UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Curso de Especialização em História do Século XX
Disciplina Panorama da Igreja Católica no Século XX
A IGREJA CATÓLICA E O FENÔMENO DOS PADRES CANTORES
Luciana Paula Carvalho de Souza Leão
Trabalho destinado à conclusão da disciplina “Panorama da Igreja Católica no Século XX”, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no Curso de Especialização em História do Século XX
Recife 2008
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO
2 CRISE NA IGREJA CATÓLICA
3 FENÔMENO DOS PADRES CANTORES
4 MODERNO OU TRADICIONAL?
5 A IGREJA CATÓLICA E O SÉCULO XXI
1 INTRODUÇÃO
Antes hegemônica entre os brasileiros, a Igreja Católica passou a vivenciar, a partir dos anos 80, a disputa dos fiéis por outras religiões, em especial pelas igrejas evangélicas de cunho pentecostal. Naquele momento, dividida entre os teólogos da Teologi a da Libertação e os conservadores, a Igreja identificou a necessidade de reagir e passou a incentivar o uso dos meios de comunicação como forma de divulgar a mensagem de Jesus Cristo e atrair fiéis para os templos.
Entre as formas de responder a este desafio está o crescimento do número de emissoras de rádio e de televisão católicas e o fortalecimento da Renovação Carismática Católica no Brasil (RCC). No seio da RCC, surgiram vários padres que utilizam a música como meio de atrair fiéis para as igrejas, chamados popularmente de padres cantores. O mais famoso deles é o padre Marcelo Rossi, paulistano de 41 anos, que, em 1997, massificou um novo formato de missas e cerimônias religiosas caracterizadas por muitas canções, por orações pela cura individual e em agradecimento por graças alcançadas.
Neste trabalho, vamos analisar a trajetória de padre Marcelo Rossi e de outros padres cantores nestes últimos 11 anos, as críticas que sofreram dentro e fora da Igreja Católica, as contradições entre o moderno e o tradicional no discurso e na prática destes sacerdotes e as conseqüências deste fenômeno para a Igreja. Ao final, abordaremos as perspectivas dos padres cantores – que foram incentivados pelo papa João Paulo II – no novo contexto da Igreja, sob o papado de Bento XVI.
2 CRISE NA IGREJA CATÓLICA
O papa Bento XVI, que assumiu o papado em 19 de abril de 2005, após a morte de João Paulo II, quer os católicos mais firmes e mais bem formados em sua fé. A Igreja não quer apenas os abastados e que abandonaram a religião, mas pretende evangelizar as camadas mais pobres da população e que estariam sedentas de Deus, sem, contudo, se aproximar da Teologia da Libertação. Na sua primeira visita ao Brasil, em maio de 2007, Bento XVI deu demonstração do modelo de igreja que pretende adotar: canonizou Frei Galvão fora do Vaticano, numa atitude considerada inédita, promoveu encontro com a juventude militante católica e visitou uma fazenda de recuperação de drogados. Aproveitou também para mostrar a sua preocupação com a evasão de fiéis católicos no Brasil – fato confirmado pelos censos do IBGE desde 1991. Para ele e para o clero mais conservador, no qual se insere o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilon Scherer, a Igreja precisa chegar aos lugares mais afastados, por meio dos padres e dos cristãos leigos, nas escolas, nos centros comunitários, no trabalho.
Ser católico no Brasil, até os anos 60, era seguir a orientação de bispos e padres, sem muita contestação. Com o advento do Concílio Vaticano II, na década de 60, que, na verdade, espelhou em suas diretrizes as mudanças ocorridas no mundo naquele momento, muitos católicos passaram ser sujeitos engajados politicamente, no caso dos adeptos progressistas da Teologia da Libertação. Foi a luta contra as ditaduras, a defesa dos direitos humanos, o que mais congregou parte da hierarquia católica do Brasil, nessa época, para uma postura progressista . Outros continuaram freqüentando as missas tradicionais, nas quais os “novos ventos” pouco foram sentidos. Alguns ainda se diziam católicos, por formação, mas deixaram de ir à missa. Entre os que se distanciaram da Igreja, alguns o fizeram por buscar um entendimento direto com Deus, sem a intermediação de outros na sua religiosidade. Já as questões ligadas à sexualidade e reprodução (proibição ao sexo fora do casamento e ao uso da camisinha e de anticoncepcionais), embora não praticadas nos moldes do catolicismo tradicional, não teriam sido motivo para o afastamento ocorrido. Há os casos ainda dos que deixaram de se denominar católicos ou passaram a freqüentar outras religiões, principalmente as novas religiões de cunho pentecostal, num formato de protestantismo popular.
Para a antropóloga Regina Novaes, do Instituto Superior dos Estudos da Religião (ISER)
“O catolicismo se confunde com a cultura e se mistura com a história, com a ocupação do território, com o calendário de festas e de dias cívicos, sempre foi possível ser católico e não seguir a doutrina. O batizado, o casamento religioso e o enterro católico fazem parte dos rituais de apresentação social no país, expressam diferenças de poder aquisitivo e prestígio. Há quem freqüenta a Igreja e segue a doutrina, há quem esconde vivências religiosas e há quem se defina como católico e umbandista. Há uma convivência de muitas formas de ser católico”.
Em 1970, os católicos eram 91,8% da população brasileira. O que os censos demonstraram em 1991 e em 2000 – neste último, os católicos são 73,9% dos brasileiros, mas os evangélicos já somam 15,6% da população –, é que houve maior penetração do pentecostalismo em regiões como o Centro-Oeste, o interior da Bahia e nas periferias das capitais do Nordeste e do eixo Centro-Sul . Em sua maioria, os novos evangélicos eram migrantes, com baixo nível de escolaridade e de qualificação profissional, segundo o sociólogo César Romero, um dos autores de trabalho publicado no Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil. Para Romero, nas áreas onde o pentecostalismo cresceu, o Estado estaria ausente. Os migrantes, que haviam perdido suas raízes e não mantinham vínculos com a sociedade local, terminavam sendo acolhidos pelas igrejas evangélicas , que fazem uso da comunicação televisiva e pelo rádio como um dos principais meios para se chegar ao fiel. A compra da Rede Record pela Igreja Universal do Reino de Deus foi o ápice desta “corrida” pelos fiéis, numa demonstração de força inequívoca desta nova religião.
Ainda na década de 80, o clero no Brasil despertou para estas mudanças, ligadas ao processo de urbanização das cidades, que favoreceram o surgimento de novas religiões e a difusão de religiões vindas do exterior . A partir de uma autocrítica, em que mudou sua postura de confronto com o que chamada anteriormente de seitas e de fanáticos, a Igreja passou a implementar mudanças de postura, buscando a modernidade, inclusive com o uso de ferramentas de marketing religioso e de comunicação. Ampliar o uso dos meios de comunicação para divulgação da mensagem católica foi um dos caminhos percorridos pelos católicos nesta busca, mesmo que com a desconfiança dos progressistas, ligados às Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) e à Teologia da Libertação.
Dentro da Igreja, em especial nos setores de classe média, se avolumam os movimentos e grupos reavivamento espiritual, como a Renovação Carismática, o Treinamento de Lideranças Cristãs (TLC) e os Cursilhos de Cristandade . A Renovação Carismática Católica (RCC), movimento de leigos católicos nascido entre os pentecostais americanos em 1967 e trazido para o Brasil pelo padre Eduardo Dougherty em 1972, com características pentecostais e moral conservadora, se identificava, também, como os progressistas, como sendo fruto do Concílio Vaticano II, que ditou os novos rumos da Igreja a partir dos anos 60.
Dispostos a ir à luta contra “o inimigo”, em especial a Igreja Universal do Reino de Deus, os carismáticos passaram a usar as mesmas armas: a comunicação, contando, inclusive, com a benção do papa João Paulo II, conservador que privilegiou a ação pastoral e perseguiu os seguidores da Teologia da Libertação.
3 FENÔMENO DOS PADRES CANTORES
A Renovação Carismática Católica (RCC) precisou de apenas 16 anos para ser reconhecida pela Santa Sé como um movimento católico . A base de sua estrutura são os grupos de oração, organizados nas paróquias ou centros comunitários, liderados por leigos, que hoje deram origem a diversas comunidades carismáticas no País, onde os laços de vida dos seus integrantes se estreitam mais. Seus encontros são festivos, com música e gestos parecidos com os pentecostais, podendo ser organizados em âmbito paroquial ou mesmo diocesano, com grande autonomia. Caracteriza-se por promover grandes eventos de louvor a Deus e a Maria em áreas como estádios de futebol ou ginásios esportivos.
As sementes da RCC foram plantadas no Brasil ainda na década de 60, com o padre jesuíta norte-americano Harold Joseph Rahm, ou padre Haroldo, que fundou o Treinamento de Lideranças Cristãs (TLC) em que juntou elementos da espiritualidade jesuíta, da Juventude Estudantil Católica (JEC), da Juventude Operária Católica (JOC), da Legião de Maria entre outros movimentos, tendo a pretensão de formar lideranças cristãs . Neste trabalho, o objetivo era levar os jovens a ter experiência de iniciação na vivência espiritual, preparando-os para o futuro da Igreja.
Os padres Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty, ao lado de outros sacerdotes estrangeiros e brasileiros, como o padre Jonas Abib, espalharam as experiências de oração por São Paulo e outros Estados, por meio de retiros e encontros de oração, dando início à RCC. Hoje, padre Haroldo atua na coordenação de fazendas de recuperação de dependentes e se afastou do comando da RCC. Os outros dois continuam na Renovação, comandando movimentos distintos.
Em 1980, padre Eduardo fundou a Associação do Senhor Jesus (ASJ), para divulgar material religioso como livros de formação e de cânticos, o que auxiliou a expansão dos ideais da RCC em todo o Brasil. As canções passaram a fazer parte das missas dominicais e embalavam os encontros de oração também pelo país afora. Aos poucos, foram sendo criados programas católicos em diversas emissoras, como o “Anunciamos Jesus”. Hoje, a ASJ produz conteúdo para sites na internet, para a revista Brasil Cristão e para a TV Século 21, que conta com retransmissoras em 14 Estados do País .
Também se destaca a Comunidade Canção Nova, capitaneada pelo padre Jonas Abib, que hoje já conta com uma rede de TV (TV Canção Nova) e é o canal católico que mais cresce no País. A emissora opera em VHF e em UHF e por satélite, contando com 500 retransmissoras de TV e 200 operadoras de TV por assinatura, cobrindo 52% do território brasileiro.
Uma outra rede católica, a maior delas, é a Rede Vida , que cobre em UHF-VHF mais de 1.500 municípios do Brasil, entre eles todas as capitais brasileiras e as 500 maiores cidades, sendo retransmitida também por TVs por assinatura. A programação ocupa as 24 horas do dia, incluindo noticiários e programas de entrevista não-religiosos. Nasceu a partir de um jornalista católico que obteve uma concessão de TV em São José do Rio Preto. Hoje, abriga de carismáticos a progressistas, sob o comando de João Monteiro Neto, o fundador.
Os três movimentos contam com sites interativos, em que estão disponíveis a programação veiculada nas emissoras de rádio e de TV, orações online e orientações religiosas.
Este ambiente estimulado pela corrente carismática, que já atinge mais de 12 milhões de católicos no País, foi propício para o surgimento do fenômeno dos padres cantores, do qual o padre Marcelo Rossi é o seu principal expoente. Lá trás, na década de 60, o pioneiro José Fernandes de Oliveira, conhecido nacionalmente como padre Zezinho, estimulou os fiéis a entoar cânticos evangelizadores. Desde 1969, já são mais de 1.500 canções, a maioria de sua autoria, que estimularam Marcelo Rossi e os demais sacerdotes cantores, como os padres Antônio Maria e Zeca e, mais recentemente, Joãozinho e Fábio de Melo, estes dois ligados à Canção Nova e da mesma congregação de padre Zezinho, dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.
Fábio de Melo já tem dez anos de estrada e já gravou mais de dez discos. Apresenta-se em casas de shows, vende livros e CDs, ministra palestras, mas somente agora a mídia comercial o descobriu. Seu CD mais recente é divulgado quase diariamente na Rede Globo. Padre Joãozinho é catarinense de Brusque e também viaja o País inteiro realizando shows. Sua agenda para 2009 , divulgada no seu blog na Internet, prevê retiros em São Paulo e Betim, no Carnaval; um período de um mês em Roma, entre maio e junho, no Capítulo Geral da Congregação, cursos sobre o seu livro “As virtudes do Líder Amoroso”, para empresários, e muitos shows de evangelização, principalmente no Nordeste.
O padre Antônio Maria, sacerdote há 29 anos, já gravou 16 CDs, inclusive com a participação de cantores como Daniel, Ângela Maria, Agnaldo Rayol, José Augusto, Moacyr Franco, Roberto Leal, Hebe Camargo, Chitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Zezé Di Camargo e Luciano, Leonardo, Simone, Rio Negro e Solimões, César e Paulinho, Jorge Aragão, KLB e Alexandre Pires. Participa freqüentemente de programas de televisão comercial e também é responsável pelo programa "Pra lá de bom", na TV Século 21. Virou uma celebridade nacional e circula entre os artistas, celebrando missas, batizados e casamentos de famosos. Mantém atividades sociais no bairro de Jaraguá, em São Paulo, atendendo 350 crianças de diversas idades, e é devoto de Nossa Senhora de Schoenstatt, a quem homenageia levando sua imagem para onde vai .
Ídolo da juventude carismática, o padre Zeca, 37 anos, reassumiu seu nome de batismo – José Luiz Jansen de Mello Neto – há um ano, quando pediu licença à Arquidiocese do Rio de Janeiro e se afastou de suas funções sacerdotais. Criador do movimento “Deus é Dez”, arrastou milhares de jovens para eventos na Praia de Ipanema nos anos 90, mas hoje circula entre amigos em bares e boates, e não comenta o motivo de seu afastamento da Igreja .
Já o mais famoso de todos os sacerdotes cantores – o padre paulistano Marcelo Rossi, de 41 anos, continua em “plena forma”. Foi alçado ao estrelato com a realização de megaeventos, como o realizado no dia 2 de novembro de 1997, o encontro religioso "Sou feliz por ser católico", quando ele reuniu numa missa 70 mil pessoas no estádio do Morumbi, em São Paulo. No ano seguinte, no dia 12 de outubro de 1999 , no Maracanã, com a presença dos outros padres cantores – Zeca, Zezinho, Jonas Abib e Antônio Maria –, Marcelo Rossi foi o maior responsável por atrair mais de 170 mil pessoas ao estádio. Ele já lançou oito CDs, ultrapassando mais de 9,5 milhões de discos vendidos. O primeiro CD “Canções para Louvar ao Senhor” teve 3,5 milhões de cópias vendidas. Para reforçar a imagem de evangelizador, lançou dois filmes, , em 2003 “Maria, Mãe do Filho de Deus”, com a participação da atriz global Giovanna Antonelli, em que interpreta ele mesmo e o anjo Gabriel e, em 2004, “Irmãos de Fé”, que conta a vida do apóstolo Paulo, com a participação do também global Thiago Lacerda.
Superexposto no período de 1997 a 2002, quando não rejeitava convites para participar de programas de televisão, e recebeu inúmeras críticas por isso, hoje, o padre Marcelo Rossi está mais reservado, mas não se afastou do seu trabalho evangelizador pelos meios de comunicação. Mantém programas de rádio veiculado na Rádio Globo – seus primeiros programas em 1996 foram na Rádio Canção Nova – e em outras 118 emissoras pelo país afora e também celebra, ao lado do seu bispo, Dom Fernando Figueiredo, da Diocese de Santo Amaro (SP), a missa dominical na Rede Globo, veiculada também na Globo Internacional para 12 países.
No dia 21 de abril de 2008, no Autódromo de Interlagos, realizou o evento "Paz Sim, Violência Não" para comemorar os seus dez anos de evangelização, tendo gravado um DVD que leva o mesmo nome deste evento. A estimativa é que mais de três milhões de pessoas tenham acompanhado o evento, que contou com a participação de centenas de caravanas de todas as partes do País. Logo após os shows, com a presença de Xuxa, Ivete Sangalo, Bruno & Marrone, Zezé Di Camargo & Luciano, César Menotti & Fabiano, Alcione, Daniel, Sérgio Reis, Hebe Camargo e Paulo Ricardo, o padre Marcelo e o bispo Dom Fernando celebraram missa, com a participação do cantor Agnaldo Rayol e do maestro e pianista João Carlos Martins .
O “recolhimento”, explica padre Marcelo, tem a ver com os exageros cometidos no passado:
“Depois de alguns anos aparecendo com muita freqüência, eu aprendi que a superexposição é perigosa. Há momentos em que se deve aparecer, mas existem outros em que o melhor é se recolher. E é quando bate aquela saudade. Em 1999, eu me expus tanto que fui eleito o “Mala do ano”. Não dava para continuar daquele jeito e eu reconheço que exagerei. Por isso minha saída dos meios de massa foi proposital” .
O sacerdote se afastou da mídia comercial, mas suas vendas continuam em alta. Ele justifica que não é um artista, mas um padre:
“O artista aparece e desaparece. E eu saí dos meios de comunicação populares, mas continuo nos veículos de viés católico. Tenho um programa diário em uma rádio que só no Rio de Janeiro é ouvido por mais de um milhão de pessoas por minuto. Em São Paulo, são 800 mil ouvintes. Em Belo Horizonte, outros 300 mil. E esse programa é retransmitido por 118 emissoras de rádio espalhadas pelo Brasil. Aí está a resposta para o meu sucesso .
Hoje, ele está mais envolvido com a arrecadação de recursos para a conclusão do Santuário Mãe de Deus, conhecido como do Terço Bizantino, um dos maiores templos já construídos no Brasil e que rivaliza em dimensão com os templos da Igreja Universal do Reino de Deus em construção no Rio de Janeiro e em São Paulo. O santuário, no distante bairro de Interlagos, terá capacidade para receber cem mil pessoas, duas vezes mais do que a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, e 30 vezes mais do que a Catedral da Sé . Para ele, o catolicismo precisa atualmente de religiosos que entendam a importância de reunir pessoas em um mesmo lugar para celebrar.
Ordenado padre em 1994, rapidamente ele ganhou fama na Diocese de Santo Amaro, na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santa Rosália, por suas missas de libertação. Rapidamente, os fiéis se aglomeravam em busca de curas e de graças. Ele já passou por diversos locais de celebração, cada um maior que o outro, enquanto aguarda a conclusão do novo espaço, prevista para o próximo ano. Atualmente, celebra missas num antigo galpão de fábrica, com capacidade autorizada de dez mil lugares. Dentro e fora destes ambientes, formou-se um comércio de artigos religiosos, incluindo livros, CDs e exemplares do Terço Bizantino, uma espécie de terço mais simples e mais acessível aos fiéis .
4 MODERNO OU TRADICIONAL?
Muitos integrantes do clero católico acreditam que o aparecimento do fenômeno dos padres cantores, em especial o de padre Marcelo, auxiliaram a Igreja a atrair de volta antigos fiéis e também incentivaram a identificação de vocações sacerdotais. Em outras como a do Rio de Janeiro, segundo pesquisa realizada por Sílvia Regina Alves Fernandes, do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) , a influência dos padres cantores é mais sentida entre os vocacionados que se dizem carismáticos. Muitos demonstraram admiração pelo padre Marcelo Rossi, mas criticaram o relacionamento com a mídia e a exposição exagerada que o sacerdote alcançou. Para a pesquisadora, contudo, deve ser considerada a hipótese de que “a presença dos padres na mídia faz despertar na juventude a sensibilização para a presença de um novo ator social, anteriormente relegado às sacristias. Nesse sentido, na medida em que a figura do padre torna-se mais pública, passa a entrar no rol de opções profissionais ou vocacionais de uma juventude proveniente de camadas populares e com baixa capacidade de inserção na vida social”.
De uma forma geral, entretanto, números do CERIS indicam que, nos últimos anos, tem aumentado o número de jovens que ingressam na vida religiosa. Em 1970, havia 4.181 seminaristas diocesanos; em 1980, eram 5.329 seminaristas; em 1990, eram 5.870 jovens nos seminários; enquanto, em 1998, já eram 7.893 jovens freqüentando os seminários. Na Diocese de Santo Amaro, a de padre Marcelo Rossi, o número de seminaristas passou de cinco para 115 em dez anos.
O discurso do padre Marcelo Rossi é simples e se caracteriza pela repetição . Segundo ele, são “coisas rápidas para a sociedade de hoje, que tocam as necessidades da pessoa”. Suas homilias são curtas e se baseiam em exemplos compreensíveis para o católico, especialmente para aqueles que veneram Maria: “Jesus é o caminho, eu sou apenas a seta que aponta para esse caminho”. Ele incentiva a prática das novenas, da reza do terço e a realização das procissões, retomando símbolos do catolicismo tradicional , ao mesmo tempo em que se diz moderno, implementando mudanças na liturgia e ocupando espaço constante na mídia comercial.
Para os progressistas, sua fala, que se baseia na RCC, prega uma nova romanização na Igreja Católica no Brasil, levando a uma ortodoxia cada vez mais espiritualizada deixando de lado a questão política e social. As críticas mais ferozes vieram de teólogos como Frei Betto, Dom Mauro Morelli, Dom Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff e padre José Comblin . Frei Betto, por exemplo, até considera positivo o reavivamento espiritual, o consolo aos aflitos, a cura dos enfermos e o reencontro da fé. Mas, critica o que chama de “fórmula do sucesso”, os momentos de louvor em que há muita emoção, pouca razão e o privilégio do espiritual em detrimento do social.
Já o teólogo Clodovis Boff, embora seja um dos nomes mais ligados à Teologia da Libertação, usa um discurso mais conciliador em relação à RCC . Segundo ele, a RCC “oferece um reforço da espiritualidade católica e conversão pessoal; propicia um reforço institucional através de sua ênfase na pertença comunitária” e “adequa-se à pós-modernidade porque responde às demandas de sentido e sabe falar ao coração do homem pós-moderno”.
O frade Alberto Beckhauser , ligado à CNBB, diz que “a organização litúrgica feita pela RCC é inadequada havendo superficialidade na adaptação da linguagem simbólica da liturgia à linguagem televisiva”. Ele se refere diretamente aos padres Marcelo Rossi, Jonas Abib e Eduardo Dougherty, criticando a exposição midiática, considerado um grave problema, caracterizado pela busca de resultados imediatos como o aumento do número de fiéis e paróquias com mais recursos financeiros.
Fenômenos autônomos um em relação ao outro, a Renovação Carismática e a Teologia da Libertação, na verdade, lutam por ideais que se complementam, na visão de Clodovis Boff . Para ele, enquanto a RCC vive a fé como experiência, enfatiza a oração, busca a transformação pessoal, dá importância à emoção, faz a opção pelos “perdidos”, está centrada na Igreja, liga-se à Igreja universal e visa à afirmação social da Igreja, os adeptos da Teologia da Libertação vivem a fé como prática, enfatizam o serviço, buscam a transformação social, dão importância à reflexão, fazem a opção pelos pobres, estão centrados no mundo, ligam-se à Igreja local e visam à renovação institucional da Igreja, não devendo as duas correntes ser tratadas, portanto, como setores antagônicos dentro da Igreja Católica, mas integrantes de uma só Igreja, voltada para a comunhão do homem com Deus.
5 A IGREJA CATÓLICA E O SÉCULO XXI
O anterior e o atual papa tiveram a mesma intransigência em relação a posições doutrinárias da Igreja. Mas, enquanto João Paulo II, ele próprio um comunicador que gostava de eventos de massa, incentivava a RCC e seus líderes, por entender que este poderia ser um caminho de estancar a fuga dos fiéis seduzidos pelos cultos evangélicos, o papa alemão pensa bem diferente. Por enquanto, não houve qualquer censura pública aos movimentos carismáticos, mas até mesmo a pouca participação de padre Marcelo Rossi na visita do papa a São Paulo no ano passado demonstra que a RCC perdeu força neste momento.
Marcelo Rossi concorda com o papa em temas como aborto, homossexualidade, experiências com células-tronco e ordenação de mulheres, mas os ritos que utiliza em suas missas não “combinam” com o estilo ortodoxo do pontífice, que já incentivou o retorno das missas em latim. Bento XVI já disse que” a liturgia não é um show. É completamente contraditório introduzir nela pantomimas em forma de dança, que freqüentemente terminam em aplausos” .
No passado, quando era prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o então cardeal Joseph Ratzinger foi responsável por impor o silêncio a 140 teólogos de todo o mundo, principalmente progressistas. A expectativa agora é que ele, se não incentive como fazia João Paulo II, pelo menos não reprima ou os cale.
Como a RCC se mostrou até agora a resposta mais eficiente da Igreja para combater o avanço dos evangélicos e de outras religiões no País, com suas missas marcadas por uma liturgia coreografada , atraindo de volta para o catolicismo parte do rebanho que se havia desgarrado em busca de uma visão mais mística e menos politizada da religião, acreditamos que seja mantida a tendência de crescimento e o movimento, que congrega cerca de 12 milhões de pessoas no Brasil, seja abençoado pelo novo papa.
A RCC e seus seguidores, entre os quais estão os padres cantores, estão entre os movimentos que buscam reencantar o cristianismo, recuperando elementos antigos de religiosidade, ao mesmo tempo em que interpreta o momento atual da sociedade com base em padrões religiosos. Sua força está na organização do movimento, na sua ligação com os setores conservadores da Igreja (nacional e internacional) e de sua afinidade da sua mensagem religiosa voltada para a recuperação do catolicismo romanizado, mas, principalmente, por ter conseguido falar a língua de muitos que buscam Deus.
BIBLIOGRAFIA
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FERNANDES, Silvia. Diferentes olhares, diferentes pertenças: Teologia da Libertação e MRCC.Revista de Estudos da Religião. N.3.2001 – www.pucsp.br/rever/rv3_2001/p_fernan.pdf
FERNANDES, Silvia. Padres Cantores e a mídia: representações da identidade sacerdotal. 2005.Ciências Sociais e Religião. Porto Alegre. N.7. 2005
SALES, Igor Marlon. A Autocompreensão da Igreja e a Renovação Carismática Católica (1966-2000). Dissertação de Mestrado
SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: Os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2003. Tese de Doutorado.
SOUZA, André Ricardo de. A Renovação Popularizadora Católica. Revista de Estudos da Religião. N. 4. 2001 – www.pucsp.br/rever/rv4_2001/t_souza.htm
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ÉPOCA, ed. 468 – 09 de maio de 2007 – O que significa ser católico no Brasil
ÉPOCA, ed. 271 – 24 de julho de 2003 – Os católicos contra-atacam
ÉPOCA, Ed. 469 – 12 de maio de 2007 – Mais perto dos católicos
WEB
http://veja.abril.com.br/especiais/papa/p_052.html#
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http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG77301-5856,00.html
http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid274747,0.htm
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http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m319/os-embalos-do-padre-zeca
http://veja.abril.com.br/201099/p_150.html
www.redevida.com.br
http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/page/2/
sábado, 24 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Cuidado do Patrimônio Público ou do patrimônio católico
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX
RENATA REYNALDO ALVES MAIA
ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
Análise de editoriais e reportagens do Jornal do Commercio sobre o investimento do Estado na conservação de imóveis da Igreja Católica com vistas a preservar o patrimônio histórico e cultural brasileiro
Trabalho para conclusão da disciplina:
Panorama da Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Recife, dezembro de 2008
Podemos construir obras excelentes enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.
Sérgio Buarque de Holanda,
em Raízes do Brasil
INTRODUÇÃO
Veículos de grande penetração na chamada classe formadora de opinião, os jornais impressos são ao mesmo tempo refletores, geradores e propagadores de idéias e valores. Uma análise criteriosa e pormenorizada de uma série de informações acerca de um só tema publicadas em um desses meios de comunicação pode revelar ou encobrir posturas de uma fatia da sociedade.
A partir da observação dos editoriais e reportagens coletadas no período de um ano (de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008) no Jornal do Commercio, veículo de perfil conservador, de grande inserção em Pernambuco e de maior circulação no Norte e Nordeste do país, por meio de uma busca dirigida aos temas “Igreja Católica” e “Preservação do Patrimônio”, buscamos obter o retrato da posição do jornal e de seu público com relação aos investimentos que o Poder Público faz, a título da preservação do patrimônio histórico e cultural nacional, nas edificações, leia-se, igrejas conventos, basílicas, mosteiros, capelas, entres outros bens da Igreja Católica.
GÊNESIS DA SIMBIÓSE
Para dar efetividade à sua política de preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, o Estado brasileiro, cuja gênesis de sua formação está impregnada predominantemente por influências doutrinárias, sociais e culturais da Religião Católica, se vê ainda hoje, mesmo que desde a Constituição republicana de 1891 tenha suprimido o artigo que o declara, “em nome da santíssima trindade”, um país de religião “Catholica Apostolica Romana”, impelido a investir grandes montantes de recursos em obras de restauração, reforma e manutenção de edificações e objetos pertencentes à Igreja Católica.
