quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A LOUCURA NA IDADE MODERNA

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História




História Moderna II.
Professor: Severino Vicente.


A LOUCURA NA IDADE MODERNA






Recife, 2008.









A LOUCURA NA IDADE MODERNA.


Anderson Walace
João Carlos
Márcia Roberta
Marcelo Renan








Recife, 2008
SUMÁRIO:


Introdução.................4
A loucura ao longo dos anos.....5
Corpo e alma: a transcedentalidade e as causas da loucura........................7
Loucura: Formas de tratamento........9
A caminho da internação..............11
Considerações finais................16
Bibliografia.............17






INTRODUÇÃO

Ao longo dos séculos o Homem se deparou com situações que punham em questão a sua racionalidade, seus comportamentos e, sobretudo, a sua sanidade mental.
A loucura esteve presente em todos estes momentos para pôr a prova, tanto a razão como a des-razão do Homem, com ela mesma, a loucura, por vezes sendo admitida ou sendo repudiada, tratada como patologia social.

As agonias e infortúnios sofridos pelos supostos portadores de alguma perturbação mental não estavam apenas diretamente ligadas a sua saúde mental, mas também a complexos jogos impostos pelos Estados para higienizar as suas cidades e aproveitar a mão de obra barata em seu desenvolvimento econômico.

A loucura na Era Moderna foi utilizada como ferramenta neste jogo de interesses das elites, pouco importando as condições e formas de tratamentos oferecidos aos portadores de alguma perturbação mental, que por vezes, eram internados sem as mínimas distinções com os demais doentes geralmente cidadãos em condições extremas de pobreza, arbitrariamente diagnosticados como loucos.
As mudanças das mentalidades tanto como as mudanças sociais contribuíram significativamente na forma de tratar do louco neste período.

Em nosso trabalho iremos abordar os principais conceitos sobre a loucura na Idade Clássica (entre os séculos XVII e XVIII), os tratamentos utilizados no caminho pela cura definitiva das doenças da mente, e a reação da sociedade na forma de tratar o louco como agente causador da desordem social, além de analisar alguns dos principais elementos sociais que contribuíram para a evolução do sistema manicomial do século XIX e XX.




A LOUCURA AO LONGO DOS ANOS.
Anderson Walace



Em cada tempo as sociedades instituem formas de condutas e comportamentos, às quais os indivíduos devem enquadrar-se a fim de serem aceitos e poder viver “livremente” em sociedade. Essa busca tenta definir como os indivíduos devem se colocar na sua vida profissional, na sua vida sexual, na sua forma de expressão e até no seu lazer. Sendo rejeitados e excluídos, sob o estigma de louco, todos os que divirjam desse comportamento pré-estabelecido.

Na Idade Antiga, o louco era entendido sob três perspectivas: a do enfoque mitológico, o da concepção passional e o da doutrina orgânica. Naquela sociedade os loucos eram compreendidos como vítimas do capricho dos deuses, que os lançavam no estado de desequilíbrio e insensatez (PESSOTTI, 1995). Conforme o mesmo autor, mais tarde, Hipócrates inaugurou a hipótese de que a loucura acontecia por influência de alterações orgânicas vinculadas aos humores, compreensão esta que perdurou até a medicina dos séculos XVIII e XIX.

Na Idade Média, a associação e a identificação da loucura se deram no campo da demonologia, com predomínio da concepção religiosa, dos feitiços. Várias obras foram lançadas neste período com o intuito de explicar e fundamentar estas idéias. Foucault (1999), olhando para a questão da loucura na Idade Média, pontua que ela está dividida entre os poderes do espírito que lhe dão o sentido abstrato e as causas orgânicas que lhe dão a existência concreta.

Os loucos eram admitidos e podiam vagar pela cidade; eles não se casavam, não participavam de jogos, eram alimentados e sustentados pelos seus familiares, mas quando, por vezes, tornavam-se excitados e perigosos, eram afastados do convívio social e “presos”;

Na Idade Moderna, depois do século XVII, o entendimento da loucura foi se modificando pelos construtores da história; então teve início o campo da formação médica e psicológica que, com o passar dos tempos, classificou a loucura como doença mental, uma patologia da função nervosa e, por vezes, relacionada aos espíritos animais.

A fim de estudar a loucura Foucault formula que os domínios da atividade humana estão divididos em quatro categorias: O TRABALHO, A SEXUALIDADE, A LINGUAGEM e AS ATIVIDADES LÚDICAS (jogos e festas), afirmando que as pessoas que escapam às regras definidas nesses domínios são chamadas de indivíduos marginais, comumente presentes em todas as sociedades. No caso da loucura, uma mesma pessoa passa a ser excluída e rejeitada em todos os domínios. Concluindo que a loucura é um estado de alteração, com distúrbio no pensamento ou demonstrado por palavras e atos, é um processo mental que pode traduzir comportamentos e idéias, ou seja, a loucura pode derivar de causas físicas, passionais ou “internas”.

Por ser a produtividade o núcleo da lógica da sociedade, a inaptidão ao trabalho foi considerada o principal critério da loucura, o que tornou as pessoas inaptas não mais toleradas. Logo foram criados estabelecimentos para todos aqueles que se encontravam fora da ordem social: loucos, desempregados, doentes, velhos, prostitutas, considerados grupos de vagabundos para a nova sociedade.
Sendo a sociedade européia desse período, século XVII ao XIX, uma sociedade essencialmente burguesa, práticas sexuais como masturbação, homossexualidade, ninfomania foram consideradas anomalias identificadas à loucura. Neste período, os leprosos, mendigos, desempregados, prostitutas, pessoas sem teto e os loucos eram retirados das ruas para limpar as cidades.

Com relação à linguagem Foucault faz referência a uma curiosa afinidade entre a literatura e a loucura, especialmente, porque a primeira não está obrigada às regras da linguagem formal e cotidiana, ocupando a literatura uma posição também marginal.
No teatro tradicional europeu, como exemplo das atividades lúdicas, os loucos divertiam os espectadores. Era um personagem que exprimia a verdade que os outros atores e espectadores não o fariam conscientes.

Cabe destacar também que, em meados do século XVII, a loucura tornou-se medicalizada, inaugurando o papel do médico neste contexto. Philippe Pinel (nascido em Saint André em 20 de Abril de 1745 e falecido em Paris 25 de Outubro de 1826) foi o médico francês, considerado por muitos o pai da psiquiatria, entendendo que o louco precisava de um espaço próprio, com cuidados médicos; criou o hospício, como um local adequado de internação sobre a loucura, um local de recolhimento de pessoas que, de uma forma ou de outra, simbolizavam perigo à sociedade, “libertando” destes estabelecimentos todos os vagabundos, já que, dentro da lógica industrial, eram aptos a trabalhar. Separadamente, os loucos não tendo a faculdade de trabalhar, tornaram-se pacientes cujos distúrbios tinham causas que se referiram ao caráter psicológico, tornando o estabelecimento de internação um hospital psiquiátrico, abrindo as portas para o nascimento da psiquiatria, cujo objeto de estudo configurava-se nos distúrbios mentais.

Por fim, Foucault revela que tal medicalização do louco produziu-se por razões econômicas e sociais, pois o status de louco não variou em nada entre as sociedades primitivas e avançadas.




CORPO E ALMA: A TRANSCENDENTALIDADE E AS CAUSAS DA LOUCURA.
João Carlos Berenguer.


Segundo Foucault, na Idade Clássica, os problemas da loucura giravam em torno da materialidade da alma. De forma que no final do século XVII e início do XVIII, acreditava-se que a alma do individuo, quando afetado pela loucura, esteve afastada dele durante esse período, estando assim protegida pela própria doença contra o mal.

Voltaire foi um dos primeiros a tratar o cérebro como um órgão do corpo, podendo assim padecer por diversos males. Suspeitava que a faculdade de pensar pudesse sofrer desarranjos. Contudo com isso não refutava a relação deste com a alma. Explicava que a relação do cérebro para com a alma era como a do olho para com a vista (FOUCAULT, 1999. p 211). Contudo tal problemática só foi mais bem aceita no século XIX, de forma que no século XVII e XVIII a loucura era uma doença na qual estavam envolvidos o corpo e a alma, e, portanto era necessário descobrir quais as causas de tal doença.

Willis tratou do que se chamaram causas próximas da mania. Primeiro observava-se uma alteração das funções mecânicas, a movimentação violenta dos espíritos e também a alteração química dos mesmos que assumem natureza ácida que os torna mais corrosivos e penetrante. (Idem. P 215).

A partir de então variadas análises foram desenvolvidas, entre elas destaca-se a análise de Meckel que observou mudanças físicas no cérebro dos loucos, como a secura ou rigidez do cérebro dos maníacos e o pesadume e a umidade dos melancólicos. Nesse momento é interessante observar que as causas passam a ser procuradas na própria estrutura cerebral, colocando corpo e alma numa ordem de vizinhança e sucessão.

Esse tipo de análise foi usado de forma mais completa por Morgagni e Cullen. Para ambos o cérebro era um espaço causal diferenciado que desenvolve suas estruturas anatômicas e fisiológicas, determinando formas variadas de loucura. Cullen sistematizou essas diferenças e fez das diversas partes do cérebro o aspecto principal das perturbações orgânicas da loucura. (Idem. P 220-221).

No entanto, enquanto as análises das causas próximas evoluíam, as chamadas causas distantes adquiriam uma aparência retrograda nesse mesmo período. Ettmüller enumerou algumas das causas das convulsões: a cólica nefrítica, os humores ácidos da melancolia, o nascimento durante um eclipse da lua, a vizinhança das minas de metal, a cólera das amas-de-leite, os frutos de outono, a constipação, os caroços de nêspera no reto, e de modo mais imediato, as paixões, sobretudo as do amor. Tudo que aguçasse a imaginação: o ar, o clima, a leitura de um romance, espetáculos de teatro, etc. (Idem. P 222).

Outro tema que ocupou a mentalidade do século XVI foi o lunatismo sendo aos poucos esquecido durante o século XVII, voltando a figurar na discussão no final do século XVIII, devido à influência da medicina inglesa, completamente transformada, assumindo significados que antes não possuía. Explicava-se o lunatismo por ser o sistema nervoso sensível às mudanças atmosféricas, o que o deixava vulnerável às forças da lua. No final do séc. XVIII o lunatismo estava novamente a salvo de contestações, porém havia perdido a expressão de poder cósmico.

Nessa época a medicina afirmava que a loucura era: “fenômeno da alma provocado por um acidente ou uma perturbação do corpo; fenômeno do ser humano em sua totalidade – alma e corpo ligados numa mesma sensibilidade – determinado por uma variação das influências que o meio exerce sobre ele”. (FOUCAULT, 1999. p 225).

Apesar de estar figurada entre as causas distantes, a paixão é esboçada por Sauvages como a causa mais constante, mais obstinada e mais merecida da loucura. Sauvages mostra que a alma e o corpo estão num intenso relacionamento metafórico, constituindo assim a paixão condição e possibilidade da loucura.

Foucault conclui que na loucura clássica há dois tipos de delírio: o que se manifesta claramente através de atos e palavras e o que não é perceptível aos outros, pois surge do trabalho interno do espírito. Assim o discurso abarca todo o domínio da loucura. O desatino é a condição necessária para que uma doença seja chamada de loucura.




LOUCURA: FORMAS E TRATAMENTO
Márcia Roberta.


Na Idade Clássica, Século XVII e XVIII, as formas de tratamento dispensadas aos alienados eram das mais curiosas. As enfermidades eram tratadas com medicamentos extraídos da própria natureza, pois se acreditava que os antídotos para as enfermidades estavam inseridos no meio natural. Era só procurar que o remédio seria encontrado. Muitas vezes se poderia pensar que não existisse, mas estava lá, mesmo que fosse aos lugares mais longes, bastava apenas buscar e encontrar. Dentre tantos medicamentos quatro são despertam o interesse e a curiosidade, são eles: o ópio, as pedras preciosas, o corpo humano e o sangue humano.

O ópio foi muito utilizado nos tratamentos e, principalmente, nas “doenças da cabeça”. Essa substância era empregada nos males dos nervos cortando a sua sensibilidade, ou seja, seu principio ativo, digamos assim, era a insensibilidade. Era como se o ópio desativasse o botão responsável e que dava a percepção, aos nervos, do sentir. Ele era útil para todo tipo de convulsões, sendo empregado com muito sucesso, contra a fraqueza, o cansaço, bocejos, em casos de “cólicas ventosas” (gases presos) e de obstrução dos pulmões.

Na verdade, o ópio era visto como um obstáculo à proliferação dos males da sensibilidade, o único problema verificado foi que seu efeito passava rapidamente, permitindo o nervo voltar a “sentir”. A solução encontrada foi aumentar a dosagem, de tempos em tempos, para se chegar ao controle da sensibilidade.

O ópio conseguia esse efeito porque os elementos que o compunha se ligavam, quando dentro do organismo, aos elementos que determinavam a saúde em seu estado normal. Assim, o ópio recebeu o valor de medicamento universal, pois a eliminação dos sintomas era obtida graças a sua virtude natural, ou seja, o ópio atuaria segundo uma mecânica natural recebendo um dom secreto da natureza.

Quanto às pedras preciosas, estas eram vistas como fonte de proteção para quem as usasse nos dedos, em forma de anel. Assim ela estaria protegendo do mal caduco, além de possuir uma propriedade de fortificar a memória, fazer com que as pessoas resistissem à concupiscência, ou seja, resistir á cobiça e ao apetite sexual excessivo isso tudo só seria obtido se usada no dedo.

O corpo humano, nesse período, era denominado como um dos remédios privilegiados contra a insanidade; entedia-se que a sabedoria natural escondera os segredos que poderiam combater o que a loucura humana inventou de desordem e fantasmas. Entre as partes recomendadas a serem usadas como remédios encontram-se os cabelos dos homens, indicados para tratar os vapores emanados pelo corpo dos doentes, mas a eliminação dos sintomas só seria alcançada se os cabelos fossem queimados e inalados no mesmo momento. Do corpo humano ainda poderia se empregar a urina, recém-expelida, para os vapores histéricos.

