quinta-feira, 23 de abril de 2009

CIÊNCIA E MODERNIDADE NO SÉCULO XVIII: O ALVORECER DE UMA NOVA METODOLOGIA

Este texto foi apresentado em sala de aula pelos alunos que o escreveram, após terem realizado pesquisa bibliográfica, como parte de sua formação.


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
HISTÓRIA MODERNA II - V PERÍODO
PROFESSOR SEVERINO VICENTE DA SILVA







CIÊNCIA E MODERNIDADE NO SÉCULO XVIII:
O ALVORECER DE UMA NOVA METODOLOGIA


Escrito por:

Allan Cavalcante Luna
Aurélio de Moura Britto
Bruno R. Véras de M. e Silva
Diego Rodrigo Barbosa
Ednaldo F. do Carmo Júnior


Recife, abril de 2009
ÍNDICE


INTRODUÇÃO 4

Impasses epistemológicos 4


A CIÊNCIA DO RENASCIMENTO 6


A CIÊNCIA NO SÉCULO XVIII 10


A DIFUSÃO DA CIÊNCIA NA EUROPA E AS ACADEMIAS CIENTÍFICAS 13


UMA INTERPRETAÇÃO EXTERNALISTA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA 17


CONSIDERAÇÕES FINAIS 20


REFERÊNCIAS 21








INTRODUÇÃO


A ciência durante a Idade Moderna converteu-se em força propulsora e basilar das relações sociais. Com a Revolução Científica houve uma intensa discussão sobre a verdade e as metodologias mais eficientes para sua apreensão. Ao falarmos da Ciência Moderna, terminamos por negligenciar as particularidades dessas formações discursivas em categorias demasiadamente genéricas. Claro que a história da ciência, bem como qualquer história, é elaborada a partir de enfoques nas continuidades ou nas rupturas. Tendo isto em vista, o trabalho se propõe a enfatizar as dimensões que particularizam o conhecimento cientifico do século XVIII. Óbvio que dar uma dimensão de fosso epistemológico entre as tradições científicas modernas seria drástico, e historicamente infundado.

A ciência do século XVIII desenvolve, em virtudes das mudanças culturais, alguns aspectos de cientificidade que se distinguem da ciência no Renascimento. A este aspecto, merece relevo a colocação de John Bernal (1976):

No puede sorprender, vistos los cambios sociais e culturais, que las tendências a lo largo de mayor parte del siglo XVIII fueram distintas de las do siglo XVII. Em todo caso, la ciência habia conquistado su lugar. Se habia conquistado su lugar. Se habia convertido em uma institucion, y adquirido su propia tradicion interna (BERNAL, 1976, p. 395).

Quais eram estas particularidades? Que forças, internas e externas a ciência, as motivaram? Estas são algumas das indagações que nortearão o presente estudo.


IMPASSES EPISTEMOLÓGICOS

Faz-se necessário pontuar os principais impasses epistemológicos que regem a produção historiográfica da ciência. Qual a influência do contexto histórico na produção científica? Grosso modo, poderíamos dizer que a esta indagação às abordagens tradicionais da historiografia da ciência tentam responder. Para uns — os internalistas — a prática científica não carrega em seus postulados as impressões da cultura. Ou melhor, fatores culturais não influenciam a ciência nas mais variadas demandas sociais. A ciência, nesta acepção, se auto-determinaria e possuiria uma fundamentação lógica e inerente a própria ciência. Para outros — os externalistas — a prática cientifica é historicamente determinada, e as sentenças científicas são respostas às demandas sociais. Atualmente, a historiografia da ciência tem procurado uma posição menos extremista que as anteriormente referidas. Procurando no hibridismo, uma resposta mais completa para a compreensão da produção do conhecimento científico e seu contexto social.

Metodologicamente, o trabalho procurará conferir historicidade à ciência, no caso, a do século XVIII. Contudo, sem aderir ao utilitarismo do tipo vulgar, vendo a ciência, e a produção cientifica, como resposta imediata e unilateral à ascensão da burguesia na Europa. “Nada de utilitarismo vulgar! A ciência não era verdadeira por que útil, mas a verdadeira ciência era, ao mesmo tempo, útil” (JAPIASSU, 1997, p. 246).

Em suma, optaremos por uma abordagem dialética da ciência, privilegiando a interação entre as realidades internas e externas que, juntas e em graus diferentes ao longo da história, condicionaram a construção e institucionalização do conhecimento científico.




A CIÊNCIA DO RENASCIMENTO:
RACIONALIDADE E SECULARIZAÇÃO NOS SÉCULOS XV E XVI


Antes de iniciar a análise essencialmente objetivada neste artigo — as transformações epistêmico-metodológicas da ciência do século XVIII —, faz-se mister, uma reflexão sobre as características peculiares à “Revolução Científica” (MOCELLIN, 2000), fruto do renascimento e humanismo no século XV. Em caráter comparativo e processual este exame vem a ser essencial para se perceber as continuidades neste processo intelectual e ao mesmo tempo técnico que se engendrou na Europa moderna em tempos de humanismo (ROSSI, 1992).
Em toda a história da humanidade ocorreram algumas “Revoluções” de cunho técnico, epistemológico e científico. Aponta-se a presença destas revoluções em determinadas sociedades nos mais diversos tempos históricos, tal qual defende Price (1976), assinalando tal característica para a Babilônia, Grécia, Al Andaluz, Europa moderna, entre outros.

Mas a revolução que mudou a forma de encarar a natureza e que gerou a moderna concepção científica, foi a que começou no século XV e se prolongou até o fim do século XVI. De fato suas conseqüências foram tão grandes que, com toda a razão, muitas vezes a chamam “A Revolução Científica” (RONAN, 1997, p. 07).

Assim define Colin Ronan (1997), ilustrando explicitamente a importância desta revolução não somente científica e técnica, mas também na forma de conceber, enxergar e representar o mundo (CHARTIER, 1990). Teria ela uma relevância intensa no que viria a se tornar a Europa moderna e mesmo o mundo colonial por ela conquistado através das técnicas desenvolvidas a partir desta revolução. Contudo, não só ao campo empírico, esta revolução proporcionou frutos. “A revolução científica de 1500-1600 não apenas afetou todos os campos da ciência como mudou as técnicas de investigação científicas, os objetos que o cientista estabelecia para si mesmo” (RONAN, 1997, p. 08) e o papel que a ciência poderia desempenhar na filosofia e até na própria sociedade. Uma mudança tão profunda não poderia acontecer simplesmente por si mesma, mas foi uma modificação geral no modo pelo qual o homem via a sim mesmo e ao mundo em que vivia.