Essa relação simbiótica entre os bens católicos e o Poder Público brasileiro, que tem inúmeros exemplos históricos, entre eles o caso da matriz de Nossa Senhora da Paz (no bairro de Afogados, em Recife) a qual “foi reconstruída em 1857 com o auxílio dos cofres públicos” , perdura até os dias de hoje, gozando da mesma condescendência da sociedade e da imprensa. Para sustentar essa prática inercial há razões históricas.
Quando ainda o país era um embrião promissor de uma próspera colônia, como ilustra Gilberto Freyre em seu primordial Casa Grande & Senzala, “o Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza da raça. Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião Católica”. Para os colonizadores, o perigo estava no indivíduo herege. “Soubesse rezar o padre-nosso e a ave-maria, dizer Creio-em-Deus-Padre, fazer o pelo-sinal-da-santa-cruz e o estranho era bem vindo ao Brasil colonial”.
E prossegue o sociólogo pernambucano, ajuizando que a proximidade com o adventício católico também surtia o efeito de fortalecer a solidariedade que em Portugal se desenvolvera junto com a religião católica e, assim, livrar a nação de inimigos políticos. Como que vaticinando, à época do lançamento do CG&S, o futuro muito remoto dos tempos atuais, Freyre deduz “ser tão difícil, na verdade, separar o brasileiro do católico. O catolicismo foi mesmo o cimento da nossa unidade”.
Assim como uma amálgama da nossa identidade, essa estreita relação vai se revelar em outros momentos emblemáticos da história brasileira. Segundo registros quando da chegada da família real para o Brasil, após descer a rampa do cais, em frente à Praça 15 de novembro, o primeiro ato em terras brasileiras ao qual compareceu o imperador e seus descendentes foi de cunho religioso, católico. A família real foi aspergida com água benta, em meio à queima de incensos e rezas.
“(...)D. João beijou a cruz e recebeu as benções do bispo. Depois colocou-se debaixo do pálio de seda vermelha e frisos dourados, que o protegia do sol. (...) À frente do cortejo iam as autoridades do Rio de Janeiro, os oficiais militares, os juízes e os padres, monges e seminaristas dos numerosos conventos. (...)”
Ainda com base na mesma publicação histórico-literária do jornalista Laurentino Gomes, que credita a informação ao historiador Luiz Felipe Alencastro para ilustrar o “ataque ao cofre” da colônia, a família real mantinha no Brasil, além de 276 fidalgos e dignatários régios que recebiam verbas anuais de custeio e representação, ao custo das moedas de ouro e prata retiradas do tesouro real do Rio de Janeiro, setecentos padres, um deles recebendo um salário fixo anual de 250 mil réis – equivalente hoje a 14 mil reais , – apenas para confessar a rainha. Embora não seja uma grande quantia, denota certo mercantilismo na relação.
Outros hábitos, dentre inúmeros que poderíamos citar, indicam a consciência de igreja que tinha a sociedade no Brasil. Ao contextualizar o papel da Igreja Católica na colônia entre 1808 e 1840, período que compreendeu movimentos de descolonização e insurreições, além da própria independência do Brasil, João Fagundes Hauck revela que era normal a vigilância policial com que o Governo controlava a prática religiosa. “A ereção de um cruzeiro em lugar público, de uma capela, não dispensava a licença que tinha que fazer longa caminhada burocrática”, destaca, no livro História da Igreja no Brasil.
CONDESCENDÊNCIA
A prática de o Estado destinar recursos para Igreja Católica, agora com o argumento de preservação do seu patrimônio, embora fundamentada também em sucessivas cartas magnas do país, quando estas atribuem ao Poder Público, cada uma com termos próprios, a função de proteger e oferecer cuidados especiais aos monumentos históricos, artísticos e naturais da Nação, se concretiza repetidamente com atenção muitíssimo especial ao patrimônio da Igreja Católica, sobretudo no que diz respeito aos bens edificados, como igrejas, capelas, conventos, matrizes, basílicas, seminários.
A análise nas publicações oficiais dos órgãos de execução ou de fomento à preservação desses bens e nos registros da imprensa revela que esta relação de primazia é bem absorvida tanto pela burocracia estatal quanto pela sociedade.
Há indicativos da neutralidade com que a sociedade encara esse “privilégio” dos bens culturais católicos, algumas vezes em detrimentos de equipamentos históricos, sejam laicos ou ligados a outras religiões e às manifestações mais espontâneas como as oriundas dos quilombolas e indígenas, estas também partícipes da formação da cultura brasileira.
Um desses sintomas é a condescendência e repetição com que, no exemplo escolhido para esta observação, o Jornal do Commercio (veículo pernambucano, de maior circulação do Norte e Nordeste do país), não apenas noticia como conclama e cobra, a partir do espaço de opinião institucional do próprio jornal (o editorial), entidades públicas e privadas a arcar com os custos da preservação desta ou daquela igreja no Recife.
Em um período de um ano, de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, dos 20 editoriais que o JC destinou a abordar os temas da Preservação do Patrimônio histórico e cultural ou de Igrejas, seis deles foram explícitos no tom de denúncia de “abandono”, na cobrança de providências urgentes para evitar o desmoronamento de templos católicos, ou no enaltecimento das iniciativas com o propósito de salvaguardar igrejas, basílicas, azulejos de capelas, telhados de matrizes. Em alguns dos artigos, o editorialista, cuja função em uma redação de jornal é expressar a opinião do dono da empresa ou grupo econômico que banca o veículo, afirma que “é triste, por exemplo, saber que a paróquia (da Matriz da São José, com seus 144 anos) não possui recursos e pede ajudar para consertar as rachaduras do estuque e nas esquadrias empenadas” .
Em outro editorial, intitulado “Um exemplo da Igreja de Roma”, e publicado em 1º de agosto de 2008, o Jornal do Commercio enaltece uma ação de caridade que a priori afirma ser mantida pela Arquidiocese de Olinda e Recife, o Movimento Pró-Criança, mas cuja manutenção “se dá através de doações da sociedade, provenientes de pessoas físicas e jurídicas engajadas na responsabilidade social”. Entenda-se que parte é de empresas que contam com o incentivo fiscal (público) para ajudar a ação social da Igreja Católica.
Ao expressar sua opinião no editorial “O Convento e seus azulejos”, do dia 30 de junho de 2008, o jornal trata como uma remissão de dívida histórica dos pernambucanos o fato de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), instituição financeira que, como diz seu enunciado, tem como missão promover o desenvolvimento econômico e social do país, ter investido por meio de convênio com a Fundação de Apoio ao Desenvolvido da UFPE (Fade), a quantia de R$ 2 milhões na restauração dos azulejos do Convento de Santo Antônio (de 1616), na Rua do Imperador, em Recife. E explica o artigo:
“Como nossa igreja do Recife é dedicada ao glorioso Santo – diz Frei Bonifácio Mueller, em seu livro o Convento de Santo Antônio, editado em 1956 – é de se esperar que seus azulejos façam lembrar a vida ou os milagres do santo, tanto mais que este amigo de Deus é milagroso por excelência”
O veículo também conclama, em seu editorial de 18 de abril de 2008, intitulado “A salvação da Basílica”, àquelas “mãos dos que têm meios e podem ser estimulados pela fé ou pelo prazer do mecenato”, a contribuir com recursos para ajudar “esse majestoso” templo da Igreja de Nossa Senhora da Penha. E “aquelas mãos”, como de costume, vêm do Poder Público, como atesta o mesmo artigo, onde consta que o a Fundação de Cultura do Estado de Pernambuco (Fundarpe) liberou R$ 850 mil para a reforma emergencial, cuja obra de restauração completa está orçada em R$ 4,2 milhões.
A IMPOSIÇÃO DOS FATOS
No mesmo período de tempo delimitado para análise desses editoriais (nov./07 a nov./08), observamos o comportamento das reportagens publicadas no Caderno de Cidades do mesmo Jornal do Commercio. Aqui é importante que se esclareça que, embora o espaço destinado a reportagens paute sua seleção de notícias pela imposição dos fatos do cotidiano, cabe ao editor e em última instância aos seus superiores na estrutura da redação, com base em critérios subjetivos, eleger o que de fato vai ser editado para a publicação.
Nesta análise dos textos publicados a partir da apuração de fatos externos à redação, identificamos que 13 deles trazem no título a expressão “igreja pede ajuda”, “busca apoio”, “campanha para financiar restauração” ou tratam da reabertura de templos católicos após as obras restauração, sempre com o apoio de recursos do Poder Público. A considerar esta lente de observação, a matéria mais notável delas, publicada em 4 de agosto de 2008, tem como argumento a Igreja de São José do Ribamar (Século XVIII), no centro do Recife, cujas instalações apresentam desgastes no piso, paredes e trechos de madeira infestados de cupins.
Instado a se pronunciar sobre a situação de abandono da igreja, o representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional (Iphan), cujo nome não é informado na reportagem, que atribui à entidade o poder de expressar informação, informa que em 1997 (portanto, há 11 anos) havia realizado obra de restauração do prédio. E completa: “a precariedade do imóvel se deve à falta de conservação, pois a igreja passou alguns anos fechada e isso contribui com a deterioração do piso, parede, teto e adorno, nos último anos”.
No caso da Matriz de São José, que foi tema da reportagem “Matriz de São José pede ajuda”, em 19 de outubro de 2008, outra curiosidade. O templo, erguido em 1844, no centro do Recife, com a nave central interditada devido às infiltrações e risco de desabamento do telhado está realizando suas missas no corredor. Ante a situação, o pároco que conduz a igreja há 37 anos, José Augusto Esteves, afirma categoricamente: “não temos a menos condição de executar o trabalho. A paróquia não possui recursos”. E completa: “a responsabilidade pela manutenção da igreja é da comunidade, a arquidiocese não dispõe de verbas para isso”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora seja de suscitar maiores e mais profundas análises o fato de um jornal atual e de grande influência reproduzir um pensamento oriundo nas arcaicas raízes da formação do Estado Brasileiro, a mera observância quantitativa e qualitativa dos conteúdos pinçados para esta observação revela uma absoluta falta de isenção ou de elaboração de juízo de valor contraditório sobre tema tão presente na nossa sociedade, haja vista a reincidência dos registros sobre Igreja Católica e Preservação do Patrimônio nas páginas do matutino eleito para objeto deste trabalho.
Ressalve-se que o conceito de juízo de valor contraditório aqui introduzido não seria, necessariamente, uma postura de condenação às práticas do Estado de investir na preservação do patrimônio da Igreja Católica, como fruto dessa incessante confusão entre o privado e o público na relação Estado x Igreja Católica. O que aqui observamos, sentimos falta, a rigor, é a não-abordagem isenta e crítica quanto a esta questão. Enfim, em nenhum dos registros que seguem em anexo encontra-se uma opinião dissonante da que se reproduz desde os idos do povoamento do Brasil.
ANEXOS
1. EDITORIAIS
Este material foi colhido dentre todos os editoriais publicados pelo Jornal do Commercio no período de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, tendo como temas os verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”.
Dos 20 selecionados, seis se enquadravam nos critérios pré-estabelecidos por este trabalho, que pretendia analisar apenas a relação entre a Igreja Católica e a política pública de preservação do patrimônio histórico e cultural nacional.
2. MATÉRIAS
A mesma abordagem foi dada na seleção das matérias a seguir anexadas. Todas as que atenderam à busca pelos verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”, isto é 13 reportagens foram alvo da análise.
BIBLIOGRAFIA
• BOJADSEN, Angel (coord. editorial) – Cartas de uma Imperatriz. São Paulo. Editora Estação Liberdade, 2006
• FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. – 36ª ed. – Rio de Janeiro, Editora Record, 1999.
• GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos. Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco. – 2ª ed. – Recife, CEPE, 2006.
• GOMES, Laurentino. 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta conseguiram enganar Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2007;
• HAUCK, João Fagundes; FRAGOSO, Hugo; BEOZZO, José Oscar; GRIJP, Klaus van der; BROD, Benno. História da Igreja no Brasil – Ensaio de interpretação a partir do provo – Segunda Época – Séc. XIX. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2008
• HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. – 16ª ed. – Rio de Janeiro, J. Olympio, 1983.
CONSULTAS
• Constituições Federais do Brasil (1824 a 1988)
• Versão eletrônica das edições do Jornal do Commercio (Nov./07 a Nov./08)
www.jc.com.br, a partir das rubricas “Igreja”, “Preservação” e “Católica”
• Entrevista ao superintendente do Iphan/Regional NE, Frederico Almeida
• Entrevista à advogada Auxiliadora Beltrão – Programa Monumenta–BID
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX
RENATA REYNALDO ALVES MAIA
ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
Análise de editoriais e reportagens do Jornal do Commercio sobre o investimento do Estado na conservação de imóveis da Igreja Católica com vistas a preservar o patrimônio histórico e cultural brasileiro
Trabalho para conclusão da disciplina:
Panorama da Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Recife, dezembro de 2008
Podemos construir obras excelentes enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.
Sérgio Buarque de Holanda,
em Raízes do Brasil
INTRODUÇÃO
Veículos de grande penetração na chamada classe formadora de opinião, os jornais impressos são ao mesmo tempo refletores, geradores e propagadores de idéias e valores. Uma análise criteriosa e pormenorizada de uma série de informações acerca de um só tema publicadas em um desses meios de comunicação pode revelar ou encobrir posturas de uma fatia da sociedade.
A partir da observação dos editoriais e reportagens coletadas no período de um ano (de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008) no Jornal do Commercio, veículo de perfil conservador, de grande inserção em Pernambuco e de maior circulação no Norte e Nordeste do país, por meio de uma busca dirigida aos temas “Igreja Católica” e “Preservação do Patrimônio”, buscamos obter o retrato da posição do jornal e de seu público com relação aos investimentos que o Poder Público faz, a título da preservação do patrimônio histórico e cultural nacional, nas edificações, leia-se, igrejas conventos, basílicas, mosteiros, capelas, entres outros bens da Igreja Católica.
GÊNESIS DA SIMBIÓSE
Para dar efetividade à sua política de preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, o Estado brasileiro, cuja gênesis de sua formação está impregnada predominantemente por influências doutrinárias, sociais e culturais da Religião Católica, se vê ainda hoje, mesmo que desde a Constituição republicana de 1891 tenha suprimido o artigo que o declara, “em nome da santíssima trindade”, um país de religião “Catholica Apostolica Romana”, impelido a investir grandes montantes de recursos em obras de restauração, reforma e manutenção de edificações e objetos pertencentes à Igreja Católica.
Essa relação simbiótica entre os bens católicos e o Poder Público brasileiro, que tem inúmeros exemplos históricos, entre eles o caso da matriz de Nossa Senhora da Paz (no bairro de Afogados, em Recife) a qual “foi reconstruída em 1857 com o auxílio dos cofres públicos” , perdura até os dias de hoje, gozando da mesma condescendência da sociedade e da imprensa. Para sustentar essa prática inercial há razões históricas.
Quando ainda o país era um embrião promissor de uma próspera colônia, como ilustra Gilberto Freyre em seu primordial Casa Grande & Senzala, “o Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza da raça. Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião Católica”. Para os colonizadores, o perigo estava no indivíduo herege. “Soubesse rezar o padre-nosso e a ave-maria, dizer Creio-em-Deus-Padre, fazer o pelo-sinal-da-santa-cruz e o estranho era bem vindo ao Brasil colonial”.
E prossegue o sociólogo pernambucano, ajuizando que a proximidade com o adventício católico também surtia o efeito de fortalecer a solidariedade que em Portugal se desenvolvera junto com a religião católica e, assim, livrar a nação de inimigos políticos. Como que vaticinando, à época do lançamento do CG&S, o futuro muito remoto dos tempos atuais, Freyre deduz “ser tão difícil, na verdade, separar o brasileiro do católico. O catolicismo foi mesmo o cimento da nossa unidade”.
Assim como uma amálgama da nossa identidade, essa estreita relação vai se revelar em outros momentos emblemáticos da história brasileira. Segundo registros quando da chegada da família real para o Brasil, após descer a rampa do cais, em frente à Praça 15 de novembro, o primeiro ato em terras brasileiras ao qual compareceu o imperador e seus descendentes foi de cunho religioso, católico. A família real foi aspergida com água benta, em meio à queima de incensos e rezas.
“(...)D. João beijou a cruz e recebeu as benções do bispo. Depois colocou-se debaixo do pálio de seda vermelha e frisos dourados, que o protegia do sol. (...) À frente do cortejo iam as autoridades do Rio de Janeiro, os oficiais militares, os juízes e os padres, monges e seminaristas dos numerosos conventos. (...)”
Ainda com base na mesma publicação histórico-literária do jornalista Laurentino Gomes, que credita a informação ao historiador Luiz Felipe Alencastro para ilustrar o “ataque ao cofre” da colônia, a família real mantinha no Brasil, além de 276 fidalgos e dignatários régios que recebiam verbas anuais de custeio e representação, ao custo das moedas de ouro e prata retiradas do tesouro real do Rio de Janeiro, setecentos padres, um deles recebendo um salário fixo anual de 250 mil réis – equivalente hoje a 14 mil reais , – apenas para confessar a rainha. Embora não seja uma grande quantia, denota certo mercantilismo na relação.
Outros hábitos, dentre inúmeros que poderíamos citar, indicam a consciência de igreja que tinha a sociedade no Brasil. Ao contextualizar o papel da Igreja Católica na colônia entre 1808 e 1840, período que compreendeu movimentos de descolonização e insurreições, além da própria independência do Brasil, João Fagundes Hauck revela que era normal a vigilância policial com que o Governo controlava a prática religiosa. “A ereção de um cruzeiro em lugar público, de uma capela, não dispensava a licença que tinha que fazer longa caminhada burocrática”, destaca, no livro História da Igreja no Brasil.
CONDESCENDÊNCIA
A prática de o Estado destinar recursos para Igreja Católica, agora com o argumento de preservação do seu patrimônio, embora fundamentada também em sucessivas cartas magnas do país, quando estas atribuem ao Poder Público, cada uma com termos próprios, a função de proteger e oferecer cuidados especiais aos monumentos históricos, artísticos e naturais da Nação, se concretiza repetidamente com atenção muitíssimo especial ao patrimônio da Igreja Católica, sobretudo no que diz respeito aos bens edificados, como igrejas, capelas, conventos, matrizes, basílicas, seminários.
A análise nas publicações oficiais dos órgãos de execução ou de fomento à preservação desses bens e nos registros da imprensa revela que esta relação de primazia é bem absorvida tanto pela burocracia estatal quanto pela sociedade.
Há indicativos da neutralidade com que a sociedade encara esse “privilégio” dos bens culturais católicos, algumas vezes em detrimentos de equipamentos históricos, sejam laicos ou ligados a outras religiões e às manifestações mais espontâneas como as oriundas dos quilombolas e indígenas, estas também partícipes da formação da cultura brasileira.
Um desses sintomas é a condescendência e repetição com que, no exemplo escolhido para esta observação, o Jornal do Commercio (veículo pernambucano, de maior circulação do Norte e Nordeste do país), não apenas noticia como conclama e cobra, a partir do espaço de opinião institucional do próprio jornal (o editorial), entidades públicas e privadas a arcar com os custos da preservação desta ou daquela igreja no Recife.
Em um período de um ano, de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, dos 20 editoriais que o JC destinou a abordar os temas da Preservação do Patrimônio histórico e cultural ou de Igrejas, seis deles foram explícitos no tom de denúncia de “abandono”, na cobrança de providências urgentes para evitar o desmoronamento de templos católicos, ou no enaltecimento das iniciativas com o propósito de salvaguardar igrejas, basílicas, azulejos de capelas, telhados de matrizes. Em alguns dos artigos, o editorialista, cuja função em uma redação de jornal é expressar a opinião do dono da empresa ou grupo econômico que banca o veículo, afirma que “é triste, por exemplo, saber que a paróquia (da Matriz da São José, com seus 144 anos) não possui recursos e pede ajudar para consertar as rachaduras do estuque e nas esquadrias empenadas” .
Em outro editorial, intitulado “Um exemplo da Igreja de Roma”, e publicado em 1º de agosto de 2008, o Jornal do Commercio enaltece uma ação de caridade que a priori afirma ser mantida pela Arquidiocese de Olinda e Recife, o Movimento Pró-Criança, mas cuja manutenção “se dá através de doações da sociedade, provenientes de pessoas físicas e jurídicas engajadas na responsabilidade social”. Entenda-se que parte é de empresas que contam com o incentivo fiscal (público) para ajudar a ação social da Igreja Católica.
Ao expressar sua opinião no editorial “O Convento e seus azulejos”, do dia 30 de junho de 2008, o jornal trata como uma remissão de dívida histórica dos pernambucanos o fato de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), instituição financeira que, como diz seu enunciado, tem como missão promover o desenvolvimento econômico e social do país, ter investido por meio de convênio com a Fundação de Apoio ao Desenvolvido da UFPE (Fade), a quantia de R$ 2 milhões na restauração dos azulejos do Convento de Santo Antônio (de 1616), na Rua do Imperador, em Recife. E explica o artigo:
“Como nossa igreja do Recife é dedicada ao glorioso Santo – diz Frei Bonifácio Mueller, em seu livro o Convento de Santo Antônio, editado em 1956 – é de se esperar que seus azulejos façam lembrar a vida ou os milagres do santo, tanto mais que este amigo de Deus é milagroso por excelência”
O veículo também conclama, em seu editorial de 18 de abril de 2008, intitulado “A salvação da Basílica”, àquelas “mãos dos que têm meios e podem ser estimulados pela fé ou pelo prazer do mecenato”, a contribuir com recursos para ajudar “esse majestoso” templo da Igreja de Nossa Senhora da Penha. E “aquelas mãos”, como de costume, vêm do Poder Público, como atesta o mesmo artigo, onde consta que o a Fundação de Cultura do Estado de Pernambuco (Fundarpe) liberou R$ 850 mil para a reforma emergencial, cuja obra de restauração completa está orçada em R$ 4,2 milhões.
A IMPOSIÇÃO DOS FATOS
No mesmo período de tempo delimitado para análise desses editoriais (nov./07 a nov./08), observamos o comportamento das reportagens publicadas no Caderno de Cidades do mesmo Jornal do Commercio. Aqui é importante que se esclareça que, embora o espaço destinado a reportagens paute sua seleção de notícias pela imposição dos fatos do cotidiano, cabe ao editor e em última instância aos seus superiores na estrutura da redação, com base em critérios subjetivos, eleger o que de fato vai ser editado para a publicação.
Nesta análise dos textos publicados a partir da apuração de fatos externos à redação, identificamos que 13 deles trazem no título a expressão “igreja pede ajuda”, “busca apoio”, “campanha para financiar restauração” ou tratam da reabertura de templos católicos após as obras restauração, sempre com o apoio de recursos do Poder Público. A considerar esta lente de observação, a matéria mais notável delas, publicada em 4 de agosto de 2008, tem como argumento a Igreja de São José do Ribamar (Século XVIII), no centro do Recife, cujas instalações apresentam desgastes no piso, paredes e trechos de madeira infestados de cupins.
Instado a se pronunciar sobre a situação de abandono da igreja, o representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional (Iphan), cujo nome não é informado na reportagem, que atribui à entidade o poder de expressar informação, informa que em 1997 (portanto, há 11 anos) havia realizado obra de restauração do prédio. E completa: “a precariedade do imóvel se deve à falta de conservação, pois a igreja passou alguns anos fechada e isso contribui com a deterioração do piso, parede, teto e adorno, nos último anos”.
No caso da Matriz de São José, que foi tema da reportagem “Matriz de São José pede ajuda”, em 19 de outubro de 2008, outra curiosidade. O templo, erguido em 1844, no centro do Recife, com a nave central interditada devido às infiltrações e risco de desabamento do telhado está realizando suas missas no corredor. Ante a situação, o pároco que conduz a igreja há 37 anos, José Augusto Esteves, afirma categoricamente: “não temos a menos condição de executar o trabalho. A paróquia não possui recursos”. E completa: “a responsabilidade pela manutenção da igreja é da comunidade, a arquidiocese não dispõe de verbas para isso”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora seja de suscitar maiores e mais profundas análises o fato de um jornal atual e de grande influência reproduzir um pensamento oriundo nas arcaicas raízes da formação do Estado Brasileiro, a mera observância quantitativa e qualitativa dos conteúdos pinçados para esta observação revela uma absoluta falta de isenção ou de elaboração de juízo de valor contraditório sobre tema tão presente na nossa sociedade, haja vista a reincidência dos registros sobre Igreja Católica e Preservação do Patrimônio nas páginas do matutino eleito para objeto deste trabalho.
Ressalve-se que o conceito de juízo de valor contraditório aqui introduzido não seria, necessariamente, uma postura de condenação às práticas do Estado de investir na preservação do patrimônio da Igreja Católica, como fruto dessa incessante confusão entre o privado e o público na relação Estado x Igreja Católica. O que aqui observamos, sentimos falta, a rigor, é a não-abordagem isenta e crítica quanto a esta questão. Enfim, em nenhum dos registros que seguem em anexo encontra-se uma opinião dissonante da que se reproduz desde os idos do povoamento do Brasil.
ANEXOS
1. EDITORIAIS
Este material foi colhido dentre todos os editoriais publicados pelo Jornal do Commercio no período de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, tendo como temas os verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”.
Dos 20 selecionados, seis se enquadravam nos critérios pré-estabelecidos por este trabalho, que pretendia analisar apenas a relação entre a Igreja Católica e a política pública de preservação do patrimônio histórico e cultural nacional.
2. MATÉRIAS
A mesma abordagem foi dada na seleção das matérias a seguir anexadas. Todas as que atenderam à busca pelos verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”, isto é 13 reportagens foram alvo da análise.
BIBLIOGRAFIA
• BOJADSEN, Angel (coord. editorial) – Cartas de uma Imperatriz. São Paulo. Editora Estação Liberdade, 2006
• FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. – 36ª ed. – Rio de Janeiro, Editora Record, 1999.
• GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos. Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco. – 2ª ed. – Recife, CEPE, 2006.
• GOMES, Laurentino. 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta conseguiram enganar Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2007;
• HAUCK, João Fagundes; FRAGOSO, Hugo; BEOZZO, José Oscar; GRIJP, Klaus van der; BROD, Benno. História da Igreja no Brasil – Ensaio de interpretação a partir do provo – Segunda Época – Séc. XIX. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2008
• HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. – 16ª ed. – Rio de Janeiro, J. Olympio, 1983.
CONSULTAS
• Constituições Federais do Brasil (1824 a 1988)
• Versão eletrônica das edições do Jornal do Commercio (Nov./07 a Nov./08)
www.jc.com.br, a partir das rubricas “Igreja”, “Preservação” e “Católica”
• Entrevista ao superintendente do Iphan/Regional NE, Frederico Almeida
• Entrevista à advogada Auxiliadora Beltrão – Programa Monumenta–BID
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O Livro de Tombo da Parochia de S.S. Coração Eucharistico de Jeus no Bairro do Espinheiro
O trabalho que lerão é um interessante depoimento sobre as dificuldades que os pesquisadores da história da Igreja estão encontrando atualmente: os vigários e parócos não estão atentos a uma de sua tarefas: a manutenção do Livro de Tombo. Essa exigencia disciplinar canônica vem sendo deixada de lado pelos responsáveis das paróquias. Estejamos atentos a essa questão, como também a guarda das informações nas muitas insitiuições que atendem a população.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX
Disciplina: A Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Aluno: Paulo Henrique Cadena
O LIVRO DE TOMBO DA PAOCHIA DO S.S. CORAÇÃO EUCHARISTICO DE JESUS NO BAIRRO DO ESPINHEIRO
Paulo Henrique Cadena
Falas e silêncios da documentação paroquial
1.Introdução
Observando o verbete tombar do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, temos a seguinte definição: Fazer o tombo de; inventariar; arrolar; registrar. Assim, podemos tomar por “Livro de Tombo”, a semelhança de Livro de Registros. Pensando em uma paróquia, deveriam estar inscritos nestas páginas os atos da instituição local, pelas mãos de seus administradores. Decreto de Ereção, construção do templo, Exortações, balanço econômico, festividades, falecimento de eclesiásticos, chegada do novo pároco, atas, visitas do Arcebispo, notas de Encíclicas, morte do papa: inscritos no Livro de Tombo. Mas, por quem?
Esta pergunta, no concernente à Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus é difícil de responder. O Livro de Tombo que nos fora apresentado, detém em suas amareladas 210 páginas os anos compreendidos entre 1941 e 1961, portanto, vinte anos de registros. Contudo, são três os sacerdotes correspondentes a essa Paróquia, e mais de seis os tipos de letra testemunhando os fatos documentados.
O padre Silvino Guedes (o qual apresenta grafia por Sylvino ou Silvino em mais de três vezes no livro), pelo que notamos, apenas assinava o Livro. A assinatura diverge em muito do testemunho das páginas de relato. Falecerá em 1950, dando início a uma nova administração do padre Osvaldo Gomes Machado, que hora apresenta a sua mesma letra de assinatura e hora diverge. Em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa assume como pároco ecônomo. Sua letra não vai diferenciar-se da mesma da assinatura até o ano de 1961: último registro do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro. Portanto, não sabemos de quem eram as mãos que registravam os passos da Igreja do Espinheiro, como também não sabemos se há um outro livro que compreenda os espaços entre 1961 – 1999, quando chega o frei Geraldo Araújo, da Ordem Carmelita, para assumir o espaço deixado por padre Arnaldo de Sousa. Sabemos, de certo, a existência de um sendo escrito com os relatos desde 1999, mas não por obra do religioso, mas, pelas mãos de uma paroquiana. Seria também essa resposta às letras divergentes do padre Silvino? Algum paroquiano tomava a sua função de pároco nos registros? Isso não podemos afirmar.