As mulheres também contribuíram para o fornecimento de medicamentos contra os sintomas que desencadeavam a loucura. Delas, o leite materno era extraído e usado para doenças nervosas, e sua urina era aproveitada para o tratamento dos hipocondríacos.

Mas foram as convulsões, como a epilepsia, que atraíram o poder curativo dos remédios humanos, sendo o crânio, a parte mais valiosa de todo corpo humano, empregado na cura desse distúrbio. Como a convulsão era algo bastante violento, ela só poderia ser combatida com outra brutalidade e foi essa a razão para se usar o crânio dos enforcados e mortos por mãos humanas. A única restrição era que os cadáveres não houvessem sido sepultados em terra santa. Era freqüente, também, o uso de pó de crânio que, para muitos não tinha nenhuma serventia, pois não passava de uma “doença morta” e sem virtude. Em seu lugar era melhor utilizar o cérebro ou o crânio de um homem jovem e que tivesse sido morto recentemente, mas a morte deveria ter sido violenta isso era o primordial.

Mas não só o crânio foi usado para o tratamento das convulsões, o sangue humano era outro componente muito útil. A única advertência era para que esse remédio não fosse muito empregado porque o seu uso em excesso poderia levar a doença da mania.
Foi em fins da Idade Clássica que surgiu à busca pela cura definitiva. Antes a doença era combatida apenas em seus sintomas, sendo que neste novo momento a cura passa a ser vista como uma maneira de eliminar a doença no seu todo. E foi nesse contexto da procura pela cura que surgiram as ideais terapêuticas ou práticas terapêuticas.

Entre estas práticas utilizadas está a Imersão, que tinha na água seu principal elemento de cura, pois ela era vista como um líquido que representava o que de mais puro existia na natureza e era símbolo da reconstituição do equilíbrio de cada um. Essa cura era alcançada através dos banhos forçados, nos quais os doentes eram obrigados a mergulhar no mar ou na água doce para sanar as patologias como frenesi, mania, melancolia e imbecilidade. Para o caso do frenesi e da mania deveriam ser adicionados banhos de duchas.

O tratamento consistia em mergulhar o doente, repentinamente, deixando-o na água por bastante tempo, sem preocupação ou respeito pela vida do enfermo. Essa técnica foi aperfeiçoada no final do Século XVIII e inicio do Século XIX com o advento dos banhos surpresas; nesses o paciente era levado a uma sala quadrada que possuía uma banheira onde ele era empurrado, essa surpresa e violência eram necessárias, pois se acreditava que esta era a promessa de um novo batismo.

Outra prática terapêutica muito empregada foi a realização teatral. Era o chamado teatro da loucura, onde a intervenção terapêutica aplicada estava no espaço da imaginação. Era necessário delirar na mesma linha do delírio a que o paciente estava inserido e se chegar à cura, ou seja, a imaginação do doente só poderia ser curada através de uma imaginação sadia.




A CAMINHO DA INTERNAÇÃO.
Marcelo Renan.



A loucura, assim como foi apresentada, transforma-se na nova chaga social da Europa em meados do século XVI até início do XIX merecendo uma atenção diferenciada por parte da medicina e dos governantes da Idade Moderna.

Os loucos, ou pelo menos aqueles que assim eram apresentados, igualmente receberam tratamentos mais “adequados” para a sua patologia, que, por sua vez, era completamente contraditória no que diz respeito ao diagnóstico feito ao paciente. A partir de então eles começam a ser encaminhado para locais específicos onde pudessem ser tratados, locais estes que surgem como o embrião dos conhecidos manicômios.


Durante grande parte da Era Clássica a loucura começou a ser rechaçada pela sociedade que via na figura do louco um estorvo, uma nova praga que viria a contaminar e a estragar as comunidades afetadas, no caso as que possuíssem criaturas acusadas de possuir tal patologia.

Diferentemente da cultura européia do final da Idade Média que permitia ao louco conviver pacificamente e participar dos ritos cotidianos da comunidade, agora, no mundo moderno, o louco deveria ser afastado do convívio dos sãos. Esse afastamento não era apenas das práticas comuns (como por exemplo, as religiosas como ir à igreja, muito embora lhe fosse permitido ser religioso), mas sim da comunidade como um todo. O louco, neste período, sofre segundo arbitrários diagnósticos que caracterizavam a doença de acordo com os mais controversos sintomas. O que merece mais destaque e que serve de argumento para tantas internações, que serão melhor explicas mais adiante, é a mendicância.

Parece um tanto estranho reconhecer em um problema de ordem social uma doença mental, ou da alma como se acreditava, e que isso ocorresse de maneira tão generalizada. Acontece que com o desenvolvimento das cidades, das manufaturas que acabariam conduzindo a futura industrialização, e com uma mudança profunda nas mentalidades dos europeus, em especial os que aderiam às doutrinas protestantes, e que viam o trabalho como fator que dignificava o homem, a mendicância passa a ser vista como sintoma da insubordinação do homem as ordens religiosa e social. Ela passa a ser tratada como fator de desordem, além de que, o louco em sua des-razão, representava agora uma ameaça aos demais. Por estes e outros motivos os inaptos ao trabalho acabavam por ser acusados como loucos, da mesma forma que os mendicantes também passaram a receber este tratamento.

Diante deste contexto o louco passa a ser completamente indesejado, sendo a loucura comparada à lepra, que assolou grande parte da Idade Média, e assim como tal deve ser rechaçada para lugares distantes das cidades. Em decorrência destes fatores se inicia um verdadeiro movimento de banimento destes loucos para longe de seu local de origem. As cidades os entregavam nas mãos de mercadores, viajantes e principalmente de marinheiros, para que fossem conduzidos a um destino incerto: podendo eles morrerem nas viagens, se perderem ou aportarem em cidades desconhecidas que agora se encarregariam de “cuidar” deste louco, mais pelo fato do mesmo ser estrangeiro do que por sua doença ou estado de espírito.

Com este movimento de banimento surge o que alguns chamariam de Naus dos Loucos ou Nau dos Insanos. onsistia em um tipo de embarcação que possuía como principal finalidade embarcar estes loucos nestas viagens, carregadas não apenas do sentido estratégico de afastar o problema das cidades, mas também de todo um simbolismo e finalidade terapêutica.

Acreditava-se que água possuía propriedades terapêuticas e relaxantes, e que se não pudesse curar estes loucos pelo menos os deixariam mais calmos e que em uma viagem marítima eles teriam oportunidade de refletir sobre seus problemas e acalentar seus pensamentos. Por outro lado o mar, que por si só já é cheio de simbolismos, representava as constantes incertezas dos homens em relação à navegação. Se a viagem será bem sucedida, se sobreviverão os navegantes, em que porto há de chegar esta embarcação etc.. E este jogo de incertezas era transmitido aos que acreditavam na Nau, representando também para o louco todas estas incertezas que recaíam sobre si, em relação à cura e à sua vida.

Os simbolismos também passam a existir em relação às artes, em especial na literatura e na iconografia. Começam agora a ser escritas obras literárias que tratam da loucura. A pintura também retrata a figura do louco, assim como as gravuras adotam a loucura como temática central. A morte, que no medievo era tão temida, e que era utilizada para expressar valores religiosos, perde esse seu lugar em benefício da loucura. A loucura agora expressa às vicissitudes do homem e o conduz às suas fraquezas, sendo condenável aos olhos de Deus.

No entanto, mesmo com a existência dessas Naus, as cidades não deixaram de necessitar de locais específicos para receber e condicionar estes loucos, próprios ou estrangeiros, e é neste contexto que reaparecem os medievais leprosários. Tais locais até o início da Era Moderna abrigavam os leprosos, afastando-os da população caíram gradativamente em desuso uma vez que houve uma significante redução da incidência de lepra nos países europeus, passando a abrigar números cada vez menores de doentes, chegando a passar longos anos com números oscilantes entre dois a nenhum paciente.

Buscando o aproveitamento destes locais eles são transformados em centros hospitalares destinados a tratar as doenças venéreas, que também assolam o período, recebendo também estes loucos que passam a ser mais numerosos do que os infectados por estas doenças. Visando a diferenciação entre esses doentes e os loucos, estes começam a ser encaminhados unicamente para os hospitais, ficando os leprosários encarregados de receber e condicionar estes loucos, mendigos, inválidos etc.
Esta nova utilidade conferida aos leprosários acaba conduzindo ao enclausuramento do louco na Idade Clássica. Na França em 1656 um edito coloca sob uma única administração os hospitais e leprosários de grande parte de seu território criando o Hospital Geral, que receberia, em cada uma dessas unidades, doentes com variadas doenças além dos loucos, que por vezes eram encaminhados para unidades específicas. Vale lembrar que desde o século XVI os mendigos eram aproveitados para trabalhar nos esgotos de Paris.

Desde essa época a internação passa a ser adotada como medida principal em relação ao tratamento da loucura. Neste caso ela era aplicada não apenas com finalidades médicas, mas essencialmente corretiva destes miseráveis que eram encaminhados a estes locais. Vale lembrar que os miseráveis (pobres desempregados, mendigos, inválidos, etc.), deveriam ser encaminhados para estes locais para que fossem aplicadas a eles medidas corretivas e de “re-socialização”. No entanto com estas medidas se percebe o caráter arbitrário das internações.

Aos pobres restava a oportunidade de aceitar a idéia da internação pacificamente e de que encontrariam melhores condições nas casas de internações do que nas ruas. Aos que se negassem ao recolhimento cabia a aplicação de severas punições, entre elas ser espancado publicamente como forma de coagir pela força aos que insistiam em viver nas ruas e a conseqüente e forçada internação. Estes pobres eram caracterizados segundo o seu comportamento em bons pobres e maus pobres, respectivamente os que aceitavam a internação e os que faziam objeções a reclusão.
As casas de internação, conhecidas também como Casas de Correção (a exemplo da Inglaterra em 1575), possuíam antes um caráter repressivo e judiciário do que médico, e neste contexto, atravessando uma linha evolutiva elas se difundem pela Europa mobilizada e sensibilizada por esta nova ordem sócio-econômica. Era a função de a polícia aplicar estas medidas repressivas, segundo complexos acordos entre as partes envolvidas e responsáveis pela ordem social.

O miserável passa a ser considerado a ralé da república, e mesmo a igreja católica – quando não se refere à Inglaterra - aceita o tratamento coletivo despojando os princípios da caridade individual. Passa a aceitar ainda que contraditoriamente elementos protestantes em relação ao enfrentamento desta chaga social, encarando o problema com sensibilidade moral, e não religiosa. As casas de internações podiam ser mantidas tanto pelo governo, através de impostos e tributos, pela igreja e por sociedades leigas que buscavam fazer a caridade.

Seguindo a esta onda das casas de internação a Europa começa um movimento que busca alternativas para o desemprego e para aproveitar estes reclusos das casas de internação, para isto eles começam a ser aproveitados em serviços que beneficiassem de alguma forma o Estado, sendo aproveitados em serviços públicos, em mutirões etc. Algumas destas casas possuíam verdadeiras manufaturas, onde se beneficiavam principalmente lã, cereais, onde se tecia, cultivavam hortaliças etc. As maiores constatações destas casas de trabalho encontram-se na Alemanha e Inglaterra, onde são conhecidas como Workhouses já no século XVII.

Ao mesmo tempo em que era oferecida uma oportunidade do interno de aprender um oficio, era fornecida mão de obra barata para atividades lucrativas. Por vezes, a ética deixava de existir nestas casas, permitindo que terceiros aproveitassem a mão de obra das workhouses, fornecendo matéria prima necessária para a gestão da casa e em troca receber algum produto já beneficiado. Isso ocorria freqüentemente com a indústria lanífera que, em troca de uma parte de lã ou outros produtos, o fornecedor recebia a lã já fiada ou já tecida.

Passando pelos leprosários, casa de internação e correção até chegar às workhouses, a sociedade européia dos séculos XVI até o XVIII enfrentou o medo presente causado pela idéia da existência destes locais assombrosos, que ocupavam não apenas o espaço geográfico, mas também o imaginário da população. A postura repressiva e arbitrária destas instituições e suas finalidades controversas, além das variadas formas de tratamento do louco (trabalhados em outra parte do presente trabalho), colocavam o homem diante de um ajuste de comportamento forçado principalmente pela coerção.

O asilo ou Madhouses, que se tornará nos hospícios do século XIX, já com Philipe Pinel, é visto desta forma até passar por sérias reformas principalmente das mentalidades. Reformas que permitem um olhar mais detalhado por parte da medicina e um tratamento mais adequado ao portador de perturbações mentais (loucos, lunáticos etc.), e que finalmente encontram um lugar onde lhe é destinado conforto o tratamento segundo condições mais humanas. No entanto esta nova estrutura dos manicômios que é levada até o século XX é alheia à encontrada na era clássica, e consequentemente a este trabalho, merecendo um outro estudo.




CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Esta breve pesquisa nos mostra quão vasta é a história e seus problemas. Estudar a história da loucura é um exercício de cidadania, de como compreender a situação atual dos deficientes mentais e saber como a sociedade criou e proporcionou as mais diversas maneiras de lidar e cuidar desses indivíduos. Sob várias perspectivas podemos lançar um olhar investigativo sobre esse tema. Analisando socialmente vemos que inseridos em uma sociedade capitalista foram adotadas medidas que garantissem a preservação dos parâmetros sociais vigentes e o crescimento econômico, uma vez que a principio os “loucos”, visto que nem todos possuíam realmente alguma patologia do tipo, foram usados como mão-de-obra barata nas workhouses e foram também retirados das ruas na tentativa de higienizar as cidades que eram palco da burguesia crescente.