A Europa Ocidental e, principalmente mediterrânica, desde segunda metade do século XV passava por transformações intensas no que consta aos seus contatos extra-europeus, mudanças em sua organização política e territorial bem como na maneira de pensar de suas populações. Esta nova conjuntura sócio-política e cultural é que possibilitaria o nascer da ciência crítica moderna quantitativa e racionalista. Durante o início da idade moderna européia podem-se apontar alguns elementos de destaque que inovaram consideravelmente a vida intelectual da elite artística e filosófica .

O “Renascimento” foi um dos principais deles. Movimento iniciado nos principados italianos e patrocinado pela burguesia mercantil e urbana local, teve grande importância na inovação artística e mesmo intelectual em boa parte da Europa ocidental e central. A superação de uma perspectiva uniforme e teológica medieval — tanto de cunho artístico quanto mental — pôde ser percebida nas mais diversas manifestações humanas neste contexto geográfico, como o caso das próprias representações religiosas e políticas.

“Começou, de modo crescente, a secularizar as atitudes dos homens, encorajando-os a reconhecer a beleza do mundo natural e não apenas em um mundo limitado pelas imagens sacras” (RONAN, 1997, p. 08).

O mundo antes conceituado e vivido a partir de uma metafísica cristã, agora se abria em possibilidades físicas observáveis concretamente a partir da sensibilidade humana. O centro do mundo deixara de ser o theos e tornava a virar-se a capacidade do homem em si. A chave desta perspectiva denominou-se Humanismo.

O Humanismo era a corrente filosófica do renascimento. Dedicava-se ao estudo dos conhecimentos antigos. Escritos gregos, romanos e hebraicos foram traduzidos e valorizados. O retorno à filosofia grega, através das traduções dos árabes, possibilitou um novo patamar de compreensão apagado no mundo medieval. O “homem” era o centro e as possibilidades estavam no observar concreto e sensível (HENRY, 1998).

“O humanismo e a independência de pensamento, que a renascença encorajou, teriam como efeito a fragmentação da cristandade” (RONAN, 1997, p. 11).

Esta foi outra das características que compunham a conjuntura do nascimento da Revolução Científica dos séculos XV e XVI. O pensamento crítico alentado pelas propostas humanistas proporcionou mesmo o questionamento de validade social sobre a maior e mais poderosa instituição do período medieval: a Igreja Católica Romana. Várias correntes religiosas cristãs surgiram na Europa, tendo vários Estados nascentes abraçados tais propostas. Nesses locais a ciência teve destacado papel, principalmente nas áreas de matemática e astronomia.

Outro importante evento gerou profundas repercussões tanto econômicas quanto mentais em toda a Europa: a descoberta do “Novo Mundo”. A Europa deixou de recolher-se em si mesma, como fizera durante boa parte da Idade Média para explorar o mundo dos “outros” (HARTOG, 1999). E mais,

“o fato de que os povos antigos, apesar do brilho de sua civilização, não haviam chegado a conhecer tudo o que se deveria conhecer sobre o mundo; isso significava que o homem tinha apenas observar para que fosse possível fazer descobertas” (RONAN, 1997, p. 13-14).

Nesse contexto surgem homens que revolucionaram tanto o método de observação quanto de reflexão dos fenômenos científicos.

O desenvolvimento da física durante a renascença é, de certa forma, frustrante. Certamente houve um progresso no estudo do magnetismo terrestre, realizaram-se alguns trabalhos em óptica e teve lugar um pequeno incremento na compreensão de almas questões referentes à mecânica, mas mesmo assim o progresso foi pequeno (RONAN, 1997, p. 36).

Nesses cientistas renascentistas, podem-se apontar alguns axiomas essenciais em seus métodos de pesquisas. Pressupostos epistemológicos que guiaram a observação e a metodologia analítica destes filósofos que compuseram o panteão intelectual dos séculos XV e XVI. O axioma trata-se do Racionalismo. Para aqueles cientistas modernos, as coisas exteriores (a Natureza, a vida social e política) podem ser conhecidas desde que sejam consideradas representações, ou seja, idéias ou conceitos formulados pelo sujeito do conhecimento.

Isso significa, por um lado, que tudo o que pode ser conhecido deve poder ser transformado num conceito ou numa idéia clara e distinta, demonstrável e necessária, formulada pelo intelecto; e, por outro lado, que a Natureza e a sociedade ou política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito, porque elas são inteligíveis em si mesmas, isto é, são racionais em si mesmas e propensas a serem representadas pelas idéias do sujeito do conhecimento.

Axioma essencial neste contexto científico, o Mecanicismo teve destacada importância. O Mecanicismo é uma teoria filosófica segundo a qual todos os fenômenos que se manifestam nos seres vivos são mecanicamente determinados e, em última análise, essencialmente de natureza físico-química. Esta postura opõe-se às explicações vitalistas que postulam a existência de uma força ou impulso vital sem a qual a vida não poderia ser explicada (BURKE, 2003).

Nesta conjuntura revolucionária no campo intelectual surge René Descartes (1595-1650). Este francês dedicou sua vida à geometria analítica, contudo, sua maior contribuição foi metodológica. Em sua obra O Discurso do Método, Descartes propõe um método essencial para a construção do conhecimento científico. Baseava-se na racionalidade e na dedução, agrupando todas as observações para então inferir resultados.

Esta ciência fruto do Renascimento sofrerá imensas tranformações no decorrer do século XVIII, onde serão propostos novos métodos, novos objetos terão destaque na análise científica e a técnica e a ciência sofreram um processo de almagamamento nunca antes visto.




A CIÊNCIA NO SÉCULO XVIII


O fomento que a ciência conheceu no Renascimento contrasta com o início do século, onde, nas primeiras décadas, aconteceu certa estagnação. Alguns historiadores, dentre eles Whitehead (1951), pensam a produção científica do século XVIII como simples continuidade do período “glorioso” anterior. Assim, este período seria caracterizado por uma tendência menor, não haveria produzido um desenvolvimento do conhecimento proporcional ao século anterior.

Sobre este respeito, nos declara Bernal (1976):

“El impulso originário que habia creado la ciência em el Renascimiento y la habia guiado a traves de la gran expasion de mediados del siglo XVII, parecio disminuir, y aun extinguirse, a finales del mismo siglo” (BERNAL, 1976, p. 391).

Para Bernal (1976), explica-se este decréscimo da prática científica de duas maneiras. Do ponto de vista interno, o newtonianismo conferiu a ciência um caráter acabado, devido, aos grandes êxitos propiciados por estes procedimentos. No contexto social, vemos a substituição de uma classe que impulsionava o “avanço”. Ela havia sido sucedida por um segmento menos propenso a investimentos. Ainda nos diz o autor:

Esta, la primera aristocracia Whig, considero mas segura la inversion em la tierray satisfazo su intereses especulador em aventuras tan gloriosas como la estafa del mar do Sur. La clase que la sucederia em el poder, los nacientes pero muy debiles manufactureros que más tarde originarían la Revolucion Industrial, no eram todavia conscientes das posibilidades o siquiera la existência de la ciencia (BERNAL, 1976, p. 391).