Não pretendemos com esse trabalho escrever uma história da Igreja do Espinheiro. Longe de nós. Nossas pesquisas apenas se restringem aos anos de 1941 a 1961, distribuídos neste Livro de Tombo que nos fora apresentado. Tentaremos, portanto, tomar notas de alguns dados desses registros, como Exortações Apostólicas do senhor Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde durante a Segunda Grande Guerra: alguém tomara o cuidado de copiar tais textos.
Os anos de 1960 para Igreja Católica no Brasil e no mundo foram de grande valor. E porque não foram registrados no Livro de Tombo da Paróquia do Espinheiro? Ou tivera e são guardados sob as voltas de sete chaves? Concílio Vaticano II, chegada de D. Hélder Câmara como Arcebispo de Olinda e Recife, eleição de Paulo VI, período ditatorial. Valoroso de registros seria o velório do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, no ano de 1969, ocorrido nesta Paróquia.
Deixemos, então, as palavras falarem delas próprias e os silêncios retumbarem no infinito. Ecoem e deixem suas marcas nas profundezas da História. Também o silêncio registra, fala.
Então, teremos por obra apresentar esse Livro de Tombo, pleno de silêncios e marcas. Cheio de traços de mãos múltiplas que acordam em um mesmo sentido: registrar o que viram, leram e ouviram. Omitir o que lhes compraz.
2. Os Arcebispos de Olinda e Recife entre os anos de 1941 e 1961: alguns pontos ligados aos registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus
Entre os anos de 1941 e 1961, foram três os Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife: D. Miguel de Lima Valverde (1922 – 1951), D. Antônio de Almeida Morais Júnior (1951 – 1960) e D. Carlos Gouveia Coelho (1960 – 1964).
D. Miguel de Lima Valverde fora sagrado bispo em 1911 e em 14 de fevereiro de 1922, pela bula Hodie Nos, do papa Pio XI, fora designado para o Arcebispado de Olinda e Recife, onde tomou posse em julho de 1922 .
Durante seu arcebispado, manifestou-se politicamente.
Seus pronunciamentos foram sempre no diapasão da ordem e da defesa das instituições, evitando qualquer palavra de apoio a movimentos que contestassem o status quo. Sempre reconheceu as mudanças após elas estarem estabelecidas.
Entre os anos de 1925 e 1949, D. Miguel Valverde estabeleceu 19 novas paróquias na Arquidiocese de Olinda e Recife, acompanhando o movimento populacional da diocese, como orientara o Código de Direito Canônico e o Concílio de Trento . Observemos, então, um fragmento do Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus que confirma essa informação dada na obra do Dr. Severino Vicente da Silva:
O crescimento das cidades e o augmento da população costumam criar novos e serios problemas no tocante à cura das almas exigindo não raro a criação de um novo centro parochial, donde mais facilmente se possa irradiar a acção do Pastor. E ninguém ignora ser este o caso do bairro do Espinheiro nesta cidade do Recife, que desde algum tempo está reclamando a assistência de um Parocho próprio.
Silva ainda expõe as ações de patriotismo ufanista do Arcebispo. Havia a colaboração entre a Igreja e o Estado Novo, em especial ao interventor em Pernambuco, Agamenon Magalhães, homem de confiança de D. Miguel de Lima Valverde. Quando do II Congresso Eucarístico Nacional, em setembro de 1939, os governantes deram o seu auxilio. O prefeito do Recife, Augusto Novais, fez construir o Parque Treze de Maio para o evento . Vejamos o que diz o Arcebispo no Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus:
O Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães, muito digno Interventor Federal, nem um só momento deixou de prestigiar a obra do Congresso. Providencias acertadas, auxílios oportunos, empenho decidido, nada faltou de sua parte. É que Deus sabe dispor todas as coisas com força e suavidade, para atingir os seus fins. Assim, deu ao Ilustre Interventor Federal um interprete e executor inteligente e fidelíssimo do seu pensamento e de suas ordens, na pessoa do grande Prefeito do Recife, o Sr. Dr. Antonio de Novais Filho. Na consciência do povo está a convicção de que ao esforço, ao carinho e à dedicação do dr. Novais Filho se deve a grandiosidade do Congresso Eucarístico do Recife.
D. Miguel Valverde explicitava a união existente entre o sentimento de patriotismo e o amor ao Brasil com os ideais católicos. O sentimento de religioso patriotismo viria entrelaçado por uma solicitação de obediência às leis. Também pregava contra o Comunismo, seguindo o ensinamento dos papas. A mentalidade demonstrava os males sociais como castigos divinos. Vejamos, então, alguns trechos das Exortações Apostólicas compostas por este Arcebispo:
Qual seja a verdadeira causa da guerra atual, deshumana e total, outra não pode ser senão o pecado, que põe a desordem e o desconcerto nas almas, separando o homem de Deus, a criatura do seu Criador. (...) O materialismo, sob todas suas formas e modalidades invadiu a face da terra, e nós, nem mesmo os que habitam os rincões mais inacessíveis dos nossos sertões, não ficamos livres do contágio. A verdade é que o mundo estava materializado, laicizado, paganizado. Alguns chegaram a negar loucamente a existência da Divindade e formar partido para o fim de arrancarem do coração do homem a crença essencial em um Deus Criador e Soberano Senhor de todas as cousas. Tanto excesso de pecado estava pedindo um corretivo, e ele aí está. É a obra do pecado. (Exortação Quaresmal de 1943 – 10 de março de 1943 – Quarta Feira de Cinzas)
Entrados em beligerância teremos de dar tudo pela vitória das Nações Reunidas. As conseqüências desse colossal conflito nos atingiram em cheio, sobretudo sob a forma da carestia de vida, numa escala de sofrimentos como nunca jamais ninguém experimentou em terras do Brasil. Esta guerra é bem o flagelo de Deus e com que o mesmo Senhor se vinga das nações previcatórias, punindo-as e depurando, para dar-lhes em seguida a paz na justiça. (...) Só Deus poderá dar-nos a vitória sobre os nossos inimigos. Temos de merece-la de alguma sorte, pela conformação da nossa vontade com a vontade de Deus, tanto na vida publica como na nossa vida privada e domestica. (Exortação Quaresmal do Exmo Sr. Arcebispo ao clero e aos fiéis da Arquidiocese - 23 de fevereiro de 1944)
Todos nós andamos sujeitos a continuas restrições, privações e renuncias. São as conseqüências inevitáveis da guerra. Temos que sofrê-las, e muito se iludem os que se comprasem com a situação atual, pelos grandes proventos que dela estão auferindo. Grandes sacrifícios terão que fazer em futuro bem próximo. Ninguém sabe como vai ser o fim desse cruentissimo sacrifício. Quas dicansados com os horrores de uma guerra que tudo destrói e convulsiona há mais de cinco anos, suspiramos pela pas. E a pas virá no momento marcado pela Providência. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 14 de fevereiro de 1945)
A curiosidade, o sentimentalismo, a ignorância da doutrina cristã, o gosto de novidades levam não poucos, a aceitar, de olhos fechados, as delirantes extravagâncias do espiritismo. (...) Numa campanha astuta e insidiosa, propala-se adrede, entre o nosso povo simples e sem cultura suficiente para discernir a serpente que se oculta por baixo da folhagem verdosa, propula-se, repetimos, que o Comunismo nada tem contra a religião e tão somente procura melhorar, em futuro próximo, as precárias condições de vida do nosso povo pobre e sofredor. As promessas são sedutoras. (...) Saibam todos que o Comunismo é a quinta essência do materialismo. Para ele a única realidade existente é a matéria. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 6 de março de 1946)
Nesses fragmentos das Exortações Apostólicas dos anos de 1943 a 1946, vemos surgirem assuntos diversos. As três primeiras trazem a Segunda Grande Guerra advinda do pecado dos homens. É a vingança de Deus para com as nações que vêm se paganizando. Lembra o discurso da Igreja medieval, onde o pecado era a causa de todos os males. Pregará contra as modernidades, espiritismo; em outras partes, contra o Comunismo.
A pregação anticomunista não era nova. Já com Leão XIII ela não era uma inovação. Era a continuidade do pensamento de Pio IX, condenatório do mundo gerado pelo progresso técnico científico, que desde a sua carta Qui Pluribus, condenara os erros modernos, entre eles a fé em um progresso ilimitado . Pio XI, condena o comunismo em sua Encíclica de 19 de março de 1937, Divini Redemptoris. Vejamos um trecho:
A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.
Que as multidões seduzidas por idéias falazes... se assemelha com As promessas são sedutoras . As duas falas são contra o Comunismo. A primeira expressão é de Pio XI; a segunda, de D. Miguel Valverde. Assim, podemos ver, que até nas palavras, o Arcebispo se enquadrava nos ensinamentos da Igreja. Fortalecia-se a corrente anticomunista na Igreja Católica e no mundo Ocidental. Pio XII continua a condenação ao marxismo .
D. Miguel Valverde tem longo arcebispado na Arquidiocese de Olinda e Recife, envolvendo-se com a política e demonstrando sempre a sua postura conservadora. Da sua morte, em 1951, assume então o bispo de Montes Claros, D. Antonio de Almeida Morais Júnior.
A partir de 1949, o Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus já não apresenta muitos dados, apenas algumas poucas notícias de balanços econômicos. Por conseguinte, não teremos muitos dados para confrontar com as informações publicadas.
D. Antonio de Almeida Morais Júnior, seguia, assim como D. Miguel Valverde, as indicações propostas pela Santa Sé: combatia as inovações modernas, defendendo os ensinamentos da Igreja na luta contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo . Contra esse último aspecto, já citamos a Exortação Quaresmal de 1946, onde D. Miguel Valverde também o combatia. Vai fazer frente aos comunistas que atuavam nas fábricas e na zona rural . Na eleição de 1955, o Arcebispo chama os católicos para não votarem em Pelópidas Silveira, apoiado pelos comunistas.
Esses dois Arcebispos de Olinda e Recife tiveram as suas posturas conservadoras. Entravam em conformação de interesses entre a Igreja e o Estado, aglutinando as forças conservadoras, pretendendo impedir os movimentos de inconformação social .
O Arcebispo seguinte a D. Antonio Almeida Morais Júnior, foi bispo de Nazaré da Mata, e em 1960, é designado Arcebispo de Olinda e Recife, onde falecerá em 1964. Esse foi D. Carlos Gouveia Coelho. Durante sua administração, foram criadas novas dioceses: Floresta, Afogados da Ingazeira e Palmares. Segundo Severino Vicente da Silva, teria sido a resposta da Igreja à influência dos partidos de esquerda nessas regiões, valendo lembrar que Palmares tinha o maior sindicato rural de Pernambuco .
Fora D. Carlos Coelho o criador, em 1961, do Serviço de Orientação Rural de Pernambuco, o SORPE. Ficara responsável por este serviço o padre Paulo Crespo .
O Arcebispo de que tratamos, também não via a possibilidade do comunismo ser aceito por uma consciência cristã. Ele falece em 1964, decorrente de problemas operatórios .
Falamos, então, dos três Arcebispos os quais contempla o tempo registrado no Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Notamos que durante o arcebispado de D. Antonio de Almeida Morais Junior e D. Carlos Coelho, muito pouco foi escrito, dando conta apenas de assuntos internos da paróquia. Desde de 1947 não são mais registradas as Exortações Apostólicas, por isso, nos servimos da obra do Dr. Severino Vicente da Silva para nos auxiliar quase completamente no que concerne ao período, não trazendo dados do Livro de Tombo. Agora, veremos um pouco dos registros desse livro.
3. Os registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um pouco da história contada nas páginas amareladas de um caderno.
Sabemos que muito mais poderia ter sido escrito naquelas páginas. Informações preciosas sobre a Arquidiocese de Olinda e Recife e a Santa Sé. Notas reveladoras da paróquia foram esquecidas ou omitidas pelas mãos dos escritores, que em tintas preta, vermelha e azul, escreveram as páginas hoje amareladas.
Um caderno de 210 páginas. Algumas em branco, com lacunas imensas. Talvez alguém pensou em voltar para aquele ponto, e nunca mais retornou. Esqueceu, lembrou, omitiu. O sacerdote e seu ofício divino não tiveram tempo para registrar o tempo dos homens. Devem ter vivido com total serenidade o tempo de Deus. Esqueceram que “o futuro a Deus pertence”, como dizem muitos, e esquecendo o futuro, esqueceram de registrar os fatos e feitos de seu presente-passado. Quem escreveu essas páginas não sabemos. Algumas delas foram, certamente, escritas por mãos ungidas, outras, talvez não. Mas vamos aos registros que ficaram: aqueles lembrados e não omitidos.
Tais registros tomam aspecto de cronologia. O ano de 1941, o primeiro do Livro de Tombo, é bem relatado. Ocupa quase 50 páginas, com cópias das escrituras de terrenos para a construção da Igreja, Decreto de Ereção Canônica, compras de materiais de construção, lista de pertences encontrados pelo padre Sylvino na Capela dos Aflitos, atas de posse do então pároco, doações diversas, notas de falecimento de sacerdotes, movimento religioso. Os documentos de escritura são os mais longos e os que ocupam a maior parte do livro, além das liberações da construção do edifício pela prefeitura. Vamos, então, tentar organizar algumas informações encontradas no documento.
O Decreto de Ereção Canônica da nova parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro, coloca que a mesma fora dedicada ao Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus a fim de ficar perpetuada a memória do III Congresso Eucarístico de Jesus Nacional, reunido no Recife em setembro de 1939. Esta é a única informação, ao lado da ajuda de Agamenon Magalhães e de Antonio de Novais Filho, que aparece sobre o Congresso.
Desmembrada das paróquias de Nossa Senhora da Graça e de Nossa Senhora de Belém da Encruzilhada, os limites da nova paróquia seriam:
Partindo da rua Fernandes Vieira no ponto onde começa a Avenida Montevidéo, segue pelo lado direito do Parque do Amorim em direção ao Entroncamento e a Avenida Rosa e Silva até encontrar a estrada de Água Fria, antiga estrada da Boiada; e por esta, sempre pelo lado direito, até a Avenida Norte, seguindo por esta Avenida em direção ao Recife até o caminho que leva a uma ponte sobre o Maduro; e subindo o curso desse rio até a boeira de João de Barros e dahi em linha recta até encontrar a Avenida Montevidéo, seguindo-a até o começo da mesma Avenida, ponto de partida.
De início, serviu por Igreja Matriz a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, até que fosse concluída a construção da Igreja dedicada ao Coração Eucarístico de Jesus, cuja primeira pedra fora colocada à rua Conselheiro Portela, no Espinheiro. E assim, o arcebispo D. Miguel Valverde declarava aos 13 de janeiro de 1941: Declaramos inamovível a nova parochia do S.S Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro desta cidade.
O primeiro pároco, padre Sylvino Guedes , tomaria posse no dia 19 de janeiro do mesmo ano, sendo a cerimônia presidida pelo monsenhor Ambrósio Leite na matriz provisória dos Aflitos.
Em março de 1941, D. Miguel Valverde executa a instalação da Congregação da Doutrina Cristã na nova paróquia, e no mesmo mês, era escolhida a diretoria e as catequistas: as senhoras e senhoritas D. Maria Albertina de Siqueira, D. Maria da Glória Vanderlei, D. Alice Guedes. O Apostolado da Oração é instalado em 3 de outubro de 1941.
Aos 10 de dezembro de 1941, o então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife transforma padre Sylvino Carneiro da Cunha Guedes em pároco inamovível do Espinheiro.
Depois de diversas páginas tratando da compra do terreno, escritura, e inicio das obras do novo templo, temos as informações do Movimento Religioso da Paróquia em 1941, primeiro ano de atividades:
Movimento Religioso da Paróquia em 1941
78 batizados
40 casamentos
54.868 comunhões
33 viáticos
46 confissões de enfermos
204 extremas unções
15 encomendações
20 óbitos registrados
7 crismas
Interessante é um dado de 1942, onde é registrado o enterro do cônego Benigno Lira, barbaramente assassinado, donde o féretro saíra da Matriz de Santo Antônio para a necrópole de Santo Amaro. Mais tarde, em 1969, teremos o velório do padre Antonio Henrique, assassinado, na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um dos grandes silêncios de um fato marcante para a Igreja e para a sociedade brasileira, que encontraremos na omissão de um possível segundo volume do Livro de Tombo dessa paróquia.
Em 1942, damos vista de um documento assinado no Rio de Janeiro por 17 bispos, dentre eles, D. Miguel, falando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. É interessante, por sua importância de conteúdo, tomarmos nota de alguns trechos do mesmo em nosso trabalho:
A guerra que há três anos assola nações e continentes destruindo e matando em proporções nunca vistas, acaba de envolver-nos nos vértices de sua voragem fatal. (...) Antes de tudo, disciplina e obediência ao Chefe de Governo, a quem a Providência confiou, nesta hora de tão pesadas responsabilidades aos destinos do Brasil. (...) Lembrem-se estes combatentes valorosos que, feito com intenção sobrenatural, o oferecimento da própria vida para salvar a vida e a liberdade de seus irmãos é um dos mais sublimes atos de caridade cristã. Com eles estarão as orações e gratidão de todo o Brasil. Pensamos ainda no sofrimento das mães e das esposas. Terna e carinhosa na santidade das afeições domésticas, a mulher brasileira soube ser também heróica nas horas trágicas da vida nacional. Que Deus lhes dê generosidade, grandeza de alma e dedicação inesgotável para corresponder nobremente à sua missão de sacrifício. O clero merece também um apelo muito sincero da nossa solicitude pastoral. O patriotismo acendrado e puro dos nossos sacerdotes é tradição ininterrupta na história do Brasil, e só poderia pôr em dúvida quem de todo desconhecesse. Continuai fiéis à honra e às obrigações desta digna tradição.
Aqui neste trabalho já falamos da questão do patriotismo em D. Miguel Valverde, o que neste texto confirma não ser apenas uma prática particular desse Arcebispo, mas dos Bispos do Brasil.
A partir de 1943 até 1946, a maior parte das páginas do Livro Tombo é ocupada pelas Exortações Quaresmais do Arcebispo de Olinda e Recife. Referimo-nos às mesmas no tópico anterior. A partir de 1947, o livro se torna bastante resumido, e nos anos de 1948 e 1949, as páginas encontram-se em branco, tomando apenas o cabeçalho de início do ano.
Em 1943, é celebrada a primeira missa de Natal na Matriz do Espinheiro por D. Miguel Valverde , estando a mesma ainda em construção, seguindo-se o mesmo ato nos anos conseqüentes.
O ano de 1947 apresenta uma breve notícia, mas de grande importância: Carta de Pio XII aos bispos sobre o Dogma da Assunção , e no Livro de Tombo está transcrito o texto.
Em 1950, o documento registra o falecimento do Cônego Silvino Guedes aos 19 de maio. Aos 14 de janeiro de 1951, assume o padre Osvaldo Gomes Machado como vigário ecônomo. Ainda neste ano, aos 7 de maio, ocorre a morte do Arcebispo D. Miguel de Lima Valverde .
Celebrou sua primeira missa na Matriz do Espinheiro, aos 8 de dezembro de 1951, o padre Arnaldo de Sousa, paroquiano. No ano seguinte, aos 14 de março, toma posse o novo Arcebispo D. Antônio de Almeida Morais Júnior, que em agosto de 1953, transfere o padre Osvaldo Machado para o Seminário, dando posse, em 8 de setembro de 1953, ao padre Arnaldo Cabral de Sousa como pároco ecônomo, que ficaria na mesma paróquia até o ano de 1999, quando da sua aposentadoria.
Os anos que se seguem de 1948 a 1961 trazem informações pontuais e breves, escritas pelo punho do padre Arnaldo Cabral de Sousa. Porém, no dia 22 de dezembro de 1956, acontece a Dedicação da Matriz do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro, que desde 1941 vinha sendo construída. Um outro registro de suma importância é em 9 de outubro de 1958, o falecimento do papa Pio XII, onde a paróquia celebra as exéquias de sétimo dia. Contudo, aos 4 de novembro, cantam Te Deum pela eleição de João XXIII aos 28 de outubro de 1958.
O padre Arnaldo Cabral de Sousa registra que soube pela imprensa, aos 24 de abril de 1960, da transferência do bispo D. Antônio de Almeida Morais para Niterói, sendo nomeado D. Carlos de Gouveia Coelho, tomando posse em 21 de agosto do mesmo ano.
Os doze meses que contemplam 1961 são os últimos a serem registrados no Livro de Tombo. Em 1º de janeiro, padre Arnaldo Cabral de Sousa é provisionado pároco do Espinheiro, sendo o segundo pároco, assinando a ata em 5 de fevereiro de 1961. O livro termina com palavras reveladoras:
- Comemoramos em toda a plenitude a festa do Natal com missa “versus populum” dialogada pela comunidade que também cantou salmos apropriados para a cerimônia litúrgica.
- O relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade .
Vejamos que já em 1961, o padre Arnaldo celebra a missa voltado para o povo e dialogando com a comunidade. Porém, o que nos intriga é a ultima frase: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Desde então, o que se registra no Livro pelo pároco são esses movimentos espirituais e algumas referências às festas. Aparece, então, a grande probabilidade deste livro compreendendo os anos entre 1962 e 1999 não existir.
Sabemos da existência de um Livro de Tombo sendo escrito desde 1999 até os dias hodiernos, não pelo pároco, frei Geraldo Lima, O. Carm., mas por uma fiel. Silenciam-se várias décadas, muitas celebrações e muitas histórias. Uma, pelo menos, tentaremos trazer em nosso trabalho: o assassinato do jovem padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, crime sem solução até hoje. Calado até no Livro de Tombo da paróquia onde fora velado o seu corpo. A ditadura calou o assassinato e a voz do padre Henrique. O Livro de Tombo silenciou diante dos fatos.
4. O silêncio de um Livro de Tombo: o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto
Dentre tantos silêncios, poderíamos eleger diversos pelo estilo do documento. Uma nota sobre o Concílio Vaticano II, outra sobre a morte de D. Carlos Coelho, trazendo a notícia da posse de D. Hélder Câmara como novo Arcebispo de Olinda e Recife. Contudo, uma página não lavrada neste livro precisa ter voz: o assassinato do padre Henrique. Não que os outros eventos não tenham a sua importância: eles são de extrema valia para a Igreja Católica, porém, o crime cometido contra esse jovem padre chocou a Arquidiocese de Olinda e Recife, e seu velório fora na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Não é nossa intenção estudar aqui esse assassinato junto ao velório. Deixar passar em branco tal evento ocorrido na Matriz do Espinheiro seria esquece-lo uma segunda vez.
O Diário de Pernambuco trazia, no dia 28 de maio de 1969, uma pequena notícia:
Padre é assassinado na Cidade Universitária
O padre Antônio Henrique Pereira Neto, 28 anos de idade, professor de Sociologia do Juvenato Dom Vital e do Colégio Marista, foi encontrado morto, ontem, às 6 e 30, na Cidade Universitária, desconhecendo-se as causas do homicídio.
A propósito do fato, o diretor do Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança Pública do Estado, sr. Bartolomeu Gibson, fez as seguintes declarações:
“Na manhã de ontem, foi encontrado numa das projetadas ruas que ladeiam a Cidade Universitária, no acostamento da pista, o cadáver de um desconhecido de cor morena, trajando esportivamente, mais tarde identificado como sendo o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, do clero pernambucano.
Foram procedidos no local, pelo Instituto de Polícia Técnica, os exames necessários e, posteriormente, já no Necrotério, pelo Instituto de Medicina Legal, o exame necroscópico.
Continua o Departamento de Investigações através da Delegacia de Homicídios e de outros órgãos da Secretaria de Segurança, em intenso diligenciamento, visando à completa elucidação de tão lamentável ocorrência”.
Esta notícia do Diário de Pernambuco, em si, nos diz nada. Apenas informa a morte do padre e que as investigações foram feitas. Porém, é sabido: na manhã do dia 27 de maio de 1969, um vigilante de 62 anos encontrava, nos matagais da Cidade Universitária, um corpo torturado: padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto .
O padre morto era recifense, nascido aos 28 de outubro de 1940. O período de formação do padre Henrique compreende os anos entre 1956 - quando entra no Seminário da Várzea – até 1965, quando é ordenado padre por D. Hélder Câmara. Nesse tempo, como vimos a Arquidiocese passa pelo governo de três bispos: Antonio Almeida de Morais Júnior, Carlos Gouveia Coelho e Hélder Câmara. O Brasil passava por um período bastante conturbado politicamente . Os anos de atuação pastoral do padre Henrique foram marcados pelo gradual fechamento do regime e, em relação à Arquidiocese de Olinda e Recife, pelo também gradual afastamento e aumento de atritos entre D. Hélder e os militares .
Tal sacerdote, logo após sua ordenação, assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife. Desenvolvia trabalhos junto aos jovens com encontros e reuniões. Trabalhava juntamente com pais e filhos, tentando uma aproximação entre gerações, que pela década de 1960, estavam em conflito .
O enterro do padre Henrique reuniu entre dez e vinte mil pessoas, tendo um cortejo que fora da Igreja Matriz do Espinheiro ao cemitério da Várzea .
Dado em 1969, o crime, até hoje, não teve resolução. Várias foram as versões apresentadas. E impune, ficou no silêncio. Assim como as páginas de um Livro de Tombo, que poderiam ter deixado registrado por quem viu, as memórias e relatos de um velório calado pelas Forças Militares do Brasil.
5. Conclusão
Desde sua chegada ao Espinheiro, em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa esteve à frente da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus, até o ano de sua aposentadoria, 1999, no governo de D. José Cardoso Sobrinho como Arcebispo de Olinda e Recife. Assumem a paróquia os frades da Ordem Carmelita. Desde então, já passaram os frades João Costa, Dennys Nunes Pimentel, Antonio Muniz. Esse último é o Arcebispo de Maceió. Atualmente, estão à frente da paróquia os frades Joaquim Ferreira da Luz (Vigário) e o pároco frei Geraldo de A. Lima.
Várias são as letras que testemunham o Livro Tombo. Três são os padres os quais deveriam ter escrito. Assim, possivelmente, os sacerdotes não assumiram sua função de redatores do documento, o repassando aos fiéis. Percebemos que desde 1953, o padre Arnaldo escreve até 1961, pelo seu próprio punho. A última frase de livro é: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Possivelmente, não se tomou mais registros a um novo caderno por Tombo. Sabemos, então, de uma redação de novo volume do Livro Tombo, relatando os processos paroquiais desde 1999. O mesmo não é redigido pelos frades, mas pela paroquiana Juliana Maria de Oliveira, que periodicamente escreve no jornal da Paróquia, intitulado A Partilha, fundado em maio de 2001.
Se realmente não houver sido escrito, este silêncio se dissolve na História. Páginas desfeitas de realidades não apenas de um templo, mas de pessoas que por ali passaram e deixaram suas marcas, de eventos notáveis perdidos na solidão do esquecimento.
Foi preciso de 1941 a 1956 para que fosse construída a Igreja dedicada ao Sagrado Coração Eucarístico de Jesus. A igreja que conheceu as pregações conservadoras de D. Miguel de Lima Valverde e D. Antônio de Almeida Morais Júnior, escuta hoje guitarras e baterias, unidas às palmas inflamadas dos fiéis: os tempos mudaram. O templo mudou. Hoje, encontra-se entre luzes rochas, vermelhas, verdes, amarelas o Santíssimo Sacramento adorado na matriz que tem por padroeiro ele próprio.
O Livro de Tombo calou os anos entre 1961 e 1999. Concílio Vaticano II, todo o governo de D. Hélder Câmara à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife, o velório do padre Antonio Henrique e muitos outros fatos internos da paróquia.
Tentamos o máximo ser fiéis aos dados revelados na documentação eclesiástica da Matriz do Espinheiro. Não foi a nossa intenção escrever a história da paróquia, mas, mostrar os registros do Livro de Tombo, conhecer os poucos dados que lá foram registrados e a história deixada nos mesmos.
Falamos um pouco dos Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife que contemplam os anos de 1941 a 1961, como forma de alargar as margens daquilo que estava inserido no silêncio. Trouxemos para o nosso texto o conteúdo do Livro de Tombo, além de um fato não expresso nele: o assassinato do padre Henrique.
Poderíamos ter ido muito mais longe, mas nosso campo é limitado e nossos pés pisam caminhos incertos. As probabilidades são muitas, contudo, temos o receio de pisar em falso, e fazer calar ainda mais as vozes que se ocultam nas páginas amareladas produzidas por mãos desconhecidas que registraram aquilo concernente a si próprios. As páginas em branco podem ser reflexo do esquecimento, e ali, a memória não deixou seu traço, apenas as marcas de um passado que passou sem registro, ficando apenas o pó e a lembrança naqueles que viveram os momentos apagados pelo silêncio da caneta e pela omissão do olhar.
