dinheiro, luta por uma causa que não lhe concerne”. Isso é o que está escrito no livro de Anthony Mockle, História dos Mercenários (1969). E parece ser bem adequada para falar desses homens que viviam uma vida tão conflituosa, em busca de ganho financeiro. A seguir vai um breve de três importantes grupos mercenários desse momento que estamos estudando.
Landsknechts:
A palavra Landsknecht literalmente significa “o servo da terra”. Provenientes da Suábia e da Alsácia principalmente, eles formaram a poderosa infantaria de mercenários de origem alemã, tão conhecida por volta de 1500.
Convocados pela primeira vez por Maximiliano I, para lutar na Guerra da Suábia, sob o comando de Georg Von Frundsberg, que é considerado o pai dos Landsknechts. Lutaram também nas repúblicas italianas e com a ajuda de Maximiliano, Frundsberg fundou o seu corpo de infantaria altamente treinado. Ganhou visão com seus homens ao defenderem Verona em uma guerra contra a cidade de Veneza, quando venceram os franceses. Geralmente suas tropas lutavam junto ao corpo do exercito local, eram contratados, principalmente pelas republicas italianas.
Em campo de batalha tinham comportamentos variáveis, mas ficaram conhecidos não só por sua bravura e organização em combate, mas pelo seu característico uniforme, que inspirado nos uniformes suíços, com bem mais cores. Seu regimento era formado em média por 10.000 homens, em um máximo registrado de 17.000, divididos em regimentos de 4.000 homens. O seu armamento tradicional era o Pique, uma lança bastante avantajada, muito comum na época e que era usada pela maioria dos homens. E também era muito comum o uso de uma espada longa de duas mãos.
Reislaüfer (Guarda Suíça)
Antes de fazer a guarda do vaticano, esses homens formavam um dos mais expressivos grupos de mercenários da Europa. Eram comandados por Kaspar Von Silenen. Foram os preferidos em fins do período medieval, na Suíça além de enormes, os contingentes de mercenários eram facilmente contratados, tinham ainda a vantagem de que na suíça, as milícias locais eram mantidas regularmente e assim eles dispunham sempre de armamentos e treinamento. Assim como os Landsknechts, lutaram nas guerras das republicas italianas, famosos por seus ataques em massa com seus piques e alabardas, suas principais armas, logo ficaram conhecidos em meio aos reinos europeus.
Deles é que se originou a famosa Guarda Suíça. Foi em um ataque do rei habsburgo, Carlos V ao Vaticano, no dia 6 de maio de 1527, dia em que até hoje se comemora o aniversário da guarda e o teste de admissão dos novos membros, que a Guarda provou o seu valor. A maioria dos seus homens morreu no ataque, mas os poucos que sobraram protegeram a vida do Papa Clemente VII. A partir desse dia os antigos mercenários suíços, ficaram responsáveis por uma das mais importantes missões de proteção do mundo. Hoje são senão a mais, uma das guardas mais respeitadas do mundo, não só por seu status mais devido também a seu preparo técnico e prático.
Condottiere
Uma espécie de senhores feudais muito comuns nas províncias italianas, que ao invés de deterem terras, controlavam milícias e vendiam suas forças de batalha aos príncipes italianos. Também foram bastante importantes nas batalhas das províncias italianas. Segundo Christophe Coureau, o nome condottiere vem do termo condottas (contratos). Que são vínculos assinados com o príncipe ou o principado, que definem o tipo de serviço a ser prestado por aquelas milícias.
Em Florença, por exemplo, existiam três tipos de condottas: “A condotta a solda disteso, pela qual o soldado deve obedecer às ordens do general local; a condotta a mezzo solda, segundo a qual o condottiere é livre para invadir, quando e como desejar, os territórios do inimigo; e, por fim, a condotta in aspetto (espera), que corresponde aos tempos de paz.” Esses condottieres evoluíram tanto, que alguns deles como Francesco Sforza de Milão, que casou com uma filha ilegítima de um príncipe que não tinha sucessores, buscaram legitimar-se no poder e conquistar para si tal província. Muitos outros buscaram também essa legitimidade, que era a única coisa que lhes faltavam para que pudessem assumir o poder em diversas províncias da Itália.