Contudo, pensar o século XVIII como um período de infrutífero para a ciência é negligenciar o processo global, uma vez que, em meados deste século, a ciência alcançaria um enorme respeito na produção da verdade social. Para Bernal (1976) se processa uma segunda revolução científica durante o século das luzes, ligada química, o que ele chama de “revolução neumatica”.

A Revolução Científica moderna operou com premissas e postulados que viriam a sofrer a perda de sua preponderância frente a novos paradigmas e metodologias. O racionalismo e o dedutivismo foram à base metodológica que corroborou todo o pensamento mecanicista deste período inicial. Assim, temos na ciência da modernidade duas metodologias bem evidentes. No primeiro momento da ciência, na sua gênese e luta pela sobrevivência, o racionalismo e o dedutivismo firmaram-se como métodos “oficiais”, era a matemática a principal linguagem do mundo; tendo o pensamento cartesiano influenciado profundamente toda prática científica. Posteriormente, no século XVIII, o racionalismo cartesiano cedera lugar ao experimentalismo newtoniano. A indução ganha o lugar da dedução. Claro está, que a ascensão de uma metodologia não coincide, necessariamente, com extinção de outra. Trata-se de uma generalização, e de observar qual método detinha, neste momento, a hegemonia. O pensamento de Newton contribui decisivamente para a preeminência do experimentalismo, além de fatores sociais que serão adiante explicitados. Este é o período de institucionalização da ciência. Exatamente quando ocorre uma cientifização das idéias, sobretudo, as políticas. A este respeito coloca Japiassu (1997):

"Graças a influencia de Newton, a ciência se estabiliza. A ciência torna-se uma instituição respeitável [...]. Os filósofos do século XVIII puderam tomar como verdade a visão cientifica do mundo legada por Newton: estenderam e reconciliaram suas conclusões com o padrão sócio-econômico em desenvolvimento" (JAPIASSU, 1997, p. 245).

Os “avanços” oriundos do campo científico, sob a tradição do newtonianismo, somados com outras variantes ligadas a ascensão da burguesia, vão imbuir todo o século XVIII da noção de “progresso”. Vai estabelecendo uma relação, sem precedentes, na forma com que interagem a ciência e o poder político. Ocorre uma cientifizacão nos modelos de explicação social, bem como uma absorção da idéia de ciência enquanto instrumento indispensável para a organização da sociedade. Poder-se-ia argumentar que isto remonta uma tradição baconiana, mas o status e a força que ganha o discurso científico, marcam o otimismo e a esperança na capacidade da ciência explicar e, agora, atuar praticamente sob o mundo. Assim, teoria e pratica; ciência e política; começam a imbricassem, de tal modo, que durante o século XIX, será quase que impossível traçar uma linha rígida sobre onde começa uma e acaba a outra. Bernal (1976) evidencia este caráter de intervenção no mundo que começa a surgir neste século:

"Muy pocas cosas de uso práctico se seguiron de los esfuersos de los científicos del siglo XVII, organizados em sus sociedades y academias, para mejorar los manufacturados o la agricultura. Por en contrario, a finales del siglo XVIII comenzóa advertirse La conjugacionde las innovaciones cientificas y capitalistas, y su conjugacion puso en movimiento fuerzas que transformarían el capitalismo, la ciência y la vida de todos los pueblos del mundo." (BERNAL, 1997, p. 398)

O século XVIII fornece ao “mundo” um modelo científico-social: a utopia técnica. Exatamente esta visão que o conhecimento verdadeiro — o científico — libertará o homem das suas angustias e debilidades. O próprio iluminismo forjará o acúmulo de conhecimento com “estágios” progressivos de felicidade e racionalidade. Como nos indica Japiassu (1997):

Nele vai apoiar-se o “espírito do iluminismo”, fundado tanto na crença de que a razão e a ciência permitem ao homem alcançar graus cada vez maiores de liberdade e um nível crescente de perfeição quanto na idéia de que o progresso intelectual deve servir constantemente para o progresso geral do homem. Com efeito, diferentemente dos pensadores do século XVII, os filósofos do iluminismo construíram um ideal de explicação e de compreensão segundo o modelo da física de Newton (JAPIASSU, 1997, p. 223).

Esta inflexão no pensamento científico, durante o século XVIII, é visível em outras instâncias da produção do conhecimento, inclusive na organização e institucionalização da ciência, mediados pelas sociedades científicas e pela própria universidade.

A DIFUSÃO DA CIÊNCIA NA EUROPA E AS ACADEMIAS CIENTÍFICAS



Durante o século XVIII, a Europa começou a intensificar os meios de transmissão de saber. A impressão de livros exerceu papel fundamental para que a ciência fosse propagada por todo o continente. Will Durant (1964) postula que “os primeiros heróis da divulgação do saber foram os impressores-editores, que alimentaram a corrente de tinta na qual ele fluiu de espírito a espírito e de geração a geração” (DURANT, 1964, p. 199).

Partindo do que afirma Durant (1964), poderemos, também, dar um estimado valor ao papel das bibliotecas. Ora, se a intensificação na publicação das obras garantiu que o livro pudesse fluir “de espírito a espírito e de geração a geração”, as bibliotecas eram o ambiente mais propício para se discutir e acumular as obras antigas. Não podemos deixar de considerar que o aumento na publicação dos livros e no número de bibliotecas, se deu muitas vezes pelo patrocínio do Estado; como exemplo, temos Catarina de Médicis, que acrescentou à Bibliotetèque Nationale vários volumes e manuscritos (DURANT, 1964).

É justamente o apoio do Estado que garantirá que a ciência seja difundida com mais facilidade. Os filósofos naturais foram “recrutados” das universidades para as cortes para atender aos interesses dos governantes. Entretanto, essa submissão dos filósofos naturais aos absolutistas não representava que o poder do monarca estivesse acima da ciência; as universidades não possuíam um arcabouço suficiente para as inovações científicas do século XVIII.

Quando nos referimos à falta de arcabouço das universidades, não estamos nos referindo a uma estrutura precária da instituição, estamos falando em um plano ideológico. As universidades assumiam uma postura conservadora em relação ao incentivo para novas descobertas científicas. Peter Burke (2003) afirma que as universidades estavam mais voltadas para a manutenção e simples transmissão do saber, do que para, realmente, incentivar as inovadoras práticas científicas.

Dessa maneira, os filósofos naturais não puderam desenvolver dentro do conservadorismo universitário as suas experimentações científicas nem propor novas metodologias de trabalhos. Galileu Galilei, por exemplo, desenvolveu as suas pesquisas fora das universidades. Embora tenha sido professor universitário, foi com o patrocínio do Estado que pôde desenvolver as suas práticas científicas e as suas propostas metodológicas.