6. Bibliografia:
Fontes Primárias:
- Diário de Pernambuco (Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – APEJE)
- Livro de Tombo da Parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no Bairro do Espinheiro
Obras:
- CUNHA, Diogo. Estado de Exceção, Igreja Católica e Repressão: O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.
- SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da Igreja Progressista na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Editora Universitária UFPE / Editora Associação Reviva, 2006.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX
Disciplina: A Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Aluno: Paulo Henrique Cadena
O LIVRO DE TOMBO DA PAOCHIA DO S.S. CORAÇÃO EUCHARISTICO DE JESUS NO BAIRRO DO ESPINHEIRO
Paulo Henrique Cadena
Falas e silêncios da documentação paroquial
1.Introdução
Observando o verbete tombar do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, temos a seguinte definição: Fazer o tombo de; inventariar; arrolar; registrar. Assim, podemos tomar por “Livro de Tombo”, a semelhança de Livro de Registros. Pensando em uma paróquia, deveriam estar inscritos nestas páginas os atos da instituição local, pelas mãos de seus administradores. Decreto de Ereção, construção do templo, Exortações, balanço econômico, festividades, falecimento de eclesiásticos, chegada do novo pároco, atas, visitas do Arcebispo, notas de Encíclicas, morte do papa: inscritos no Livro de Tombo. Mas, por quem?
Esta pergunta, no concernente à Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus é difícil de responder. O Livro de Tombo que nos fora apresentado, detém em suas amareladas 210 páginas os anos compreendidos entre 1941 e 1961, portanto, vinte anos de registros. Contudo, são três os sacerdotes correspondentes a essa Paróquia, e mais de seis os tipos de letra testemunhando os fatos documentados.
O padre Silvino Guedes (o qual apresenta grafia por Sylvino ou Silvino em mais de três vezes no livro), pelo que notamos, apenas assinava o Livro. A assinatura diverge em muito do testemunho das páginas de relato. Falecerá em 1950, dando início a uma nova administração do padre Osvaldo Gomes Machado, que hora apresenta a sua mesma letra de assinatura e hora diverge. Em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa assume como pároco ecônomo. Sua letra não vai diferenciar-se da mesma da assinatura até o ano de 1961: último registro do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro. Portanto, não sabemos de quem eram as mãos que registravam os passos da Igreja do Espinheiro, como também não sabemos se há um outro livro que compreenda os espaços entre 1961 – 1999, quando chega o frei Geraldo Araújo, da Ordem Carmelita, para assumir o espaço deixado por padre Arnaldo de Sousa. Sabemos, de certo, a existência de um sendo escrito com os relatos desde 1999, mas não por obra do religioso, mas, pelas mãos de uma paroquiana. Seria também essa resposta às letras divergentes do padre Silvino? Algum paroquiano tomava a sua função de pároco nos registros? Isso não podemos afirmar.
Não pretendemos com esse trabalho escrever uma história da Igreja do Espinheiro. Longe de nós. Nossas pesquisas apenas se restringem aos anos de 1941 a 1961, distribuídos neste Livro de Tombo que nos fora apresentado. Tentaremos, portanto, tomar notas de alguns dados desses registros, como Exortações Apostólicas do senhor Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde durante a Segunda Grande Guerra: alguém tomara o cuidado de copiar tais textos.
Os anos de 1960 para Igreja Católica no Brasil e no mundo foram de grande valor. E porque não foram registrados no Livro de Tombo da Paróquia do Espinheiro? Ou tivera e são guardados sob as voltas de sete chaves? Concílio Vaticano II, chegada de D. Hélder Câmara como Arcebispo de Olinda e Recife, eleição de Paulo VI, período ditatorial. Valoroso de registros seria o velório do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, no ano de 1969, ocorrido nesta Paróquia.
Deixemos, então, as palavras falarem delas próprias e os silêncios retumbarem no infinito. Ecoem e deixem suas marcas nas profundezas da História. Também o silêncio registra, fala.
Então, teremos por obra apresentar esse Livro de Tombo, pleno de silêncios e marcas. Cheio de traços de mãos múltiplas que acordam em um mesmo sentido: registrar o que viram, leram e ouviram. Omitir o que lhes compraz.
2. Os Arcebispos de Olinda e Recife entre os anos de 1941 e 1961: alguns pontos ligados aos registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus
Entre os anos de 1941 e 1961, foram três os Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife: D. Miguel de Lima Valverde (1922 – 1951), D. Antônio de Almeida Morais Júnior (1951 – 1960) e D. Carlos Gouveia Coelho (1960 – 1964).
D. Miguel de Lima Valverde fora sagrado bispo em 1911 e em 14 de fevereiro de 1922, pela bula Hodie Nos, do papa Pio XI, fora designado para o Arcebispado de Olinda e Recife, onde tomou posse em julho de 1922 .
Durante seu arcebispado, manifestou-se politicamente.
Seus pronunciamentos foram sempre no diapasão da ordem e da defesa das instituições, evitando qualquer palavra de apoio a movimentos que contestassem o status quo. Sempre reconheceu as mudanças após elas estarem estabelecidas.
Entre os anos de 1925 e 1949, D. Miguel Valverde estabeleceu 19 novas paróquias na Arquidiocese de Olinda e Recife, acompanhando o movimento populacional da diocese, como orientara o Código de Direito Canônico e o Concílio de Trento . Observemos, então, um fragmento do Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus que confirma essa informação dada na obra do Dr. Severino Vicente da Silva:
O crescimento das cidades e o augmento da população costumam criar novos e serios problemas no tocante à cura das almas exigindo não raro a criação de um novo centro parochial, donde mais facilmente se possa irradiar a acção do Pastor. E ninguém ignora ser este o caso do bairro do Espinheiro nesta cidade do Recife, que desde algum tempo está reclamando a assistência de um Parocho próprio.
Silva ainda expõe as ações de patriotismo ufanista do Arcebispo. Havia a colaboração entre a Igreja e o Estado Novo, em especial ao interventor em Pernambuco, Agamenon Magalhães, homem de confiança de D. Miguel de Lima Valverde. Quando do II Congresso Eucarístico Nacional, em setembro de 1939, os governantes deram o seu auxilio. O prefeito do Recife, Augusto Novais, fez construir o Parque Treze de Maio para o evento . Vejamos o que diz o Arcebispo no Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus:
O Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães, muito digno Interventor Federal, nem um só momento deixou de prestigiar a obra do Congresso. Providencias acertadas, auxílios oportunos, empenho decidido, nada faltou de sua parte. É que Deus sabe dispor todas as coisas com força e suavidade, para atingir os seus fins. Assim, deu ao Ilustre Interventor Federal um interprete e executor inteligente e fidelíssimo do seu pensamento e de suas ordens, na pessoa do grande Prefeito do Recife, o Sr. Dr. Antonio de Novais Filho. Na consciência do povo está a convicção de que ao esforço, ao carinho e à dedicação do dr. Novais Filho se deve a grandiosidade do Congresso Eucarístico do Recife.
D. Miguel Valverde explicitava a união existente entre o sentimento de patriotismo e o amor ao Brasil com os ideais católicos. O sentimento de religioso patriotismo viria entrelaçado por uma solicitação de obediência às leis. Também pregava contra o Comunismo, seguindo o ensinamento dos papas. A mentalidade demonstrava os males sociais como castigos divinos. Vejamos, então, alguns trechos das Exortações Apostólicas compostas por este Arcebispo:
Qual seja a verdadeira causa da guerra atual, deshumana e total, outra não pode ser senão o pecado, que põe a desordem e o desconcerto nas almas, separando o homem de Deus, a criatura do seu Criador. (...) O materialismo, sob todas suas formas e modalidades invadiu a face da terra, e nós, nem mesmo os que habitam os rincões mais inacessíveis dos nossos sertões, não ficamos livres do contágio. A verdade é que o mundo estava materializado, laicizado, paganizado. Alguns chegaram a negar loucamente a existência da Divindade e formar partido para o fim de arrancarem do coração do homem a crença essencial em um Deus Criador e Soberano Senhor de todas as cousas. Tanto excesso de pecado estava pedindo um corretivo, e ele aí está. É a obra do pecado. (Exortação Quaresmal de 1943 – 10 de março de 1943 – Quarta Feira de Cinzas)
Entrados em beligerância teremos de dar tudo pela vitória das Nações Reunidas. As conseqüências desse colossal conflito nos atingiram em cheio, sobretudo sob a forma da carestia de vida, numa escala de sofrimentos como nunca jamais ninguém experimentou em terras do Brasil. Esta guerra é bem o flagelo de Deus e com que o mesmo Senhor se vinga das nações previcatórias, punindo-as e depurando, para dar-lhes em seguida a paz na justiça. (...) Só Deus poderá dar-nos a vitória sobre os nossos inimigos. Temos de merece-la de alguma sorte, pela conformação da nossa vontade com a vontade de Deus, tanto na vida publica como na nossa vida privada e domestica. (Exortação Quaresmal do Exmo Sr. Arcebispo ao clero e aos fiéis da Arquidiocese - 23 de fevereiro de 1944)
Todos nós andamos sujeitos a continuas restrições, privações e renuncias. São as conseqüências inevitáveis da guerra. Temos que sofrê-las, e muito se iludem os que se comprasem com a situação atual, pelos grandes proventos que dela estão auferindo. Grandes sacrifícios terão que fazer em futuro bem próximo. Ninguém sabe como vai ser o fim desse cruentissimo sacrifício. Quas dicansados com os horrores de uma guerra que tudo destrói e convulsiona há mais de cinco anos, suspiramos pela pas. E a pas virá no momento marcado pela Providência. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 14 de fevereiro de 1945)
A curiosidade, o sentimentalismo, a ignorância da doutrina cristã, o gosto de novidades levam não poucos, a aceitar, de olhos fechados, as delirantes extravagâncias do espiritismo. (...) Numa campanha astuta e insidiosa, propala-se adrede, entre o nosso povo simples e sem cultura suficiente para discernir a serpente que se oculta por baixo da folhagem verdosa, propula-se, repetimos, que o Comunismo nada tem contra a religião e tão somente procura melhorar, em futuro próximo, as precárias condições de vida do nosso povo pobre e sofredor. As promessas são sedutoras. (...) Saibam todos que o Comunismo é a quinta essência do materialismo. Para ele a única realidade existente é a matéria. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 6 de março de 1946)
Nesses fragmentos das Exortações Apostólicas dos anos de 1943 a 1946, vemos surgirem assuntos diversos. As três primeiras trazem a Segunda Grande Guerra advinda do pecado dos homens. É a vingança de Deus para com as nações que vêm se paganizando. Lembra o discurso da Igreja medieval, onde o pecado era a causa de todos os males. Pregará contra as modernidades, espiritismo; em outras partes, contra o Comunismo.
A pregação anticomunista não era nova. Já com Leão XIII ela não era uma inovação. Era a continuidade do pensamento de Pio IX, condenatório do mundo gerado pelo progresso técnico científico, que desde a sua carta Qui Pluribus, condenara os erros modernos, entre eles a fé em um progresso ilimitado . Pio XI, condena o comunismo em sua Encíclica de 19 de março de 1937, Divini Redemptoris. Vejamos um trecho:
A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.
Que as multidões seduzidas por idéias falazes... se assemelha com As promessas são sedutoras . As duas falas são contra o Comunismo. A primeira expressão é de Pio XI; a segunda, de D. Miguel Valverde. Assim, podemos ver, que até nas palavras, o Arcebispo se enquadrava nos ensinamentos da Igreja. Fortalecia-se a corrente anticomunista na Igreja Católica e no mundo Ocidental. Pio XII continua a condenação ao marxismo .
D. Miguel Valverde tem longo arcebispado na Arquidiocese de Olinda e Recife, envolvendo-se com a política e demonstrando sempre a sua postura conservadora. Da sua morte, em 1951, assume então o bispo de Montes Claros, D. Antonio de Almeida Morais Júnior.
A partir de 1949, o Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus já não apresenta muitos dados, apenas algumas poucas notícias de balanços econômicos. Por conseguinte, não teremos muitos dados para confrontar com as informações publicadas.
D. Antonio de Almeida Morais Júnior, seguia, assim como D. Miguel Valverde, as indicações propostas pela Santa Sé: combatia as inovações modernas, defendendo os ensinamentos da Igreja na luta contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo . Contra esse último aspecto, já citamos a Exortação Quaresmal de 1946, onde D. Miguel Valverde também o combatia. Vai fazer frente aos comunistas que atuavam nas fábricas e na zona rural . Na eleição de 1955, o Arcebispo chama os católicos para não votarem em Pelópidas Silveira, apoiado pelos comunistas.
Esses dois Arcebispos de Olinda e Recife tiveram as suas posturas conservadoras. Entravam em conformação de interesses entre a Igreja e o Estado, aglutinando as forças conservadoras, pretendendo impedir os movimentos de inconformação social .
O Arcebispo seguinte a D. Antonio Almeida Morais Júnior, foi bispo de Nazaré da Mata, e em 1960, é designado Arcebispo de Olinda e Recife, onde falecerá em 1964. Esse foi D. Carlos Gouveia Coelho. Durante sua administração, foram criadas novas dioceses: Floresta, Afogados da Ingazeira e Palmares. Segundo Severino Vicente da Silva, teria sido a resposta da Igreja à influência dos partidos de esquerda nessas regiões, valendo lembrar que Palmares tinha o maior sindicato rural de Pernambuco .
Fora D. Carlos Coelho o criador, em 1961, do Serviço de Orientação Rural de Pernambuco, o SORPE. Ficara responsável por este serviço o padre Paulo Crespo .
O Arcebispo de que tratamos, também não via a possibilidade do comunismo ser aceito por uma consciência cristã. Ele falece em 1964, decorrente de problemas operatórios .
Falamos, então, dos três Arcebispos os quais contempla o tempo registrado no Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Notamos que durante o arcebispado de D. Antonio de Almeida Morais Junior e D. Carlos Coelho, muito pouco foi escrito, dando conta apenas de assuntos internos da paróquia. Desde de 1947 não são mais registradas as Exortações Apostólicas, por isso, nos servimos da obra do Dr. Severino Vicente da Silva para nos auxiliar quase completamente no que concerne ao período, não trazendo dados do Livro de Tombo. Agora, veremos um pouco dos registros desse livro.
3. Os registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um pouco da história contada nas páginas amareladas de um caderno.
Sabemos que muito mais poderia ter sido escrito naquelas páginas. Informações preciosas sobre a Arquidiocese de Olinda e Recife e a Santa Sé. Notas reveladoras da paróquia foram esquecidas ou omitidas pelas mãos dos escritores, que em tintas preta, vermelha e azul, escreveram as páginas hoje amareladas.
Um caderno de 210 páginas. Algumas em branco, com lacunas imensas. Talvez alguém pensou em voltar para aquele ponto, e nunca mais retornou. Esqueceu, lembrou, omitiu. O sacerdote e seu ofício divino não tiveram tempo para registrar o tempo dos homens. Devem ter vivido com total serenidade o tempo de Deus. Esqueceram que “o futuro a Deus pertence”, como dizem muitos, e esquecendo o futuro, esqueceram de registrar os fatos e feitos de seu presente-passado. Quem escreveu essas páginas não sabemos. Algumas delas foram, certamente, escritas por mãos ungidas, outras, talvez não. Mas vamos aos registros que ficaram: aqueles lembrados e não omitidos.
Tais registros tomam aspecto de cronologia. O ano de 1941, o primeiro do Livro de Tombo, é bem relatado. Ocupa quase 50 páginas, com cópias das escrituras de terrenos para a construção da Igreja, Decreto de Ereção Canônica, compras de materiais de construção, lista de pertences encontrados pelo padre Sylvino na Capela dos Aflitos, atas de posse do então pároco, doações diversas, notas de falecimento de sacerdotes, movimento religioso. Os documentos de escritura são os mais longos e os que ocupam a maior parte do livro, além das liberações da construção do edifício pela prefeitura. Vamos, então, tentar organizar algumas informações encontradas no documento.
O Decreto de Ereção Canônica da nova parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro, coloca que a mesma fora dedicada ao Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus a fim de ficar perpetuada a memória do III Congresso Eucarístico de Jesus Nacional, reunido no Recife em setembro de 1939. Esta é a única informação, ao lado da ajuda de Agamenon Magalhães e de Antonio de Novais Filho, que aparece sobre o Congresso.
Desmembrada das paróquias de Nossa Senhora da Graça e de Nossa Senhora de Belém da Encruzilhada, os limites da nova paróquia seriam:
Partindo da rua Fernandes Vieira no ponto onde começa a Avenida Montevidéo, segue pelo lado direito do Parque do Amorim em direção ao Entroncamento e a Avenida Rosa e Silva até encontrar a estrada de Água Fria, antiga estrada da Boiada; e por esta, sempre pelo lado direito, até a Avenida Norte, seguindo por esta Avenida em direção ao Recife até o caminho que leva a uma ponte sobre o Maduro; e subindo o curso desse rio até a boeira de João de Barros e dahi em linha recta até encontrar a Avenida Montevidéo, seguindo-a até o começo da mesma Avenida, ponto de partida.
De início, serviu por Igreja Matriz a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, até que fosse concluída a construção da Igreja dedicada ao Coração Eucarístico de Jesus, cuja primeira pedra fora colocada à rua Conselheiro Portela, no Espinheiro. E assim, o arcebispo D. Miguel Valverde declarava aos 13 de janeiro de 1941: Declaramos inamovível a nova parochia do S.S Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro desta cidade.
O primeiro pároco, padre Sylvino Guedes , tomaria posse no dia 19 de janeiro do mesmo ano, sendo a cerimônia presidida pelo monsenhor Ambrósio Leite na matriz provisória dos Aflitos.
Em março de 1941, D. Miguel Valverde executa a instalação da Congregação da Doutrina Cristã na nova paróquia, e no mesmo mês, era escolhida a diretoria e as catequistas: as senhoras e senhoritas D. Maria Albertina de Siqueira, D. Maria da Glória Vanderlei, D. Alice Guedes. O Apostolado da Oração é instalado em 3 de outubro de 1941.
Aos 10 de dezembro de 1941, o então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife transforma padre Sylvino Carneiro da Cunha Guedes em pároco inamovível do Espinheiro.
Depois de diversas páginas tratando da compra do terreno, escritura, e inicio das obras do novo templo, temos as informações do Movimento Religioso da Paróquia em 1941, primeiro ano de atividades:
Movimento Religioso da Paróquia em 1941
78 batizados
40 casamentos
54.868 comunhões
33 viáticos
46 confissões de enfermos
204 extremas unções
15 encomendações
20 óbitos registrados
7 crismas
Interessante é um dado de 1942, onde é registrado o enterro do cônego Benigno Lira, barbaramente assassinado, donde o féretro saíra da Matriz de Santo Antônio para a necrópole de Santo Amaro. Mais tarde, em 1969, teremos o velório do padre Antonio Henrique, assassinado, na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um dos grandes silêncios de um fato marcante para a Igreja e para a sociedade brasileira, que encontraremos na omissão de um possível segundo volume do Livro de Tombo dessa paróquia.
Em 1942, damos vista de um documento assinado no Rio de Janeiro por 17 bispos, dentre eles, D. Miguel, falando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. É interessante, por sua importância de conteúdo, tomarmos nota de alguns trechos do mesmo em nosso trabalho:
A guerra que há três anos assola nações e continentes destruindo e matando em proporções nunca vistas, acaba de envolver-nos nos vértices de sua voragem fatal. (...) Antes de tudo, disciplina e obediência ao Chefe de Governo, a quem a Providência confiou, nesta hora de tão pesadas responsabilidades aos destinos do Brasil. (...) Lembrem-se estes combatentes valorosos que, feito com intenção sobrenatural, o oferecimento da própria vida para salvar a vida e a liberdade de seus irmãos é um dos mais sublimes atos de caridade cristã. Com eles estarão as orações e gratidão de todo o Brasil. Pensamos ainda no sofrimento das mães e das esposas. Terna e carinhosa na santidade das afeições domésticas, a mulher brasileira soube ser também heróica nas horas trágicas da vida nacional. Que Deus lhes dê generosidade, grandeza de alma e dedicação inesgotável para corresponder nobremente à sua missão de sacrifício. O clero merece também um apelo muito sincero da nossa solicitude pastoral. O patriotismo acendrado e puro dos nossos sacerdotes é tradição ininterrupta na história do Brasil, e só poderia pôr em dúvida quem de todo desconhecesse. Continuai fiéis à honra e às obrigações desta digna tradição.
Aqui neste trabalho já falamos da questão do patriotismo em D. Miguel Valverde, o que neste texto confirma não ser apenas uma prática particular desse Arcebispo, mas dos Bispos do Brasil.
A partir de 1943 até 1946, a maior parte das páginas do Livro Tombo é ocupada pelas Exortações Quaresmais do Arcebispo de Olinda e Recife. Referimo-nos às mesmas no tópico anterior. A partir de 1947, o livro se torna bastante resumido, e nos anos de 1948 e 1949, as páginas encontram-se em branco, tomando apenas o cabeçalho de início do ano.
Em 1943, é celebrada a primeira missa de Natal na Matriz do Espinheiro por D. Miguel Valverde , estando a mesma ainda em construção, seguindo-se o mesmo ato nos anos conseqüentes.
O ano de 1947 apresenta uma breve notícia, mas de grande importância: Carta de Pio XII aos bispos sobre o Dogma da Assunção , e no Livro de Tombo está transcrito o texto.
Em 1950, o documento registra o falecimento do Cônego Silvino Guedes aos 19 de maio. Aos 14 de janeiro de 1951, assume o padre Osvaldo Gomes Machado como vigário ecônomo. Ainda neste ano, aos 7 de maio, ocorre a morte do Arcebispo D. Miguel de Lima Valverde .
Celebrou sua primeira missa na Matriz do Espinheiro, aos 8 de dezembro de 1951, o padre Arnaldo de Sousa, paroquiano. No ano seguinte, aos 14 de março, toma posse o novo Arcebispo D. Antônio de Almeida Morais Júnior, que em agosto de 1953, transfere o padre Osvaldo Machado para o Seminário, dando posse, em 8 de setembro de 1953, ao padre Arnaldo Cabral de Sousa como pároco ecônomo, que ficaria na mesma paróquia até o ano de 1999, quando da sua aposentadoria.
Os anos que se seguem de 1948 a 1961 trazem informações pontuais e breves, escritas pelo punho do padre Arnaldo Cabral de Sousa. Porém, no dia 22 de dezembro de 1956, acontece a Dedicação da Matriz do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro, que desde 1941 vinha sendo construída. Um outro registro de suma importância é em 9 de outubro de 1958, o falecimento do papa Pio XII, onde a paróquia celebra as exéquias de sétimo dia. Contudo, aos 4 de novembro, cantam Te Deum pela eleição de João XXIII aos 28 de outubro de 1958.
O padre Arnaldo Cabral de Sousa registra que soube pela imprensa, aos 24 de abril de 1960, da transferência do bispo D. Antônio de Almeida Morais para Niterói, sendo nomeado D. Carlos de Gouveia Coelho, tomando posse em 21 de agosto do mesmo ano.
Os doze meses que contemplam 1961 são os últimos a serem registrados no Livro de Tombo. Em 1º de janeiro, padre Arnaldo Cabral de Sousa é provisionado pároco do Espinheiro, sendo o segundo pároco, assinando a ata em 5 de fevereiro de 1961. O livro termina com palavras reveladoras:
- Comemoramos em toda a plenitude a festa do Natal com missa “versus populum” dialogada pela comunidade que também cantou salmos apropriados para a cerimônia litúrgica.
- O relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade .
Vejamos que já em 1961, o padre Arnaldo celebra a missa voltado para o povo e dialogando com a comunidade. Porém, o que nos intriga é a ultima frase: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Desde então, o que se registra no Livro pelo pároco são esses movimentos espirituais e algumas referências às festas. Aparece, então, a grande probabilidade deste livro compreendendo os anos entre 1962 e 1999 não existir.
Sabemos da existência de um Livro de Tombo sendo escrito desde 1999 até os dias hodiernos, não pelo pároco, frei Geraldo Lima, O. Carm., mas por uma fiel. Silenciam-se várias décadas, muitas celebrações e muitas histórias. Uma, pelo menos, tentaremos trazer em nosso trabalho: o assassinato do jovem padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, crime sem solução até hoje. Calado até no Livro de Tombo da paróquia onde fora velado o seu corpo. A ditadura calou o assassinato e a voz do padre Henrique. O Livro de Tombo silenciou diante dos fatos.
4. O silêncio de um Livro de Tombo: o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto
Dentre tantos silêncios, poderíamos eleger diversos pelo estilo do documento. Uma nota sobre o Concílio Vaticano II, outra sobre a morte de D. Carlos Coelho, trazendo a notícia da posse de D. Hélder Câmara como novo Arcebispo de Olinda e Recife. Contudo, uma página não lavrada neste livro precisa ter voz: o assassinato do padre Henrique. Não que os outros eventos não tenham a sua importância: eles são de extrema valia para a Igreja Católica, porém, o crime cometido contra esse jovem padre chocou a Arquidiocese de Olinda e Recife, e seu velório fora na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Não é nossa intenção estudar aqui esse assassinato junto ao velório. Deixar passar em branco tal evento ocorrido na Matriz do Espinheiro seria esquece-lo uma segunda vez.
O Diário de Pernambuco trazia, no dia 28 de maio de 1969, uma pequena notícia:
Padre é assassinado na Cidade Universitária
O padre Antônio Henrique Pereira Neto, 28 anos de idade, professor de Sociologia do Juvenato Dom Vital e do Colégio Marista, foi encontrado morto, ontem, às 6 e 30, na Cidade Universitária, desconhecendo-se as causas do homicídio.
A propósito do fato, o diretor do Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança Pública do Estado, sr. Bartolomeu Gibson, fez as seguintes declarações:
“Na manhã de ontem, foi encontrado numa das projetadas ruas que ladeiam a Cidade Universitária, no acostamento da pista, o cadáver de um desconhecido de cor morena, trajando esportivamente, mais tarde identificado como sendo o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, do clero pernambucano.
Foram procedidos no local, pelo Instituto de Polícia Técnica, os exames necessários e, posteriormente, já no Necrotério, pelo Instituto de Medicina Legal, o exame necroscópico.
Continua o Departamento de Investigações através da Delegacia de Homicídios e de outros órgãos da Secretaria de Segurança, em intenso diligenciamento, visando à completa elucidação de tão lamentável ocorrência”.
Esta notícia do Diário de Pernambuco, em si, nos diz nada. Apenas informa a morte do padre e que as investigações foram feitas. Porém, é sabido: na manhã do dia 27 de maio de 1969, um vigilante de 62 anos encontrava, nos matagais da Cidade Universitária, um corpo torturado: padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto .
O padre morto era recifense, nascido aos 28 de outubro de 1940. O período de formação do padre Henrique compreende os anos entre 1956 - quando entra no Seminário da Várzea – até 1965, quando é ordenado padre por D. Hélder Câmara. Nesse tempo, como vimos a Arquidiocese passa pelo governo de três bispos: Antonio Almeida de Morais Júnior, Carlos Gouveia Coelho e Hélder Câmara. O Brasil passava por um período bastante conturbado politicamente . Os anos de atuação pastoral do padre Henrique foram marcados pelo gradual fechamento do regime e, em relação à Arquidiocese de Olinda e Recife, pelo também gradual afastamento e aumento de atritos entre D. Hélder e os militares .
Tal sacerdote, logo após sua ordenação, assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife. Desenvolvia trabalhos junto aos jovens com encontros e reuniões. Trabalhava juntamente com pais e filhos, tentando uma aproximação entre gerações, que pela década de 1960, estavam em conflito .
O enterro do padre Henrique reuniu entre dez e vinte mil pessoas, tendo um cortejo que fora da Igreja Matriz do Espinheiro ao cemitério da Várzea .
Dado em 1969, o crime, até hoje, não teve resolução. Várias foram as versões apresentadas. E impune, ficou no silêncio. Assim como as páginas de um Livro de Tombo, que poderiam ter deixado registrado por quem viu, as memórias e relatos de um velório calado pelas Forças Militares do Brasil.
5. Conclusão
Desde sua chegada ao Espinheiro, em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa esteve à frente da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus, até o ano de sua aposentadoria, 1999, no governo de D. José Cardoso Sobrinho como Arcebispo de Olinda e Recife. Assumem a paróquia os frades da Ordem Carmelita. Desde então, já passaram os frades João Costa, Dennys Nunes Pimentel, Antonio Muniz. Esse último é o Arcebispo de Maceió. Atualmente, estão à frente da paróquia os frades Joaquim Ferreira da Luz (Vigário) e o pároco frei Geraldo de A. Lima.