Em suma, podemos ver que ainda há muito a ser feito pelos historiadores, uma vez que sua função não é apenas “contar histórias”, mas antes disso mostrar a sociedade quais as razões que as levaram à determinados comportamentos e, acima disso, fazê-las compreender que mudanças são possíveis, que humanizar-se é o meio primordial de construir uma sociedade melhor. Esta é a importância da continuidade deste breve trabalho.










BIBLIOGRAFIA:

FOUCALT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo, 6ª ed. Perspectiva, 1999.
PESSOTI, Isaias. Os nomes da loucura. São Paulo, 1ª ed. Editora 34, 1999.
PESSOTI, Isaias. O século dos manicômios. São Paulo, 1ª ed. Editora 34, 1996

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ESTRUTURA E DINÂMICA DA CORTE FRANCESA MODERNA

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História Moderna II
Professor: Severino Vicente da Slva

Alunos: Ítalo Almeida
João Vinícius
Raimundo Ferreira














ESTRUTURA E DINÂMICA DA CORTE FRANCESA MODERNA





Recife, outubro de 2008




Sumário
I - Prefácio.............................................................3
II - A sociedade de corte no processo civilizador..............................................................4
III - Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa......8
IV- Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte........11
V - Rei, prisioneiro da etiqueta................................................................15
VI - Sociogênese da revolução...........................................18
VII - Referências Bibliográficas..........................................................22


Estrutura e Dinâmica da Corte Francesa Moderna


Prefácio
Por: Ítalo Almeida

Abordaremos ao longo dessa exposição, baseando-nos principalmente no pensamento do Alemão Nobert Elias, estudar não um rei em particular, mas a sua função de rei; não a ação de um príncipe, mas as redes de pressões na qual ele está inscrito. Trataremos da corte francesa de Luís XIV, o Rei-Sol, que se tornou modelo para toda a Europa. Levando em consideração a estrutura e a dinâmica dessa sociedade, tomando por base os elementos da lógica do prestígio social e suas ressonâncias na nova ótica social que está se estabelecendo com a ascensão da nova classe burguesa.

Os movimentos e articulações da complexa e delicada interdependência que se estabelecia entre o rei, a nobreza e a burguesia e na medida do possível, observar conexões que nossa sociedade tenha herdado e perpetuado até nossos dias desse contexto.

Faremos uma abordagem diferente da que se daria na Escola dos Annales, não é de nosso interesse privilegiar a História da vida privada. Uma vez que focaremos na estrutura e não no indivíduo, fenômenos que mesmo a vontade do príncipe não alteraria o contexto.




A Sociedade de Corte no Processo Civilizador


Por: Ítalo Almeida


Talvez transite no inconsciente coletivo comum, a corte como um lugar de ostentação de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta, inscrita no fausto monárquico. O objetivo aqui é atentar para o duplo sentido do termo, ou seja, por um lado, a corte deve ser considerada como uma sociedade, isto é uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros, gerando códigos e comportamentos originais. Em contrapartida, a sociedade de corte deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma corte, real ou principesca e inteiramente organizada a partir dela, constituindo assim, uma forma particular de sociedade.

Antes que entremos diretamente no processo civilizador no qual a corte exercia sobre seus partícipes, é válido chamar atenção para alguns pontos que serão mais esclarecidos ao longo do trabalho, aqui de forma genérica faremos um rápido sobrevôo nessa possível questão: Como o rei conseguiu atrair em torno dele a nobreza e estender tão fortemente sua influência sobre estes? Ao longo da formação do Estado Moderno, os direitos jurisdicionais pertencentes ao mundo feudal foram sendo incorporados ao aparato estatal. A priori, no momento em que o rei consegue estabelecer-se sobre os nobres mais próximos, achatando as condições destes em torno da sua figura, aos poucos ele recomeça a retomar sobre si seus poderes e influência que foram fragmentados com o Estado Feudal, com a ajuda de alguns nobres e da incipiente burguesia.

No início do século XVI, ocorre uma “refeudalização”1 que gera a Nobreza de Toga. Diferentemente na nobreza feudal, esta detém muito mais o poder administrativo do que militar. O rei, agora como um estrategista, estará mais preocupado com o serviço especializado que lhe será prestado do que com a origem social de quem o presta. Criando inicialmente espaço para uma ascensão social, que outrora na era feudal era praticamente impossível e ao mesmo tempo uma não satisfação dos nobres tradicionais, dando a gênese das articulações que o rei vai manobrar para cada vez mais consagrar-se como soberano.

Tendo iniciado essa lógica, observaremos as ressonâncias entre as partes da sociedade de corte francesa de Luís XIV. A corte foi a estrutura central tanto na constituição do Estado Absolutista quanto do processo civilizador que transformou radicalmente a psicologia do homem ocidental na modernidade. O rei precisaria atrair sobre si não só o poder como também o carisma social, pois a importância da autoridade e da iniciativa individual do líder, não dispõe de nenhum aparelho de dominação fora de seu grupo, está ai a importância do poder manipulativo do rei, permear entre estes meandros e inicialmente barganhar e depois impor sua influência de forma não tão explícita, mas que demonstre sua autoridade.

Na corte o rei trata das noções de figuração, interdependência, equilíbrio de tensões, evolução social e do desenvolvimento das figurações. Isso responde possíveis inquietações sobre o porquê que os indivíduos estão ligados entre si constituindo figurações dinâmicas e específicas? Por partes veremos as inter-relações e significados assumidos aqui pelos conceitos postos no início deste parágrafo. Figuração: formação social cujas dimensões são variáveis como jogadores de um carteado, a sociedade de um café, uma classe escolar, uma aldeia, uma cidade, uma nação. Os indivíduos estão ligados por interdependências e a reprodução supõe um equilíbrio móvel entre as tensões, na verdade, sua liberdade depende dos outros, limitando o que decidir e fazer. A imagem que pode representar estas relações em cadeia é o jogo de xadrez: “...como em um jogo de xadrez, cada ação decidida de maneira relativamente independente por um indivíduo representa um movimento no tabuleiro social, jogada que por sua vez acarreta um movimento de outro indivíduo – ou, na realidade, de muitos outros indivíduos...” 2

Estabeleceu-se um equilíbrio de tensões, como já colocamos, nos primórdios da sociedade de corte, resultante da ruptura das relações feudais; foi esta ruptura que remodelou toda a organização social a partir da proeminência conquistadas pelos reis, este que se tornou absoluto à custas de seus concorrentes: a nobreza e a burguesia.

A figuração da sociedade de corte está intrinsecamente ligada à construção do Estado Absolutista, no duplo monopólio do soberano. Primeiro o monopólio fiscal, o rei centraliza os impostos e dá ao príncipe a possibilidade de retribuir em dinheiro, não mais em terras, seus fiéis e servidores sobre a violência. Segundo, o rei, detentor da força militar, senhor e avalista de todo o espaço social, despoja a aristocracia dos antigos fundamentos de poder, obrigando-os a viver na proximidade do soberano dispensador de rendas, pensões e gratificações.

A afirmação do rei absoluto sufoca as diversas unidades de dominação de um determinado espaço. A hegemonia de um soberano na sociedade elimina, progressivamente, os concorrentes em potencial, reduzindo-os a situação de dependentes. Tomemos o exemplo da França, entre os séculos XI e XVI: a livre competição reduziu progressivamente o número de pretendentes a soberania, no início do século XIV, estes grupos eram apenas em cinco, com os reis da França e da Inglaterra, os duques da Borgonha e da Bretanha e o conde de Flandres.

A consolidação do poder pelos Capetos, em seguida pelos Valois e que atingirá seu clímax com os Bourbons. Em princípio, a concorrência se dará dentro da própria casa real: o rei x seus parentes. Em seguida sobrepujando seu rival inglês e reduzindo os concorrentes familiares, o rei da França estabelece sua dominação político-territorial desde o início do século XVI.

A medida que subjuga seus concorrentes externos e internos a unidade de dominação é tornada hegemônica, dando-se a partir do interior, com o rei exercendo o monopólio da dominação.

Na França, entre a aristocracia e o judiciário o equilíbrio de tensões é tal que fomentava não só o estabelecimento como a manutenção do poder absoluto real. Eram interdependentes e rivais a tal ponto que se fez impossível uma aliança contra o soberano. Assim, o rei é, portanto, mais forte do que cada um dos grupos tomados isoladamente.

Esse processo reforça o poder de uma burguesia burocrática e administrativa ao lado do rei. Seu monopólio de dominação que se faz entre as tensões aristocracia x burguesia gera este entrave: a vontade real é de proteger-se e ao mesmo tempo controlar a aristocracia contra o poder burocrático. Para fazer isso, a corte se torna a instituição essencial, de um lado, a vigilância pela proximidade, pelo outro, os jogos de favores monárquicos, criando uma esfera de reprodução de tensões. O monopólio fiscal, militar e a etiqueta de corte são, portanto, três instrumentos de dominação, conjuntamente definem essa forma social e original que é a sociedade de corte.

Não devemos compreender estas relações exclusivamente como lutas de classes, mesmo que ambos, aristocracia e burguesia, estejam sempre na busca por privilégios, o rei não é dependente diretamente de um grupo social, mas da manipulação das tensões, a origem de seu poder.

Entre os séculos XII e XVII, as diferenciações das funções sociais, multiplicaram a interdependência das classes, suscitando os mecanismos de autocontrole individual que caracterizou o homem ocidental da Modernidade. A corte serviu como um laboratório de comportamentos inéditos e lugar de elaboração de novas dinâmicas sociais, convenções mais coercitivas, controle dos impulsos e paixões, domínio mais rígido das condutas, relação menos brutal entre os homens e as mulheres, diferindo fortemente neste ponto da corte do medievo.

Paradoxos na corte absolutista como a maior distância na amplitude social, ao mesmo tempo, na maior proximidade espacial do rei, gera traços fundamentais e originais dessa sociedade, quando muitas vezes a grande confusão é entre a vida pública e privada que se misturam de tal forma a favorecer ainda mais a dominação real, atando os homens pela etiqueta. Não estamos afirmando que o rei está isento da etiqueta muito pelo contrário, entretanto sua manipulação dentro de seus limites em muito o favorecia com relação aos nobres e burgueses.

Além disso, a representação do indivíduo é essencial; na corte você é o que parece, gerando ostentação. Uma das exigências da posição que se pretende montar é como já tratamos, a hierarquia da etiqueta como modelo das diferenças sociais. Diferentes papéis e lugares no cerimonial de corte corroborando para a condição essencial da competição social, onde o rei como o senhor do tabuleiro, mexe as peças de acordo com sua necessidade. Sua representação está mais ligada a credibilidade dada ou recusada pelos outros do que a própria representação.

Superior socialmente pela submissão política. Aceitando a domesticação pelo soberano e a sujeição às formalidades coercitivas da etiqueta de corte, separando-se por este canal de sua concorrente a burguesia, assim fazia-se a nobreza. Observamos que para participar da sociedade de corte, o indivíduo precisa passar por uma transformação não apenas social, mas também psicológica para sobreviver e barganhar seus privilégios dentro de uma sociedade onde a instabilidade e estabilidade se misturam de tal forma, onde a centrífuga é naturalmente inconstância.



Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa

Por: Raimundo Ferreira

A nobreza que anteriormente encontrava-se por todo o país espalhada vai originar à nobreza de corte reunida ao redor do rei tornando-o centro e poder determinante. A maior parte dos nobres passou de cavaleiros a seigneurs e grands seigneurs da corte, e também o rei passou por transformações. Exemplo de rei cavaleiro, Francisco I que amava os torneios, as caçadas, para ele a guerra era um jogo cavaleiresco, no qual, como o mais corajoso chevalier valia a pena arriscar a vida. Antes cavaleiresco, Henrique IV ao subir ao trono incorporou o tipo rei aristocrático de corte, que foi representado na sua plenitude por Luís XIV. Ao contrário de Henrique IV, ele não segue mais para a batalha à frente de seus nobres, como cavaleiro, desta feita manda seus generais para a guerra com tropas que recebiam soldo. O rei já perdera o costume aos esforços físicos e às atividades no campo de batalha.

Ao longo do século XVI ocorreram mudanças nas estruturas sociais do Ocidente, elas podem ter sido tão importantes quanto as do final do século XVIII. A oferta de metais preciosos originários das terras ultramarinas e o aumento na circulação de bens, espalhando-se por todos os países do Ocidente, apesar de variadas formas, não foi sozinha a causadora das revoluções deste século. No entanto, isso não seria possível se não houvesse na Europa a necessidade e os meios para aproveitá-los.