Se as universidades européias não permitiram grandes avanços para a ciência empírica do século XVIII, era a corte quem exerceu papel fundamental na propagação do conhecimento científico. Conforme Henry (1998):

"Mudanças na natureza e na estrutura das cortes reais numa Europa de Estados cada vez mais absolutistas também deram ao mathematicus oportunidades mais amplas de fazer sentir a sua presença. O matemático que conseguia impressionar o príncipe com a sua produção de mirabilia, máquinas ou cenários para espetáculos teatrais e outros aperfeiçoamentos da imagem do príncipe podia elevar-se acima daqueles envolvidos apenas na administração do Estado" (HENRY, 1998, p. 27).

John Henry (1998), ao afirmar que os mathematicus que impressionavam os príncipes elevavam seu status, mostra-nos que, inicialmente, os interesses dos absolutistas com os filósofos naturais estavam ligados ao seu divertimento. Entretanto, não é de se admirar que a ciência se transforme em um instrumento de poder do Estado. A finalidade prática do conhecimento científico teria mais utilidades que o lúdico para as cortes; a matemática — continuando com o exemplo — seria fundamental na organização militar dos exércitos e em finalidades puramente comerciais.
O crescente interesse do Estado pela ciência gerou transformações pela Europa. Ao raiar do século XVIII, já existiam mais de 600 academias científicas no leste europeu (RONAN, 1997). A institucionalização da ciência nas academias científicas marca a Revolução Científica do século XVIII; dando ao conhecimento científico o suporte para que o saber fosse propagado de maneira empírica.

Entre as academias, destacaremos a Royal Society de Londres, aquela que melhor representou as finalidades das academias científicas. Antes do emergir da Royal Society, alguns Estados absolutistas já investiam na ciência fora dos muros da universidade. Destaque-se o Observatório de Greenwich e de Paris; as academias de eruditos de Nápoles; e, em Florença, a Academia do Lincei. Todos esses centros estavam voltados para a ciência experimental.

Em Londres, com o aval de Elizabeth I, foi fundado por um de seus conselheiros financeiros, Sir Thomas Gresham, uma academia que não se limitasse a simples obtenção de conhecimento puro e pretendia algo mais que a proposta das universidades.

A idéia de Gresham era que sua faculdade abrigasse sete professores residentes, que fariam conferências públicas tanto em inglês quanto em latim, devendo algumas delas tratar de matérias científicas práticas, não constantes, então de nenhum currículo de qualquer universidade (RONAN, 1997, p. 109).

O Gresham Collegue foi fundamental para a fundação da Royal Society of London for Improving Natural Knowledge, porém, foi o pensamento de Francis Bacon que permitiu que essa academia britânica tivesse a importância que teve para a ciência do século XVIII. Bacon tinha o seu pensamento voltado para uma ciência experimental voltada à assistência do homem ao invés da aquisição do conhecimento puro.

O empirismo se propaga em vários ramos do conhecimento científico. A física, por exemplo, tem os estudos de óptica aprimorados e voltados para finalidades práticas (telescopia e microscopia). A química apresenta como novidade o vácuo no estudo dos gases, que vai de encontro à concepção aristotélica sobre a impossibilidade de existir algo como o vácuo. A geologia é elevada ao status de ciência; o crescente interesse pela paleontologia dá às ciências da terra um maior interesse de pesquisa pelos intelectuais. A biologia sofre um processo de maior sistematização do conhecimento, com destaque para a cirurgia que passa a usar métodos científicos, e desprezar o antigo “método de sorte”.

A Royal Society começou a divulgar e publicar a obra dos seus integrantes em bilíngüe (latim e inglês). Eis um ponto crucial para a difusão da ciência: a língua. Enquanto o latim privava o público do acesso às obras científicas; o inglês permitia uma maior aquisição e absorção dos livros. Quando a Royal Society passa a publicar obras em vernáculo, a academia estende ainda mais a propagação científica no século XVIII, e conseqüentemente, aumenta o interesse pelo conhecimento científico, agora não só por parte do Estado, mas dos comerciantes e de uma população mais esclarecida.





UMA INTERPRETAÇÃO EXTERNALISTA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA:
A RELAÇÃO CAPITALISMO/BURGUESIA E TECNOLOGIA/CIÊNCIA


Como tínhamos dito, a linha de pensamento externalista de análise da História da Ciência é uma tendência de enxergar o desenvolvimento das idéias científicas enquanto reflexo de uma determinada sociedade.
Nessa maneira de pensar, a ciência se desenvolveria em respostas às necessidades mais diversas da sociedade, ainda que fossem elas econômicas, políticas, militares, enfim, as mais variadas questões imprescindíveis, principalmente a um determinado grupo social específico, patrocinador do desenvolvimento da ciência, que no caso da Ciência Moderna, seria a burguesia.

No cerne oposto à corrente externalista, o paradigma internalista da História da Ciência, que admite que a ciência se incrementa de novos paradigmas e conceitos per si e para si, vê o desenvolvimento científico totalmente desvinculado da realidade concreta vivenciada pelos cientistas, ou seja, de uma maneira pura em si mesmo.
Hilton Japiassu (1991) evidencia ambas as correntes de pensamento no seguinte fragmento: “A ciência moderna nasceu com o advento do sistema mercantilista. Não surgiu como uma atividade pura e desinteressada, como uma aventura espiritual ou intelectual” (JAPIASSU, 1991, p. 157).

Portanto, quando analisamos o brotar da ciência na Idade Moderna, não podemos desvincular, segundo a ótica externalista, todo o quadro sócio-econômico de então. O capitalismo comercial, ou capitalismo mercantil, ou mercantilismo, ou mesmo pré-capitalismo, assiste e ao mesmo tempo fomenta ao desabrochar dos mais variados campos científicos.

Nesse período, uma classe social que irá se consolidar definitivamente no século XIX, começa a dar seus primeiros sinais de proeminência econômica: a burguesia. Obviamente não a burguesia clássica dos romances do XIX, mas uma burguesia ainda hesitante, uma “burguesia anobrezada”, que ainda investia na aquisição de terras, e na compra de títulos de nobreza. No entanto, uma classe social já de considerável destaque financeiro.

Objetivamente, para a corrente externalista de interpretação da História da Ciência, essa necessidade comercial, alavancada principalmente pela expansão ultramarina, fez com que a ciência começasse a se desenvolver.

A ciência era extremamente ligada às práticas comerciais, e com isso, vemos a aparição e o crescimento, por exemplo: da Astronomia, da Cartografia, da Geologia, da Geografia — ciências estas essenciais à eficiência navegação; da matemática, que atende às necessidades da contabilidade financeira (empréstimos, juros, etc.) do período; e assistimos, outrossim, ao desenvolvimento da Engenharia Bélica, incitada pela concorrência entre estados rivais.