Maquiavel X Mercenários
Maquiavel diz logo de inicio do capitulo sobre os mercenários: “Os principais fundamentos de um estado, sejam ele hereditários ou novos, ou mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não é possível haver boas leis onde não há boas armas, e onde existem boas armas é conveniente que existam boas leis, falarei apenas das armas.” Desse pensamento inicial, quisemos extrair uma das bases desse trabalho. Tentamos nele mostrar como os exércitos, sejam eles mercenários ou não, foram importantes para a conservação e até mesmo a criação de alguns estados nacionais. Mas nessa parte inicial, tentaremos mostrar como o pensamento de Maquiavel é totalmente contra o uso de força mercenárias.
O autor do príncipe subdivide as tropas militares em quatro grupos: Mercenários, Mistos, Particulares e Auxiliares. As mistas são formadas em parte de mercenários e em parte particulares. Mas para ele são as mercenárias e as auxiliares, que são tropas enviadas por um outro reino para ajudar na defesa, que são demasiadamente perigosas para o príncipe que as contrata. Em suas palavras: “As tropas mercenárias e auxiliares, são inúteis e perigosas. Se alguém mantiver seu estado apoiado nessas tropas. Nunca haverá de estar seguro...”. Esse trecho mostra sua total desconfiança nesses homens que luta somente por dinheiro.
Em seu pensamento Maquiavel repudia os mercenários, por vários motivos, mas ele deixa claro, o fato de que a falta de ligação desses homens com o Estado Principesco é perigosíssimo para a soberania dos regentes. Nas palavras do pensador Florentino: “O Estado é espoliado por elas (tropas mercenárias) na paz, na guerra, pelos inimigos. O motivo disso é que não nutrem nenhum amor nem força que as conserve em campo, apenas um pequeno soldo, e ele não é suficiente para que desejem dar a vida por ti.”
Isso se demonstra em vários casos em que os mercenários se vendem pra estrangeiros, mudando totalmente o rumo de um combate. O próprio Maquiavel dá o exemplo de Carlos, rei de França, que conquista a Itália com grande facilidade, apoiado por tropas que antes lutavam pelos príncipes, em dado momento do livro, ele chega até a dizer que: “a presente ruína da Itália não tem como causa outra coisa senão o fato de, durante muitos anos, estarem apoiada em forças mercenárias”.
Fica claro que Maquiavel era totalmente contra os serviços dos mercenários. Ele mesmo presenciou momentos em que esses soldados se voltaram contra o seu príncipe ou o abandonaram. Ele acreditava que uma milícia local seria muito mais eficiente. Prova disso é o estatuto que ele mesmo cria em 1505, citado no texto de Bobbit, determinando a forma de organização de uma milícia florentina. Para ele a justiça e as armas eram fundamentais para o estado, então o príncipe tinha de ter plena poder e confiança sobre seus comandados, além de um corpo de funcionários públicos, que desse a ele maior controle sobre esse estado.
3. A formação do exército moderno
Na Europa moderna houve um grande processo de metamorfose onde a ascensão e a que das monarquias influenciaram na formação do Estado. Este Estado Moderno Absoluto presenciou fases, como: principesco, régio e territorial. Cada qual com suas especificidades, o período régio destacou – se pela transformação do exército e influências de novas técnicas militares, como diria Michael Roberts, especialista na formação do exército moderno. “Houve uma revolução militar”.
Estudando as organizações militares percebemos que há vários conceitos e generalidades, como afirma John Keegan em seu livro Uma História da Guerra, onde há seis tipos de organizações militares ao longo da história: o guerreiro, o mercenário, o escravo, a tropa regular, a milícia e o recruta. O que vamos estudar nessa parte são as tropas de linha, também chamada regular formada inicialmente por mercenários e logo depois por soldados das suas nações. Essas tropas regulares exerciam tarefas permanentes e dependentes em princípio de um soberano, logo depois assumido pelo Estado Burocrático.