Várias são as letras que testemunham o Livro Tombo. Três são os padres os quais deveriam ter escrito. Assim, possivelmente, os sacerdotes não assumiram sua função de redatores do documento, o repassando aos fiéis. Percebemos que desde 1953, o padre Arnaldo escreve até 1961, pelo seu próprio punho. A última frase de livro é: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Possivelmente, não se tomou mais registros a um novo caderno por Tombo. Sabemos, então, de uma redação de novo volume do Livro Tombo, relatando os processos paroquiais desde 1999. O mesmo não é redigido pelos frades, mas pela paroquiana Juliana Maria de Oliveira, que periodicamente escreve no jornal da Paróquia, intitulado A Partilha, fundado em maio de 2001.
Se realmente não houver sido escrito, este silêncio se dissolve na História. Páginas desfeitas de realidades não apenas de um templo, mas de pessoas que por ali passaram e deixaram suas marcas, de eventos notáveis perdidos na solidão do esquecimento.
Foi preciso de 1941 a 1956 para que fosse construída a Igreja dedicada ao Sagrado Coração Eucarístico de Jesus. A igreja que conheceu as pregações conservadoras de D. Miguel de Lima Valverde e D. Antônio de Almeida Morais Júnior, escuta hoje guitarras e baterias, unidas às palmas inflamadas dos fiéis: os tempos mudaram. O templo mudou. Hoje, encontra-se entre luzes rochas, vermelhas, verdes, amarelas o Santíssimo Sacramento adorado na matriz que tem por padroeiro ele próprio.
O Livro de Tombo calou os anos entre 1961 e 1999. Concílio Vaticano II, todo o governo de D. Hélder Câmara à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife, o velório do padre Antonio Henrique e muitos outros fatos internos da paróquia.
Tentamos o máximo ser fiéis aos dados revelados na documentação eclesiástica da Matriz do Espinheiro. Não foi a nossa intenção escrever a história da paróquia, mas, mostrar os registros do Livro de Tombo, conhecer os poucos dados que lá foram registrados e a história deixada nos mesmos.
Falamos um pouco dos Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife que contemplam os anos de 1941 a 1961, como forma de alargar as margens daquilo que estava inserido no silêncio. Trouxemos para o nosso texto o conteúdo do Livro de Tombo, além de um fato não expresso nele: o assassinato do padre Henrique.
Poderíamos ter ido muito mais longe, mas nosso campo é limitado e nossos pés pisam caminhos incertos. As probabilidades são muitas, contudo, temos o receio de pisar em falso, e fazer calar ainda mais as vozes que se ocultam nas páginas amareladas produzidas por mãos desconhecidas que registraram aquilo concernente a si próprios. As páginas em branco podem ser reflexo do esquecimento, e ali, a memória não deixou seu traço, apenas as marcas de um passado que passou sem registro, ficando apenas o pó e a lembrança naqueles que viveram os momentos apagados pelo silêncio da caneta e pela omissão do olhar.
6. Bibliografia:
Fontes Primárias:
- Diário de Pernambuco (Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – APEJE)
- Livro de Tombo da Parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no Bairro do Espinheiro
Obras:
- CUNHA, Diogo. Estado de Exceção, Igreja Católica e Repressão: O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.
- SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da Igreja Progressista na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Editora Universitária UFPE / Editora Associação Reviva, 2006.
sábado, 27 de dezembro de 2008
O Pastoril, o Tempo sagrado e a contemporaneidade profana
Universidade Federal de Pernambuco
Curso de Especialização em História do Século XX
Disciplina - PANORAMA DA IGREJA CATÓLICA NO SÉCULO XX
Prof. Severino Vicente da Silva
O Pastoril, o Tempo sagrado e a contemporaneidade profana
Autor: Diógenes Arruda Ferreira
Resumo: Este trabalho busca investigar a constituição do Tempo sagrado para o homem religioso católico dentro de um contexto contemporâneo. Partindo da concepção de Mircea Eliade da experiência de duas temporalidades distintas vividas pelo homem religioso, observamos que através dos Bailes Pastoris, podemos perceber importantes aspectos dessas temporalidades.
Palavras-chave: Catolicismo; Pastoril; Tempo Sagrado.
Abstract: This study attempts to investigate the formation of the sacred Time for the religious catholic man in a contemporary context. Starting from the idea of Mircea Eliade of the existence of two distinct temporalities experienced by religious man, we observed that through the Pastoris, we can understand important aspects of these temporalities.
Keywords: Catholicism; Pastoril; Sacred Time.
O Pastoril, o Tempo sagrado e a contemporaneidade profana
1. Introdução
Vez por outra, nos surpreendemos com o retorno de alguns rituais, típicos dos cristãos, mais especificamente dos cristãos católicos, pois o catolicismo, mais que a racionalidade pós renascentista, expõe a sua fé de maneira mais simbólica, menos abstrata. (SILVA, Severino Vicente da. “Rituais de fé católica - novidade da tradição no Recife”. In www.biuvicente.blogspot.com , 03 de novembro de 2008)
Naquilo que pode estar se configurando como uma busca pelo re-encantamento da fé, ou talvez fosse melhor dizer um avivamento dos mistérios na religiosidade, o natal católico consegue nos apresenta uma riqueza de simbolismos da fé cristã que parecem entrelaçar o culto ao divino à vida social, mesmo dentro de instituições situadas em contextos mais laicos, durante o mês de dezembro.
Permeado de elementos sincréticos herdados de culturas relacionadas ao antigo Império Romano e/ou aquelas que se encontraram dentro do processo de expansão do catolicismo pela Europa, os festejos natalinos parecem reviver tradições de um mundo antigo, mais ligado ao encantamento e aos mistérios do que ao racionalismo dos iluministas ou ao cientificismo da modernidade, esta dita estar em crise ou até mesmo superada por uma pós-modernidade.
Dentro da simbologia natalina, chama-nos a atenção a convivência entre elementos do sagrado e do profano, e de quão importante são suas representações para a fé católica, seja numa escala global, como a celebração da Missa do Galo pelo Papa, transmitida ao vivo para vários países; ou numa escala mais regional, como as apresentações de pastoris no nordeste brasileiro.
No cenário configurado acima é que pretendemos compreender a importância dos elementos do tempo sagrado católico num contexto contemporâneo.
2. O tempo sagrado num panorama contemporâneo
Pressa, falta de tempo, urgência em cada ação, o tempo para o homem contemporâneo parece se encontrar cada vez mais escasso. A internet, elemento da vida deste mesmo homem contemporâneo que se posta como uma ferramenta fundamental na comunicação entre as pessoas, ilustra a urgência deste tempo; do agora, pois revela a medida de sua eficiência através da quantidade de informações por segundo que esta é capaz de suportar. Quanto mais informações por segundo, mais, mais eficiente será sua internet; quanto mais informações por segundo, mais eficiente será o homem. Eficiência e velocidade, configuram-se num binômio buscado com afinco tanto na tecnologia quanto no homem do presente, nos remetendo a construção da própria idéia de moderno, na busca, através da razão e da ciência, pelo desenvolvimento, ou, neste caso, talvez fosse mais ilustrativo o uso do termo progresso.
Contudo, esta construção do tempo desse homem máquina ou numa ótica contemporânea, de um homem virtual (principalmente em seus mecanismos de relações sociais) faz com que ele se depare com a questão: que repercussões e construções desse tempo do imediato trariam à vida desse homem do agora? A amplitude dessa pergunta impede a resposta veloz e eficiente digna da contemporaneidade, mas parece caber aqui a ilustração trazida pela obra cinematográfica (sendo também o próprio cinema uma forma de arte da modernidade) de Charles Chaplin Tempos Modernos, em que por meio das desventuras de um operário que em seu trabalho busca alcançar a velocidade e a eficiência da máquina, acaba evoluindo para um quadro de loucura compulsiva. Esse mal que aflige o operário da sátira de Chaplin e que ganha uma representação na contemporaneidade sob a forma de palavras como estresse, cada vez mais comum no vocabulário cotidiano, parece se situar dentro desta construção de uma crítica da modernidade e do lançamento de olhares para além dela ou de uma pós-modernidade, em que uma dialética entre razão e emoção são montados e fundamentam críticas e estudos sobre repercussões desse tempo do agora.
O estabelecimento de uma crise da modernidade revela uma falha na razão e no cientificismo em alcançar a variedade de desejos e sentimentos do homem. A razão e a ciência, aos moldes da modernidade, seriam eficientes, mas não suficientes na busca para saciar tais desejos e sentimentos. E é fundamental aqui percebermos o papel da religiosidade diante dessa crise da razão.
Seria negligência negar a importância da religiosidade dentro da modernidade. Contudo, com questionamento dos valores modernos, com a valorização dos sentimentos com parte influente das relações humanas, as religiões parecem provocar um re-encantamento de aspectos de um mundo laico que parecia buscar fundamentar sua existência numa forma laica, e nesse contexto o homem religioso parece encontrar nas práticas de sua fé um tempo que se encontra além dos limites da razão laicizante, o tempo do sagrado, rico em encantamento e mistérios.
Tal como o espaço, o Tempo também não é, para o homem religioso, nem homogêneo nem continuo. Há, por outro lado, os intervalos de Tempo sagrado, o tempo das festas (na sua grande maioria, festas periódicas);por outro lado, há o Tempo profano, a duração temporal ordinária (...) mas por meio dos ritos o homem religioso pode passar, sem perigo, da duração temporal ordinária pra o Tempo sagrado. (ELIADE, Mircea. “O sagrado e o profano”. 2001:64)
No caso da igreja católica, cuja presença pode ser notada no Brasil desde o período colonial, traz consigo uma variedade destes momentos do Tempo sagrado. O homem religioso católico traz ao longo do seu calendário profano (no sentido de ligado estritamente aos aspectos da vida humana) bolsões de um tempo sagrado que se difere, segundo Eliade, do tempo comum, pois: O tempo sagrado é por sua própria natureza reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um Tempo mítico primordial tornado presente. É portanto, um tempo de encantamento, de sentimento de fé, de proximidade com o sagrado.
3. Ritos de fé e o tempo profano
Nesse contexto de vivência do tempo sagrado, percebemos a importância dos ritos periódicos do catolicismo para o homem católico contemporâneo.
De fato, o posicionamento da instituição Igreja Católica diante da modernidade não se estende apenas a esfera do sagrado. Nas relações sociais do tempo profano, o moderno e o antigo se revelaram fundamentais nas posturas políticas de alguns Papas e, por conseguinte, da Igreja Católica da época de cada um deles. Pio IX, Papa durante o período que se estende de 1846 a 1878, teve como postura refutar os elementos progressistas da sociedade industrial do século XIX. O historiador Severino Vicente da Silva afirma que:
Na verdade seu pontificado foi uma séria reprimenda a tudo que parecesse moderno e contrário às tradições e aos dogmas católicos. A postura de defensiva assumida pelo Papa era, ao mesmo tempo, uma agressão ao mundo que se formava. ( SILVA, Severino Vicente da. “Panorama da Igreja Católica no século XX”. 2008. mimeo. P 11.)
Postura diferenciada a de Pio IX, porém também preocupada com a vivência da modernidade pelos católicos, foi a do Papa Leão XIII. Em seu pontificado buscou uma adequação da instituição católica as novas questões sociais de sua época, dando ênfase na aproximação com a classe operária, em que a presença comunista, vista como doutrina herética pela propagação de posturas ateístas, se mostrava cada vez mais comum. Ou do papado de Paulo VI (durante 1962 até 1978), quando em 1966 é revogado em quase sua totalidade o Index Librorum Prohibitorum, lista de livros proibidos aos católicos, criada em 1559.
Contudo, o tempo do sagrado se encontra inserido numa outra esfera da religiosidade, em que o elemento mundano, ou profano, não mais dita a realidade vivida, ao menos enquanto o curso do tempo sagrado se faz presente.
No caso do catolicismo a expressão de seus rituais sagrados encontram-se intimamente ligados a representações simbólicas, mais que idéias abstratas e também inseridas dentro de uma cronologia histórica, posto que os elementos do calendário sagrado encontram-se situados em narrativas bíblicas que, por sua vez, trazem em seu conteúdo textual referencias históricas, como por exemplo, a administração da província romana da Judéia por Pôncio Pilatos. Desta forma, o calendário (neste caso o calendário promulgado pelo Papa Gregório XIII, ou gregoriano) acaba por computar e orientar os dias do tempo mundano e também os dos momentos de vivência do tempo sagrado para o homem religioso cristão.
A prática de ritos e festejos de comemoração de datas sagradas traz uma maior proximidade do homem religioso com a sua fé e com os que partilham dessa mesma fé. Na vivência do temo profano os ensinamentos do caminho correto para uma vivência próxima do elemento divino é gradativamente desgastado e esquecido ou distorcido. O rito e o festejo trazem de volta o tempo em que determinado valor ou símbolo se fez presente e reaviva aquilo que o tempo profano desgastou.
"Seja qual for a complexidade de uma festa religiosa, trata-se sempre de um acontecimento sagrado que teve lugar ab origine e que é, ritualmente, tornado presente. Os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico".(ELIADE, Mircea. “O sagrado e o profano”. 2001. p.79)
No caso brasileiro o historiador Severino Vicente da Silva afirma que: "A formação do Brasil foi marcada pela experiência católica, que sempre foi uma experiência que se manifesta festivamente, sempre em alegria."(SILVA,Severino vicente da. “Feriados cívicos e feriados religiosos”. In www.biuvicente.blogspot.com , in 29 de outubro de 2008.)
O tempo sagrado para o homem religioso católico no Brasil, pais de proporções continentais, assume uma variedade de formas e de festividades que mesclam a experiência do sagrado e do profano, e de elementos de uma religião de proporções globais às práticas e costumes das localidades onde se incorporam; caso dos pastoris no nordeste brasileiro.
4. O Baile Pastoril e o tempo sagrado
O pastoril remete sua origem a uma idéia do monge germânico Tuotilo, da Abadia de São Galo, que durante o século X desenvolveu uma celebração de natal baseado na representação do episódio bíblico da natividade.
A idéia de uma representação do nascimento de Jesus ganhou popularidade na Europa cristã, tendo sua representação na península Ibérica marcada pela forma de Vilhancicos. Vilhancicos eram cantigas interpretadas por grupos caracterizados como os pastores nas comemorações natalinas. A prática dessa celebração natalina ganha em Portugal outros elementos, como adesão do presépio, de criação atribuída a São Francisco de Assis, como o cenário ao fundo da representação em que se desenrola todo o Auto Pastoril, e os muitos personagens que acabam variando de acordo com a localidade, mas mantendo alguns elementos fixos. Dentre esses temos as pastoras, divididas em dois grupos (cordões), um trajado de azul e outro de vermelho (encarnado), e a Diana, fazendo um papel intermediário no jogo das cantigas que se desenrolam entre os dois cordões.
Francisco Augusto Pereira da Costa atribui as primeiras representações dos Autos Pastoris no Brasil ao Convento dos Franciscanos na cidade de Olinda, Pernambuco, durante o século XVI.
Ganhando notável popularidade no século XIX, o Pastoril passou a assumir duas formas bastante distinta em suas representações. Uma delas é o chamado “Pastoril profano”, caracterizado pelo foco em dois dos variados elementos do auto pastoril. As pastoras e o velho.
Nesta forma desse brinquedo popular, as pastoras assumem um ar de sensualidade entoando o coro das músicas cantadas pelo velho, músicas cheias de duplos sentidos e o caráter jocoso e libertino das apresentações. Essa forma de pastoril era condenada pela Igreja Católica, posto que distancia a simbologia dos Autos Pastoris como forma de celebração do nascimento de Jesus, gerando por vezes a interdição de apresentações por autoridades do Estado, a pedido da Igreja.
A outra forma, o Baile Pastoril, ou simplesmente Pastoril, encontra-se, por sua vez, vinculado a re-vivência do tempo sagrado, neste caso, o nascimento do messias cristão, através de representações e de cantigas como:
Todo o céu e terra
Vos cantam em louvor
Ó Menino Deus
Nosso redentor
Desses céus descei
Descei Criador
De remir o mundo
É tempo, Senhor
Estes elementos serviram para revitalizar e celebrar um tempo sagrado, trazendo encantamento a um mundo profano por meio de símbolos que por si remontam uma forma anterior a contemporaneidade de se cultuar o sagrado.
Podemos dizer, portanto, que o Pastoril é uma celebração que carrega consigo elementos não apenas de uma , mas de três temporalidades: o tempo sagrado, pois celebra um importante acontecimento de uma religião; o tempo profano, pois suas festividades se deparam com elementos do cotidiano em que se insere; e um tempo histórico, em que podemos perceber heranças de uma forma de festejo oriundo de um mundo medieval fazendo-se presente em um mundo contemporâneo.
5. Apontamentos finais
A vivência desse tempo sagrado através de ritos periódicos, festas e datas comemorativas, permitem ao homem religioso um experiência mais intensa de sua fé e de uma temporalidade mais próxima do elemento divino por ele cultuado.
A escolha do Pastoril para buscar a percepção de tal temporalidade se constitui em apenas uma escolha de todo um universo de festejos e ritos que formam as práticas católicas no Brasil. Nestas, acredito, também se revelariam contribuições de elementos da temporalidade sagrada vivida por seus praticantes, auxiliando, assim, a construção de maiores conhecimentos sobre esta religião que encontra-se intimamente ligada a formação histórico-cultural brasileira, o catolicismo.
Referências bibliográficas:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FRANÇA, Eurico Nogueira. O ciclo folclórico do Natal. In. Jangada Brasil: Especial Natal. Ano VI – Edição 61. 2003. Disponível na Internet via: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/dezembro61/ (acessado em 21 de novembro de 2008).
SILVA, Severino Vicente da. Panorama da Igreja Católica no século XX. UFPE. Recife-PE. 2008.
SILVA, Severino Vicente da. Rituais de fé católica: novidade da tradição no Recife. Disponível na Internet via: http://biuvicente.blogspot.com/2008/11/rituais-de-f-catlica-novidade-da-tradio.html. (acessado em 21 de novembro de 2008).
SILVA, Severino Vicente da. Feriados cívicos e feriados religiosos. Disponível na Internet via: http://biuvicente.blogspot.com/2008/10/feriados-cvicos-e-feriados-religiosos.html. (acessado em 21 de novembro de 2008).
VALENTE, Waldemar. Pastoril. Disponível na Internet via: http://www.fundaj.gov.br/docs/text/pastoril.html (acessado em 2 de dezembro de 2008).
Enciclopédia Católica Popular. Natal. Disponível na Internet via: http://www.agencia.ecclesia.pt. (acessado em 20 de novembro de 2008).
Prefeitura da cidade do Recife. Pastoril. Disponível na Internet via: http://www.recife.pe.gov.br/especiais/brincantes/ (acessado em 2 de dezembro de 2008).
Curso de Especialização em História do Século XX
Disciplina - PANORAMA DA IGREJA CATÓLICA NO SÉCULO XX
Prof. Severino Vicente da Silva
O Pastoril, o Tempo sagrado e a contemporaneidade profana
Autor: Diógenes Arruda Ferreira
Resumo: Este trabalho busca investigar a constituição do Tempo sagrado para o homem religioso católico dentro de um contexto contemporâneo. Partindo da concepção de Mircea Eliade da experiência de duas temporalidades distintas vividas pelo homem religioso, observamos que através dos Bailes Pastoris, podemos perceber importantes aspectos dessas temporalidades.
Palavras-chave: Catolicismo; Pastoril; Tempo Sagrado.
Abstract: This study attempts to investigate the formation of the sacred Time for the religious catholic man in a contemporary context. Starting from the idea of Mircea Eliade of the existence of two distinct temporalities experienced by religious man, we observed that through the Pastoris, we can understand important aspects of these temporalities.
Keywords: Catholicism; Pastoril; Sacred Time.
O Pastoril, o Tempo sagrado e a contemporaneidade profana
1. Introdução
Vez por outra, nos surpreendemos com o retorno de alguns rituais, típicos dos cristãos, mais especificamente dos cristãos católicos, pois o catolicismo, mais que a racionalidade pós renascentista, expõe a sua fé de maneira mais simbólica, menos abstrata. (SILVA, Severino Vicente da. “Rituais de fé católica - novidade da tradição no Recife”. In www.biuvicente.blogspot.com , 03 de novembro de 2008)
Naquilo que pode estar se configurando como uma busca pelo re-encantamento da fé, ou talvez fosse melhor dizer um avivamento dos mistérios na religiosidade, o natal católico consegue nos apresenta uma riqueza de simbolismos da fé cristã que parecem entrelaçar o culto ao divino à vida social, mesmo dentro de instituições situadas em contextos mais laicos, durante o mês de dezembro.
Permeado de elementos sincréticos herdados de culturas relacionadas ao antigo Império Romano e/ou aquelas que se encontraram dentro do processo de expansão do catolicismo pela Europa, os festejos natalinos parecem reviver tradições de um mundo antigo, mais ligado ao encantamento e aos mistérios do que ao racionalismo dos iluministas ou ao cientificismo da modernidade, esta dita estar em crise ou até mesmo superada por uma pós-modernidade.
Dentro da simbologia natalina, chama-nos a atenção a convivência entre elementos do sagrado e do profano, e de quão importante são suas representações para a fé católica, seja numa escala global, como a celebração da Missa do Galo pelo Papa, transmitida ao vivo para vários países; ou numa escala mais regional, como as apresentações de pastoris no nordeste brasileiro.
No cenário configurado acima é que pretendemos compreender a importância dos elementos do tempo sagrado católico num contexto contemporâneo.
2. O tempo sagrado num panorama contemporâneo
Pressa, falta de tempo, urgência em cada ação, o tempo para o homem contemporâneo parece se encontrar cada vez mais escasso. A internet, elemento da vida deste mesmo homem contemporâneo que se posta como uma ferramenta fundamental na comunicação entre as pessoas, ilustra a urgência deste tempo; do agora, pois revela a medida de sua eficiência através da quantidade de informações por segundo que esta é capaz de suportar. Quanto mais informações por segundo, mais, mais eficiente será sua internet; quanto mais informações por segundo, mais eficiente será o homem. Eficiência e velocidade, configuram-se num binômio buscado com afinco tanto na tecnologia quanto no homem do presente, nos remetendo a construção da própria idéia de moderno, na busca, através da razão e da ciência, pelo desenvolvimento, ou, neste caso, talvez fosse mais ilustrativo o uso do termo progresso.
Contudo, esta construção do tempo desse homem máquina ou numa ótica contemporânea, de um homem virtual (principalmente em seus mecanismos de relações sociais) faz com que ele se depare com a questão: que repercussões e construções desse tempo do imediato trariam à vida desse homem do agora? A amplitude dessa pergunta impede a resposta veloz e eficiente digna da contemporaneidade, mas parece caber aqui a ilustração trazida pela obra cinematográfica (sendo também o próprio cinema uma forma de arte da modernidade) de Charles Chaplin Tempos Modernos, em que por meio das desventuras de um operário que em seu trabalho busca alcançar a velocidade e a eficiência da máquina, acaba evoluindo para um quadro de loucura compulsiva. Esse mal que aflige o operário da sátira de Chaplin e que ganha uma representação na contemporaneidade sob a forma de palavras como estresse, cada vez mais comum no vocabulário cotidiano, parece se situar dentro desta construção de uma crítica da modernidade e do lançamento de olhares para além dela ou de uma pós-modernidade, em que uma dialética entre razão e emoção são montados e fundamentam críticas e estudos sobre repercussões desse tempo do agora.
O estabelecimento de uma crise da modernidade revela uma falha na razão e no cientificismo em alcançar a variedade de desejos e sentimentos do homem. A razão e a ciência, aos moldes da modernidade, seriam eficientes, mas não suficientes na busca para saciar tais desejos e sentimentos. E é fundamental aqui percebermos o papel da religiosidade diante dessa crise da razão.
Seria negligência negar a importância da religiosidade dentro da modernidade. Contudo, com questionamento dos valores modernos, com a valorização dos sentimentos com parte influente das relações humanas, as religiões parecem provocar um re-encantamento de aspectos de um mundo laico que parecia buscar fundamentar sua existência numa forma laica, e nesse contexto o homem religioso parece encontrar nas práticas de sua fé um tempo que se encontra além dos limites da razão laicizante, o tempo do sagrado, rico em encantamento e mistérios.
Tal como o espaço, o Tempo também não é, para o homem religioso, nem homogêneo nem continuo. Há, por outro lado, os intervalos de Tempo sagrado, o tempo das festas (na sua grande maioria, festas periódicas);por outro lado, há o Tempo profano, a duração temporal ordinária (...) mas por meio dos ritos o homem religioso pode passar, sem perigo, da duração temporal ordinária pra o Tempo sagrado. (ELIADE, Mircea. “O sagrado e o profano”. 2001:64)
No caso da igreja católica, cuja presença pode ser notada no Brasil desde o período colonial, traz consigo uma variedade destes momentos do Tempo sagrado. O homem religioso católico traz ao longo do seu calendário profano (no sentido de ligado estritamente aos aspectos da vida humana) bolsões de um tempo sagrado que se difere, segundo Eliade, do tempo comum, pois: O tempo sagrado é por sua própria natureza reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um Tempo mítico primordial tornado presente. É portanto, um tempo de encantamento, de sentimento de fé, de proximidade com o sagrado.
3. Ritos de fé e o tempo profano
Nesse contexto de vivência do tempo sagrado, percebemos a importância dos ritos periódicos do catolicismo para o homem católico contemporâneo.
De fato, o posicionamento da instituição Igreja Católica diante da modernidade não se estende apenas a esfera do sagrado. Nas relações sociais do tempo profano, o moderno e o antigo se revelaram fundamentais nas posturas políticas de alguns Papas e, por conseguinte, da Igreja Católica da época de cada um deles. Pio IX, Papa durante o período que se estende de 1846 a 1878, teve como postura refutar os elementos progressistas da sociedade industrial do século XIX. O historiador Severino Vicente da Silva afirma que:
Na verdade seu pontificado foi uma séria reprimenda a tudo que parecesse moderno e contrário às tradições e aos dogmas católicos. A postura de defensiva assumida pelo Papa era, ao mesmo tempo, uma agressão ao mundo que se formava. ( SILVA, Severino Vicente da. “Panorama da Igreja Católica no século XX”. 2008. mimeo. P 11.)
Postura diferenciada a de Pio IX, porém também preocupada com a vivência da modernidade pelos católicos, foi a do Papa Leão XIII. Em seu pontificado buscou uma adequação da instituição católica as novas questões sociais de sua época, dando ênfase na aproximação com a classe operária, em que a presença comunista, vista como doutrina herética pela propagação de posturas ateístas, se mostrava cada vez mais comum. Ou do papado de Paulo VI (durante 1962 até 1978), quando em 1966 é revogado em quase sua totalidade o Index Librorum Prohibitorum, lista de livros proibidos aos católicos, criada em 1559.
Contudo, o tempo do sagrado se encontra inserido numa outra esfera da religiosidade, em que o elemento mundano, ou profano, não mais dita a realidade vivida, ao menos enquanto o curso do tempo sagrado se faz presente.
No caso do catolicismo a expressão de seus rituais sagrados encontram-se intimamente ligados a representações simbólicas, mais que idéias abstratas e também inseridas dentro de uma cronologia histórica, posto que os elementos do calendário sagrado encontram-se situados em narrativas bíblicas que, por sua vez, trazem em seu conteúdo textual referencias históricas, como por exemplo, a administração da província romana da Judéia por Pôncio Pilatos. Desta forma, o calendário (neste caso o calendário promulgado pelo Papa Gregório XIII, ou gregoriano) acaba por computar e orientar os dias do tempo mundano e também os dos momentos de vivência do tempo sagrado para o homem religioso cristão.
A prática de ritos e festejos de comemoração de datas sagradas traz uma maior proximidade do homem religioso com a sua fé e com os que partilham dessa mesma fé. Na vivência do temo profano os ensinamentos do caminho correto para uma vivência próxima do elemento divino é gradativamente desgastado e esquecido ou distorcido. O rito e o festejo trazem de volta o tempo em que determinado valor ou símbolo se fez presente e reaviva aquilo que o tempo profano desgastou.
"Seja qual for a complexidade de uma festa religiosa, trata-se sempre de um acontecimento sagrado que teve lugar ab origine e que é, ritualmente, tornado presente. Os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico".(ELIADE, Mircea. “O sagrado e o profano”. 2001. p.79)
No caso brasileiro o historiador Severino Vicente da Silva afirma que: "A formação do Brasil foi marcada pela experiência católica, que sempre foi uma experiência que se manifesta festivamente, sempre em alegria."(SILVA,Severino vicente da. “Feriados cívicos e feriados religiosos”. In www.biuvicente.blogspot.com , in 29 de outubro de 2008.)
O tempo sagrado para o homem religioso católico no Brasil, pais de proporções continentais, assume uma variedade de formas e de festividades que mesclam a experiência do sagrado e do profano, e de elementos de uma religião de proporções globais às práticas e costumes das localidades onde se incorporam; caso dos pastoris no nordeste brasileiro.
4. O Baile Pastoril e o tempo sagrado
O pastoril remete sua origem a uma idéia do monge germânico Tuotilo, da Abadia de São Galo, que durante o século X desenvolveu uma celebração de natal baseado na representação do episódio bíblico da natividade.