Esta inventividade técnica desenvolvia um jogo dialético com a economia de então: ao mesmo tempo em que ela desenvolvia e estimulava o comércio, era estimulada por ele. Na prática, acontecia um reforço mútuo entre o saber e o comércio.

Todo esse processo atingia diretamente a própria burguesia, a grande beneficiária de todo este desenvolvimento econômico-científico. Tais acontecimentos ocorreram pioneiramente nos países da Península Ibéria (Portugal e Espanha). No entanto, por razões diversas, a burguesia se viu perseguida nessas sociedades.

É neste momento — nos séculos XVII e XVIII — que o eixo das grandes mudanças, dos grandes acontecimentos, transfere-se para os países do norte, notadamente Inglaterra e França. É nesses dois países que a burguesia se consolida politicamente, primeiro na Inglaterra no século XVII, e posteriormente na França, em fins do século XVIII.

A partir daí a ciência sofre um impulso jamais visto durante a História. É o momento em que a economia gira em torno de uma esfera que passará a ser central e essencial na vida das sociedades de então: da produção. O capital agora não advém apenas do comércio, da circulação de bens.

Portanto, a ciência institucionalizada politicamente, passa agora a ter um papel muito mais relevante socialmente durante, principalmente o século XVIII. Karl Marx & Friedrich Engels (2006), no Manifesto do Partido Comunista, que data de 1848, escrevem sobre estas transformações ocasionadas pela ascensão e consolidação política da burguesia:

"Em seu domínio de classe de apenas cem anos, a burguesia criou forças produtivas mais poderosas e colossais do que todas as gerações passadas em conjunto. Subjugação das forças da natureza, maquinaria, a aplicação da química na indústria e na agricultura, navegação à vapor, ferrovias, telégrafos elétrico, exploração de continentes inteiros, navegabilidade dos rios, populações inteiras brotadas do solo como que por encanto — qual século anterior poderia suspeitar que semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?" (MARX; ENGELS, 2006, p. 50).

Portanto, logo podemos perceber o quanto se transformou a ciência originária do período da Renascença. Nos séculos XV e XVI, a ciência, sem dúvida, tem uma empregabilidade técnica, no entanto, não na mesma proporção que irá atingir nos séculos XVII, e principalmente no XVII.

No período inicial, a ciência estava bastante ligada ao comércio, já no século XVIII, a produtividade se tornou questão primordial. Nesse período, aparecem os investimentos em novas tecnologias de produção, de indústria, ainda que embrionária.
John Bernal (1976) nos elucida muito bem acerca desta temática das diferenças existentes entre a ciência renascentista e a do período das luzes:

"El Mayor estímulo y empleo práctico de la ciência se había dado en el ámbito de la navegación, apéndice indispensável del comércio pero sólo indirectamente relacionado com la produción. [...] Por el contrário, a finales del seglo XVIII comenzó a advertirse la conjugación de las innovaciones científicas y capitalistas, y su interacción puso en movimiento fuerzas que transformarían el capitalismo, la ciência y la vida de todos los pueblos del mundo" (BERNAL, 1976, p. 398).




CONSIDERAÇÕES FINAIS


As mudanças do conhecimento do século XVIII foram explanadas de tal maneira que se pudessem perceber as suas divergências em relação à ciência renascentista, do século XV e XVI. Ao longo deste trabalho, portanto, procurou-se evidenciar, analisar, e exemplificar as transformações e as continuidades que ocorreram durante o processo de formação da ciência das luzes.

O newtonianismo, internamente, conferiu à ciência um status quase que acabado, proporcionado graças ao grande êxito dos seus novos procedimentos, notadamente os empíricos. E, externamente, observamos o alvorecer da burguesia, como classe social patrocinadora desse desenvolvimento científico, e o reflexo no crescimento econômico, de maneira especial na França e na Inglaterra, especificamente ao longo do século XVIII.

A ciência no século XVIII conseguiu, portanto, uma reverência global na produção de verdades sociais. Vemos este reflexo no aparecimento das Academias Científicas e nas próprias universidades. É este, portanto, o processo de institucionalização da ciência moderna.







REFERÊNCIAS:


BERNAL, John D. Historia social de la Ciência: La ciência em la historia. Volume I. Barcelona: Edições Península, 1976.

BURKE, Peter. Uma História Social do Conhecimento: de Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990.

HARTOG, François. O Espelho de Heródoto: Ensaios sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

HEGENBERG, Leônidas. Explicações Científicas: Introdução à Filosofia da Ciência. São Paulo: EDUSP, 1973.

HENRY, John. A Revolução Científica e as origens da Ciência Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

JAPIASSU, Hilton. As Paixões da Ciência: estudos de História da Ciência. São Paulo: Letras e Letras, 1991.

JAPIASSU, Hilton. A Revolução Científica Moderna. De Galileu a Newton. São Paulo: Letras e Letras, 1997.

KEARNEY, Hugh. Orígenes de la Ciência Moderna 1500-1700. Madrid: Guadarama, 1970.

MARVIN, Perry. Civilização Ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Mantin Claret, 2006.

MOCELLIN, Ronei C. Uma Breve História da Ciência. Curitiba: Nova Didática, 2000.

PRICE, Derek de Solla. A Ciência desde a Babilônia. São Paulo: EDUSP, 1976.

RONAN, Colin. História Ilustrada da Ciência: da Renascença à Revolução Científica. Volume III. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

ROSSI, Paulo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. São Paulo: UNESP, 1992.

ROSSI, Paulo. O Nascimento da Ciência Moderna na Europa. São Paulo: EDUSP, 2001.

TATON, René (org.). História Geral das Ciências: o século XVIII. Tomo II. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960.