O sistema de manutenção das tropas era por conta do erário, diferentemente dos exércitos independentes e formados totalmente por mercenários, seja em tempo de crise ou paz, essas organizações burocráticas reforçam o poder monárquico assim sendo militarizam a nobreza, e adotam um recrutamento que contribui na formação da sociedade. Muito acima da lealdade e da técnica dos cavaleiros com sua vassalagem.
“A razão decisiva para o progresso da organização burocrática foi sempre a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização”, análise feita por Max Weber. Antes de tudo essas tropas eram subordinadas ao Estado mostrando assim toda submissão possível ora no papel, ora nas atitudes. Novas construções mentais apareceram na Europa moderna, criadas acima de tudo pelos Estados Absolutistas e seus filósofos, assim a nova definição de militar sustenta-se em três pilares: ordem, disciplina e obediência, tendo na sua labuta manter a ordem no estado, refletindo assim na formação de instituições sociais, como a família.
Este estado centralizado tornou-se o senhor bélico a partir da ordem política e social criando assim a disciplina como forma de controle e de dominação, pois toda estrutura estatal estava reformulada devido o fim da vassalagem. Os estados nacionais consolidam a formação de exércitos burocráticos, afirma Weber 1. A cavalaria passa a ter valor secundário, ela que um dia representou status social e sentimento de nobreza, perde espaço para a infantaria2 .
Os soldados passam a ser pagos pelo soldo, podendo voltar para casa a cada 40 dias, apesar de mínimo e muitas vezes não são pagos, a guerra continua, como pilhagem, saques, perdão de sentença para condenados e propagandas nacionalistas como na guerra de cem anos. O exercito do séc. XVII entra em guerra com a infantaria, artilharia, a cavalaria os piqueiros, os lanceiros, os arqueiros e os besteiros. Sendo que os comandantes de tropa buscavam através de estratégia utilizar a proporção certa de todas as especialidades. A regra certa. (SILVA, 2007, pp.31)
A disciplina como forma de poder
Adestramento é a inovação tática? Bem, para a forma em que o adestramento era feito no exército da era moderna, sim. Mas treinar para lutar já era feito pelas sociedades anteriores, os homens de guerra como: Samurais, Vikings, tupinambás, etc.
As táticas são técnicas de guerra utilizadas para prever e antecipar batalhas. “O adestramento é assim o instrumento de controle que os estados modernos, já unificados, usam sobre suas tropas, já agora regulares. Ele aparece nas unidades militares criadas no século XVII. “Unidades essas que se caracterizam por suas profissionaliza ao contraio de seus predecessores medievais” (SILVA, 2007,pp.32)
O individualismo do guerreiro deixa de existir, o soldado pensa em conjunto, formando assim as tropas coesas conceituadas como unidade por Foucault, enquanto Weber denomina de massa essa consistência massificada da formação de soldados para guerra, são palavras diferentes que possuem os mesmos significados.
Vários instrumentos eram utilizados para controlar a cadência da marcha, por exemplo, o tambor no pé direito, o apito para executar ordens, os passos eram medidos para uniformidade de movimento até conseguir atitudes simultâneas com eficiência. Sendo assim o treinamento com disciplina foi essencial para formar as tropas. Enquanto para Foucault a disciplina é a arte de dispor em fila, organizando homens, enquanto para Weber foi, mas importante que a própria pólvora, pois só assim esse instrumento de controle foi eficiente, as atitudes não eram feitas apenas por obrigação.
Essa época nasceu também à necessidade dos quartéis, de acordo Kalina Vanderlei objetivo de criar espaço onde as novas tropas burocráticas possam ser tanto alojadas quando vigiadas, e mantidas sob estrito controle. Como deveria ser mantido um exército após as batalhas ou como preparar-se antes das mesmas, sem ameaçar sua sociedade e sem perder o controle, só com disciplina e violência para obter um efetivo domínio, ter medo do inimigo como também dos oficiais que comandam os quartéis, que seja obediente antes que útil, uma estrita relação de poder (FOUCAULT, 1997).