A idéia de uma representação do nascimento de Jesus ganhou popularidade na Europa cristã, tendo sua representação na península Ibérica marcada pela forma de Vilhancicos. Vilhancicos eram cantigas interpretadas por grupos caracterizados como os pastores nas comemorações natalinas. A prática dessa celebração natalina ganha em Portugal outros elementos, como adesão do presépio, de criação atribuída a São Francisco de Assis, como o cenário ao fundo da representação em que se desenrola todo o Auto Pastoril, e os muitos personagens que acabam variando de acordo com a localidade, mas mantendo alguns elementos fixos. Dentre esses temos as pastoras, divididas em dois grupos (cordões), um trajado de azul e outro de vermelho (encarnado), e a Diana, fazendo um papel intermediário no jogo das cantigas que se desenrolam entre os dois cordões.
Francisco Augusto Pereira da Costa atribui as primeiras representações dos Autos Pastoris no Brasil ao Convento dos Franciscanos na cidade de Olinda, Pernambuco, durante o século XVI.
Ganhando notável popularidade no século XIX, o Pastoril passou a assumir duas formas bastante distinta em suas representações. Uma delas é o chamado “Pastoril profano”, caracterizado pelo foco em dois dos variados elementos do auto pastoril. As pastoras e o velho.
Nesta forma desse brinquedo popular, as pastoras assumem um ar de sensualidade entoando o coro das músicas cantadas pelo velho, músicas cheias de duplos sentidos e o caráter jocoso e libertino das apresentações. Essa forma de pastoril era condenada pela Igreja Católica, posto que distancia a simbologia dos Autos Pastoris como forma de celebração do nascimento de Jesus, gerando por vezes a interdição de apresentações por autoridades do Estado, a pedido da Igreja.
A outra forma, o Baile Pastoril, ou simplesmente Pastoril, encontra-se, por sua vez, vinculado a re-vivência do tempo sagrado, neste caso, o nascimento do messias cristão, através de representações e de cantigas como:
Todo o céu e terra
Vos cantam em louvor
Ó Menino Deus
Nosso redentor
Desses céus descei
Descei Criador
De remir o mundo
É tempo, Senhor
Estes elementos serviram para revitalizar e celebrar um tempo sagrado, trazendo encantamento a um mundo profano por meio de símbolos que por si remontam uma forma anterior a contemporaneidade de se cultuar o sagrado.
Podemos dizer, portanto, que o Pastoril é uma celebração que carrega consigo elementos não apenas de uma , mas de três temporalidades: o tempo sagrado, pois celebra um importante acontecimento de uma religião; o tempo profano, pois suas festividades se deparam com elementos do cotidiano em que se insere; e um tempo histórico, em que podemos perceber heranças de uma forma de festejo oriundo de um mundo medieval fazendo-se presente em um mundo contemporâneo.
5. Apontamentos finais
A vivência desse tempo sagrado através de ritos periódicos, festas e datas comemorativas, permitem ao homem religioso um experiência mais intensa de sua fé e de uma temporalidade mais próxima do elemento divino por ele cultuado.
A escolha do Pastoril para buscar a percepção de tal temporalidade se constitui em apenas uma escolha de todo um universo de festejos e ritos que formam as práticas católicas no Brasil. Nestas, acredito, também se revelariam contribuições de elementos da temporalidade sagrada vivida por seus praticantes, auxiliando, assim, a construção de maiores conhecimentos sobre esta religião que encontra-se intimamente ligada a formação histórico-cultural brasileira, o catolicismo.
Referências bibliográficas:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FRANÇA, Eurico Nogueira. O ciclo folclórico do Natal. In. Jangada Brasil: Especial Natal. Ano VI – Edição 61. 2003. Disponível na Internet via: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/dezembro61/ (acessado em 21 de novembro de 2008).
SILVA, Severino Vicente da. Panorama da Igreja Católica no século XX. UFPE. Recife-PE. 2008.
SILVA, Severino Vicente da. Rituais de fé católica: novidade da tradição no Recife. Disponível na Internet via: http://biuvicente.blogspot.com/2008/11/rituais-de-f-catlica-novidade-da-tradio.html. (acessado em 21 de novembro de 2008).
SILVA, Severino Vicente da. Feriados cívicos e feriados religiosos. Disponível na Internet via: http://biuvicente.blogspot.com/2008/10/feriados-cvicos-e-feriados-religiosos.html. (acessado em 21 de novembro de 2008).
VALENTE, Waldemar. Pastoril. Disponível na Internet via: http://www.fundaj.gov.br/docs/text/pastoril.html (acessado em 2 de dezembro de 2008).
Enciclopédia Católica Popular. Natal. Disponível na Internet via: http://www.agencia.ecclesia.pt. (acessado em 20 de novembro de 2008).
Prefeitura da cidade do Recife. Pastoril. Disponível na Internet via: http://www.recife.pe.gov.br/especiais/brincantes/ (acessado em 2 de dezembro de 2008).
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
O encontro intelectual de Newton e Voltaire
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
O ENCONTRO INTELECTUAL DE NEWTON E VOLTAIRE
Alunos: Juliana Mangabeira
Thiago Florentino
Curso: História 5º Período Noite
Profº: Severino Vicente da Silva
Recife, 17 de novembro de 2008.
SUMÁRIO
Introdução.....................................................04
Biografia de Isaac Newton......................................05
Biografia de Voltaire..........................................08
Pensamento de Isaac Newton.....................................12
Encontro intelectual de Newton e Voltaire......................16
Conclusão......................................................24
Bibliografia...................................................25
Introdução
Anterior a esta introdução encontra-se um pequeno sumário, e este me servirá igualmente, de pequeno exemplo.
No decorrer daquela construção, sumário, impacientou-nos uma possível retirada de um tópico, chamado Pensamento de Voltaire, e que conseqüentemente nos levou a pensar sobre a razão de tal fato. A questão que se apresentou fora que, a inexistência do tal tópico quebraria uma ordem, ordem que fora construída não apenas naquele mísero sumário, mas anterior ao todo.
Reflete-se bem neste exemplo o quão avançado esta o nosso censo de ordem, a ponto de que, uma quebra de uma ordem de algo que ainda não fora nem construído, pode nos despertar os sentidos, nesse caso de algo errado.
Esse sentimento, de algo errado, pode ter sido o que Newton sentira ao ver as hipóteses mecanicistas de Descartes, não pela sua impossibilidade, mas pela sua possível contestação. Lembremos que o relógio fora inventado mais de em século antes do nascimento de Newton e com ele modificaram-se o trabalho, a sociedade. Além de que ocorrera a ascensão da técnica.
Não sendo à toa o uso do relógio como exemplo comum a duas máquinas universais. Mas a diferença entre elas foram as suas bases. Uma hipotética, Descartes, a outra com uma base matemática, Newton.
Descartes criara um turbilhão hipotético enquanto Newton estabelecera uma ordem simples e uniforme. Não que ele não soubesse que seria fundamental ter uma legitimação matemática, já que com ele, a matemática eleva-se a um novo patamar onde ela “não é só a ciência das relações entre os números, mas também o próprio modelo da realidade física” , mas ele não tivera a capacidade de realizara.
Newton o fez e abalou o mundo até então cartesiano, Voltaire sentido a revolução intelectual, estuda e a leva para a França cartesiana. Transforma os números em crítica, sarcasmo, e tolerância. Pois para o mundo e sua seguinte revolução os dois foram igualmente importantes, pois como Wolfgang Goethe dissera: “Foi Voltaire quem suscitou personalidades como Diderot, d’Alambert, Beaumarchais e outros ainda, já que, para ser simplesmente alguma coisa em relação a ele, era preciso ser muito.” Não pensemos como matemáticos, mas sim como historiadores!
Biografia de Isaac Newton
No natal de 1642 numa pequena fazenda inglesa do condado de Lincolm, Woolsthore, nasce o pequeno Isaac Newton, Filho de Hanna Ascough e de Isaac Newton, nascera prematuro e muito pequeno tanto que as parteiras consideravam um milagre que ele sobrevivesse. Seu pai morrera pouco antes de seu nascimento e sua mãe logo se casara novamente com um rico pastor, Barnabas Smith. O pequeno Isaac aos dois anos não foi muito querido pelo seu padrasto e então o menino foi morar com sua avó materna Margery Ascough,
A infância do pequeno Newton foi um tanto turbulenta, principalmente por causa de tantas tragédias e rejeições, o que refletiu e muito para a formação da personalidade forte, dura, vingativa e obsessiva, muito biógrafos de Newton afirmam que se não fosse por essa sua personalidade forte e obsessiva ele na teria se tornado o grande gênio que foi.
Vemos como exemplo de seu espírito vingativo que em seu diário estavam recordações como, “ ameaçar meu pai e minha mãe Smith de queimá-los junto com a casa” .
Aos cinco anos Isaac Newton freqüentou escolas públicas aldeãs de em Skillington e Stoke, onde era descrito como desatento e preguiçoso. Com o falecimento de seu padrasto, sua mãe recebe uma fortuna de herança, Newton tem dez anos e vai juntamente com sua avó morar com a sua mãe e seu meio irmão e suas duas meias-irmãs.
Entre os anos de 1655 a 1660, Newton vai para a Free Gramar School, uma escola pública onde aprendeu latim, grego, hebraico, aritmética e geometria. Embora fosse uma criança que desde cedo dava sinais de gostar de construir, inventar coisas como relógios, pipas, máquinas movidas a camundongo, fazer desenhos arquitetônico e pela sua paixão pelo conhecimento, não era um aluno que conseguia se aplicar nos estudos e nem tirar boas notas.
Na Gramar School, havia uma excelente biblioteca com muitos livros de história, religiosos e clássicos, além de ser vizinha de uma biblioteca pública com mais de 40 mil títulos.
Por seu descaso com a escola, sua mãe decide o tirar da instituição de ensino e decide que seu filho mais velho tomaria conta dos negócios da família, mas para a sua decepção o jovem Newton era pior na administração do que na escola. Então o irmão de Hanna a orientou a colocar o menino novamente na escola a fim de que terminasse os seus estudos. E foi a partir daí que o jovem Newton mudou radicalmente de comportamento e passando a ser um jovem distraído, contudo genial.
Em 1661, entra como pensionista pobre (subsizar) no Trinity College of Cambridge onde passaria a maior parte do resto de sua vida e, para poder estudar na universidade, Newton faz serviços domésticos, como por exemplo, arrumar os quartos dos professores.
Em 1664, foi eleito schoolar e passou a receber um incentivo financeiro para estudar, não necessitando mais realizar tarefas domésticas.
Em 1665, quando a peste assolou a Inglaterra, Newton retorna a sua cidade natal e onde ficaria por dois anos, esse período é chamado por muitos por “anos miraculosos” , “anos admiráveis”, foi nesse período que Newton produziu suas obras principais, sendo o período mais fecundo intelectualmente de Isaac Newton. Foram concebidos o teorema do binômio, o método das tangentes, o cálculo das fluxões, a atração gravitacional e a teoria das cores.
Em 1666 teve, como seu objetivo principal no estudo, o Comentário Cartesiano de van Schooten e seu mentor era Descartes.
Em 1667, tornou-se membro da Congregação de Cambridge e ao retornar a Universidade apresenta ao seu mestre, Isaac Barrow, cinco memórias sobre o cálculo infinitesimal e não relatou a descoberta que fizera durante o seu recesso: a gravitação universal. Isaac só vem relatar sua descoberta em 1689, por insistência do astrônomo Edmond Halley. Ainda nesse mesmo ano faz descobertas sobre a aceleração circular, que chamará de “centrípeta” e por conseqüência passa a estuda com mais afinco a gravitação terrestre.
Em 1669 assumiu a cátedra de matemática, onde ensinaria também geometria, astronomia, estática e outras disciplinas matemáticas, a qual pertencera ao seu mestre, que abrira mão ao seu favorecimento e ficaria ministrando essa cátedra como professor laucasiano por 30 anos. Formula a teoria das cores e constrói um telescópio de reflexão com pequenas dimensões e com grande poder de resolução.
Foi seu mestre que levou um protótipo do seu telescópio para a Royal Society, e o que rendeu a Newton um cargo de fellow, da agremiação em 1671. Apresentou um relatório sobre a teoria das cores, ou seja, a decomposição da luz branca pelo prisma e que as cores amarelo, azul e vermelho, não se decompunham por serem cores primitivas.
Hooke foi um de seus mais terríveis críticos e dizia que o trabalho sobre a tória das cores estava presente em outro, Micrografia. Durante os anos de 1672 e 1673 Newton viu-se desesperado para responder aos seus opositores, o que o levou a sair da Royal Society e a uma depressão nervosa, além de não publica nada por um bom tempo, e só publicou Lectione opticae, após a morte de Hooke.
Em 1676 Newton rebate as ofensas de Hooke na qual dizia: “Se vi mais longe foi porque estava sobre os ombros de gigantes” .
Em nos anos de 89, 90, e 1701, Newton foi representante da universidade de Cambridge no parlamento inglês.
Em 1699 foi nomeado presidente da Casa da Moeda onde também assumiu o cargo de inspetor.
Em 1703 foi presidente da Royal Society e ficou nesse cargo até o fim de sua vida.
Em 16 de abril de 1705, como homenageado de Cambridge, foi consagrado cavaleiro pela rainha Ana, passando a ser chamado como Sir Isaac Newton.
Trabalhou intensamente até o fim de sua vida e morreu aos 84 anos no dia 20 de março de 1727 e “foi sepultado, o caixão carregado por duques e condes, na abadia de Westminster, depois de funerais a que estiveram presentes estadistas, nobres e filósofos.”
Biografia de Voltaire
François Marie Arouet, ou simplesmente Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694 em Paris François Marie Arouet, ou simplesmente Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694 em Paris, de um difícil parto e sem esperança de viver. Sua mãe, Marquerite Daumard, descendente da pequena burguesia de Poitou morrera quando ele tinha seis anos, seu pai era tabelião, pagador de especiarias e receber de multas na Câmara de contas, possuía uma pequena fortuna e queria que seu filho se tornasse advogado real.
Quando criança adorava ler e escrever versos e dava indícios de que não seria um bom literato, contudo ainda jovem recebera uma herança de uma cortesã, de dois mil francos para que fossem gastos em sua educação, principalmente em livros, o que lhe proporcionou uma razoável biblioteca. Fora educado pelo seu padrinho, o abade de Châteauneuff.
Em 1704, vai para o colégio jesuíta – Louis, Le Grand – onde segundo um relatório escolar era descrito como “rapaz de talento, mas patife notável” , logo em seguida é introduzido pelo seu padrinho em círculos de jovens, a exemplo de “livres-pensadores”.
Em 1713, viaja numa missão diplomática para a Holanda, mas especificamente para Haya, para a realização da Paz de Utrech como secretário do Marquês de Châteauneuff. Na Holanda conhecera uma jovem chamada Olympe Dernoyer, cujo apelido era Pimpete, com quem durante o dia lhe escrevia cartas ardentes com juras de amor eterno e durante a noite pulava o muro de sua casa.
Voltaire pretendia se casar com Pimpete, contudo havia um problema ela era protestante e para que o casamento fosse realizado teria que ser autorizado pela Igreja, sendo assim o casamento não pôde ser realizado, pois o Bispo Evereux não autorizou o casamento e por isso o romance chegara ao fim. Pimpete foi a única paixão de Voltaire embora este não achasse digno algo que lhe fizesse perder a razão e admitia que suas únicas paixões eram a razão e a justiça.
Profundamente triste e desiludido Voltaire retorna à França e escreve uma ode a Luís XIII, em 1715, escreve Édipo, sua peça trágica e a Henríada, poema épico sobre a Liga e Henrique IV.
Aos 21 anos, Voltaire, escreve duas composições irreverentes sobre Luís XV, príncipe regente, e, a partir daí, todas as sátiras feitas sobre o regente lhe são atribuídas, o que resultará numa fuga de Paris, para Sully – sur – Loire; e ao retornar à Paris é preso e levado para a Bastilha, onde ficaria preso por onze meses ( de abril de 1717 a maio de 1718).
Devido as suas constantes confusões, e também às suas sátiras, faz com que Voltaire fique conhecido na sociedade como um rapaz “turbulento” e é descrito num relatório policial como: “Um Moço magro, lábios finos e apertados, sem barba, olhos vivos e perspicazes, jeito de sátiro, terrivelmente malicioso, encantador e muito bem tratado com perfume de essência de cravo” .
Torna-se amante de Suznne de Livrey, passa a freqüentar salões mundanos, com o seu jeito sedutor e malicioso agrada também a jovem rainha, Maria Leczinsk, escreve versos para as damas e poemas satíricos.
Em 1715 é estreada sua peça trágica, Édipo, e com o sucesso dessa peça passar a ter muito dinheiro e a se tornar um homem de negócios, não muito honesto; passa a emprestar dinheiro, torna-se fornecedor do exército e rouba no abastecimento, financia todo tipo de tráfico, inclusive o negreiro, que é muito rentável na época, e também passa a investir em loterias mal planejadas pelo governo, compra todos os bilhetes e é sorteado. Tais investimentos fazem com que Voltaire passe a ter uma corte que o acompanha.
Em 1726 um incidente com o duque de Sully, cavaleiro de Rohan, fez com que Voltaire levasse uma surra a mando do duque, isso causa-lhe indignação e Voltaire desafia o cavaleiro de Rohan para um duelo que não se realiza.Trata-se de um nobre, um cavaleiro não duela com qualquer um, e Voltaire era apenas um burguês. O nobre não duela com Voltaire, mas o manda para a Bastilha, Voltaire então foge para a Inglaterra e onde ficaria por três anos.
Na Inglaterra, Voltaire passa a freqüentar círculos da alta cultura inglesa e onde teve contato com escritores, filósofos, cientistas, historiadores, etc. foi um período intelectual muito fecundo para Voltaire e naquele país admira-se com a liberdade religiosa, e a relativa igualdade entre nobres e burgueses, relações que eram completamente opostas na França.
Através de cartas difunde o pensamento e os conhecimentos ingleses, principalmente a teoria empirista e John Locke e o método matemático de Newton, além de outros. Essas cartas se tornariam futuramente em sua obra “Cartas Filosóficas” que causaria um verdadeiro escândalo na sociedade e seria condenada à fogueira, por se tratar de uma obra que desrespeitava as autoridades, os bons costumes e a religião, tal obra fora publicada em 1733 na Inglaterra e, em 1734, clandestinamente, na França. Esse acontecimento faz com Voltaire, fuja mais uma vez da França, só que dessa vez ele vai para o castelo de Cirey.
Em Cirey, no castelo de sua amante, a Sra. Châtelet, escreve as cartas em forma de panfletos e somente cinco anos depois é que elas são publicadas, A marquesa era a tradutora de Newton, muito culta e inteligente. Nesse castelo Voltaire passa a se dedicar as ciências naturais, pois tinha em suas mãos um excelente laboratório.
Durante sua estadia em Cirey, recebe cartas de Frederico II, futuro rei da Prússia, o convidando para que Voltaire lhe ensinasse francês, Voltaire termina por aceitar o convite e assume o cargo de camareiro-mor e foi recebido com muitas homenagens.
Voltaire estimula Frederico II a construir um teatro na cidade, inspirado por D’Alembert e repudiado por Rosseau, o que termina com o relacionamento com este, que sempre fora contrário à construção de um teatro na cidade.
Contudo, como não poderia deixar de ser Voltaire, começa com seus negócios ilícitos na Prússia e que não agrada o rei, além disso, as publicações não autorizadas pelo mesmo, faz com que Voltaire seja expulso da Prússia, embora tempo depois seja perdoado pelo rei.
Com o apoio de Madame Pompadour, a favorita de Luís XV, é nomeado historiador-real e publica A História da Guerra de 1741, em 1746 é eleito para a academia francesa.
Em 1747, publica Mennon,a 1º versão de Zadigo e, por desobediência foge para o castelo da duquesa de Maim, no castelo de Sceaux, para quem escreve vários contos.
Em Genebra, compra a residência “as Delícias” e onde se dá bem com os pastores evangélicos, com a sociedade local e com os enciclopedistas, que querem a colaboração de Voltaire.
Em 1759 publica O Cândido e em 1762-1763 defende o caso Calas, que se refere a um jovem cometera suicídio; como era de costume, quem cometesse suicídio seria arrastado nu pela cidade para servir de exemplo aos outros. O pai do garoto por não querer ver o corpo do seu filho sofrer tal humilhação arrumou testemunhas para que dissessem que seu filho morrera de causa naturais, todavia o boato que correra na cidade era o de que o pai matara o garoto para que este na se tornasse católico, logo Jean Calas foi preso, torturado e morto. O resto da família arruinada foge e relata tudo a Voltaire, que assume a sua defesa.
Outro caso de intolerância acontece na França, foi o de um jovem cavaleiro que foi morto por carregar consigo uma edição do Dicionário Filosófico, uns dos primeiros livros de bolso, e por fazer manifestações libertinas, atribuídas aos filósofos. Tudo faz com que Voltaire sinta-se culpado por tantas mortes e vá para a Suíça, onde criticaria duramente o cristianismo e suas perseguições.
Cansado de ver tantos casos de intolerância, Voltaire decide escrever Tratados sobre a Tolerância, seus inimigos respondem queimando seus livros e, através da Madame de Pompadour, tenta comprá-lo com cargos eclesiásticos e com dinheiro. Por respeito a Madame, Voltaire nem responde às propostas.
Em 1773, tem uma crise de estrangúria, que põe sua vida em risco, e é publicado o “Touro Branco”, que é uma crítica à bíblia.
Em 1776, vê na Constituição Americana um triunfo da liberdade.
Em 1778, ocorre a representação de Irene, morre em 30 de maio de 1778, é enterrado na abadia de Sullières, na Champagne e em 1791 seu corpo é transferido para o Panteão de Paris.
Pensamento de Isaac Newton
A princípio, o pensamento newtoniano evidencia-se através da observância de quatro “regras do raciocínio filosófico” construídas pelo próprio filósofo e expressas no início do livro III dos Principia.
“Não devemos admitir mais causas para coisas naturais do que as que são tanto verdadeiras como suficientes para explicar as suas aparências.” Esta é a primeira das regras, a qual torna evidente o uso de teorias simples para a explicação da natureza, ou ainda, do postulado da simplicidade da natureza, pois ela “não faz nada em vão ao passo que, com muitas coisas, faz-se em vão o que se pode fazer com poucas. Com efeito, a natureza ama a simplicidade e não superabunda em causas supérfluas”.
Atrelada a anterior à segunda regra assim diz:
Por isso, tanto quanto possível, aos mesmos efeitos devemos atribuir às mesmas causas. Como na questão da respiração no homem e no animal, no caso da queda das pedras na Europa e na América, no problema da luz do nosso fogo de cozinha e do sol ou no fato da reflexão da luz sobre a Terra e sobre os planetas.
Assim nos é possível dizer que Newton expressa o postulado da uniformidade da natureza. Postulado que é ainda confirmado pela terceira regra que diz:
As qualidades dos corpos que não admitem aumento nem diminuição de grau e que se descobre pertencerem a todos os corpos no interior do âmbito dos nossos experimentos devem ser considerados qualidades universais de todos os corpos.
Por fim na quarta e última regra:
Na filosofia experimental, as proposições inferidas por indução geral dos fenômenos devem ser consideradas como estritamente verdadeiras ou como muito próximas da verdade, apesar das hipóteses contrárias que possam ser imaginadas, até quando se verifiquem outros fenômenos, pelos quais se tornem mais exatos ou então sejam submetidas a exceções.
Assim o pensamento newtoniano fora baseado e através desses dois postulados, onde a natureza é simples e uniforme, e que se assenta sua idéia mais caracterizadora, ou seja, “o sistema mundo é grande máquina”.
Newton chega a esse sistema através do método exposto em sua última regra do raciocínio filosófico, pois chegara a ele, pelas proposições inferidas por indução geral dos fenômenos, ou melhor, pelos sentidos, isto é, pelas observações e experimentos. Tomemos por evidência, o postulado da simplicidade da natureza nesse sistema através das próprias palavras do filosofo quando diz:
Esse sistema extremamente maravilhoso do Sol, dos planetas e dos cometas só pode ter-se originado do projeto e da potência de um Ser inteligente e poderoso.
Ainda continuando Newton revela traços perceptíveis de seu outro postulado, o da uniformidade da natureza:
E, se as estrelas fixas são centros de outros sistemas análogos, tudo isso, dado que foi formado pelo idêntico projeto, deve estar sujeito do Uno, sobretudo visto que a luz das estrelas fixas é da mesma natureza que a luz do Sol e que a luz passa de cada sistema a todos os outros sistemas; e, para que os sistemas das estrelas fixas, em virtude de sua gravidade, não caiam uns sobre os outros ele pôs esses sistemas a uma imensa distância entre si.
Com isso da comprovação da ordem do mundo e através da uniformidade da natureza do universo Newton comprova que “a existência de Deus pode ser provada pela filosofia natural a partir da ordem dos céus estrelados”.
Tal hipótese metafísica nos leva a questão de sua frase “não invento hipóteses”. Como coloca muito bem Reale, “está claro para todos que Newton também formulou hipóteses. Ele ficou conhecido e sua grandeza é ilimitada não porque tenha visto uma maçã cair (...) ele é grande porque formulou hipóteses e as provou”. Porém, o cerne da questão encontra-se na continuidade do discurso de Newton e conseqüentemente o que pensa, diferentemente de nós, a respeito do que se trata uma hipótese, diz ele: “Com efeito, tudo aquilo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese. E as hipóteses, tanto metafísicas como físicas, tanto de qualidades ocultas quanto mecânicas, não têm nenhum lugar na filosofia experimental.”
A existência de um Ser inteligente e poderoso é comprovada indutivamente pela própria ordem do universo, e conseqüente a isso difere-se de uma hipótese. E assim Newton não se propõe a solucionar questões metafísicas que não sejam sujeitas a verificação indutiva.
A obra prima de Newton Princípio matemático da filosofia natural foi muito bem definida por Reale quando este afirma que aquela “representa a realização completa da revolução científica que, iniciada por Copérnico, encontra em Kepler e Galileu os dois representantes mais geniais”.
No livro I dos Principia Newton apresenta as três leis do movimento e estas exemplificam bem a construção que foi a revolução científica. A primeira lei, Lei da inércia, fora trabalhada por Galileu e Descartes, a segunda fora formulada por Galileu já a terceira fora elaborada pelo próprio Newton.
Além do mais, em outra obra, Optiks, or a Treatise of the Reflexions, Inflexions and Colours of Light, Newton:
Utilizou a Diotrica de Kepler, a tradução latina de Dioptrique de Descartes, a Physico-mathesis de lumine, coloribus et iride de Francesco Maria Grimaldi, os Experimenta et considerationes de coloribus de Robert Boyle e o trabalho de síntese desenvolvido por Isaac Barrow nas Lectiones opticae para as quais contribuiu o próprio Newton.
Exemplificando assim que não fora à toa a famosa frase, enviada ao seu inimigo Robert Hooke, “se vi mais longe foi porque estava sobre os ombros de gigantes”.
Nos últimos anos de vida Newton se dedicara a leitura e interpretação da Bíblia. Como Galileu, para Newton a chave para a interpretação da Bíblia seguia o mesmo método para a interpretação da natureza. Assim seu postulado uniformidade também é notório, já que em suas palavras:
Como se acredita prontamente que as partes de uma máquina construída por um excelente artista sejam justamente comparadas quando se vê que se adaptam verdadeiramente umas às outras (...) assim, pela mesma razão se deveria aceitar a construção destas profecias, quando se vê que as suas partes ordenadas conforme as características gravadas nelas para este fim.
As profecias citadas neste fragmento referem-se às contidas no livro de Apocalipse e ainda profecias relacionadas ao profeta Daniel. Essas reflexões foram atribuída a um distúrbio mental o que levara Newton à busca pela verdade nas santas escrituras.
Newton assim como Descartes tinha por lema larvatus prodeo, ou seja, sigo adiante mascarado. Tal lema se justifica pelo seu próprio credo religioso, pois não acreditava na doutrina católica e anglicana do Trinitarismo, porque para ele essa doutrina “foi falsamente imposta aos cristãos na época da vitória triunfal de Atanásio sobre Ário e sobre os arianos”. Segundo o próprio Newton, “o filho admite que o Pai é maior do que ele e o chama de Deus (...) subordina a sua vontade àquela do Pai isso seria irracional se ele fosse igual ao Pai”
Sendo interessante o fato que Voltaire coloca no verbete Teólogo, no Dicionário Filosófico, que “conheci um verdadeiro teólogo” e continua,
Efetuou investigações sobre a época precisa em que foi redigido o símbolo atribuído aos apóstolos e o que se coloca sobre o nome de Atanásio; (...) Acabou por chegar a conhecimentos ignorados pela maior parte dos confrades. Quanto mais foi verdadeiramente sábio, mais desconfiou de tudo o que sabia. Enquanto viveu, foi indulgente; e à hora da morte reconheceu que tinha consumido inutilmente a sua vida.
Por fim, como era um fellow Cambridge era exigido a assumir as ordens religiosas anglicanas, daí deriva o motivo de sua máscara, e em morte “na presença somente de duas pessoas recusou os sacramentos da Igreja”.