WHITEHEAD, A. N. A Ciência e o Mundo Moderno. São Paulo: Brasiliense, 1951.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Feliz Páscoa

Ontem ocorreu o lançamento de seis volumes de belas cartas escritas por Com Hélder Câmara. Na leitura da primeira carta já podemos intuir da importância de ler o que escreveu esse Dom, ali, quando está relatando os primeiros momentos do Concílio, ela já nos apresenta o que virá em seguida. Uma inteligência, uma pessoa que entende o que se passa ao redor, alguém que nos aponta o que será feito enquanto organiza o seu tempo, não apenas o seu tempo pessoal, mas o de toda uma comunidade com a qual está conectada. Uma dádiva divina ter convivido com o DOM, especialmente no tempo em que ele realizou, com maior clareza possível a um homem, os desígnios de seu Deus. Todos os que puderem devem comprar e ler, os que não puderem comprar devem ler, e os mais abastados devem doar essa coleção a alguma biblioteca pública. As cartas do Dom são documentos históricos, são documentos de nossa história.
Assim, pensando no Dom da Vida, escrevo hoje para desejar aos cristãos e aos não cristãos, uma boa Páscoa, uma boa passagem para dias melhores, mais alegres, mais justos, mais felizes, e que isso aconteça diariamente. Que este seja um momento de fertilidade de nossa imaginação, de nossas vidas, em nossas ocupações. Que sejamos portadores dessa esperança que a idéia de Páscoa carrega: vida nova, vida nascente, vida permanente.
Que sejamos portadores do Dom da Vida. Assim seremos pascoais.

domingo, 5 de abril de 2009

Obras Completas de Dom Hélder

OBRAS COMPLETAS DE DOM HELDER

Lançamento de 6 volumes das Obras Completas de Dom Helder, editados pela CEPE, sendo 3 vol. das Circulares Conciliares (o Vol. I é reedição) e 3 vol. das Circulares Inter-conciliares.


DIA: 14 de Abril de 2009

Hora: 19h

Local: Arcádia/Paço Alfândega (último andar)
Recife Antigo

sexta-feira, 27 de março de 2009

Que História é essa - programaçao de abril

PROGRAMA
QUE HISTÓRIA É ESSA


A Rádio Universitária AM 820 apresenta o programa Que História é essa, todas as quartas feiras, das nove às dez da manhã, com produção do professor Severino Vicente da Silva, do Departamento de História da UFPE.
O programa é apresentado pelo professor Biu Vicente e conta com a presença de convidados que atuam nas áreas de pesquisa e ensino de História para a realização de entrevistas e conversas sobre suas experiências.
A programação para o mês de Março conta com a participação dos seguintes convidados:

 01 de abril – Profº Antonio Carlos Motta Lima - UFPE

08 de abril – Profº Drance Elias – UNICAP

15 de abril – Profº Ricardo José Barbosa - UFPE

22 de abril – Profº Artur Peregrino – UNICAP

29 de abril - Profº Degislando Lima – UNICAP

A produção do programa está recebendo textos de opinião sobre as histórias das ruas da cidade e região metropolitana, contendo a história dos nomes das ruas ou comentários sobre seu desenvolvimento ao longo dos anos. Também recebemos comentários sobre livros que você leu. Os textos podem ser enviados para o nosso e-mail historia820am@yahoo.com.br, assim como sua opinião ou comentário.
Contamos com a sua colaboração para a promoção e divulgação desse veículo de comunicação que o acesso aos meios radiofônicos possibilita.

Ouça a Rádio Universitária Am 820 KLH na internet – Acesse www.tvu.ufpe.br e em seguida clique em AM ao Vivo.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A Igreja Católica e o Fenômeno dos padres cantores

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Curso de Especialização em História do Século XX

Disciplina Panorama da Igreja Católica no Século XX





A IGREJA CATÓLICA E O FENÔMENO DOS PADRES CANTORES






Luciana Paula Carvalho de Souza Leão





Trabalho destinado à conclusão da disciplina “Panorama da Igreja Católica no Século XX”, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no Curso de Especialização em História do Século XX





Recife 2008


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

2 CRISE NA IGREJA CATÓLICA

3 FENÔMENO DOS PADRES CANTORES

4 MODERNO OU TRADICIONAL?

5 A IGREJA CATÓLICA E O SÉCULO XXI





1 INTRODUÇÃO

Antes hegemônica entre os brasileiros, a Igreja Católica passou a vivenciar, a partir dos anos 80, a disputa dos fiéis por outras religiões, em especial pelas igrejas evangélicas de cunho pentecostal. Naquele momento, dividida entre os teólogos da Teologi a da Libertação e os conservadores, a Igreja identificou a necessidade de reagir e passou a incentivar o uso dos meios de comunicação como forma de divulgar a mensagem de Jesus Cristo e atrair fiéis para os templos.
Entre as formas de responder a este desafio está o crescimento do número de emissoras de rádio e de televisão católicas e o fortalecimento da Renovação Carismática Católica no Brasil (RCC). No seio da RCC, surgiram vários padres que utilizam a música como meio de atrair fiéis para as igrejas, chamados popularmente de padres cantores. O mais famoso deles é o padre Marcelo Rossi, paulistano de 41 anos, que, em 1997, massificou um novo formato de missas e cerimônias religiosas caracterizadas por muitas canções, por orações pela cura individual e em agradecimento por graças alcançadas.
Neste trabalho, vamos analisar a trajetória de padre Marcelo Rossi e de outros padres cantores nestes últimos 11 anos, as críticas que sofreram dentro e fora da Igreja Católica, as contradições entre o moderno e o tradicional no discurso e na prática destes sacerdotes e as conseqüências deste fenômeno para a Igreja. Ao final, abordaremos as perspectivas dos padres cantores – que foram incentivados pelo papa João Paulo II – no novo contexto da Igreja, sob o papado de Bento XVI.



2 CRISE NA IGREJA CATÓLICA


O papa Bento XVI, que assumiu o papado em 19 de abril de 2005, após a morte de João Paulo II, quer os católicos mais firmes e mais bem formados em sua fé. A Igreja não quer apenas os abastados e que abandonaram a religião, mas pretende evangelizar as camadas mais pobres da população e que estariam sedentas de Deus, sem, contudo, se aproximar da Teologia da Libertação. Na sua primeira visita ao Brasil, em maio de 2007, Bento XVI deu demonstração do modelo de igreja que pretende adotar: canonizou Frei Galvão fora do Vaticano, numa atitude considerada inédita, promoveu encontro com a juventude militante católica e visitou uma fazenda de recuperação de drogados. Aproveitou também para mostrar a sua preocupação com a evasão de fiéis católicos no Brasil – fato confirmado pelos censos do IBGE desde 1991. Para ele e para o clero mais conservador, no qual se insere o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilon Scherer, a Igreja precisa chegar aos lugares mais afastados, por meio dos padres e dos cristãos leigos, nas escolas, nos centros comunitários, no trabalho.
Ser católico no Brasil, até os anos 60, era seguir a orientação de bispos e padres, sem muita contestação. Com o advento do Concílio Vaticano II, na década de 60, que, na verdade, espelhou em suas diretrizes as mudanças ocorridas no mundo naquele momento, muitos católicos passaram ser sujeitos engajados politicamente, no caso dos adeptos progressistas da Teologia da Libertação. Foi a luta contra as ditaduras, a defesa dos direitos humanos, o que mais congregou parte da hierarquia católica do Brasil, nessa época, para uma postura progressista . Outros continuaram freqüentando as missas tradicionais, nas quais os “novos ventos” pouco foram sentidos. Alguns ainda se diziam católicos, por formação, mas deixaram de ir à missa. Entre os que se distanciaram da Igreja, alguns o fizeram por buscar um entendimento direto com Deus, sem a intermediação de outros na sua religiosidade. Já as questões ligadas à sexualidade e reprodução (proibição ao sexo fora do casamento e ao uso da camisinha e de anticoncepcionais), embora não praticadas nos moldes do catolicismo tradicional, não teriam sido motivo para o afastamento ocorrido. Há os casos ainda dos que deixaram de se denominar católicos ou passaram a freqüentar outras religiões, principalmente as novas religiões de cunho pentecostal, num formato de protestantismo popular.
Para a antropóloga Regina Novaes, do Instituto Superior dos Estudos da Religião (ISER)