“As bases econômicas em que alicerçam as organizações não é o único agente que determinou o desenvolvimento da disciplina, embora sua importância tenha sido considerável. A disciplina dos exércitos bem treinados e o papel, maior ou menor, que tiveram na guerra dependiam, ainda mais e com efeitos duradouros, da ordem política e social. Essa influência, porém, era ambígua.” (WEBER, 1959)
Os baluartes do exército moderno
“Pode-se defender que a guerra era possivelmente o mais racional e rápido modo de expansão de extração de excedentes ao alcance de qualquer classe dominante sob o feudalismo”, é o que pensa Perry Anderson nas linhagens do Estado Absolutistas.
Basta pensar em disputar sem que haja sangue violência que assim mesmo é considerado Guerra. Thomas Hobbes, na obra Leviatã, assim disse:”Guerra não é apenas luta,..., basta o desejo de rivalizar através de batalhas é suficiente...”
a) Nesse mundo disputado nasce o holandês Maurício de Orange-Nassau em 1567, filho de Guilherme, o Taciturno. Sucedeu o irmão Felipe Guilherme em 1618. Estudioso em técnicas de guerra, ele formou o primeiro exército profissional, ainda boa parte de mercenários, com recursos da expansão marítima, mas adotou a disciplina tática para rivalizar com vitórias em cima dos tercios espanhóis, os quais detinham o maior poder de luta, com seus prototanques, inspirados nos gregos, formação massificada retangular de piques, porém lentos e formação de blocos. Nassau buscou nos romanos, utilizou fileiras e rapidez em municiamento, deixando que os piquetes protejam os mosquetes. Saraivadas sucessivas e ininterruptas sufocava o inimigo, coreografia ágil, ocupando grandes espaços devido à extensão das tropas lateralmente e pouca profundidade. (BOBBIT, 2005, pp.92).
b) O dinâmico e impetuoso Gustavo Adolfo, o Leão do Norte, Rei da Suécia, filho de Carlos IX, nasceu em 1594-1632. Subiu ao trono com 16 anos, lutou ao lado dos protestantes. Aprimorou a técnica de Nassau, admirado pelo seu pai, as saraivadas tornou-se cerradas em fileira simultâneas, concentrou o fogo em três tiros por vez. Novo alinhamento e contramarcha com revezamento na Guerra Linear.
Só pode ter um Estado régio centralizado devido ao seu diplomata Axel Oxestierna, dando um novo formato constitucional, reformou o tesouro, fisco, educação e justiça. Tendo apoio da Dieta, do Conselho, da Administração Provinciana e a Igreja. Ela própria participava na elaboração dos Decretos como os Artigos de Guerra em 1621. Um das mais importantes revoluções sociais no exército foi o sistema de recrutamento, todo cidadão sueco estaria preparado para a guerra, superando o número de mercenários, assim nascendo um sentimento de nação com seu Estatuto do Pessoal Militar em 1620.
c) Wallenstein foi um grande general imperial, príncipe de Sagan, lutou pela Liga Católica, financiava, suprimia grandes forças chegando a 100 mil homens, se tornou credor do imperador, começou agir independentemente gerando insegurança no Estado Régio e na Liga, sendo destituído e assassinado por oficiais de confiança do Imperador.
“A tática de Gustavo atendia a uma estratégia de aniquilação; representava, pois, uma profunda mudança de pensamento em relação à estratégia de desgaste de Wallenstein ou a tática de cerco de Maurício” (BOBBIT, 2005, pp.106).
Chegamos à conclusão no fim desse período que a disciplina foi mais importante que a pólvora, pois soube utilizar de maneira eficiente e determinante. E que as mudanças táticas introduzidas pelos baluartes, não só mudou as estratégias da guerra como também o modo de vida da sociedade, uma verdadeira transformação social, finalizando com o pensamento de Michael Roberts assim como abrimos nossa parte.
Guerra dos 30 anos
Foi por um lado uma guerra civil alemã entre regiões que queriam autonomia diante do poder imperial e outras que queriam manter o império. Por outro lado foi internacional, pois os defensores católicos do Sacro Império Romano Germânico em aliança com os espanhóis, lutaram contra os protestantes de diversas regiões da Europa que tinham o apoio da franca católica.