O aumento da circulação de dinheiro provocou uma inflação exorbitante. Houve uma desvalorização na moeda, na proporção de quatro para um. Com isso, os preços subiram na proporção inversa. O solo e a terra, embora fossem a base de todos os recursos, as pessoas guardavam uma grande quantidade de dinheiro em casa. A inflação provocou um grande abalo na vida dos franceses, os nobres viviam de rendimentos fixos da terra. A elevação dos preços fez com que os rendimentos da nobreza não cobrissem seus gastos. Com a maior parte dos nobres mergulhados em dívidas, após as guerras religiosas, muitas vezes tiveram as terras tomadas pelos credores. Os nobres que perderam as terras buscaram na corte uma vida nova.
O único nobre cuja base econômica, posição de poder e distância social não sofreram reduções, foram sim aumentadas, foi o rei. Há muito tempo sua fonte de renda deixou de ser os produtos das propriedades e passou a ser os impostos ou tributos similares, recolhidos de seus súditos. O rei deixou de distribuir terras e passou a distribuir dinheiro. Ao contrário dos últimos reis do século XVI, a realeza de corte dos séculos XVII e XVIII, economicamente falando é sustentada pelos rendimentos financeiros. Esses rendimentos dos reis eram diferentes dos rendimentos dos comerciantes e dos artesãos, pois não resultavam de um trabalho ou atividade profissional. Mas da renda do trabalho das camadas profissionais através da atividade de funcionários remunerados, os quais tinham suas atividades controladas e coordenadas pelo rei, podendo aumentar seus recursos financeiros sem precisar de uma atividade profissional, apenas com base no enriquecimento do país governado por ele.
A mudança na prática da guerra teve, também, grande influência no destino dos nobres. A nobreza medieval equilibrava as tensões entre ela e os príncipes suseranos, visto que, quando se tratava de guerras eles dependiam de seus nobres. Cabia aos nobres arcar com a maior parte das despesas bélicas – armaduras, cavalos e armas – não importando se o financiamento vinha do lucro da propriedade ou das pilhagens. Se desobedecesse o chamado para os campos de batalha ou desertar-se do exército antes do período determinado e para suas terras, vilas ou cortes retornar-se, podia ser punido por uma expedição comandada por um suserano à frente de uma tropa numerosa de guerreiros e forçado a permanecer na frente de batalha.
Nos exércitos franceses do século XVI misturavam-se elementos os mais diversos. Apenas em casos de necessidade, e sem muito proveito ou êxito militar, fazia-se a convocação da nobreza feudal. Na verdade, o antigo exército feudal estava desfeito. Os nobres em condições de guerrear incorporavam-se às companhias de cavalaria pesada, as companhias de ordenança, que formavam a gendarmerie: os gendarmes forneciam seus próprios cavalos e os equipamentos mais valiosos; os menos abastados eram incluídos nessas companhias como guardas montados ... Nos ataques pesados de cavalaria, mas também nos serviços pessoais, esses guerreiros, que tinham uma formação baseada na honra, eram indispensáveis aos generais. Mas o futuro não pertencia mais a esse tipo de arma. Separada dessa cavalaria, muito abaixo dela em termos de nível social, desenvolvia-se uma cavalaria leve, que se baseava cada vez mais no uso de armas de fogo ... Toda a organização do exército estava fundada no soldo. 3

No processo de disputa entre a maioria da nobreza guerreira e o príncipe suserano quanto à prática da guerra, ele acabou levando vantagem. A disponibilidade de recursos financeiros proporcionou-lhe a contratação de tropas para lutar a seu favor, equipando exércitos recrutados nas camadas inferiores liderados por comandantes de tropas. O desenvolvimento das armas de fogo facilitou o recrutamento dessas camadas inferiores em detrimento das camadas superiores. Visto que as armas de tiros mais antigas eram tradicionais de camponeses ou de tropas que não pertenciam a nobreza, elas serviam de auxílio nas batalhas de cavalaria, dado o fato que as armaduras de cavaleiros e cavalos limitavam o efeito das flechas disparadas. As armaduras não resistiam mais as novas armas desenvolvidas o que provocou a decadência da antiga nobreza guerreira e aos príncipes a guerra com exércitos de mercenários.

Ao contrário do período anterior, no qual a sociedade tinha pouco comércio e conseqüentemente menos moeda, fazendo-se o pagamento com a doação de feudos, agora a remuneração dos serviços militares era feita com o pagamento em moeda. A possibilidade da contratação de mercenários ou soldados pelos príncipes, diminuiu a dependência dos mesmos para com a nobreza feudal.

O mesmo não pode ser aplicado com relação às questões financeiras que se tornavam cada vez maiores. Enquanto a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo ganhava importância, a guerra tradicional de cavaleiros era desvalorizada. Esse fator diminuía a dependência do soberano quanto à nobreza e produzia o inverso. Enquanto valorizava-se a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo, a guerra tradicional de cavaleiros perdia seu valor. Surgem, dessa forma, relações de dependência, nas quais, o desenvolvimento do comércio é favorecido pelo aumento da proteção nas suas vias e à garantia legal do seu direito, pelo Estado, o qual, representado na figura do rei, não teria um rendimento regular oriundo do pagamento de impostos, com tropas insuficientes, por sua vez os rendimentos permitiam financiar exércitos com poderes ao nível das necessidades.

São fatores que aumentavam a dependência da nobreza em relação ao soberano e o deixavam cada vez mais, menos dependente dela.


Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte

Por: João Vinícius


A partir de agora, na leitura deste trabalho, é preciso ter em mente que estamos tratando de um Estado Absolutista consolidado, onde as relações na corte estão num grau de complexidade elevado. A maioria dos exemplos e das reflexões que serão expostas se refere à França Absolutista do século XVIII, especialmente sob o reinado de Luís XIV. Tentaremos expor como esta realidade não pode ser compreendida se não forem feitas as devidas contextualizações. Nossas prioridades hoje, no que se refere ao que nos é importante, foi em grande parte formada pela burguesia dita “iluminista” que conseguiu impor seu projeto de sociedade ao antigo projeto do Ancien Régime, ridicularizando em muito aquilo que no projeto anterior era a prioridade. O ethos ou o status burguês está muito preocupado com as nuances financeiras, com o dinheiro. Já o ethos aristocrata de corte, do século XVIII, está preocupado com as nuances de comportamento, sua prioridade é zelar por uma honra difícil de ser compreendida a partir dos paradigmas atuais, pois as chances de prestígio era o fim a ser buscado e não o acumulo de riqueza.

Depois das guerras religiosas, que ocorreram na segunda metade do século XVI, as finanças da França se estabilizaram durante algum tempo. Daí as grandiosas construções palacianas em estilo barroco e classicista, e a formação de um exército profissional francês, vale lembrar que tudo isto foi feito à custa de pesados impostos e da venda de cargos públicos, além da pirataria e do comércio mercantilista. Enfim, o que é importante para iniciar este trabalho é a compreensão que o rei, no início do século XVIII, tinha em torno de si uma corte de nobres que dependia dele para existir e vice-versa.

Esta estrutura é rígida e coerente para os parâmetros da época, e o rei não aprovava a fragmentação dos círculos que constituíam a corte, a vida social deveria ser a própria corte – o exemplo clássico é o do Palácio de Versailles, que em 1744 abrigou cerca de 10 mil pessoas4. No entanto, evitar completamente isto era impossível, já no reinado de Luís XV o centro de gravidade desloca-se dos palácios para os hôtels, residência de aristocratas da corte que não eram príncipes. Com a expansão da corte, por assim dizer, surge um fenômeno conhecido como cultura de salão5.

No que se refere à residência do rei, o sentido abstrato se impõe sobre o sentido prático, ou seja, não bastam dimensões úteis para a habitação, mas o tamanho da casa deve condizer com o prestígio social do nobre que ali habita. Nobert Elias diz que o próprio rei jamais dormiria em um lugar previamente construído segundo um cálculo racional e prático. Mas o quarto teria que ser feito sob encomenda de acordo com o gosto do monarca, e é claro com dimensões gigantescas6. Figurativamente o rei era tanto dono de todo o grandioso palácio como de todo o país, e esta grandiosidade tem de se fazer notar.

Antes de começarmos a falar das mentalidades que sustentavam este modelo de sociedade é preciso dar um exemplo do que era uma das maiores atividades que ocorriam em torno do rei: “Le lever du roi”7.

Todos os dias por volta das oito horas, ou do horário que o rei determinasse, o primeiro criado de quarto, que dormia aos pés da cama do rei, acordava a majestade e abria as portas para os pajens. Os pajens espalhavam a notícia de que o rei tinha acordado, um deles ficava na porta regulando a entrada e a saída de pessoas no quarto. Iniciava-se então, obedecendo uma rígida hierarquia, as seis entrées (entradas) no quarto do rei; vários grupos de nobres autorizados entravam no quarto do rei de acordo com sua hierarquia na corte. Na primeira entrada, ou entrée familière, entravam os filhos legítimos do rei, príncipes de sangue, além do primeiro médico, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem. Na segunda entrada, ou grande entrée, entravam os oficiais do quarto e do guarda-roupa, junto com senhores e nobres que tinham a honra de entrar concedida pelo rei. Esta entrada servia, sobretudo, para vestir o rei, e os nobres tinham o privilégio ou a obrigação de vestir a blusa do rei de acordo com seu nível hierárquico. Nobert Elias conta que certa vez quando a rainha acabara de ser despida por suas damas, a criada de quarto deu a blusa à dama de honra que deveria vesti-la quando entra no quarto a duquesa de Orléans. Então a blusa é passada novamente para a criada de quarto de acordo com o cerimonial para ser entregue à duquesa que deveria vestir a rainha, mas logo em seguida entra no quarto a condessa de Provence. Então a blusa tinha que ser passada novamente para a criada de quarto que deveria entregá-la a condessa que era de um nível hierárquico mais alto. A rainha teve que esperar nua por toda esta cerimônia até ser vestida. Na terceira entrada, ou première entrée, entravam os leitores do rei, intendentes de divertimento e festividades para entreter o rei. Na quarta entrada, ou entrée de la chambre, entravam os ministros, secretários, conselheiros de Estado, oficiais da guarda e marechais. Na quinta entrada senhores e senhoras da nobreza ainda poderiam entrar com o consentimento do pajem e a permissão do rei. A sexta entrada era a mais disputada, não era feita pela porta principal, e por ela vinham os filhos ilegítimos e o superintendente do edifício.

Mas qual era o porquê das pessoas se submeterem a este tipo de comportamento? O próprio Nobert Elias diz que durante o período de reinado de Luís XV os nobres já faziam de muito mal grado estas funções, terminadas esta cerimônia saiam depressa do quarto do rei como uma horda selvagem, no entanto, não as deixavam de fazer.

Entendamos então esta frágil estrutura que tende a se perpetuar, a se congelar, e sofre o mínimo de alterações, mesmo assim é frágil, é tensa. Todas estas funções são cedidas como privilégios pelo rei, ou seja, de uma forma ou de outra o rei tinha que estar muito próximo de todos e tudo o que se passava ao seu redor. Os que recebiam este privilégio por mínimo que fosse – calçar as sandálias do rei, por exemplo – já olhava com desprezo a massa de pessoas que não tinha privilégio algum. No entanto, dentro da própria corte havia um clima de tensão entre todos os nobres, pois eles poderiam ascender ou perder sua função de acordo com a vontade do rei. Daí a frieza e o automatismo das relações, o estilo classista é a representação desta relação fria que não pode ter espaço para a expressão do sentimento. A frieza do olhar também é percebida nas pinturas de nobres da época, até hoje se fala muito da frieza dos franceses em seu cotidiano. Na verdade tudo isto faz parte de um cotidiano em que o outro não pode saber o que você está pensando, qual será seu próximo passo. Como as expressões corporais e faciais dizem muito do que se está sentido, isto tem que ser evitado ao máximo, a sua existência social como nobre depende disto. Até mesmo os espetáculos de teatro da corte não serviam para extravasar ou entreter seus sentimentos, mas servia como mais um encontro de nobres. Comportamento muito diferente tem os comerciantes burgueses, já que no comércio expressar-se extravagantemente é até mesmo uma qualidade à medida que isto chama a atenção dos clientes.

Então o que importava nesta sociedade era o valor de uma pessoa, e não o valor da conta bancária, o próprio dinheiro era um meio para se conseguir se inserir na corte, ele não era um fim, muitas vezes ascender socialmente em algum cargo da corte implicava perda de condições financeiras. O valor de uma pessoa é a medida de sua honra, ao ingressar no círculo dos nobres ela perde parte de suas características pessoais, mas ao mesmo tempo se distingue da imensa massa de pessoas sem privilégios que está fora da corte. Podemos notar que neste contexto, existe ainda uma preocupação muito grande com a opinião coletiva. A um nobre era preferível morrer a ver a honra da família desmoralizada, ou desprezada. A existência do indivíduo não está dissociada da existência do grupo, não valeria a pena viver sem estar inserido em uma rede de privilégios que caracteriza a nobreza. Outro parâmetro de comportamento vai ser trazido pelos burgueses iluministas, e pelos revolucionários, ou seja, do individualismo, o indivíduo será bem sucedido de acordo com suas capacidades individuais, independente da vontade de outras pessoas. Há uma separação nítida entre a esfera particular, a esfera pública e a esfera profissional no modelo burguês, tudo isto está misturado no modelo aristocrata, a lendária frase de Luís XIV “o Estado sou eu” tem de ser vista para além da aparente soberba do rei, de fato é difícil dizer nesta estrutura até onde vão os interesses do rei e do Estado, o Estado não é visto como algo autônomo, mas algo que depende da existência do rei e dos nobres para também existir. Enquanto para o nobre a honra é o seu orgulho pessoal, para o burguês a propriedade privada exerce esta função.

A família também exerce um papel profundamente importante nesta sociedade de corte, pois quanto maior for sua antiguidade genealógica como nobre, maiores são suas chances de prestígios. Pois equivale mostrar que desde a infância você teve uma educação adequada para um nobre, e que você tem aquele tipo de comportamento. Além de que havia certa recusa na aceitação de novas famílias no círculo da nobreza, pois a entrega de cargos importantes era feita com base na antiguidade da família na corte. Muitas famílias por vitórias militares se tornavam importantes e entravam nos círculos aristocráticos, e queriam passar instantaneamente na frente de outras na linha sucessória por causa disto, o que causava sempre muita confusão.

Ora, todas as relações entre os homens se convertiam em chances de prestígio nesta sociedade:

O nível social, o cargo herdado e a antiguidade da “casa”. Convertia-se em chances de prestígio o dinheiro que alguém possuía ou ganhava. O favorecimento do rei, a influência sobre a sua amante ou sobre os ministros, a participação em uma determinada “panelinha”, a liderança no exército o esprit, as boas maneiras, a beleza do rosto etc., tudo isso convertia-se em chance de prestígio8.