“O catolicismo se confunde com a cultura e se mistura com a história, com a ocupação do território, com o calendário de festas e de dias cívicos, sempre foi possível ser católico e não seguir a doutrina. O batizado, o casamento religioso e o enterro católico fazem parte dos rituais de apresentação social no país, expressam diferenças de poder aquisitivo e prestígio. Há quem freqüenta a Igreja e segue a doutrina, há quem esconde vivências religiosas e há quem se defina como católico e umbandista. Há uma convivência de muitas formas de ser católico”.


Em 1970, os católicos eram 91,8% da população brasileira. O que os censos demonstraram em 1991 e em 2000 – neste último, os católicos são 73,9% dos brasileiros, mas os evangélicos já somam 15,6% da população –, é que houve maior penetração do pentecostalismo em regiões como o Centro-Oeste, o interior da Bahia e nas periferias das capitais do Nordeste e do eixo Centro-Sul . Em sua maioria, os novos evangélicos eram migrantes, com baixo nível de escolaridade e de qualificação profissional, segundo o sociólogo César Romero, um dos autores de trabalho publicado no Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil. Para Romero, nas áreas onde o pentecostalismo cresceu, o Estado estaria ausente. Os migrantes, que haviam perdido suas raízes e não mantinham vínculos com a sociedade local, terminavam sendo acolhidos pelas igrejas evangélicas , que fazem uso da comunicação televisiva e pelo rádio como um dos principais meios para se chegar ao fiel. A compra da Rede Record pela Igreja Universal do Reino de Deus foi o ápice desta “corrida” pelos fiéis, numa demonstração de força inequívoca desta nova religião.
Ainda na década de 80, o clero no Brasil despertou para estas mudanças, ligadas ao processo de urbanização das cidades, que favoreceram o surgimento de novas religiões e a difusão de religiões vindas do exterior . A partir de uma autocrítica, em que mudou sua postura de confronto com o que chamada anteriormente de seitas e de fanáticos, a Igreja passou a implementar mudanças de postura, buscando a modernidade, inclusive com o uso de ferramentas de marketing religioso e de comunicação. Ampliar o uso dos meios de comunicação para divulgação da mensagem católica foi um dos caminhos percorridos pelos católicos nesta busca, mesmo que com a desconfiança dos progressistas, ligados às Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) e à Teologia da Libertação.
Dentro da Igreja, em especial nos setores de classe média, se avolumam os movimentos e grupos reavivamento espiritual, como a Renovação Carismática, o Treinamento de Lideranças Cristãs (TLC) e os Cursilhos de Cristandade . A Renovação Carismática Católica (RCC), movimento de leigos católicos nascido entre os pentecostais americanos em 1967 e trazido para o Brasil pelo padre Eduardo Dougherty em 1972, com características pentecostais e moral conservadora, se identificava, também, como os progressistas, como sendo fruto do Concílio Vaticano II, que ditou os novos rumos da Igreja a partir dos anos 60.
Dispostos a ir à luta contra “o inimigo”, em especial a Igreja Universal do Reino de Deus, os carismáticos passaram a usar as mesmas armas: a comunicação, contando, inclusive, com a benção do papa João Paulo II, conservador que privilegiou a ação pastoral e perseguiu os seguidores da Teologia da Libertação.