O bloco dos Habsburgos
· Áustria e Hungria – do rei Fernando II
· Alemanha (especialmente a Bavária) do rei Maximiliano I
· Espanha – Felipe III, com apoio do papa e da polônia
· Durante algum tempo recebeu apoio dos luteranos (saxônia) e dos calvinistas (Brandemburgo)
Bloco protestante
· Protestantes da boemia, Palatinato (Frederico V), Holanda, Suécia, Dinamarca e Inglaterra
· Franca católica na fase inicial de forma indireta e na segunda metade se junta à Suécia e define o destino da guerra
A Alemanha da época
No século XVII a Alemanha era uma complexa região formada por mais de mil unidades políticas e não possuía fronteiras definidas. Matinha uma estrutura política feudal. Entre essas regiões erguiam-se diversas barreiras para cobrança de pedágio e postos de aduana. Antes do inicio da Guerra dos 30 anos existiam dois lados em briga constante pelo poder, de um lado a liga católica representada por Maximiliano da Bavária e de outro os protestantes liderados por Frederico V, do Palatinado, que defendia os cultos reformados.
Espanha
Era a Herdeira do maior império do mundo, abrangendo áreas em todos continentes do México a filipinas. A península empírica havia sido praticamente imune as transformações impostas pelo renascimento e pelos avanços da ilustração, e careceu de uma revolução burguesa democrática. Com a renuncia de Carlos V em 1555 o império foi dividido em dois ramos dos Habsburgos
1. O império filipino que abrangia Espanha, Portugal, parte da Itália, flandres e as diversas colônias ultramarinas
2. E o rei da Áustria que dominava o sacro império
Holanda
Já estava na luta pela sua independência, contra a Espanha desde 1568. Na guerra dos 30 anos interferiu fornecendo tropas bem treinadas, formalizadas pela academia militar, de Mauricio de Nassau e dando apoio financeiro, aos países protestantes. Com o fim da guerra estava com a maior frota naval militar e comercial, com o controle de parte das colônias asiáticas e americanas e com um imenso desenvolvimento urbano e cultural
França
Entrou na guerra na época de Luis XIII e seu chanceler Richelieu, que tinha habilidade estratégica suficiente para impedir que espanhóis e austríacos, em seus avanços sobre a Europa central. Richelieu internamente manteve uma política de relativa tolerância com os protestantes e uma orientação externa baseada nos interesses nacionais franceses, o que fica evidenciado com sua participação na Guerra dos trinta anos. Em 1635 após concluir seu tratado de alianças com a Suécia e com as províncias unidas declarou oficialmente guerra contra a Espanha e ao arquiduque governador dos países baixos
Suécia
Entrou em conflito contra a Dinamarca e polônia e buscava, sobretudo o controle sobre a região do mar báltico, recebendo apoio da Rússia que tinha o interesse de neutralizar a polônia. Gustavo Adolfo junto com o ministro Axel Oxenstierna revoluciona o cenário militar europeu, como foi visto anteriormente.
Outros Países
Os países da península itálica, principalmente Milão, Nápoles, Sicilia, Sardenha e os territórios papais apoiavam o lado Habsburgo. Enquanto o ducado de Sabóia, a toscana, Veneza e outros ducados menores oscilaram em suas alianças maior parte destes se juntaram aos franceses contra o domínio espanhol e austríaco sobre a Itália. Já Inglaterra estava em guerra civil que culminou com a execução do rei Carlos I em 1649 e colocou no poder o parlamento representado por Oliver Cromwell. Apoiou a primeira fase da guerra discretamente o lado protestante, porem não desempenhou um papel importante na guerra continental.
Fases da guerra
De inicio uma serie de conflitos iniciados na Alemanha culmina com a invasão espanhola ao palatinado, onde expulsou Frederico V, a região passou a ser controlada pelo imperador Maximiliano da Bavária. A partir de 1621 foi rompida a trégua de 12 anos entre Espanha e os países baixos. A luta entre os principados alemães protestantes e o império Habsburgo não era apenas uma disputa religiosa, mas também estava em jogo o controle do centro da Europa e também as rotas comerciais marítimas e terrestres.
A guerra foi motivada ao mesmo tempo pelas rivalidades, franco-espanhola, Holanda-espanha, reforma-contra. reforma, fora as divergências entre diversas regiões da Europa central. Em todas as fases essas regiões protestantes lutaram contra a coligação formada pela Espanha, estados germânicos católicos e a Bavária.