Saint-Simon dizia que na corte não interessava o que a coisa era, mas sim o que ela significava para determinadas pessoas. O modelo de sociedade burguês tende a coisificar, ou objetivar, as pessoas e as relações, a sociedade cortesã fazia o inverso personificava ao máximo as relações e até mesmo as coisas, pois interessava as pessoas e suas inter-relações. “No âmbito da etiqueta, eles não se reuniam ‘em função de uma coisa’”9. Interessava que cada indivíduo, e antes de todos o rei, tenha sua posição de prestígio legitimada pelos outros. A etiqueta, portanto, não é mera formalidade, mas obedece a uma rígida estrutura e a identidade coletiva e individual do cortesão.

Todo o ritual, e a etiqueta, que cerca uma corte não podem ser entendidos, portanto, conforme o exposto, em seu sentido prático, ou pragmatístico que geralmente atribuímos a todas as relações profissionais hoje em dia, estas relações são um fim em si mesmas, são o próprio sentido de ser. “Aquilo que é ‘racional’ depende sempre da estrutura da sociedade”10. A racionalidade industrial dá origem a uma coerção econômica, mas a racionalidade cortesã tenta em primeiro lugar tornar calculáveis as pessoas e as suas chances de prestígio.


Rei, prisioneiro da etiqueta

Por: João Vinícius


O rei talvez tenha uma situação um pouco melhor, pois se todos os outros nobres sofriam pressão de todos os lados, o rei era o único que não sofria pressão de cima, pois era ele quem estava no topo. No entanto, o rei também é prisioneiro da etiqueta, ele talvez mais do que todos os outros deveria mostrar porque era nobre. Quando alguém dentro da corte destoava do comportamento cortesão se dizia “ou ele é louco ou o rei não é nobre”11. Ou seja, permitir a ruína da nobreza, para o rei, é permitir a ruína de sua própria casa.

Sobre isto o próprio Luís XIV escreveu:
Estão enganados aqueles que imaginam tratar-se aí apenas de questões de cerimônia. Os povos sobre os quais reinamos, não podendo penetrar o fundo das coisas, pautam em geral seu julgamento pelo que vêem exteriormente, e o mais freqüentemente é pelas primazias e posições que medem seu respeito e sua obediência. Como é importante para o público ser governado apenas por um único, também é importante para ele que este que exerce essa função seja elevado de tal maneira acima dos outros que não haja ninguém que possa confundir ou compara-se com ele, e podemos, sem sermos injustos para com o corpo do Estado, retirar-lhe as menores marcas de superioridade que o distingue dos membros12.

Está aí o sentido da etiqueta para o próprio rei, não é simplesmente cerimônia, como ele mesmo diz, mas é algo que cumpre até mesmo com as formalidades aparentes que a própria sociedade exige, é preciso ver para crer. Além das aparências é preciso manter também a distância do povo. O rei não é mais um ser humano, por assim dizer, mas é a própria personificação do Estado, para cumprir este papel é preciso manter certa distância do povo, e também o luxo. Além da honra, que todos os nobres devem ter, o rei tem a glória e é ela que garante o seu prestígio máximo. Não somente tem o rei a legitimação civil como tem também a religiosa, o poder dele é formalmente absoluto. Ou seja, para o rei não é suficiente apenas exercer o poder, mas demonstrá-lo constantemente. Ele precisa ser o paradigma, ele é o primeiro de todos os nobres.

O rei também é quem mantém e regula as disputas entre os nobres. De certa forma o rei deve jogar os nobres uns contra os outros e anular assim as suas forças contra ele. Embora a mobilidade social na corte seja muito difícil de ser conseguida ela tem que permanecer como paradigma a ser buscado, é isto que motiva os nobres a disputarem entre si. Saint-Simon dizia que as festividades eram uma forma de punir ou bonificar publicamente os nobres, pois ali todos viam quem foi convidado e quem não foi. Além dos ciúmes, as invejas e os agrados cotidianos serviam de reguladores para o poder dos nobres, Saint-Simon dizia que ninguém sabia fazer isto melhor do que Luís XIV. A sagacidade de Luís XIV era tanta que ele mais beneficiava quem mais lhe devia favores e que sem ele nada seriam, é uma forma muito eficiente de dominação. Por isto Saint-Simon dizia que os preferidos eram observados mais de perto.

Neste contexto o rei assume características de um líder carismático, ele precisava ser a cola social da corte. As pessoas que ingressam na nobreza devem ter a sensação de estarem pertencendo a algo especial. Ao mesmo tempo elas devem ter o mesmo interesse, as ações deste seleto grupo têm que ser, em tese, a extensão da ação do rei, e esta tensão é canalizada para as chances de prestígio, ou seja, as disputas entre os nobres. Com o desejo dos nobres de ascender, e um disputando mutuamente com o outro este objetivo, eles acabam agindo como o rei deseja, pois é ele quem concede os benefícios, é ele a própria encarnação viva do grupo, e é ele quem determina de certa forma o padrão de comportamento que ele deseja. Seja do cargo mais alto ao mais baixo o rei precisa sempre estar pessoalmente intervindo, regulando as ações, e alimentando as disputas. No entanto, estas disputas têm que serem feitas na medida correta, pois fazê-las demasiadamente satura e convulsiona as instituições. Luís XIV não era um gênio inventivo e intelectual, mas sabia como ninguém a justa medida em conceder benefícios, alimentar disputas e monitorar seus súditos, enfim, sabia como administrar um Estado Absolutista de corte. Não é o que se percebe com seus sucessores, Nobert Elias diz que os demais soberanos não souberam fazer este jogo político e saturaram o Estado, de forma que ele estava praticamente insustentável na época da Revolução Francesa.

Mas não podemos esquecer que quanto maior for o poder do rei, maior é a corte que o cerca. E quanto maior for a corte, mais interesses o rei vai ter que satisfazer. Então, não podemos ver o rei como uma figura que “apenas manda” descompromissadamente, ele também sofre uma pressão muito forte por parte de todos os grupos que o cercam. Como não existe uma separação entre o privado, o público e o profissional, o rei tinha que cumprir com as normas de etiqueta sempre, sem folga alguma. Talvez nos seja inimaginável pensar a pressão que estas pessoas estavam submetidas todo o tempo. “Nada falta a um rei, salvo as delícias de uma vida privada”13. Vale lembrar que a vida do rei estava calculada nos mínimos detalhes, não havia um só momento em que ele não deixava de ser assistido. É por isto que o rei é também um prisioneiro da etiqueta, mas está numa posição diferenciada, já que todos os nobres sofriam pressões de todos os lados, e o rei não sofria pressão de cima, pois ele estava no topo da hierarquia. Além de equilibrar as tensões o rei também tem que ser um paradigma de nobreza a ser seguido, ele também é vigiado por todos os bajuladores e desejosos de ascender ao poder. Ele tem que ser um símbolo carismático que ligue toda a corte em torno de um interesse comum, e mais ainda, ele tem que cumprir com as expectativas populares, pois ele é o próprio Estado. Vemos quanto é complicado todo este complexo jogo que o rei tem fazer. Ele age como um jogador de xadrez que deve mover as peças de forma coerente, mas é evidente que ele não faz isto de forma arbitrária como só um deus poderia fazê-lo, ele também é pressionado por cada peça numa teia de interesses que somente com muito talento ele pode manipular. Cada jogada é pacientemente demorada e fria, o próprio jogador, no caso o rei, pode perder a partida por um movimento errado, pois muitos desejam estar em seu lugar. Não estamos falando de uma sociedade burguesa onde todas as funções estão muito bem divididas e são exercidas por diferentes cargos dentro de uma empresa onde o dono apenas assume também mais cargo, no mais das vezes, um cargo burocrático. O rei tinha que regular pessoalmente, ou ao menos simbolicamente, todos os nobres que viviam em sua corte, ao mesmo tempo em que ele também era regulado por todos os outros.


Sociogênese da Revolução

Por: João Vinícius


Nobert Elias faz um pequeno ensaio ao final de seu livro falando sobre as origens da Revolução Francesa. Para o autor, nos enganamos quando atribuímos apenas ao momento imediatamente anterior a Revolução as causas de sua gênese. Ele chama a atenção para o processo de democratização que vem surgindo desde o mercantilismo no século XVI, e com isto a conseqüente tomada de poder e importância por parte dos comerciantes burgueses, ou seja, devemos ver este fato como um processo de longa duração. A democratização não ocorreu abruptamente com a Revolução Francesa, ela foi um processo que já estava acontecendo lentamente há alguns séculos.

O que acontece é que vários grupos de burgueses entraram nos círculos da nobreza, acumularam influência e poder bastante para isto. A um burguês não bastava ter um poder social, mas também um nível social. A burguesia desejava se enobrecer. Mas a aristocracia, como já foi dito, não absorve instantaneamente estes novos grupos, muito pelo contrário, dificultam ao máximo o ingresso destes novos grupos no círculo cortesão, pelos motivos das chances de prestígio.

Como os mais altos cargos do governo pertenciam à aristocracia, além de grandes lotes de terra, a burguesia começou a ver a aristocracia, e o rei, seu representante máximo, como os principais responsáveis pelas condições que eles combatiam, os aristocratas eram responsáveis por impedirem a elevação dos lucros, o desenvolvimento do individualismo e da ascensão da burguesia a cargos governamentais. A utilização da violência era um monopólio do Estado, neste momento ainda aristocrático e cortesão, mas a burguesia também começou a se utilizar da violência para conquistarem os seus objetivos. Nobert Elias chama a atenção para um fato importante, a Revolução acabou, de fato, com muitos privilégios da maior parte da aristocracia do Ancien Régime, mas destruiu de forma muito mais radical e definitiva as camadas privilegiadas da burguesia que se beneficiavam com o antigo sistema.

Temos ainda que pintar neste quadro a saturação da corte, que aumentava de tamanho, ainda que lentamente, e com isto aumentavam também os jogos de interesses, que Luís XV e Luís XVI não tinham tanto talento de conduzir como Luís XIV. Também não eram feitas reformas na corte, pois uma reforma sempre beneficiaria uma parcela da nobreza e prejudicaria outra, e isto era inaceitável para os nobres que seriam lesados, ou seja, o sistema de corte tende para a imobilidade, enquanto a sociedade está em constante mudança. No final do século XVIII a pressão vinda de baixo era tão forte que não havia como a corte responder a tais expectativas tentando manter o velho modelo.

A burguesia se une às massas de grupos excluídos, não para partilharem com eles o poder, mas para conquistá-lo para si através do uso generalizado da violência. Neste contexto, Nobert Elias diz que existem três alternativas para os monopolistas detentores do poder tomar com relação aos grupos excluídos. A primeira seria a admissão institucional e regulada destes grupos no poder. A segunda seria fazer concessões a estes grupos, sobretudo, econômicas, mas sem acesso ao monopólio do poder central. A terceira é não admitir que as relações mudam e não alterar o sistema vigente. No caso francês, a aristocracia foi incapaz de fazer qualquer mudança, ou seja, foi pela terceira opção proposta na analise de Nobert Elias. Nestas condições, o uso da violência foi a escolha tomada por parte dos revolucionários, mudando assim definitivamente as forças de diversos quadros sociais e suas relações mútuas. Dentro do sistema de corte somente uma força externa e violenta poderia alterá-lo, já que por si só o sistema de corte tende a imobilidade.



Referências Bibliográficas
ELIAS, Nobert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte; tradução – Pedro Süssekind; prefácio – Roger Chartier. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
DUBY, Georges. A Sociedade Cavaleiresca; tradução – Telma Costa. Lisboa: Sanfil Ltda, 1989.
LANDURIE, Emmanuel Le Roy. Saint-Simon ou o sistema da Corte/ com colaboração de FITOU, Jean-François; tradução GUIMARÃES, Sérgio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

NATUREZA, CIÊNCIA E ARTE NA EUROPA DOS SÉCULOS XVII E XVIII

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
História Moderna II (Professor Severino Vicente da Silva)

Equipe:Mateus Simon,Taciane Martins,João Henrique Pinheiro,Pedro Lira




CIÊNCIA, NATUREZA E ARTE NA EUROPA DOS SÉCULOS XVII E XVIII


1. A construção da ciência européia: uma “Revolução científica”?

Ao ler os livros e manuais mais divulgados sobre a história da ciência européia nos séculos que nos propusemos a estudar, é comum encontrar o discurso que o século XVII teria alçado a prática científica a um novo patamar, causando uma verdadeira “Revolução científica”, modificando toda a estrutura mental da época, comumente chamada de “Era clássica” ou período Barroco. Essa “Revolução” seria devida às renovações na Astronomia após Nicolau Copérnico (1473-1543) ter defendido a teoria do heliocentrismo, a chamada “revolução copernicana” (Thomas Khun). A apropriação das descobertas de Copérnico por Galileu no início do XVII e essa “mudança de paradigma” seriam o início da ciência moderna, juntamente com o “racionalismo” cartesiano e o “emprismo” de Francis Bacon (1561 – 1626).

Essa teoria traz uma séria de problemas quando se considera, por exemplo, que essa ciência seria um paradigma único e constante no pensamento desse período, sendo quase que uma evolução natural, desde o pensamento “antropocêntrico” do Renascimento até a ciência do século XIX. Na verdade, esse tipo de esquema de explicação esquece os longos debates que ocorreram entre os intelectuais da época, as controvérsias, dificuldades e os aspectos mais duvidosos dessas teorias. O que se apresenta, na maioria das vezes, como bem alertou John Henry (1998), é uma decantação dos debates científicos da época, mostrando apenas o lado que teria “contribuído” para a “ciência moderna”, e para nosso próprio pensamento científico.