Encontro intelectual de Newton e Voltaire
Voltaire entra em contato com as idéias Newtonianas, ainda na França quando um amigo lhe mandara uma carta dizendo que “Huygens e Newton demonstraram que a natureza não age como Descartes quer que ela aja ... quase todas as leis do movimento enunciadas por ele são falsas, e os seus famosos turbilhões são uma quimeras” Daí pra frente se prolonga por mais dez anos a iniciação de Voltaire na física newtoniana, ressaltando que com “características hesitações” . A hesitação pode ser melhor demonstrada pelo o que o próprio Voltaire pensa a respeito da força gravitacional, “mesmo se a atração fosse verdadeira, não decorreria daí a mínima vantagem, o mínimo auxilio à mecânica”.
Esse fato ainda ressalta que a tomada de posição de Voltaire não é súbita, rápida, mas sim uma construção. Assim já podemos criticar o que diz Marilena Chauí quando afirma que “a rigor, Voltaire não foi propriamente um filosofo. Detestava toda a especulação abstrata e suas obras não contêm maior originalidade como reflexão analítica limita-se à exposição e defesa do pensamento dos outros.”
Rigor, segundo o dicionário Houaiss, rijeza material, física, ausência de flexibilidade, de maleabilidade; rigidez, dureza, inflexibilidade, ou seja, a rigor, no início do pensamento já demonstra uma porta de emergência, no caso de algum incêndio. Concordamos que Voltaire não tinha uma à reflexão analítica, como um de seus principais anseios, mas dizer que ele limitara-se a exposição e defesa do pensamento dos outros já complica mais as coisas.
Complica, pois Chauí continua; “Isso, no entanto, ele o faz de maneira brilhante: tem o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo às suas opiniões. Desempenhou assim, um papel importante dentro da história das idéias.”
Primeiramente, a hesitação de Voltaire com a força gravitacional Newtoniana demonstra claramente que ele não aceitava as idéias de forma “religiosa”, pois fizera um exame de uma das principais idéias de Newton.
Segundo, o a rigor expressa uma possibilidade de fuga e a possibilidade amplia com a conexão com a reflexão analítica, pois claramente Voltaire não teve o domínio de Newton sobre a matemática, mas também Newton não tivera o domínio que Voltaire tivera com a escrita, evidenciada pela própria Chauí quando diz que “isso, no entanto, ele o faz de maneira brilhante: tem o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo às suas opiniões.”
Terceiro, esse no entanto, esse mas, porém, contudo, entretanto, todavia dá-nos a impressão compensatória da falta da reflexão analítica, mas é sabido que para se fazer compreender bem, e no caso de Voltaire a ponto de fazer apaixonar, é primordial entender. E assim Voltaire o fez, e os dez anos de iniciação na física newtoniana o comprova.
Um dos campos de características mais marcantes do encontro dos pensamentos de Newton e Voltaire é o religioso, ou melhor, representado pelo Deísmo. Tal aspecto era tido como real em Newton por Voltaire devido às próprias características de seu monoteísmo ariano. “Apesar de que na França, especialmente a cosmologia de Newton, embora apresentada como deísta por Voltaire, estimulou o ateísmo mecanicista de muitos filósofos.” Deísmo que é descrito no verbete Teísta do Dicionário Filosófico como sendo “um homem firmemente persuadido da existência de um Ente supremo tão bom como poderoso que formou todos os seres (...). O teísta não sabe como Deus castiga, como favorece, como perdoa”.
Assim esse perfil divino encaixa-se perfeitamente na grande máquina que é o universo, este que apenas ele criara e ao qual não interfere e que coloca o ateísmo no campo da irracionalidade, no livro Tratado de metafísica ele diz:
Depois de nos arrastarmos assim, de duvida em duvida, e de conclusão em conclusão, até poder encarar a proposição Existe um Deus como a coisa mais verossímil que os homens possam pensar, e após ter visto que a proposição contraria é uma das mais absurdas, parece natural pesquisar qual a relação entre Deus e nós; ver se Deus estabeleceu leis para os seres pensantes, assim como existem leis mecânicas para os seres materiais”.
E com racionalização da máquina chega-se a racionalização de Deus:
A mais natural e mais perfeita para as capacidades comuns é a de considerar não somente a ordem que existe no universo, mas também o fim com que cada coisa parece relacionar-se. Muitos e grossos livros foram compostos centrados nessa única idéia, e todos os calhamaços juntos contêm apenas este argumento: quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, concluo que um ser inteligente arranjou as molas dessa maquina para que o ponteiro marcasse as horas.
Ou seja, “a existência de Deus, portanto, é dado da razão. Já a fé é apenas superstição”. Fé que é base das religiões, esclarecendo, portanto a negação das religiões e a intolerância nelas presente já que;
Com efeito, os mulçumanos acusam de superstição todas as sociedades cristãs e são por elas acusados. Quem julgará esse grande processo? Quem sabe a razão? Mas toda seita pretende ter a razão do seu lado. A decisão será, portanto, pela força, na expectativa de que a razão penetre em número de cabeças bastante grande a ponto de conseguir desarmar a força.
Chegamos assim à outra benesse da razão, a tolerância. Esta que tivera um significado especial para a vida de Voltaire, importância expressa por Reale, pois este dá ao capítulo de Voltaire o título Voltaire e a grande batalha pela tolerância, devido as suas próprias experiências e conhecimentos históricos.
Um acontecimento marcante em sua vida fora o caso Calas – presente em fins da biografia de Voltaire contida neste trabalho – e que o leva a elaborar o Tratado sobre a tolerância onde o capítulo primeiro e segundo tratam diretamente deste caso sendo demonstrada a importância deste acontecimento, para Voltaire, nas primeiras linhas do tratado que diz: “O assassínio de Calas, cometido em Toulouse com o gládio da justiça, a 9 de março de 1762, é um dos mais singulares acontecimentos que a atenção de nossa época e posteridade.”
Essa atenção a qual chama atenção Voltaire é devido ao fato que fora pelo “gládio da justiça” que Calas fora morto pela intolerância religiosa e assim a irracionalidade comum as seitas. Com maestria Voltaire evidencia a singularidade de tal acontecimento:
Esquece-se facilmente a quantidade de mortes em batalhas sem conta, não somente por tratar-se da fatalidade da guerra, mas porque os que morrem pela sorte das armas podiam também dar a morte a seus inimigos, e não morrerem sem se defender. Lá onde o perigo e a vantagem são iguais, o espanto cessa, e a própria piedade diminui; mas, se um pai de família inocente é entregue a mão do erro, da paixão, ou do fanatismo; se o acusado só tem como defesa sua virtude; se os árbitros de sua vida, ao decapitarem-no, apenas correm o risco de se enganar; se podem matar imprudentemente através de uma sentença, então o clamor público se levanta, cada um teme por si próprio, percebe-se que ninguém esta seguro de sua vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida dos cidadãos, e todas as vozes se juntam para pedir vingança. Trata-se nesse estranho caso, de religião, de suicídio, de parricídio”.
E Voltaire vai além retratando a tolerância e a intolerância desde as lendas, pelos romanos passando ainda por Jesus, gregos e chegando finalmente a tolerância universal, capítulo XXII onde diz:
Não é preciso uma grande arte da eloqüência rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê! O turco, meu irmão! O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos todos filhos do mesmo Pai e criaturas do mesmo Deus?
E ainda tal fragmento nos leva a recordar dos pressupostos básicos deístas, sustentados pela razão mecânica newtoniana. E que a falta desta aos da França levara Voltaire dizer:
Quando os homens não têm noções corretas da divindade, as idéias falsas as substituem, assim como nos tempos difíceis trafica-se com moeda ruim, quando não se tem a boa. O pagão deixava de cometer um crime, com medo de ser punido pelos falsos deuses; (...). Onde quer que haja uma sociedade estabelecida, uma religião é necessária: as leis protegem contra os crimes conhecidos, e a religião, contra os crimes secretos. Mas, quando os homens abraçam uma religião pura e santa a superstição torna-se não apenas útil como muito perigosa. Não se deve querer alimentar com bolotas aqueles que Deus digna-se alimentar com pão.
Voltando as Cartas Filosóficas, esta obra suscitou um escândalo devido a última carta a XXV, intitulada Sobre os pensamentos do Sr. Pascal. Tal carta criara tal rebuliço pelo fato de que para Voltaire Pascal era o maior grande apologeta da religião cristã de França. E ainda este quadro fora agravado por Voltaire reconhecer em Pascal “seu grande gênio”.
“Parece-me que o Sr. Pascal escreveu esses Pensamentos para mostrar o homem em num dia odioso. Esse obstina em nos pintar maus e infelizes.” E ainda, Imputa à essência da nossa natureza o que só pertence a alguns homens. Profere com eloqüência o gênero humano.” Assim Voltaire ataca o pessimismo de Pascal, ataca as bases da “religião verdadeira”, ou ainda, para Pascal o cristianismo é a verdadeira religião, porque explica as contradições do ser humano, “a sua miséria e a sua grandeza”.
Voltaire ainda ataca Pascal quando crítica a sua famosa aposta “segundo a qual, como é preciso apostar, então é racional apostar que Deus existe, pois, se se vence, ganhamos tudo, mas, se se perde, não se perde nada”. A crítica fundamenta-se assim “é evidentemente falso dizer: ‘Não apostar que Deus existe, é apostar que ele não existe’; pois aquele que duvida e tenta encontrar uma luz dentro de si com certeza não aposta a favor nem contra. Esse artigo aliás parece um pouco indecente e pueril; essa idéia de jogo, de perdas e ganhos, não convém a gravidade do assunto.”
Com a gravidade do assunto percebe-se que quando da aposta de Pascal ele vai de encontro ao paradigma racional de Voltaire, ou melhor, a mecânica Newtoniana. Pois não é uma certeza racional, mas sim uma aposta. E ainda “diferentemente de Pascal, não pensa que tudo é mau: ‘Por que razão deveríamos ter horror pelo nosso ser? A nossa experiência não é assim tão infeliz como gostariam de nos fazer crer. Considerar o universo como um cárcere e todos os homens como criminosos a espera de serem justiçados é uma idéia de fanático.’”
Contrapõe-se a idéia do pessimismo de Pascal o otimismo de Leibniz, este que, segundo Voltaire, “era o mais profundo metafísico da Alemanha”. A filosofia de Leibniz, uma filosofia centrada no “melhor dos mundos possíveis”, fora combatida por Voltaire através de seu livro Cândido ou o otimismo que perpassa pelo relato “tragicômico” a insensatez das “justificativas as tragédias humanas” apresentadas pelo personagem Panlgoss, representando Leibniz, ao seu discípulo Cândido, sempre justificativas tolas, que de nada valem para o entendimento das mazelas que se acentuam durante a obra. Por fim, eles chegam a um sábio mulçumano, “que não se interessa por política, não discute sobre a harmonia preestabelecida nem se imiscui nas coisas dos outros. Diz o sábio turco: ‘Tenho apenas vinte alqueires, que cultivo com meus filhos. O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.’” E assim conclui um dos viajantes: “Trabalhemos sem discutir: esse é o único modo de tornar a vida suportável”
Assim Voltaire trata este mundo não como “o melhor dos mundos possíveis” e também não vê o homem como sendo possuidor de uma “essência miserável”, mas enxerga que “precisamos enfrentar nossos problemas, para que este mundo possa melhorar gradualmente ou, pelo menos, não se torne pior.”
Por fim, trato do ataque ao seu conterrâneo Descartes, pois como Leibniz afirmava “Eu costumo chamar os escritos de Descartes de ‘vestíbulo da verdadeira filosofia’”. Assim a opinião de Voltaire, no mínimo seria de oposição a de Leibniz.
Descartes, criador da teoria mecanicista, ou ainda da que “o mundo é máquina” e assim que “o universo é simples, lógico e coerente” E ainda com ele a matemática eleva-se a um novo patamar onde ela “não é só a ciência das relações entre os números, mas também o próprio modelo da realidade física.” Mas Descartes não conseguira em muitos casos sair do campo das hipóteses, talvez daí o repúdio de Newton com a sua frase, contida no Philosophiae naturalis principia mathematica, “não invento hipóteses”. Já Newton conseguira ser Newton por ter a capacidade de comprovar matematicamente as suas hipóteses. E este feito foi o que mais distanciou em qualidade os seus feitos e pensamentos dos eternos paradigmas gregos.
“Em Paris, vemos o universo composto de turbilhões de matéria sutil; em Londres não vemos nada disso.” Assim Voltaire demonstra de maneira clara e genial um dos principais pontos de contraste entre a filosofia cartesiana e a física newtoniana.
Esses turbilhões de matéria sutil foram à explicação mecanicista de Descartes para a máquina, que seria o universo, que ele idealizara. Já Newton comprovara matematicamente as ações “simples e uniformes” de tal. Conseqüentemente a discussão caminha para Deus.
Para Descartes as idéias dividem-se em dois tipos as idéias inatas, que nascem em conjunto com a nossa consciência e as idéias fictícias, ou construídas por nós.
Deus, segundo Descartes, seria uma idéia inata, ou seja, uma idéia intrínseca ao homem, segundo o próprio: “substância infinita, eterna, imutável, independente e onisciente, da qual eu próprio e todas as coisas que existem foram criados e produzidos.”
Já para Voltaire: “É claro que nunca se deve levantar hipóteses; nunca dizer: Começamos por inventar princípios com os quais trataremos de explicar tudo. Mas é preciso dizer: Façamos a análise exata das coisas e em seguida trataremos de ver com muita desconfiança se se relacionam com algum princípios.” Ao analisarmos este trecho é notório que o pensamento das idéias inatas se confronta diretamente com as “regras do raciocínio filosófico” newtoniano, ou seja, contra principalmente o não uso das hipóteses já que Descartes começa por “inventar princípios com os quais trataremos de explicar tudo”. Continua Voltaire, “os que fizeram o romance das idéias inatas se vangloriaram de dar explicação das idéias do infinito, da imensidão de Deus e de algumas noções metafísicas que supunham ser comum a todos os homens.”
Conseqüentemente a própria idéia de Deus, que fundamenta o deísmo de Voltaire, entra em choque com essa idéia do Deus advindo das idéias inatas. Pois o deísmo de Voltaire necessita da razão matemática contida nos sistemas newtonianos, então superior a uma quase superstição de Descartes.
Por fim, “Que todas as Idéias Vêm pelos Sentidos”. E além do sugestivo título, do capítulo terceiro do Tratado de metafísica, findo deixando o próprio Voltaire falar.
Quem quer que submeta tudo o que passou em seu entendimento a uma avaliação fiel admitirá sem dificuldade que seus sentidos lhe forneceram todas as idéias. E, no entanto, os filósofos que abusaram de sua razão pretenderam afirmar que tínhamos idéias inatas. (...) Formaram sistemas com os quais se vangloriavam de poder ariscar qualquer explicação parente dos fenômenos da natureza. Essa maneira de filosofar é ainda mais perigosa do que o jargão desprezível da escola.
Conclusão
A natureza e suas leis jaziam envoltas em trevas; Disse Deus, faça-se Newton! E tudo clareou. Não há como negar a beleza do epitáfio de Newton. Mas também não há de se negar a importância de Voltaire, será que ele esta atualmente, na frente de seu desafeto Rousseau, no panteão de Paris à toa?
Assim como o frontispício do Elémens de la philosophie de Neuton (1738), Newton iluminara Voltaire e isso é inegável, mas este não estendeu essa luz a tantos. Como nas palavras de Chauí ele tem “o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo as suas opiniões.” E assim pergunto do que vale um Deus sem um emissário? Ele defendera o sistema newtoniano mais até do que o próprio Newton, pois sabia que o descobrira era genial e poderia mudar a história de sua França.
Newton, apesar de ter ficado tantas horas debruçado e decodificando as profecias, tanto de Daniel quanto de Apocalipse, não viu o que o seu discípulo e divulgador ajudara a criar. Pois o apocalipse se realizou, não como previra por volta dos séculos XX ou XXI, mas em um período mais próximo a ele, exatamente 1789, pois como Hobsbawn diz: “A Revolução Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato o revolucionaram.”
Por fim, para demonstrar que o grande Newton também tivera um grande divulgador, e que também o ajudou a ter sido tão absoluto na Europa. Friedrich Nietzsche, um personagem também muito importante e não menos complicado, o elogia quando diz: “Foi ele o último grande escritor que, ao manejar a língua da prosa, teve o ouvido de grego, a consciência artística de grego, a simplicidade e a graça de grego.”
Bibliografia
CASINI, Paolo. Newton e a consciência européia. São Paulo: UNESP, 1995.
DURANT, Will. A era de Luis XIV. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1994.
HAWKING, Stephen. W. Os gênios da ciência: sobre o ombro de gigantes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
REALE, Giovanni. História da filosofia: Do Humanismo a Kant. 6ª ed. São Paulo: Paulus, 2003.
ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
VOLTAIRE. Cândido ou o otimismo. São Paulo: Martin Claret, 2004.
______. Cartas Filosóficas. São Paulo: Landy, 2001.
______. Dicionário filosófico. Apud Os pensadores: Voltaire. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
______. O filósofo ignorante. Apud Os pensadores: Voltaire. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
______. Tratado de metafísica. Apud Os pensadores: Voltaire. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
______. Tratado sobre a tolerância. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
O ENCONTRO INTELECTUAL DE NEWTON E VOLTAIRE
Alunos: Juliana Mangabeira
Thiago Florentino
Curso: História 5º Período Noite
Profº: Severino Vicente da Silva
Recife, 17 de novembro de 2008.
SUMÁRIO
Introdução.....................................................04
Biografia de Isaac Newton......................................05
Biografia de Voltaire..........................................08
Pensamento de Isaac Newton.....................................12
Encontro intelectual de Newton e Voltaire......................16
Conclusão......................................................24
Bibliografia...................................................25
Introdução
Anterior a esta introdução encontra-se um pequeno sumário, e este me servirá igualmente, de pequeno exemplo.
No decorrer daquela construção, sumário, impacientou-nos uma possível retirada de um tópico, chamado Pensamento de Voltaire, e que conseqüentemente nos levou a pensar sobre a razão de tal fato. A questão que se apresentou fora que, a inexistência do tal tópico quebraria uma ordem, ordem que fora construída não apenas naquele mísero sumário, mas anterior ao todo.
Reflete-se bem neste exemplo o quão avançado esta o nosso censo de ordem, a ponto de que, uma quebra de uma ordem de algo que ainda não fora nem construído, pode nos despertar os sentidos, nesse caso de algo errado.
Esse sentimento, de algo errado, pode ter sido o que Newton sentira ao ver as hipóteses mecanicistas de Descartes, não pela sua impossibilidade, mas pela sua possível contestação. Lembremos que o relógio fora inventado mais de em século antes do nascimento de Newton e com ele modificaram-se o trabalho, a sociedade. Além de que ocorrera a ascensão da técnica.
Não sendo à toa o uso do relógio como exemplo comum a duas máquinas universais. Mas a diferença entre elas foram as suas bases. Uma hipotética, Descartes, a outra com uma base matemática, Newton.
Descartes criara um turbilhão hipotético enquanto Newton estabelecera uma ordem simples e uniforme. Não que ele não soubesse que seria fundamental ter uma legitimação matemática, já que com ele, a matemática eleva-se a um novo patamar onde ela “não é só a ciência das relações entre os números, mas também o próprio modelo da realidade física” , mas ele não tivera a capacidade de realizara.
Newton o fez e abalou o mundo até então cartesiano, Voltaire sentido a revolução intelectual, estuda e a leva para a França cartesiana. Transforma os números em crítica, sarcasmo, e tolerância. Pois para o mundo e sua seguinte revolução os dois foram igualmente importantes, pois como Wolfgang Goethe dissera: “Foi Voltaire quem suscitou personalidades como Diderot, d’Alambert, Beaumarchais e outros ainda, já que, para ser simplesmente alguma coisa em relação a ele, era preciso ser muito.” Não pensemos como matemáticos, mas sim como historiadores!
Biografia de Isaac Newton
No natal de 1642 numa pequena fazenda inglesa do condado de Lincolm, Woolsthore, nasce o pequeno Isaac Newton, Filho de Hanna Ascough e de Isaac Newton, nascera prematuro e muito pequeno tanto que as parteiras consideravam um milagre que ele sobrevivesse. Seu pai morrera pouco antes de seu nascimento e sua mãe logo se casara novamente com um rico pastor, Barnabas Smith. O pequeno Isaac aos dois anos não foi muito querido pelo seu padrasto e então o menino foi morar com sua avó materna Margery Ascough,
A infância do pequeno Newton foi um tanto turbulenta, principalmente por causa de tantas tragédias e rejeições, o que refletiu e muito para a formação da personalidade forte, dura, vingativa e obsessiva, muito biógrafos de Newton afirmam que se não fosse por essa sua personalidade forte e obsessiva ele na teria se tornado o grande gênio que foi.
Vemos como exemplo de seu espírito vingativo que em seu diário estavam recordações como, “ ameaçar meu pai e minha mãe Smith de queimá-los junto com a casa” .
Aos cinco anos Isaac Newton freqüentou escolas públicas aldeãs de em Skillington e Stoke, onde era descrito como desatento e preguiçoso. Com o falecimento de seu padrasto, sua mãe recebe uma fortuna de herança, Newton tem dez anos e vai juntamente com sua avó morar com a sua mãe e seu meio irmão e suas duas meias-irmãs.
Entre os anos de 1655 a 1660, Newton vai para a Free Gramar School, uma escola pública onde aprendeu latim, grego, hebraico, aritmética e geometria. Embora fosse uma criança que desde cedo dava sinais de gostar de construir, inventar coisas como relógios, pipas, máquinas movidas a camundongo, fazer desenhos arquitetônico e pela sua paixão pelo conhecimento, não era um aluno que conseguia se aplicar nos estudos e nem tirar boas notas.
Na Gramar School, havia uma excelente biblioteca com muitos livros de história, religiosos e clássicos, além de ser vizinha de uma biblioteca pública com mais de 40 mil títulos.
Por seu descaso com a escola, sua mãe decide o tirar da instituição de ensino e decide que seu filho mais velho tomaria conta dos negócios da família, mas para a sua decepção o jovem Newton era pior na administração do que na escola. Então o irmão de Hanna a orientou a colocar o menino novamente na escola a fim de que terminasse os seus estudos. E foi a partir daí que o jovem Newton mudou radicalmente de comportamento e passando a ser um jovem distraído, contudo genial.
Em 1661, entra como pensionista pobre (subsizar) no Trinity College of Cambridge onde passaria a maior parte do resto de sua vida e, para poder estudar na universidade, Newton faz serviços domésticos, como por exemplo, arrumar os quartos dos professores.
Em 1664, foi eleito schoolar e passou a receber um incentivo financeiro para estudar, não necessitando mais realizar tarefas domésticas.
Em 1665, quando a peste assolou a Inglaterra, Newton retorna a sua cidade natal e onde ficaria por dois anos, esse período é chamado por muitos por “anos miraculosos” , “anos admiráveis”, foi nesse período que Newton produziu suas obras principais, sendo o período mais fecundo intelectualmente de Isaac Newton. Foram concebidos o teorema do binômio, o método das tangentes, o cálculo das fluxões, a atração gravitacional e a teoria das cores.
Em 1666 teve, como seu objetivo principal no estudo, o Comentário Cartesiano de van Schooten e seu mentor era Descartes.
Em 1667, tornou-se membro da Congregação de Cambridge e ao retornar a Universidade apresenta ao seu mestre, Isaac Barrow, cinco memórias sobre o cálculo infinitesimal e não relatou a descoberta que fizera durante o seu recesso: a gravitação universal. Isaac só vem relatar sua descoberta em 1689, por insistência do astrônomo Edmond Halley. Ainda nesse mesmo ano faz descobertas sobre a aceleração circular, que chamará de “centrípeta” e por conseqüência passa a estuda com mais afinco a gravitação terrestre.
Em 1669 assumiu a cátedra de matemática, onde ensinaria também geometria, astronomia, estática e outras disciplinas matemáticas, a qual pertencera ao seu mestre, que abrira mão ao seu favorecimento e ficaria ministrando essa cátedra como professor laucasiano por 30 anos. Formula a teoria das cores e constrói um telescópio de reflexão com pequenas dimensões e com grande poder de resolução.
Foi seu mestre que levou um protótipo do seu telescópio para a Royal Society, e o que rendeu a Newton um cargo de fellow, da agremiação em 1671. Apresentou um relatório sobre a teoria das cores, ou seja, a decomposição da luz branca pelo prisma e que as cores amarelo, azul e vermelho, não se decompunham por serem cores primitivas.
Hooke foi um de seus mais terríveis críticos e dizia que o trabalho sobre a tória das cores estava presente em outro, Micrografia. Durante os anos de 1672 e 1673 Newton viu-se desesperado para responder aos seus opositores, o que o levou a sair da Royal Society e a uma depressão nervosa, além de não publica nada por um bom tempo, e só publicou Lectione opticae, após a morte de Hooke.
Em 1676 Newton rebate as ofensas de Hooke na qual dizia: “Se vi mais longe foi porque estava sobre os ombros de gigantes” .
Em nos anos de 89, 90, e 1701, Newton foi representante da universidade de Cambridge no parlamento inglês.
Em 1699 foi nomeado presidente da Casa da Moeda onde também assumiu o cargo de inspetor.
Em 1703 foi presidente da Royal Society e ficou nesse cargo até o fim de sua vida.
Em 16 de abril de 1705, como homenageado de Cambridge, foi consagrado cavaleiro pela rainha Ana, passando a ser chamado como Sir Isaac Newton.
Trabalhou intensamente até o fim de sua vida e morreu aos 84 anos no dia 20 de março de 1727 e “foi sepultado, o caixão carregado por duques e condes, na abadia de Westminster, depois de funerais a que estiveram presentes estadistas, nobres e filósofos.”
Biografia de Voltaire
François Marie Arouet, ou simplesmente Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694 em Paris François Marie Arouet, ou simplesmente Voltaire, nasceu em 21 de novembro de 1694 em Paris, de um difícil parto e sem esperança de viver. Sua mãe, Marquerite Daumard, descendente da pequena burguesia de Poitou morrera quando ele tinha seis anos, seu pai era tabelião, pagador de especiarias e receber de multas na Câmara de contas, possuía uma pequena fortuna e queria que seu filho se tornasse advogado real.
Quando criança adorava ler e escrever versos e dava indícios de que não seria um bom literato, contudo ainda jovem recebera uma herança de uma cortesã, de dois mil francos para que fossem gastos em sua educação, principalmente em livros, o que lhe proporcionou uma razoável biblioteca. Fora educado pelo seu padrinho, o abade de Châteauneuff.
Em 1704, vai para o colégio jesuíta – Louis, Le Grand – onde segundo um relatório escolar era descrito como “rapaz de talento, mas patife notável” , logo em seguida é introduzido pelo seu padrinho em círculos de jovens, a exemplo de “livres-pensadores”.
Em 1713, viaja numa missão diplomática para a Holanda, mas especificamente para Haya, para a realização da Paz de Utrech como secretário do Marquês de Châteauneuff. Na Holanda conhecera uma jovem chamada Olympe Dernoyer, cujo apelido era Pimpete, com quem durante o dia lhe escrevia cartas ardentes com juras de amor eterno e durante a noite pulava o muro de sua casa.
Voltaire pretendia se casar com Pimpete, contudo havia um problema ela era protestante e para que o casamento fosse realizado teria que ser autorizado pela Igreja, sendo assim o casamento não pôde ser realizado, pois o Bispo Evereux não autorizou o casamento e por isso o romance chegara ao fim. Pimpete foi a única paixão de Voltaire embora este não achasse digno algo que lhe fizesse perder a razão e admitia que suas únicas paixões eram a razão e a justiça.
Profundamente triste e desiludido Voltaire retorna à França e escreve uma ode a Luís XIII, em 1715, escreve Édipo, sua peça trágica e a Henríada, poema épico sobre a Liga e Henrique IV.
Aos 21 anos, Voltaire, escreve duas composições irreverentes sobre Luís XV, príncipe regente, e, a partir daí, todas as sátiras feitas sobre o regente lhe são atribuídas, o que resultará numa fuga de Paris, para Sully – sur – Loire; e ao retornar à Paris é preso e levado para a Bastilha, onde ficaria preso por onze meses ( de abril de 1717 a maio de 1718).
Devido as suas constantes confusões, e também às suas sátiras, faz com que Voltaire fique conhecido na sociedade como um rapaz “turbulento” e é descrito num relatório policial como: “Um Moço magro, lábios finos e apertados, sem barba, olhos vivos e perspicazes, jeito de sátiro, terrivelmente malicioso, encantador e muito bem tratado com perfume de essência de cravo” .
Torna-se amante de Suznne de Livrey, passa a freqüentar salões mundanos, com o seu jeito sedutor e malicioso agrada também a jovem rainha, Maria Leczinsk, escreve versos para as damas e poemas satíricos.