O contexto militar
Durante a guerra a existência de milhares de soldados criou uma situação caótica durante décadas na Europa, chegando entre 1625 a 1635 a reunir cerca de um milhão de soldados em combate. O aparato de logística para o abastecimento dos soldados era quase nulo, seus pagamentos atrasavam, com isso ocorria constantemente os motins, o que dificultava mais ainda a organização das tropas.
Embora em algumas regiões a maioria dos soldados fosse voluntária, havia também o recrutamento forcado de civis e de ex-prisioneiros, e o pagamento era muitas vezes a própria pilhagem. As tropas mercenárias foram amplamente usadas, e os estragos provocados por elas foram muitas vezes mais destrutivos para os que as contratavam do que para os inimigos.
Uma grande falha desses exércitos especialmente o dos franceses seria a venda dos cargos militares que muitas vezes eram concedidos a nobres inexperientes em guerras longas e sistemáticas. Um fato interessante é que durante o conflito houve uma grande difusão do uso de bebidas alcoólicas pelo soldado, com destaque para os destilados de cereais, como o gim, que era usado principalmente pelos holandeses. O número estimado de vitimas é de quatro milhões de mortos, numero que só foi superado nas guerras mundiais do século XX.
A paz de Vestfalia
As conferencias de paz começam em 1644, com duas sedes, em locais distintos, os católicos, reunem-se em Munster e os protestantes em Osnabruck. O acordo só será concluído em janeiro de 1648, quando efetiva-se a paz do conflito nas províncias unidas, onde a Espanha reconhece após 80 anos a independência holandesa. A Espanha após Vestfalia prosseguiu em guerra contra a franca ate 1659, quando foi firmada a paz dos Pirineus.
Quadro geral depois de Vestfalia
· A franca ganha a Alsacia, Metz, Toul e Verdun;
· Suécia o controle do porto de Wismar no Báltico e dos estuários dos rios Oder, Elba e Weser;
· As províncias unidas e a Suíça são reconhecidas como republicas independentes;
· Brandenburgo ganha a Pomerania oriental e uns pequenos territórios, o que irá alicerçar as bases para a formação do Estado Germânico, com a fusão com o ducado da Prússia;
· A Bavária ganha o alto Palatinado;
· Cerca de 300 estados são reconhecidos do sacro império tem sua soberania reconhecida;
· O rio Reno deveria permanecer aberta a todas as nações;
· A paz de Augsburgo e confirmada e estendida aos calvinistas;
· A Espanha sofreu com as rebeliões na Catalunha, Portugal e em Nápoles.
O final da guerra determinou principalmente o fim do poderio Habsburgo e da Espanha, sobre a Europa, a emergência holandesa, e em seguida dos britânicos, o advento do máximo esplendor do absolutismo Frances. Além disso, no mundo europeu é estabelecido um sistema internacional de estados, surge um direito internacional, tendo como grande contribuinte Hugo Grotius, cada estado teria suas normas não mais se sujeitando a normas externas e as relações internacionais passam a ser estabelecidas em função do reconhecimento da soberania do estado, independentemente da sua religião.
Ocorre também após o conflito o triunfo do estado régio, e começa-se a prepara o terreno para o desenvolvimento do estado territorial. Após o fim da guerra em 1648 a paz de Vestfalia cria uma nova ordem na Europa moderna, na qual, a razão do estado, sobrepõe aos princípios religiosos medievais e na Europa não houve mais guerras motivadas por divergências religiosas.
Estados Territoriais
Os Estados Territoriais, como toda forma de organização política e administrativa, possuem bases de sustentação. A primeira e fundamental é o exército profissional e permanente. Não mais aos moldes do Estado Régio, que também possuía um exército permanente, mas estava impregnado pelos mercenários. A burocracia estava cada vez mais centralizada. Não na figura do rei, e sim, no serviço ao Estado. Estes cargos não eram mais vendidos para angariarem somas para os monarcas fazerem suas guerras. Havia se estabelecido outro nível de sistematização.