É desnecessário retomar como esse pensamento cai nos esquemas de uma teleologia e de um anacronismo, jogando nossas próprias concepções no passado. Além disso, ao ver a ciência como uma coisa homogênea, esquece que muitos dos ditos "progressos" da Era Clássica, não são em si próprios dessa época. Alexandre Koyré (1991) chamou atenção para o fato que algumas categorias que aplicamos à ciência moderna, como uma nova atenção ao conhecimento empírico, a aplicação da matemática, física e geometria à visão do cosmos (entendido como o mundo conhecido) e da lógica "racionalista" ao pensamento, não são específicas da idade moderna, mas ressurgem e se apagam ao longo da Baixa idade média e do Renascimento, com Nicolau de Cusa e Guilherme de Ockham na passagem do século XIII para o XIV, por exemplo. Por outro lado, contesta a idéia da "contribuição científica do Renascimento", mostrando como o ideal renascentista foi muito mais de retórica do que de ciência como hoje pensamos. Dessa forma, não seria possível traçar uma linha clara e uniforme ao longo desses séculos.

O trabalho de Michel Foucault (1992) também se contrapôs às freqüentes insistências de certa historiografia da ciência, insistindo ele nas rupturas epistemológicas entre o Renascimento, a Era Clássica e a "nossa Modernidade", que teria sido forjada no século XIX. Trocou o termo "ciência" pelo genérico "saberes", de forma a dar conta da especificidade dos conhecimentos da época, e fazendo uma análise com fortes tons estruturalistas (em torno do conceito de epistême) dos principais temas de cada um desses períodos.

Já o italiano Paolo Rossi fez um amplo trabalho documental, reconstituindo os debates científicos dede o Renascimento, mostrando a impossibilidade de se aplicar termos demasiado generalistas, como "os aristotélicos" ou "paradigma da ciência moderna", demonstrando como o que existiu foi uma pluralidade de caminhos, muitas vezes conflitantes, entre diversas correntes de pensamento, e que foram posteriormente, reformulados pela historiografia oitocentista. Paolo Rossi atentou para fatos interessantes, como o forte diálogo entre a ciência dos seiscentos e dos setecentos com a exegese bíblica, com a tradição hermética da alquimia e da astrologia, e com uma ciência especulativa, em torno de "outros mundos" possíveis, a partir da abertura da idéia de universo. Esses temas mostram os limites de se aplicar uma noção demasiado "racionalista" aos séculos que tratamos.

A intenção deste trabalho é, destarte, mostrar alguns dos temas que achamos interessantes de expor, e supõe alguns recortes. Primeiramente, destacaremos o papel da astronomia nos debates do período, personificados nas figuras de Galileu e de Isaac Newton; Eles exemplificam uma mudança na visão de cosmos e do lugar do homem no universo, operando o que Koyré chamou da passagem de um "universo fechado e hierarquizado", representado de uma forma genérica pelo modelo de Aristóteles e Ptolomeu (século I e II) para um "universo infinito e homogêneo". Por esse debate passam questões da física, da geometria e da matemática, mas também um forte diálogo com o pensamento astrológico. A segunda parte trata das ciências da natureza que posteriormente seriam agrupadas na "Biologia", mas que à época era conhecida como História Natural. Em torno dos debates sobre uma forma "científica" e "iluminada" de se conhecer o mundo natural, uma nova sensibilidade em relação à natureza se forma dentro das elites européias, e que se reflete também nas colônias, e que é um dos inícios do pensamento ecológico. Por fim, essa sensibilidade nova será mostrada a partir das artes, nas gravuras e pinturas das expedições científicas, que se tornam cada vez mais freqüentes no XVIII e no XIX, como resultado dos interesses dos Estados modernos e das próprias modificações nas ciências.

Pensar os intelectuais e os saberes nesse período é ter em mente, também, toda a reforma dos Estados absolutistas, que se colocam no projeto da formação de uma corte e de uma elite de funcionários estatais "esclarecidos", conhecedores das ciências naturais, das letras, do direito, da economia. Esses saberes que trabalharemos se desenvolvem à margem das universidades, concentrados em torno de Academias, Jardins botânicos e Herbários; fazem parte do movimento de construção das ciências como um instrumento do Estado, em torno de interesses concretos, mas também movimentam um discurso que versa como a difusão da "filosofia natural" e o interesse pelo funcionamento da natureza se constitui numa forma de aprimoramento moral, uma virtude necessária para o projeto de homem esclarecido do século XVIII. Por esse ponto de vista, é extremamente difícil delimitar entre esses intelectuais quais seriam propriamente "botânicos", "físicos" ou "matemáticos", posto que a especialização desses saberes se dá em grande medida no século XIX. O que se vê são pessoas interessadas no funcionamento da Natureza enquanto projeto de saber, agrupado de forma geral em torno da noção de "filosofia natural", como conhecimento amplo das vicissitudes humanas. Grande parte dessa tradição vai se desenrolar em uma elite preocupada na atuação em diversas áreas, como o aprimoramento da agricultura, a gestão econômica do estado, o manejo dos recursos naturais e finalmente na construção de um saber já embrionariamente "científico", no sentido de possuir uma linguagem própria, espaços específicos de pesquisa e atuação, e de métodos e objetos bem definidos. Nesse sentido, também tentaremos mostrar que somos de certa forma herdeiros desse emaranhado de conhecimentos, e de que forma eles chegaram até nós.


2. Galileu e seu tempo: começos do pensamento científico moderno.

Com esse escrito propomos a não fazer uma biografia do famoso cientista, mas divagar sobre as conseqüências de seus atos, bem como alguns aspectos específicos de sua vida. Afinal, existem muitas biografias que, por mais que sejam importantes, elas são limitadas a vida cotidiana do biografado. Com poucas exceções.
Parece que talvez nem Galileu Galilei soubesse de suas implicações quando propôs o seu sistema de linguagem matemática à natureza. Sempre tachada como um marco da superioridade da ciência européia para com o resto do mundo. Mas será mesmo isso? Antes de continuar por essa via, é necessário falar brevemente sobre Copérnico, para assim compreender a evolução do pensamento científico de Galilei na Europa do século XVII.

Copérnico, nascido na região da Polônia de hoje em 1473, se dedicou a vários seguimentos científicos como medicina, filosofia, astronomia e aprendeu grego e latim. Tornou-se eclesiástico e estudou a fundo o sistema Ptolomaico do cosmos. Não poderei reproduzir os cálculos matemáticos que o levaram a afirmar que, ao invés da terra imóvel no centro do sistema solar, ele propõe o sol. Escreveu um livro chamado “de revolutionibus orbium coelestium libri sex” onde expôs sua teoria em duas partes, uma discorrendo sobre um tratado trigonométrico e na segunda parte mostrando algumas provas de que a terra gira ao redor do sol.

Apesar de alguns amigos de Copérnico insistirem com ele para publicar suas idéias, o referido livro acima só foi publicado no final de sua vida. Apesar de ter apoio mesmo dentro da igreja, ele tinha certo receio de publicá-las e ser queimado na fogueira. De fato, a sua afirmação que o sistema é heliocêntrico, não agitou a classe conservadora da inquisição. Mas só o foi quando Giordano Bruno (1548 -1600), que adotou e propagou suas idéias em várias cidades, assim como incorporou outras idéias, provavelmente vindas da China, sobre um espaço sideral vazio e infinito com outros planetas, as idéias de Copérnico tornaram-se perigosas. Alguns dizem que Giordano Bruno não era um matemático, ou então entendia pouca coisa sobre os cálculos astronômicos, mas o fato dele ter sido queimado, pouco tem haver com sua inteligência a este respeito, mas muito mais por ter propagado idéias que feriam as santas escrituras assim como a autoridade da igreja católica.

O fato é que Copérnico, apesar de ter sido um grande astrônomo, não revolucionou a astronomia pondo o sol no lugar da terra. Pois, ele utilizara os mesmos conceitos Ptolomaicos de séculos atrás para justificar a sua idéia. Ou seja, ele ainda acreditava em um sistema finito, perfeitamente esférico, onde o sol com sua natureza divina, deveria ficar no centro e irradiar igualmente seus raios para todos os planetas. Assim, dirá Thomas Kuhn que “o movimento da terra fora simplesmente transferido para o sol”.

Mesmo que não atribuamos esse fato como uma grande revolução, de fato, é uma mudança que terá em Galileu Galilei uma espécie de plataforma, para continuar as idéias de Copérnico até prová-las como sendo verdadeiras em um outro tipo de linguagem.
Mas nem sempre Galileu Galilei usou uma linguagem diferente da tradicional da época (Bíblia). Antes de lançar as bases de uma outra visão ligada à natureza, ele tentou, sem sucesso, espelhar as suas descobertas nas santas escrituras. Ele queria justificar suas conclusões sobre o heliocentrismo através das falas e salmos do evangelho, onde também havia interpretações para o sistema Ptolomaico da terra sendo imóvel e no centro. Enfim, com a criação da luneta em 1608 por Zacharias Jassem, Galileu se anima e prontamente constrói o seu sem, mesmo ter um modelo em mãos, apenas por descrições orais. Não há como negar o seu gênio, e após construir sua luneta de aumento 3x e apontá-la para o céu, descobrindo que não tinha grande nitidez, constrói o primeiro telescópio com um aumente de 30x. É com ele que Galileu incrementa as suas observações e faz cálculos mais aproximados que aqueles de Copérnico, e vê que as escrituras estavam erradas.

Tendo também amigos eclesiásticos, Galileu apresenta ao vaticano suas intenções sobre o sistema heliocêntrico, que é reprovado por um certo cardeal de nome Belarmindo. Na igreja da época existiam basicamente dois segmentos: um mais fechado e radical cujo este cardeal fazia parte e outra mais aberta. Quando Galileu esteve em Roma e apresentou o telescópio aos sacerdotes, foram vários os eclesiásticos que se negaram piamente a verem o céu com aquele instrumento. Alegando que se Aristóteles disse que o sistema solar era de um jeito, não haveria necessidade de olhar para o céu. E se não fosse igual ao que Aristóteles dissera, então, o que se vê só poderia ser um engano.

É somente após a morte de Belarmino e do papa da época, Paulo V que Galileu se viu numa nova oportunidade de mostrar os seus trabalhos ao novo papa, Urbano VIII. Nesse ínterim, Galileu escreve obras que enaltecem a igreja católica afirmando sua superioridade, talvez, se nos permitem especular, para angariar a simpatia do novo papa. Ou como o Rossi escreve: “Os cientistas modernos, Galileu em primeiro lugar, agem com uma desenvoltura e um oportunismo metodológico que são totalmente desconhecidos da tradição medieval.”

É precisamente neste momento por volta de 1623, em que Galileu vai ao vaticano e apresenta a sua teoria revolucionaria no livro il saggiatore. Com a dedicação ao papa Urbano VIII e sua devida aprovação, passa despercebida a idéia que ira agitar a Europa nos anos posteriores. Apesar de ser citada a obra “dialogo sopra i due massimi sistemi Del mondo, tolemaico e copernicano” ou simplesmente “diálogos”, como a que mais chamou atenção na época, ele foi apenas a causa de sua condenação, por motivos óbvios.

Depois da entrevista com o papa Urbano VIII, que lhe concede a autorização para estudar as teorias de Copérnico, Galileu escreve “diálogos”, uma obra de caráter popular (em língua italiana e não latim como era comum em obras científicas) falando sobre as duas teorias vigentes. A saber: geocêntrica e heliocêntrica. Ainda que seja de língua popular, a obra é carregada de simbolismos que de certa forma ridicularizam a visão da igreja e enaltecem a teoria heliocêntrica.

Vejamos: a obra é uma longa discursão de três personagens sobre o sistema solar. Eis os personagens:
• Salviati: propaga as idéias de Copérnico
• Sagredo: é um observador neutro
• Simplicius: representa as idéias da igreja católica

Logo no princípio Salviati conquista a simpatia de Sagredo que juntos irão ridicularizar as idéias de Simplicius até o fim do livro. Evidentemente, que ao ler a obra, o papa Urbano VIII se sente traído, e a inquisição manda chamar Galileu para ir a Roma ser julgado. Alegando que estava doente e velho não poderia comparecer, até que foi ameaçado ser levado a força amarrado até com correntes, ele foi. Lá, foi julgado por ter propagado idéias heréticas e condenado a nunca mais defendê-las e forçado a exilar-se. No exílio, Galileu continua o seu trabalho em astronomia, chega a ficar cego, mas consegue ainda produzir um último livro chamado “discurso a respeito de duas novas ciências”, antes de sua morte em 1642.

Seu legado é grande: contribuiu para a teoria do heliocentrismo, lançou as bases do conceito da inércia, descobriu manchas no sol, escreveu um tratado sobre a aceleração dos corpos em queda livre, além de ter descoberto que a lua não era uma esfera perfeita e lisa como dissera a igreja e Aristóteles, mas levemente arredondada e cheia de crateras vista através da luneta, embora tal afirmação pudesse ter levado a pensar que todos os planetas seriam assim.

A maior contribuição que Galileu legou a posteridade foi ter dado uma linguagem matemática à natureza. Isso terá serias implicações, que, talvez nem o próprio Galileu e a igreja tivessem se dado conta. Pois essa será um dos prenúncios da decadência da igreja católica nos séculos posteriores.
Apesar de ser o precursor da Ciência Moderna, Galileu Galilei acreditava piamente em deus e nas santas escrituras. Ele não ousava dizer que eram mentiras as palavras escritas na bíblia, mas dizia que os homens poderiam enganar-se facilmente e levar-se a conclusões errôneas no que diz respeito as Ciências Naturais, pelas diversas traduções que a bíblia teve.

No livro, il saggiatore, Galileu Galilei estabelece que há duas linguagens pela quão o ser supremo se expressou. Uma, foi através das santas escrituras para ser dada aos homens e a outra através das ‘leis’ que regem a natureza. Por que será tão impressionante este fato? Primeiro que, se observamos bem, o conteúdo da linguagem das escrituras não são as mesmas da natureza. Pode até existir um paralelo na astronomia, mas a grosso modo, falam de assuntos divergentes. Com isso, Galileu diz nas entre linhas, que existem duas explicações para um fato natural: a religiosa tida por como “...ser reservada em último lugar” em uma discussão (palavras do próprio Galileu) e a outra através da linguagem matemática para desvendar o grande livro da natureza. Sem perceber o papa Urbano VIII deixa que exista duas linguagens para explicação de um fato, e quando essas duas visões se chocam, qual seria a vencedora? Algumas décadas depois, o que terá é a linguagem da bíblia entrando em grande decadência e a linguagem da natureza com as leis físicas em franca ascendência.