Em 1715 é estreada sua peça trágica, Édipo, e com o sucesso dessa peça passar a ter muito dinheiro e a se tornar um homem de negócios, não muito honesto; passa a emprestar dinheiro, torna-se fornecedor do exército e rouba no abastecimento, financia todo tipo de tráfico, inclusive o negreiro, que é muito rentável na época, e também passa a investir em loterias mal planejadas pelo governo, compra todos os bilhetes e é sorteado. Tais investimentos fazem com que Voltaire passe a ter uma corte que o acompanha.
Em 1726 um incidente com o duque de Sully, cavaleiro de Rohan, fez com que Voltaire levasse uma surra a mando do duque, isso causa-lhe indignação e Voltaire desafia o cavaleiro de Rohan para um duelo que não se realiza.Trata-se de um nobre, um cavaleiro não duela com qualquer um, e Voltaire era apenas um burguês. O nobre não duela com Voltaire, mas o manda para a Bastilha, Voltaire então foge para a Inglaterra e onde ficaria por três anos.
Na Inglaterra, Voltaire passa a freqüentar círculos da alta cultura inglesa e onde teve contato com escritores, filósofos, cientistas, historiadores, etc. foi um período intelectual muito fecundo para Voltaire e naquele país admira-se com a liberdade religiosa, e a relativa igualdade entre nobres e burgueses, relações que eram completamente opostas na França.
Através de cartas difunde o pensamento e os conhecimentos ingleses, principalmente a teoria empirista e John Locke e o método matemático de Newton, além de outros. Essas cartas se tornariam futuramente em sua obra “Cartas Filosóficas” que causaria um verdadeiro escândalo na sociedade e seria condenada à fogueira, por se tratar de uma obra que desrespeitava as autoridades, os bons costumes e a religião, tal obra fora publicada em 1733 na Inglaterra e, em 1734, clandestinamente, na França. Esse acontecimento faz com Voltaire, fuja mais uma vez da França, só que dessa vez ele vai para o castelo de Cirey.
Em Cirey, no castelo de sua amante, a Sra. Châtelet, escreve as cartas em forma de panfletos e somente cinco anos depois é que elas são publicadas, A marquesa era a tradutora de Newton, muito culta e inteligente. Nesse castelo Voltaire passa a se dedicar as ciências naturais, pois tinha em suas mãos um excelente laboratório.
Durante sua estadia em Cirey, recebe cartas de Frederico II, futuro rei da Prússia, o convidando para que Voltaire lhe ensinasse francês, Voltaire termina por aceitar o convite e assume o cargo de camareiro-mor e foi recebido com muitas homenagens.
Voltaire estimula Frederico II a construir um teatro na cidade, inspirado por D’Alembert e repudiado por Rosseau, o que termina com o relacionamento com este, que sempre fora contrário à construção de um teatro na cidade.
Contudo, como não poderia deixar de ser Voltaire, começa com seus negócios ilícitos na Prússia e que não agrada o rei, além disso, as publicações não autorizadas pelo mesmo, faz com que Voltaire seja expulso da Prússia, embora tempo depois seja perdoado pelo rei.
Com o apoio de Madame Pompadour, a favorita de Luís XV, é nomeado historiador-real e publica A História da Guerra de 1741, em 1746 é eleito para a academia francesa.
Em 1747, publica Mennon,a 1º versão de Zadigo e, por desobediência foge para o castelo da duquesa de Maim, no castelo de Sceaux, para quem escreve vários contos.
Em Genebra, compra a residência “as Delícias” e onde se dá bem com os pastores evangélicos, com a sociedade local e com os enciclopedistas, que querem a colaboração de Voltaire.
Em 1759 publica O Cândido e em 1762-1763 defende o caso Calas, que se refere a um jovem cometera suicídio; como era de costume, quem cometesse suicídio seria arrastado nu pela cidade para servir de exemplo aos outros. O pai do garoto por não querer ver o corpo do seu filho sofrer tal humilhação arrumou testemunhas para que dissessem que seu filho morrera de causa naturais, todavia o boato que correra na cidade era o de que o pai matara o garoto para que este na se tornasse católico, logo Jean Calas foi preso, torturado e morto. O resto da família arruinada foge e relata tudo a Voltaire, que assume a sua defesa.
Outro caso de intolerância acontece na França, foi o de um jovem cavaleiro que foi morto por carregar consigo uma edição do Dicionário Filosófico, uns dos primeiros livros de bolso, e por fazer manifestações libertinas, atribuídas aos filósofos. Tudo faz com que Voltaire sinta-se culpado por tantas mortes e vá para a Suíça, onde criticaria duramente o cristianismo e suas perseguições.
Cansado de ver tantos casos de intolerância, Voltaire decide escrever Tratados sobre a Tolerância, seus inimigos respondem queimando seus livros e, através da Madame de Pompadour, tenta comprá-lo com cargos eclesiásticos e com dinheiro. Por respeito a Madame, Voltaire nem responde às propostas.
Em 1773, tem uma crise de estrangúria, que põe sua vida em risco, e é publicado o “Touro Branco”, que é uma crítica à bíblia.
Em 1776, vê na Constituição Americana um triunfo da liberdade.
Em 1778, ocorre a representação de Irene, morre em 30 de maio de 1778, é enterrado na abadia de Sullières, na Champagne e em 1791 seu corpo é transferido para o Panteão de Paris.
Pensamento de Isaac Newton
A princípio, o pensamento newtoniano evidencia-se através da observância de quatro “regras do raciocínio filosófico” construídas pelo próprio filósofo e expressas no início do livro III dos Principia.
“Não devemos admitir mais causas para coisas naturais do que as que são tanto verdadeiras como suficientes para explicar as suas aparências.” Esta é a primeira das regras, a qual torna evidente o uso de teorias simples para a explicação da natureza, ou ainda, do postulado da simplicidade da natureza, pois ela “não faz nada em vão ao passo que, com muitas coisas, faz-se em vão o que se pode fazer com poucas. Com efeito, a natureza ama a simplicidade e não superabunda em causas supérfluas”.
Atrelada a anterior à segunda regra assim diz:
Por isso, tanto quanto possível, aos mesmos efeitos devemos atribuir às mesmas causas. Como na questão da respiração no homem e no animal, no caso da queda das pedras na Europa e na América, no problema da luz do nosso fogo de cozinha e do sol ou no fato da reflexão da luz sobre a Terra e sobre os planetas.
Assim nos é possível dizer que Newton expressa o postulado da uniformidade da natureza. Postulado que é ainda confirmado pela terceira regra que diz:
As qualidades dos corpos que não admitem aumento nem diminuição de grau e que se descobre pertencerem a todos os corpos no interior do âmbito dos nossos experimentos devem ser considerados qualidades universais de todos os corpos.
Por fim na quarta e última regra:
Na filosofia experimental, as proposições inferidas por indução geral dos fenômenos devem ser consideradas como estritamente verdadeiras ou como muito próximas da verdade, apesar das hipóteses contrárias que possam ser imaginadas, até quando se verifiquem outros fenômenos, pelos quais se tornem mais exatos ou então sejam submetidas a exceções.
Assim o pensamento newtoniano fora baseado e através desses dois postulados, onde a natureza é simples e uniforme, e que se assenta sua idéia mais caracterizadora, ou seja, “o sistema mundo é grande máquina”.
Newton chega a esse sistema através do método exposto em sua última regra do raciocínio filosófico, pois chegara a ele, pelas proposições inferidas por indução geral dos fenômenos, ou melhor, pelos sentidos, isto é, pelas observações e experimentos. Tomemos por evidência, o postulado da simplicidade da natureza nesse sistema através das próprias palavras do filosofo quando diz:
Esse sistema extremamente maravilhoso do Sol, dos planetas e dos cometas só pode ter-se originado do projeto e da potência de um Ser inteligente e poderoso.
Ainda continuando Newton revela traços perceptíveis de seu outro postulado, o da uniformidade da natureza:
E, se as estrelas fixas são centros de outros sistemas análogos, tudo isso, dado que foi formado pelo idêntico projeto, deve estar sujeito do Uno, sobretudo visto que a luz das estrelas fixas é da mesma natureza que a luz do Sol e que a luz passa de cada sistema a todos os outros sistemas; e, para que os sistemas das estrelas fixas, em virtude de sua gravidade, não caiam uns sobre os outros ele pôs esses sistemas a uma imensa distância entre si.
Com isso da comprovação da ordem do mundo e através da uniformidade da natureza do universo Newton comprova que “a existência de Deus pode ser provada pela filosofia natural a partir da ordem dos céus estrelados”.
Tal hipótese metafísica nos leva a questão de sua frase “não invento hipóteses”. Como coloca muito bem Reale, “está claro para todos que Newton também formulou hipóteses. Ele ficou conhecido e sua grandeza é ilimitada não porque tenha visto uma maçã cair (...) ele é grande porque formulou hipóteses e as provou”. Porém, o cerne da questão encontra-se na continuidade do discurso de Newton e conseqüentemente o que pensa, diferentemente de nós, a respeito do que se trata uma hipótese, diz ele: “Com efeito, tudo aquilo que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado de hipótese. E as hipóteses, tanto metafísicas como físicas, tanto de qualidades ocultas quanto mecânicas, não têm nenhum lugar na filosofia experimental.”
A existência de um Ser inteligente e poderoso é comprovada indutivamente pela própria ordem do universo, e conseqüente a isso difere-se de uma hipótese. E assim Newton não se propõe a solucionar questões metafísicas que não sejam sujeitas a verificação indutiva.
A obra prima de Newton Princípio matemático da filosofia natural foi muito bem definida por Reale quando este afirma que aquela “representa a realização completa da revolução científica que, iniciada por Copérnico, encontra em Kepler e Galileu os dois representantes mais geniais”.
No livro I dos Principia Newton apresenta as três leis do movimento e estas exemplificam bem a construção que foi a revolução científica. A primeira lei, Lei da inércia, fora trabalhada por Galileu e Descartes, a segunda fora formulada por Galileu já a terceira fora elaborada pelo próprio Newton.
Além do mais, em outra obra, Optiks, or a Treatise of the Reflexions, Inflexions and Colours of Light, Newton:
Utilizou a Diotrica de Kepler, a tradução latina de Dioptrique de Descartes, a Physico-mathesis de lumine, coloribus et iride de Francesco Maria Grimaldi, os Experimenta et considerationes de coloribus de Robert Boyle e o trabalho de síntese desenvolvido por Isaac Barrow nas Lectiones opticae para as quais contribuiu o próprio Newton.
Exemplificando assim que não fora à toa a famosa frase, enviada ao seu inimigo Robert Hooke, “se vi mais longe foi porque estava sobre os ombros de gigantes”.
Nos últimos anos de vida Newton se dedicara a leitura e interpretação da Bíblia. Como Galileu, para Newton a chave para a interpretação da Bíblia seguia o mesmo método para a interpretação da natureza. Assim seu postulado uniformidade também é notório, já que em suas palavras:
Como se acredita prontamente que as partes de uma máquina construída por um excelente artista sejam justamente comparadas quando se vê que se adaptam verdadeiramente umas às outras (...) assim, pela mesma razão se deveria aceitar a construção destas profecias, quando se vê que as suas partes ordenadas conforme as características gravadas nelas para este fim.
As profecias citadas neste fragmento referem-se às contidas no livro de Apocalipse e ainda profecias relacionadas ao profeta Daniel. Essas reflexões foram atribuída a um distúrbio mental o que levara Newton à busca pela verdade nas santas escrituras.
Newton assim como Descartes tinha por lema larvatus prodeo, ou seja, sigo adiante mascarado. Tal lema se justifica pelo seu próprio credo religioso, pois não acreditava na doutrina católica e anglicana do Trinitarismo, porque para ele essa doutrina “foi falsamente imposta aos cristãos na época da vitória triunfal de Atanásio sobre Ário e sobre os arianos”. Segundo o próprio Newton, “o filho admite que o Pai é maior do que ele e o chama de Deus (...) subordina a sua vontade àquela do Pai isso seria irracional se ele fosse igual ao Pai”
Sendo interessante o fato que Voltaire coloca no verbete Teólogo, no Dicionário Filosófico, que “conheci um verdadeiro teólogo” e continua,
Efetuou investigações sobre a época precisa em que foi redigido o símbolo atribuído aos apóstolos e o que se coloca sobre o nome de Atanásio; (...) Acabou por chegar a conhecimentos ignorados pela maior parte dos confrades. Quanto mais foi verdadeiramente sábio, mais desconfiou de tudo o que sabia. Enquanto viveu, foi indulgente; e à hora da morte reconheceu que tinha consumido inutilmente a sua vida.
Por fim, como era um fellow Cambridge era exigido a assumir as ordens religiosas anglicanas, daí deriva o motivo de sua máscara, e em morte “na presença somente de duas pessoas recusou os sacramentos da Igreja”.
Encontro intelectual de Newton e Voltaire
Voltaire entra em contato com as idéias Newtonianas, ainda na França quando um amigo lhe mandara uma carta dizendo que “Huygens e Newton demonstraram que a natureza não age como Descartes quer que ela aja ... quase todas as leis do movimento enunciadas por ele são falsas, e os seus famosos turbilhões são uma quimeras” Daí pra frente se prolonga por mais dez anos a iniciação de Voltaire na física newtoniana, ressaltando que com “características hesitações” . A hesitação pode ser melhor demonstrada pelo o que o próprio Voltaire pensa a respeito da força gravitacional, “mesmo se a atração fosse verdadeira, não decorreria daí a mínima vantagem, o mínimo auxilio à mecânica”.
Esse fato ainda ressalta que a tomada de posição de Voltaire não é súbita, rápida, mas sim uma construção. Assim já podemos criticar o que diz Marilena Chauí quando afirma que “a rigor, Voltaire não foi propriamente um filosofo. Detestava toda a especulação abstrata e suas obras não contêm maior originalidade como reflexão analítica limita-se à exposição e defesa do pensamento dos outros.”
Rigor, segundo o dicionário Houaiss, rijeza material, física, ausência de flexibilidade, de maleabilidade; rigidez, dureza, inflexibilidade, ou seja, a rigor, no início do pensamento já demonstra uma porta de emergência, no caso de algum incêndio. Concordamos que Voltaire não tinha uma à reflexão analítica, como um de seus principais anseios, mas dizer que ele limitara-se a exposição e defesa do pensamento dos outros já complica mais as coisas.
Complica, pois Chauí continua; “Isso, no entanto, ele o faz de maneira brilhante: tem o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo às suas opiniões. Desempenhou assim, um papel importante dentro da história das idéias.”
Primeiramente, a hesitação de Voltaire com a força gravitacional Newtoniana demonstra claramente que ele não aceitava as idéias de forma “religiosa”, pois fizera um exame de uma das principais idéias de Newton.
Segundo, o a rigor expressa uma possibilidade de fuga e a possibilidade amplia com a conexão com a reflexão analítica, pois claramente Voltaire não teve o domínio de Newton sobre a matemática, mas também Newton não tivera o domínio que Voltaire tivera com a escrita, evidenciada pela própria Chauí quando diz que “isso, no entanto, ele o faz de maneira brilhante: tem o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo às suas opiniões.”
Terceiro, esse no entanto, esse mas, porém, contudo, entretanto, todavia dá-nos a impressão compensatória da falta da reflexão analítica, mas é sabido que para se fazer compreender bem, e no caso de Voltaire a ponto de fazer apaixonar, é primordial entender. E assim Voltaire o fez, e os dez anos de iniciação na física newtoniana o comprova.
Um dos campos de características mais marcantes do encontro dos pensamentos de Newton e Voltaire é o religioso, ou melhor, representado pelo Deísmo. Tal aspecto era tido como real em Newton por Voltaire devido às próprias características de seu monoteísmo ariano. “Apesar de que na França, especialmente a cosmologia de Newton, embora apresentada como deísta por Voltaire, estimulou o ateísmo mecanicista de muitos filósofos.” Deísmo que é descrito no verbete Teísta do Dicionário Filosófico como sendo “um homem firmemente persuadido da existência de um Ente supremo tão bom como poderoso que formou todos os seres (...). O teísta não sabe como Deus castiga, como favorece, como perdoa”.
Assim esse perfil divino encaixa-se perfeitamente na grande máquina que é o universo, este que apenas ele criara e ao qual não interfere e que coloca o ateísmo no campo da irracionalidade, no livro Tratado de metafísica ele diz:
Depois de nos arrastarmos assim, de duvida em duvida, e de conclusão em conclusão, até poder encarar a proposição Existe um Deus como a coisa mais verossímil que os homens possam pensar, e após ter visto que a proposição contraria é uma das mais absurdas, parece natural pesquisar qual a relação entre Deus e nós; ver se Deus estabeleceu leis para os seres pensantes, assim como existem leis mecânicas para os seres materiais”.
E com racionalização da máquina chega-se a racionalização de Deus:
A mais natural e mais perfeita para as capacidades comuns é a de considerar não somente a ordem que existe no universo, mas também o fim com que cada coisa parece relacionar-se. Muitos e grossos livros foram compostos centrados nessa única idéia, e todos os calhamaços juntos contêm apenas este argumento: quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, concluo que um ser inteligente arranjou as molas dessa maquina para que o ponteiro marcasse as horas.
Ou seja, “a existência de Deus, portanto, é dado da razão. Já a fé é apenas superstição”. Fé que é base das religiões, esclarecendo, portanto a negação das religiões e a intolerância nelas presente já que;
Com efeito, os mulçumanos acusam de superstição todas as sociedades cristãs e são por elas acusados. Quem julgará esse grande processo? Quem sabe a razão? Mas toda seita pretende ter a razão do seu lado. A decisão será, portanto, pela força, na expectativa de que a razão penetre em número de cabeças bastante grande a ponto de conseguir desarmar a força.
Chegamos assim à outra benesse da razão, a tolerância. Esta que tivera um significado especial para a vida de Voltaire, importância expressa por Reale, pois este dá ao capítulo de Voltaire o título Voltaire e a grande batalha pela tolerância, devido as suas próprias experiências e conhecimentos históricos.
Um acontecimento marcante em sua vida fora o caso Calas – presente em fins da biografia de Voltaire contida neste trabalho – e que o leva a elaborar o Tratado sobre a tolerância onde o capítulo primeiro e segundo tratam diretamente deste caso sendo demonstrada a importância deste acontecimento, para Voltaire, nas primeiras linhas do tratado que diz: “O assassínio de Calas, cometido em Toulouse com o gládio da justiça, a 9 de março de 1762, é um dos mais singulares acontecimentos que a atenção de nossa época e posteridade.”
Essa atenção a qual chama atenção Voltaire é devido ao fato que fora pelo “gládio da justiça” que Calas fora morto pela intolerância religiosa e assim a irracionalidade comum as seitas. Com maestria Voltaire evidencia a singularidade de tal acontecimento:
Esquece-se facilmente a quantidade de mortes em batalhas sem conta, não somente por tratar-se da fatalidade da guerra, mas porque os que morrem pela sorte das armas podiam também dar a morte a seus inimigos, e não morrerem sem se defender. Lá onde o perigo e a vantagem são iguais, o espanto cessa, e a própria piedade diminui; mas, se um pai de família inocente é entregue a mão do erro, da paixão, ou do fanatismo; se o acusado só tem como defesa sua virtude; se os árbitros de sua vida, ao decapitarem-no, apenas correm o risco de se enganar; se podem matar imprudentemente através de uma sentença, então o clamor público se levanta, cada um teme por si próprio, percebe-se que ninguém esta seguro de sua vida diante de um tribunal erigido para zelar pela vida dos cidadãos, e todas as vozes se juntam para pedir vingança. Trata-se nesse estranho caso, de religião, de suicídio, de parricídio”.
E Voltaire vai além retratando a tolerância e a intolerância desde as lendas, pelos romanos passando ainda por Jesus, gregos e chegando finalmente a tolerância universal, capítulo XXII onde diz:
Não é preciso uma grande arte da eloqüência rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê! O turco, meu irmão! O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos todos filhos do mesmo Pai e criaturas do mesmo Deus?
E ainda tal fragmento nos leva a recordar dos pressupostos básicos deístas, sustentados pela razão mecânica newtoniana. E que a falta desta aos da França levara Voltaire dizer:
Quando os homens não têm noções corretas da divindade, as idéias falsas as substituem, assim como nos tempos difíceis trafica-se com moeda ruim, quando não se tem a boa. O pagão deixava de cometer um crime, com medo de ser punido pelos falsos deuses; (...). Onde quer que haja uma sociedade estabelecida, uma religião é necessária: as leis protegem contra os crimes conhecidos, e a religião, contra os crimes secretos. Mas, quando os homens abraçam uma religião pura e santa a superstição torna-se não apenas útil como muito perigosa. Não se deve querer alimentar com bolotas aqueles que Deus digna-se alimentar com pão.
Voltando as Cartas Filosóficas, esta obra suscitou um escândalo devido a última carta a XXV, intitulada Sobre os pensamentos do Sr. Pascal. Tal carta criara tal rebuliço pelo fato de que para Voltaire Pascal era o maior grande apologeta da religião cristã de França. E ainda este quadro fora agravado por Voltaire reconhecer em Pascal “seu grande gênio”.
“Parece-me que o Sr. Pascal escreveu esses Pensamentos para mostrar o homem em num dia odioso. Esse obstina em nos pintar maus e infelizes.” E ainda, Imputa à essência da nossa natureza o que só pertence a alguns homens. Profere com eloqüência o gênero humano.” Assim Voltaire ataca o pessimismo de Pascal, ataca as bases da “religião verdadeira”, ou ainda, para Pascal o cristianismo é a verdadeira religião, porque explica as contradições do ser humano, “a sua miséria e a sua grandeza”.
Voltaire ainda ataca Pascal quando crítica a sua famosa aposta “segundo a qual, como é preciso apostar, então é racional apostar que Deus existe, pois, se se vence, ganhamos tudo, mas, se se perde, não se perde nada”. A crítica fundamenta-se assim “é evidentemente falso dizer: ‘Não apostar que Deus existe, é apostar que ele não existe’; pois aquele que duvida e tenta encontrar uma luz dentro de si com certeza não aposta a favor nem contra. Esse artigo aliás parece um pouco indecente e pueril; essa idéia de jogo, de perdas e ganhos, não convém a gravidade do assunto.”
Com a gravidade do assunto percebe-se que quando da aposta de Pascal ele vai de encontro ao paradigma racional de Voltaire, ou melhor, a mecânica Newtoniana. Pois não é uma certeza racional, mas sim uma aposta. E ainda “diferentemente de Pascal, não pensa que tudo é mau: ‘Por que razão deveríamos ter horror pelo nosso ser? A nossa experiência não é assim tão infeliz como gostariam de nos fazer crer. Considerar o universo como um cárcere e todos os homens como criminosos a espera de serem justiçados é uma idéia de fanático.’”
Contrapõe-se a idéia do pessimismo de Pascal o otimismo de Leibniz, este que, segundo Voltaire, “era o mais profundo metafísico da Alemanha”. A filosofia de Leibniz, uma filosofia centrada no “melhor dos mundos possíveis”, fora combatida por Voltaire através de seu livro Cândido ou o otimismo que perpassa pelo relato “tragicômico” a insensatez das “justificativas as tragédias humanas” apresentadas pelo personagem Panlgoss, representando Leibniz, ao seu discípulo Cândido, sempre justificativas tolas, que de nada valem para o entendimento das mazelas que se acentuam durante a obra. Por fim, eles chegam a um sábio mulçumano, “que não se interessa por política, não discute sobre a harmonia preestabelecida nem se imiscui nas coisas dos outros. Diz o sábio turco: ‘Tenho apenas vinte alqueires, que cultivo com meus filhos. O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.’” E assim conclui um dos viajantes: “Trabalhemos sem discutir: esse é o único modo de tornar a vida suportável”
Assim Voltaire trata este mundo não como “o melhor dos mundos possíveis” e também não vê o homem como sendo possuidor de uma “essência miserável”, mas enxerga que “precisamos enfrentar nossos problemas, para que este mundo possa melhorar gradualmente ou, pelo menos, não se torne pior.”
Por fim, trato do ataque ao seu conterrâneo Descartes, pois como Leibniz afirmava “Eu costumo chamar os escritos de Descartes de ‘vestíbulo da verdadeira filosofia’”. Assim a opinião de Voltaire, no mínimo seria de oposição a de Leibniz.
Descartes, criador da teoria mecanicista, ou ainda da que “o mundo é máquina” e assim que “o universo é simples, lógico e coerente” E ainda com ele a matemática eleva-se a um novo patamar onde ela “não é só a ciência das relações entre os números, mas também o próprio modelo da realidade física.” Mas Descartes não conseguira em muitos casos sair do campo das hipóteses, talvez daí o repúdio de Newton com a sua frase, contida no Philosophiae naturalis principia mathematica, “não invento hipóteses”. Já Newton conseguira ser Newton por ter a capacidade de comprovar matematicamente as suas hipóteses. E este feito foi o que mais distanciou em qualidade os seus feitos e pensamentos dos eternos paradigmas gregos.
“Em Paris, vemos o universo composto de turbilhões de matéria sutil; em Londres não vemos nada disso.” Assim Voltaire demonstra de maneira clara e genial um dos principais pontos de contraste entre a filosofia cartesiana e a física newtoniana.
Esses turbilhões de matéria sutil foram à explicação mecanicista de Descartes para a máquina, que seria o universo, que ele idealizara. Já Newton comprovara matematicamente as ações “simples e uniformes” de tal. Conseqüentemente a discussão caminha para Deus.
Para Descartes as idéias dividem-se em dois tipos as idéias inatas, que nascem em conjunto com a nossa consciência e as idéias fictícias, ou construídas por nós.
Deus, segundo Descartes, seria uma idéia inata, ou seja, uma idéia intrínseca ao homem, segundo o próprio: “substância infinita, eterna, imutável, independente e onisciente, da qual eu próprio e todas as coisas que existem foram criados e produzidos.”
Já para Voltaire: “É claro que nunca se deve levantar hipóteses; nunca dizer: Começamos por inventar princípios com os quais trataremos de explicar tudo. Mas é preciso dizer: Façamos a análise exata das coisas e em seguida trataremos de ver com muita desconfiança se se relacionam com algum princípios.” Ao analisarmos este trecho é notório que o pensamento das idéias inatas se confronta diretamente com as “regras do raciocínio filosófico” newtoniano, ou seja, contra principalmente o não uso das hipóteses já que Descartes começa por “inventar princípios com os quais trataremos de explicar tudo”. Continua Voltaire, “os que fizeram o romance das idéias inatas se vangloriaram de dar explicação das idéias do infinito, da imensidão de Deus e de algumas noções metafísicas que supunham ser comum a todos os homens.”
Conseqüentemente a própria idéia de Deus, que fundamenta o deísmo de Voltaire, entra em choque com essa idéia do Deus advindo das idéias inatas. Pois o deísmo de Voltaire necessita da razão matemática contida nos sistemas newtonianos, então superior a uma quase superstição de Descartes.
Por fim, “Que todas as Idéias Vêm pelos Sentidos”. E além do sugestivo título, do capítulo terceiro do Tratado de metafísica, findo deixando o próprio Voltaire falar.
Quem quer que submeta tudo o que passou em seu entendimento a uma avaliação fiel admitirá sem dificuldade que seus sentidos lhe forneceram todas as idéias. E, no entanto, os filósofos que abusaram de sua razão pretenderam afirmar que tínhamos idéias inatas. (...) Formaram sistemas com os quais se vangloriavam de poder ariscar qualquer explicação parente dos fenômenos da natureza. Essa maneira de filosofar é ainda mais perigosa do que o jargão desprezível da escola.
Conclusão
A natureza e suas leis jaziam envoltas em trevas; Disse Deus, faça-se Newton! E tudo clareou. Não há como negar a beleza do epitáfio de Newton. Mas também não há de se negar a importância de Voltaire, será que ele esta atualmente, na frente de seu desafeto Rousseau, no panteão de Paris à toa?
Assim como o frontispício do Elémens de la philosophie de Neuton (1738), Newton iluminara Voltaire e isso é inegável, mas este não estendeu essa luz a tantos. Como nas palavras de Chauí ele tem “o dom de apaixonar o leitor, fazê-lo compreender as idéias mais complexas e converte-lo as suas opiniões.” E assim pergunto do que vale um Deus sem um emissário? Ele defendera o sistema newtoniano mais até do que o próprio Newton, pois sabia que o descobrira era genial e poderia mudar a história de sua França.
Newton, apesar de ter ficado tantas horas debruçado e decodificando as profecias, tanto de Daniel quanto de Apocalipse, não viu o que o seu discípulo e divulgador ajudara a criar. Pois o apocalipse se realizou, não como previra por volta dos séculos XX ou XXI, mas em um período mais próximo a ele, exatamente 1789, pois como Hobsbawn diz: “A Revolução Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato o revolucionaram.”
Por fim, para demonstrar que o grande Newton também tivera um grande divulgador, e que também o ajudou a ter sido tão absoluto na Europa. Friedrich Nietzsche, um personagem também muito importante e não menos complicado, o elogia quando diz: “Foi ele o último grande escritor que, ao manejar a língua da prosa, teve o ouvido de grego, a consciência artística de grego, a simplicidade e a graça de grego.”
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