A Idade Moderna foi a era dos acordos e tratados de guerra e paz. Neste nível se fazia necessário uma constante representação de diplomatas de um Estado em outro com o fim de selar acordos que permitissem uma maior mobilidade política. Um serviço que não apenas estivesse para acordar alianças dinásticas e matrimoniais. O território também passou ater um nível de preocupação maior por parte dos agentes do rei e do próprio rei. Queria-se uma unidade territorial contínua, e não fragmentária descontínua como no caso Habsburgo. O monarca deveria garantir suas fronteiras, pois eram nelas que passavam o comércio - importante fonte de recursos através dos impostos – a guerra travava-se muito mais neles, além de serem a passagem do comércio era o começo de sua soberania. A defesa do território começava com a defesa das fronteiras, muitas fortificações foram construídas nas fronteiras dos estados e lá as batalhas eram mais comumente travadas.
A guerra ajudou a forjar as bases deste Estado, não que ela tenha sido a única. Contudo, a forma de batalha não era mais aquela da Guerra dos Trinta Anos, cataclísmica de grandes embates e megalomaníacas. Tinham seus objetivos mais delimitados, travada com meios delimitados visando objetivos restritos. Com isso, as batalhas eram mais estratégicas colocando os exércitos em pé de uma relativa igualdade. O exército era profissional, vestido, armado e treinado durante todo o tempo pelo Estado. A disciplina era rigorosa, chegando ao patamar do exército prussiano onde se objetivava que o soldado possuísse mais medo do seu oficial do que do seu inimigo. O abastecimento das tropas em campanha despertou mais cuidado por meio dos homens de guerra. A comida para estes soldados em batalha era algo primordial para mantê-los dispostos a lutar, armas suficientes munição e transporte também completavam a lista de tarefas. E já se começou a imprimir na cabeça dos soldados a noção de lutarem pela pátria, se bem que isso não foi muito difundido por se tratar ainda de tema delicado e escorregadio.
Por fim, a paz de Vestefália e o Tratado de Utrecht foram primordiais para a consolidação dos estados territoriais. O primeiro por garantir uma expansão das fontes de legitimação, quando previa que os outros estados reconhecessem a soberania deles como estados independentes. E o segundo por sacramentar o sistema político dos estados territoriais. Onde os estados que melhor representaram este papel foram a Holanda, a Inglaterra, a Suécia e a Prússia.
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:
BOBBITT, Philip. “A guerra e a paz na história moderna: o impacto dos grandes conflitos e da política na formação das nações". Rio de Janeiro: Campus, 2003.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 11ª edição. Petrópolis: Vozes, 1987.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural, 1974
KEEGAN, John. Uma história da Guerra. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, 1987.
MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
MILLER, Douglas. The Landsknechts: The Osprey Men-at-Arms Series; 1976.
MOCKLER, Anthony. The New Mercenaries. London: Paragon House, 1987.
SILVA, Kalina Vanderlei Paiva da. O miserável soldo & a boa ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na Capitania de Pernambuco dos séculos XVII e XVIII. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001.
WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002.
1 Esse tipo de formação é explicado justamente na obra Ensaios de Sociologia, pp.258, onde toda burocratização do exército corroborou na formação do Estado, basta ver nas transferências de serviços, privilegiando alguns qualificando outros. Semelhança a empresa capitalista privada, tanto no recrutamento quanto logo depois na indústria bélica, pois os chefes de companhias eram donos de materiais e suprimentos bélicos, toda pesquisa e instrução científica, tudo passou a ser regido pelos recursos do Estado burocrático, regulando assim a economia administrativa para canalizar e favorecer a nova elite.
2 A afirmação encontra-se no livro O Soldo Miserável de Kalina Vanderlei pp.29, que essa substituição foi gradativa que apesar dos valores da cavalaria medieval ela passou a ter outra função num exército, além de aprimorar a técnica, utilizando mosquete com Gustavo Adolfo, chegando a ter armaduras pesadas. No decorrer da história no exército prussiano já não encontrava isso, pois utilizaram armas portáteis, punhais, coletes e uniformes leves dando proteção e agilidade.
observação final do professor. Como uma parte do trabalho foi o simples control c - control v, retiramos essa parte, especilamente por não ter sido mencionado a fonte.
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