Mas, primeiro, falaremos mais sobre essa linguagem das escrituras. O verbo é algo susceptível às mais variadas interpretações. A linguagem não é exata, ela pode modificar-se ao longo do tempo, pode entrar em desuso ou mesmo assumir outros significados, vide Marcos Bagno. Quando o ser supremo ditou as palavras da santa escritura e depois foi passada de tradução em tradução, Galileu acreditou que os homens poderiam ter errado em uma dessas traduções, ou mesmo posto o seu ponto de vista neles. É por isso, que quando Galileu Galilei vai a Roma alertar o papa Paulo V sobre um pequeno erro nas santas escrituras, para que a igreja não se contradissesse, sobre um erro no que concerne ao sistema solar geocêntrico, ele é repreendido. Um erro humano de interpretação por certo, jamais um erro divino! Afinal, Galileu acreditava nas escrituras.

Então, com a certeza de que a terra girava ao redor do sol, através de suas observações, constatando a olho nu e pelos cálculos matemáticos, ele supôs que essa outra linguagem poderia ser uma outra forma de expressão das leis do divino. Em suas palavras, a natureza é “inexorável e imutável e não importa que as suas razões e os seus modos sejam expostos ou não a capacidade dos homens”. Essa nova maneira de ver o mundo, irá ser o embrião da Ciência Moderna, pois, algo para ser verdade terá que passar pelo crivo da matemática, da observação, do racional e não mais nas santas escrituras ou das lógicas sacerdotais. Agora a verdade não dependera da religião, e sim da matemática. Tal linguagem universal e imutável, pois os cálculos não metem, as pessoas é que podem errar e enganar-se com os números; mas em si, a matemática era a chave para descobrir as relações de deus através da observação da natureza.
Uma das citações mais importante de Galileu, talvez a que melhor defina essa nova visão de mundo revolucionaria, que aconteceu na Europa do século XVII, seja: “que as escrituras não deve se meter em outra coisa a não ser nos assuntos que concernentes a fé”. Em outras palavras, as verdades naturais só são possíveis de serem desvendadas através de cálculos matemáticos ou da observação e experimentação, e não mais da bíblia. Agora, as escrituras não servem para ser o juiz do verdadeiro e do falso, esse trabalho será dado pela Ciência Moderna.

Há outra implicação nesse raciocino. A linguagem da matemática não seria acessível a todos, desde camponeses até os eclesiásticos. Ela ficaria restrita aos eruditos católicos ou não, mas o importante é que ela seria para poucas pessoas. É muito mais fácil aprender a ler em latim do que resolver problemas matemáticos em relação aos movimentos celestes. Isso é tirar o poder de grande parte da classe sacerdotal que detinha o poder do verbo. Se agora a verdade está nas matemáticas da natureza, e quem domina essa faculdade são poucos, o poder da igreja se restringe mais. Será tantos cálculos, que mesmo um sacerdote matemático que os compreendessem, seria levado a crer no que os números diziam. Tempos depois a verdade estará nas mãos dos cientistas.

Apesar de ter revolucionado a visão de mundo, a Ciência Moderna ou a matematização da natureza, por si só não explicaria esse grande domínio que a Ciência exerceu no mundo. É preciso lembrar que a industrialização e os pensamentos novos da Revolução Francesa, impulsionados pela dominação dos povos, ajudaram a difundir esta idéia de Ciência da Europa para o resto do mundo. Fazendo com que, todas as outras concepções científicas, a exemplo da China, fossem atrasadas e ridicularizadas. Se não houvesse essa dupla revolução, a ciência moderna, talvez não se consolidasse tanto assim.
Enfim, a ciência moderna não nasceu da industrialização, (uniu-se a ela posteriormente) mas da imposição religiosa muito rigorosa sobre o mundo natural, fazendo com que os homens como Galileu, Copérnico, Kepler pouco a pouco elaborassem um conhecimento cada vez mais distante da visão radical da religião católica, que governou a Europa durante toda a Idade Média. Talvez se o catolicismo tivesse sido mais flexível e tentasse abarcar esses pensamentos contrários às escrituras, não assistiríamos o nascimento de uma linguagem tão opositora, como a explicação em bases matemáticas.

Pode até parecer contraditório que Galileu Galilei, acreditando em Deus e nas sagradas escrituras, pudesse desenvolver uma ruptura na concepção de mundo dos católicos. Mas, como já me referi acima, Galileu não sabia que as suas idéias dariam em uma ruptura tão radical da religião e da ciência, ou que o método científico seria a única explicação válida para os homens nas décadas posteriores. Assim, se antigamente havia relâmpagos porque deus estava em fúria, agora será “ Os relâmpagos consistem de uma descarga elétrica transiente de elevada corrente elétrica através da atmosfera. Essa descarga é conseqüência das cargas elétricas acumuladas, em geral, nas nuvens Cumulonimbus e ocorre quando o campo elétrico excede localmente o isolamento dielétrico do ar.”

2. A filosofia mecanicista.

Os séculos XVII e XVIII, como vimos acima, foram marcados por profundas mudanças na estrutura filosófica do pensamento. Neste ponto, analisaremos os continuadores da tradição galileana que, de certa maneira propagaram algumas de suas idéias-chave e as tornaram paradigma dominante (mas não unívoco) no pensamento europeu da época. Os teóricos iluministas começaram a introduzir o pensamento científico e gradualmente vamos chegando a noção científica que conhecemos hoje. Grandes pensadores vão complementando os raciocínios anteriores e ao mesmo tempo rompendo os paradigmas impostos pela tradição do tempo. É com a Filosofia Mecanicista que o mundo começa a sair da especulação partindo para um empirismo, tão necessário na revolução industrial.

Não diríamos que ela surgiu, pois sabemos que em tudo há um processo e, neste caso, parece que a antiga e tradicional “Filosofia Natural Escolástica” não satisfazia mais os interesses científicos que, muitas vezes, estavam atrelados interesses aos econômicos. Então os “revolucionários” deste período Iluminista iniciaram o longo processo de troca de mentalidades, que culminaria praticamente nas equações de Newton, posteriormente utilizadas para grandes máquinas dos séculos XVIII e XIX.

As mudanças prevaleceram como crítica ao antigo mundo físico de Aristóteles. Pensadores como Galileu, Copérnico, Kepler, entre outros, vieram para dar uma base aos pensadores desse momento. Renée Descartes, principal teórico mecanicista Francês, rompeu definitivamente os laços que os uniam aos pensamentos aristotélicos e às visões ptolomaicas do universo. O mundo físico foi alterado drasticamente para essas elites de pensadores: a propagação da luz à geração dos animais, da pneumática à respiração, da química à astronomia. Os pensamentos medievais aos poucos eram substituídos.

Dentre as características que podemos citar desses estudos filosóficos dos séculos do Iluminismo poderíamos citar:

• Explicações baseadas em conceitos matemáticos.
• Analogia da vida com o “Maquinismo”.
• Exclusão da intervenção teológica nos estudos.
• Distinções das verdadeiras propriedades do corpo(como tamanho e forma, movimento ou repouso).

A matemática entraria como um arcabouço teórico-prático para comprovação dos estudos. O convívio com as fórmulas matemáticas começou a fazer os pensadores acreditar que o mundo em que vivemos é uma eterna e perfeita equação. A busca pela “equação perfeita” ou “equação primordial” moveu os pensadores daquele período e a idéia de “Maquinismo” adentrou perfeitamente na concepção de mundo que se esperava. O mundo poderia ser quantificado matematicamente e desse modo haveria uma organização primordial. Como as incógnitas de uma equação ou as engrenagens de um relógio, a natureza funcionaria de uma forma extremamente complexa e perfeita. Regida por fórmulas matemáticas reais e possíveis de serem alcançadas. Uma das grandes mudanças que esse pensamento acarretou, foi a nova visão do homem perante o seu corpo. O corpo não é um mero instrumento da Alma, ele começa a perceber que o seu corpo é uma máquina extremamente perfeita que não funciona simplesmente porque Deus quer, mas sim porque há uma série de mecanismos que o fazem agir e interagir com o meio.

Tais avanços da teoria mecanicista não poderiam deixar de se confrontarem com os valores morais impostos pela Igreja. Pouco antes desse período, pensadores como Galileu e Copérnico foram obrigados a esconder seus estudos e preservarem a sua vida em detrimento da publicação dos seus estudos. Entretanto, os avanços liberais e burgueses dos séculos XVII e XVIII permitiram uma maior manifestação científica. Abrindo as portas para os conhecimentos tão sonhados que outrora foram queimados nas mentes e corpos de pensadores como Giordano Bruno.

O pensamento aristotélico que vinha sendo poderosamente enraizado na cultura européia desde a Idade Média é rompido, como dito anteriormente, e essa ruptura é causada pela incompatibilidade dos estudos aristotélicos com as necessidades científicas desta época. As propriedades da matéria começam a serem vistas de outra forma. Tamanho, forma, movimento ou repouso, tornam-se os conceitos fundamentais para se conceber a matéria como matéria. Já os antigos ensinamentos de Aristóteles funcionam como uma descrição totalmente secundária. No caso, as definições de gosto, cor, odor, calor ou frieza tornaram-se meros objetos de distinção da matéria.

Essas novas definições do Corpo, também estavam atreladas ao avanço do pensamento relativo ao “átomo”. Uma saraivada de pensadores iluministas retomaram as filosofias dos Gregos Epícuro e Demócrates, em especial Gassendi. Para eles os átomos seriam um novo universo que surgia aos nossos olhos, uma realidade paralela onde as leis e ordens seriam um caos em nosso mundo. Muitos dos “defeitos” do nosso mundo seriam explicados por esses “átomos”. Os átomos surgem como uma iluminação da antiga obscuridade da matéria. Deus, agora é a intervenção de pequenas partículas no nosso cotidiano; os átomos tornam-se definitivamente a parte fundamental da estrutura da matéria.

René Descartes termina sistematizando o método ideal. Em seu sistema a matemática aparece como instrumento fundamental dos amigos do saber. A geometria aparece para explicar o cotidiano e até as leis do universo. O heliocentrismo de Copérnico era fenomenal e já havia convencido boa parte dos iluministas, entretanto, sua teoria era inacabada, pois não explicava o funcionamento dos astros. Os pensamentos baseados na dedução(que era um dos pontos extremamente contraditórios de Descartes, pois ele pregava o empirismo e a matematização, porém suas conclusões eram obtidas por métodos dedutivos matematicamente) tentaram explicar o universo através do “vórtice”. Esse vórtice provaria o porquê dos movimentos dos astros ao redor do sol. As suas teorias foram aceitadas por várias e várias décadas, até que um Inglês chamado Isaac Newton viesse aplicar definitivamente os conceitos mecanicistas. O mundo de Newton era o mundo que a filosofia mecanicista tanto sonhara, era um lugar matemático(como o de Descartes) e ao mesmo tempo poderia ser sempre provado e calculado(como as teorias da Gravidade, Inércia e Ação e Reação de Newton). O mundo científico caminhava para uma reviravolta nas suas aplicabilidades que seriam assistidas de perto pela população européia, que veria o “boom” do século XIX aflorar com a revolução industrial e as suas invenções.

Em outro sentido, desenvolvia-se dentro desses círculos de sábios “iluminados” um culto cada vez mais freqüente à práticas de observação e classificação da Natureza, que depois seriam reagrupados na Biologia, a ciência da vida. Nessa época, no entanto, essas práticas eram agrupadas em torno da chamada História Natural, nome que remontava à Antigüidade, mais especificamente à Plínio (séc. II-I AC.). Essa outra vertente do pensamento científico compartilha com o mecanicismo o fato de se pautar numa idéia da ordem geral do cosmos, como entidade compreensível, subdivisível e, portanto, classificável. Compartilha essas idéias dos astrônomos, mas lhes dão um sentido próprio, como veremos abaixo.


4. A História Natural e as novas sensibilidades frente à natureza no século XVII e XVIII.


O desenvolvimento da História Natural na Era Clássica ilustra uma série de questões da história da ciência. O conhecimento sobre o mundo natural não havia sido modificado, no essencial, desde as contribuições de Aristóteles à botânica e zoologia, que estabeleceu os primeiros critérios gerais de classificação dos seres naturais. Esse conhecimento foi mantido pelos sábios helenistas e pelos herbários da Idade Média, cujo marco é Discórides de Anazarbus, ainda no primeiro éculo depois de Cristo, que escreveu De Materia Medica, livro que circulou por todo o medievo, nos mosteiros em especial, e que marcada as utilizações medicinais das ervas européias. Esse conhecimento não foi especialmente modificado até a chegada dos árabes na península ibérica, que p4ossuíam uma ampla prática de aclimatação de plantas e de manejo agrícola em geral.

No período do renascimento, sob o impulso da imprensa e da descoberta das novas terras no além-mar, há uma profusão de bestiários, catálogos botânicos e manuais sobre a natureza. O conhecimento do mundo natural estava profundamente ligado ao emprego medicinal e mágico das plantas, bem como à coleção infindável de informações do mundo. O mundo era visto, segundo Foucault, como uma infindável rede de palavras e de símbolos, a ser decifrada e reunida. Nesse sentido, havia uma grande crença na influência dos astros na ação das plantas medicinais, das propriedades alquímicas das ervas e no papel simbólico exercido pelos animais. Livros como De rerum monstruorum historia de Ulisse Aldrovandi, o principal marco desse período, além de um amplo espaço para os dragões, unicórnios e sereias, incluem sempre na descrição dos animais suas referências na literatura clássica, os usos desses animais na heráldica, suas propriedades mágicas e simbólicas, além do seu habitat, seus hábitos alimentares, a forma de caçá-los, como cozinhá-los. Ou seja, uma enumeração exaustiva de todos os conhecimentos produzidos sobre tal ou qual animal. Paralelamente a isso, estava presente a idéia da “Grande cadeia do ser”, de origem mágico-religiosa. Nessa concepção, toda a criação estava interligada, numa hierarquia dos seres inferiores até a humanidade, e todo esse universo se relacionava com o modelo de perfeição, ou seja, o mundo supralunar de Aristóteles, o firmamento, havendo, segundo tradição neoplatônica, um reflexo do “de cima” no “de baixo".

Fora da cultura impressa da época, se desenvolvia uma íntima relação entre as comunidades rurais européias e a natureza. Keith Thomas (19xx) mostrou que esse conhecimento “popular”, na Inglaterra, via na natureza um espelho do homem, cheio de simbologias religiosas, de augúrios, de reminiscências pagãs. Essas comunidades possuíam complexos sistemas de classificação do mundo natural, em geral indicando os usos medicinais, as plantas com propriedades mágicas, os venenos, os animais que traziam maus presságios. É contra essa visão “antropocêntrica”, utilitarista, simbólica e religiosa da natureza que se posicionaram os praticantes da História Natural no século XVIII. Apesar de muitos naturalistas basearem-se nos conhecimentos populares, logo vão se distanciar dos “erros vulgares” e constituir uma ciência pautada apenas no conhecimento interno da natureza.

Ao longo da Era Clássica acontece, entre vários intelectuais europeus, uma discussão em torno da linguagem e de suas dificuldades em representar a realidade, ricamente documentada por Paolo Rossi. Segundo diversos desses autores, as “línguas naturais” (dadas ao homem por Deus), retomando o mito de Babel, seria uma forma de criar discórdia e incompreensão. Além disso, a língua escrita teria o empecilho de não representar diretamente a realidade, mas faze-lo mediante conceitos que não são universalmente aceitos. A partir dessa constatação, vão surgir diversas tentativas de se criar uma linguagem artificial, universal e que possa abarcar de forma simples e facilmente memorizável toda a realidade. Cogitou-se o exemplo dos hieróglifos, dos ideogramas chineses ou mesmo do hebraico (linguagem divina, segundo os cabalistas e os rosa-cruzes da época), depois a álgebra e a linguagem lógica. Dessa forma, se criou entre “sábios” de diversos locais a idéia de uma comunidade internacional em torno do conhecimento, falando uma língua em comum e intercambiando experiências. Esse projeto também se ligava desde meados do século XVII à construção de uma Encyclopaedia dos saberes, devidamente ordenados e classificados, e ao projeto de se construir um conhecimento universal, impossível de ser memorizável por um só indivíduo, e, portanto, a uma mnemônica ou uma arte da memória.

É nesse espírito que a História Natural vai se dedicar a estabelecer uma nomeclatura universal do mundo mineral, vegetal e animal. Entre os precursores da taxionomia podem ser lembrados John Ray (1627 - 1705), na Inglaterra, e Tournefort (1626 – 1705), na França. O último foi um influente botanista do Jardin do Roi, realizando um extenso catálogo de plantas em território Francês. A escola Francesa, em torno do Jardin do Roi (fundado em 1626), teve célebres representantes, como Michel Adanson (1727 – 1806) e A.L de Jussieu (1748 – 1836). Durante a administração colbertiana, o Jardin agregou uma série de pesquisas e publicações, o que demonstra o interesse do estado absolutista de Luís XIV no estímulo ao conhecimento do mundo natural, como estratégia econômica, essencialmente. Esse período, nesse sentido, vai abundar de experiências de aclimatação de vegetais, especificamente especiarias e plantas úteis aos interesses mercantilistas, e, posteriormente, fisiocráticos. Plantas como o tabaco, a cana-de-açúcar e o café serão alvo de uma série de tentativas de melhoramentos genéticos e aclimatações, e naturalistas se dirigirão a todas as localidades do mundo em missão de reconhecer vegetais rentáveis ao Estado.

O auge da taxionomia é representado na figura emblemática de Carl von Linné, naturalista sueco que criou o sistema de nomeclatura utilizado até hoje pelas ciências naturais. Lineu (como também era conhecido) era um admirador florístico, que durante toda sua vida ocupou-se de herbários e jardins botânicos. Em seus estudos, realizou uma série de viagens para diversas academias européias, onde provavelmente entrou em contato com as idéias de classificação de Tournefort e dos demais naturalistas. Ao regressar, ocupou-se de encontrar uma forma de reconhecer, a partir de caracteres visíveis, os gêneros das plantas. Em 1735 escreveu o Systema Naturae e em 1736 publicou o Fundamenta Botânica, nos quais dividiu as espécies segundo certas características – os órgãos reprodutores, no caso das plantas – e nomeou-as segundo os critérios de gênero e família, criando uma nomeclatura binomial em latim. Pela praticidade, o sistema tornou-se mundialmente conhecido e, a partir daí tornou-se imprescindível à formação de botânicos. Seus estudantes viajaram para diversas localidades em expedições de reconhecimento pela Ásia, América e África, participando inclusive da circunavegação do globo pelo capitão Cook. Produziu livros e manuais de baixo custo, como o Philosophia Botânica, ensinando como se criar herbários domésticos, catálogos de classificação, instrumental de campo, e como aplicar a nomeclatura para espécimes desconhecidos. Por outro lado, Lneu acreditava ter criado um sistema de classificação que representasse perfeitamente a criação de Deus. Nesse sentido, era partidário das idéias de uma natureza perfeita e imutável, completamente contrária ao conceito de evolução.

Outro marco do pensamento sobre a natureza da época foi o naturalista Georges Le Clerc, o conde de Buffon (1707 -1788), ligado também ao Jardin do Roi, que não acreditava em um sistema possível de classificação do mundo natural. Advogava a idéia de um reconhecimento metódico e gradual da natureza, muito próximo do método de conhecimento cartesiano. Defendeu uma série de idéias acerca da influência dos climas e da geografia na natureza, inclusive colocando que a natureza das Américas seria “imatura” e “inferior” ao velho mundo. Escreveu, entre 1749 e 1788, sua História Natural, geral e particular, com descrições de diversas espécies da fauna e da flora mundiais, em 36 volumes, ricamente ilustrados. Foi um dos primeiros a creditar a idéia de natureza em movimento, defendendo as primeiras idéias de evolução e a se contrapor a dogmas da igreja, que defendia que a terra teria 6.000 anos de existência. Isso demonstra não uma genialidade única, mas como certas idéias em curso no desenvolvimento das ciências da terra, em toda Europa, estavam circulando por pessoas das mais diversas especialidades.

Apesar de parecer questões extremamente específicas e técnicas da História das Ciências, todos os fatos acima citados causaram uma imensa repercussão na Europa e até nas Américas, especialmente em função de serem cada vez mais valorizadas na formação de pensadores e administradores das monarquias absolutistas. Se é verdade que a ciência natural se distanciou de uma visão de uma cumplicidade entre o homem e a natureza, como mostrou Keith Thomas, por outro lado a descoberta do funcionamento intrínseco do mundo natural causou uma ampla repercussão nas sensibilidades das altas classes européias em relação às florestas e aos animais. Assiste-se a um imensa preocupação na construção de parques, jardins, zoológicos, locais de preservação, e uma revalorização da imagem do mundo selvagem ou semi-domesticado na mente européia. Por outro lado, a atenção dada pelos naturalistas mais empíricos na fisiologia dos vegetais e na aplicação da física às plantas, unido ao esforço dos administradores agrícolas da fisiocracia, fez com que a antiga “Teoria do Dessecamento” voltasse à pauta do dia. Remontando à Antigüidade, esse pensamento cria que, devastadas as florestas e esgotados os solos, pela agricultura imprevidente, toda a mecânica que mantinha a “ordem natural” seria desfeita, o que culminaria na transformação do mundo em um grande deserto. Essa idéia está próxima também do “Sistema” e da “Economia” da Natureza defendidos por Lineu, no tocante à noção da utilidade de cada espécie dentro do plano da criação, e também das idéias de Buffon que revogavam um papel essencial ao meio na explicação da humanidade. Está aparentada também com a chamada “Teoria dos climas”, defendida por Montesquieu no Espírito das Leis (1748), que explicava o comportamento humano e a desigualdade entre as sociedades a partir do clima e do meio ambiente em geral.

Essas idéias repercutiram na formação de uma crítica do sistema de exploração colonial como vinha sendo feito. Esta foi propagada principalmente pelo reformador iluminista Domenico Vandelli (1735 – 1816), correspondente de Lineu e contratado do Marquês de Pombal para realizar a remodelação da Universidade de Coimbra. A partir de sua influência, amplamente embasada nos modelos da História Natural discutidos anteriormente, se difundiu entre uma série de intelectuais das colônias européias uma crítica ferrenha do modelo colonial, que se utilizava basicamente de uma explicação “ambiental” para realizar sua crítica. Esse pensamento teve entre seus defensores mais famosos o estadista José Bonifácio, mas entre outros podem ser citados o médico Manuel de Arruda Câmara e o abolicionista Joaquim Nabuco, nos quais ecoaram essas idéias difundidas em Coimbra.

Dessa forma, podemos concluir que a História da Ciência mostra sua real importância quando relacionada com outros níveis da explicação histórica, mostrando seus contatos com a sociedade e a política, além da ampla gama das “mentalidades”. Outro exemplo desse diálogo imprescindível é a relação que a arte vai estabelecer com a paisagem e com a representação da natureza. Participando dessa nova “sensibilidade”, os pintores holandeses já no século XVII participaram ativamente da criação de uma identidade para as terras atlânticas que viriam a ser chamadas de “Brasil”, e demonstram como uma série de idéias sobre a natureza transitavam nas mentes européias da época.


5. As Artes e as representações da natureza: Os Viajantes e suas Representações artísticas do Brasil no século XVII


Para a construção de uma verdadeira identidade visual brasileira os viajantes que aqui aportaram nos séculos XVI e XVII foram fundamentais. O registro artístico in loco supera o valor, no que tange a formação da identidade visual, das produções pintadas na Europa tendo como tema a América. Esses estrangeiros foram extremamente necessários para essa construção devido à falta de artistas locais e, além disso, eram de fato talentosos, pois quase sempre estavam a serviço de alguma companhia ou de alguma coroa européia que tentava levar para a sua metrópole visões dessas novas terras em processo de conquista.

Com uma visão de fora parar dentro, a Europa imprime a sua visão de mundo “em expansão” nas suas produções artísticas decorrentes das conquistas dos novos mundos. A imagem que chega à metrópole sobre as suas conquistas é sempre fragmentada e dividida entre vários artistas o que faz com que a identidade visual, como imagem, do novo mundo seja a formação de várias produções de diferentes pessoas a cerca da mesma região. É importante lembrar mais uma vez que a arte é um campo livre e a criação em cima do real é amplamente vista e não registra o tema a ser retratado em si, mas sim uma visão pessoal deste.

É interessante notar que essa questão da Europa conhecer novos lugares e ampliar os seus domínios ao redor do mundo lembra a narrativa da odisséia de Ulisses, o que Ítalo Calvino define bem: “a memória só importa realmente – para os indivíduos, para a coletividade, para a civilização – se ligar a impressão do passado com o projeto do futuro, se nos possibilitar agir sem esquecer o que queríamos fazer, tornar-se sem deixar de ser, e ser sem deixar de tornar-se". Era por um processo parecido por qual passavam algumas metrópoles e especialmente Portugal, que como já escreveu Gilberto Freyre, era uma mistura muito forte de valores dos povos dominados, mas não deixavam de ser lusitanos em sua essência.

As primeiras produções artísticas verdadeiramente baseadas em uma visão in loco das Américas foram algumas gravuras que acompanhavam as cartas de Vespúcio disponibilizadas para a população letrada européia na forma de folhetim. Sempre essas primeiras representações tratavam de temas relacionados com os habitantes já residentes no novo continente. Com a descoberta de novas tribos e o conhecimento de algumas que mantinham práticas canibais logo se criou na Europa uma forte dicotomia no imaginário da população sobre esses habitantes: o bom selvagem e o terrível devorador de homens. Uma grande contribuição com a formação dessa dicotomia foi Hans Staden, que tendo sido capturado por uma tribo tupinambá antropofágica e conseguido se safar, ao chegar à Europa escreveu um livro com várias ilustrações com um tom bastante aventuresco contando com detalhes o dia-a-dia da aldeia em que fora aprisionado.

Os portugueses sempre tiveram uma preocupação bastante prática sobre a sua produção artística e técnica do novo mundo. Havia entre eles em grande número de levantamentos topográficos voltados para a realização de mapas, estudos das espécies da fauna e flora, textos descritivos, etc. Com a Invasão holandesa de Pernambuco, foi vista uma enorme mudança no número e na qualidade das produções artísticas. Os holandeses contrataram artistas já renomados na Europa e de técnicas apuradas para uma melhor representação da natureza e paisagem existente no mais novo negócio da Companhia das Índias Ocidentais. Albert Eckout e Franz Post foram os nomes mais conhecidos dentre os artistas que vieram a serviço da companhia pintar suas belezas naturais, diversidade de raças, frutas exóticas e toda sorte de coisas que um apreciador das artes europeu pudesse achar curioso e relevante em suas produções. Com a vinda desses pintores há claramente uma divisão temática nas produções artísticas realizadas no Brasil: um forte apelo aos sentidos é visto junto com uma maior fidelidade nas representações em tela. A produção se volta para o registro fidedignos onde os aspectos visuais são uma preocupação constante na obra do artista. E dessa forma o Brasil busca a sua identidade visual que demora ainda muito tempo para a sua construção na forma de uma arte verdadeiramente nacional.


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