3 FENÔMENO DOS PADRES CANTORES


A Renovação Carismática Católica (RCC) precisou de apenas 16 anos para ser reconhecida pela Santa Sé como um movimento católico . A base de sua estrutura são os grupos de oração, organizados nas paróquias ou centros comunitários, liderados por leigos, que hoje deram origem a diversas comunidades carismáticas no País, onde os laços de vida dos seus integrantes se estreitam mais. Seus encontros são festivos, com música e gestos parecidos com os pentecostais, podendo ser organizados em âmbito paroquial ou mesmo diocesano, com grande autonomia. Caracteriza-se por promover grandes eventos de louvor a Deus e a Maria em áreas como estádios de futebol ou ginásios esportivos.
As sementes da RCC foram plantadas no Brasil ainda na década de 60, com o padre jesuíta norte-americano Harold Joseph Rahm, ou padre Haroldo, que fundou o Treinamento de Lideranças Cristãs (TLC) em que juntou elementos da espiritualidade jesuíta, da Juventude Estudantil Católica (JEC), da Juventude Operária Católica (JOC), da Legião de Maria entre outros movimentos, tendo a pretensão de formar lideranças cristãs . Neste trabalho, o objetivo era levar os jovens a ter experiência de iniciação na vivência espiritual, preparando-os para o futuro da Igreja.
Os padres Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty, ao lado de outros sacerdotes estrangeiros e brasileiros, como o padre Jonas Abib, espalharam as experiências de oração por São Paulo e outros Estados, por meio de retiros e encontros de oração, dando início à RCC. Hoje, padre Haroldo atua na coordenação de fazendas de recuperação de dependentes e se afastou do comando da RCC. Os outros dois continuam na Renovação, comandando movimentos distintos.
Em 1980, padre Eduardo fundou a Associação do Senhor Jesus (ASJ), para divulgar material religioso como livros de formação e de cânticos, o que auxiliou a expansão dos ideais da RCC em todo o Brasil. As canções passaram a fazer parte das missas dominicais e embalavam os encontros de oração também pelo país afora. Aos poucos, foram sendo criados programas católicos em diversas emissoras, como o “Anunciamos Jesus”. Hoje, a ASJ produz conteúdo para sites na internet, para a revista Brasil Cristão e para a TV Século 21, que conta com retransmissoras em 14 Estados do País .
Também se destaca a Comunidade Canção Nova, capitaneada pelo padre Jonas Abib, que hoje já conta com uma rede de TV (TV Canção Nova) e é o canal católico que mais cresce no País. A emissora opera em VHF e em UHF e por satélite, contando com 500 retransmissoras de TV e 200 operadoras de TV por assinatura, cobrindo 52% do território brasileiro.
Uma outra rede católica, a maior delas, é a Rede Vida , que cobre em UHF-VHF mais de 1.500 municípios do Brasil, entre eles todas as capitais brasileiras e as 500 maiores cidades, sendo retransmitida também por TVs por assinatura. A programação ocupa as 24 horas do dia, incluindo noticiários e programas de entrevista não-religiosos. Nasceu a partir de um jornalista católico que obteve uma concessão de TV em São José do Rio Preto. Hoje, abriga de carismáticos a progressistas, sob o comando de João Monteiro Neto, o fundador.
Os três movimentos contam com sites interativos, em que estão disponíveis a programação veiculada nas emissoras de rádio e de TV, orações online e orientações religiosas.
Este ambiente estimulado pela corrente carismática, que já atinge mais de 12 milhões de católicos no País, foi propício para o surgimento do fenômeno dos padres cantores, do qual o padre Marcelo Rossi é o seu principal expoente. Lá trás, na década de 60, o pioneiro José Fernandes de Oliveira, conhecido nacionalmente como padre Zezinho, estimulou os fiéis a entoar cânticos evangelizadores. Desde 1969, já são mais de 1.500 canções, a maioria de sua autoria, que estimularam Marcelo Rossi e os demais sacerdotes cantores, como os padres Antônio Maria e Zeca e, mais recentemente, Joãozinho e Fábio de Melo, estes dois ligados à Canção Nova e da mesma congregação de padre Zezinho, dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.
Fábio de Melo já tem dez anos de estrada e já gravou mais de dez discos. Apresenta-se em casas de shows, vende livros e CDs, ministra palestras, mas somente agora a mídia comercial o descobriu. Seu CD mais recente é divulgado quase diariamente na Rede Globo. Padre Joãozinho é catarinense de Brusque e também viaja o País inteiro realizando shows. Sua agenda para 2009 , divulgada no seu blog na Internet, prevê retiros em São Paulo e Betim, no Carnaval; um período de um mês em Roma, entre maio e junho, no Capítulo Geral da Congregação, cursos sobre o seu livro “As virtudes do Líder Amoroso”, para empresários, e muitos shows de evangelização, principalmente no Nordeste.
O padre Antônio Maria, sacerdote há 29 anos, já gravou 16 CDs, inclusive com a participação de cantores como Daniel, Ângela Maria, Agnaldo Rayol, José Augusto, Moacyr Franco, Roberto Leal, Hebe Camargo, Chitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Zezé Di Camargo e Luciano, Leonardo, Simone, Rio Negro e Solimões, César e Paulinho, Jorge Aragão, KLB e Alexandre Pires. Participa freqüentemente de programas de televisão comercial e também é responsável pelo programa "Pra lá de bom", na TV Século 21. Virou uma celebridade nacional e circula entre os artistas, celebrando missas, batizados e casamentos de famosos. Mantém atividades sociais no bairro de Jaraguá, em São Paulo, atendendo 350 crianças de diversas idades, e é devoto de Nossa Senhora de Schoenstatt, a quem homenageia levando sua imagem para onde vai .
Ídolo da juventude carismática, o padre Zeca, 37 anos, reassumiu seu nome de batismo – José Luiz Jansen de Mello Neto – há um ano, quando pediu licença à Arquidiocese do Rio de Janeiro e se afastou de suas funções sacerdotais. Criador do movimento “Deus é Dez”, arrastou milhares de jovens para eventos na Praia de Ipanema nos anos 90, mas hoje circula entre amigos em bares e boates, e não comenta o motivo de seu afastamento da Igreja .
Já o mais famoso de todos os sacerdotes cantores – o padre paulistano Marcelo Rossi, de 41 anos, continua em “plena forma”. Foi alçado ao estrelato com a realização de megaeventos, como o realizado no dia 2 de novembro de 1997, o encontro religioso "Sou feliz por ser católico", quando ele reuniu numa missa 70 mil pessoas no estádio do Morumbi, em São Paulo. No ano seguinte, no dia 12 de outubro de 1999 , no Maracanã, com a presença dos outros padres cantores – Zeca, Zezinho, Jonas Abib e Antônio Maria –, Marcelo Rossi foi o maior responsável por atrair mais de 170 mil pessoas ao estádio. Ele já lançou oito CDs, ultrapassando mais de 9,5 milhões de discos vendidos. O primeiro CD “Canções para Louvar ao Senhor” teve 3,5 milhões de cópias vendidas. Para reforçar a imagem de evangelizador, lançou dois filmes, , em 2003 “Maria, Mãe do Filho de Deus”, com a participação da atriz global Giovanna Antonelli, em que interpreta ele mesmo e o anjo Gabriel e, em 2004, “Irmãos de Fé”, que conta a vida do apóstolo Paulo, com a participação do também global Thiago Lacerda.
Superexposto no período de 1997 a 2002, quando não rejeitava convites para participar de programas de televisão, e recebeu inúmeras críticas por isso, hoje, o padre Marcelo Rossi está mais reservado, mas não se afastou do seu trabalho evangelizador pelos meios de comunicação. Mantém programas de rádio veiculado na Rádio Globo – seus primeiros programas em 1996 foram na Rádio Canção Nova – e em outras 118 emissoras pelo país afora e também celebra, ao lado do seu bispo, Dom Fernando Figueiredo, da Diocese de Santo Amaro (SP), a missa dominical na Rede Globo, veiculada também na Globo Internacional para 12 países.
No dia 21 de abril de 2008, no Autódromo de Interlagos, realizou o evento "Paz Sim, Violência Não" para comemorar os seus dez anos de evangelização, tendo gravado um DVD que leva o mesmo nome deste evento. A estimativa é que mais de três milhões de pessoas tenham acompanhado o evento, que contou com a participação de centenas de caravanas de todas as partes do País. Logo após os shows, com a presença de Xuxa, Ivete Sangalo, Bruno & Marrone, Zezé Di Camargo & Luciano, César Menotti & Fabiano, Alcione, Daniel, Sérgio Reis, Hebe Camargo e Paulo Ricardo, o padre Marcelo e o bispo Dom Fernando celebraram missa, com a participação do cantor Agnaldo Rayol e do maestro e pianista João Carlos Martins .
O “recolhimento”, explica padre Marcelo, tem a ver com os exageros cometidos no passado:

“Depois de alguns anos aparecendo com muita freqüência, eu aprendi que a superexposição é perigosa. Há momentos em que se deve aparecer, mas existem outros em que o melhor é se recolher. E é quando bate aquela saudade. Em 1999, eu me expus tanto que fui eleito o “Mala do ano”. Não dava para continuar daquele jeito e eu reconheço que exagerei. Por isso minha saída dos meios de massa foi proposital” .

O sacerdote se afastou da mídia comercial, mas suas vendas continuam em alta. Ele justifica que não é um artista, mas um padre:

“O artista aparece e desaparece. E eu saí dos meios de comunicação populares, mas continuo nos veículos de viés católico. Tenho um programa diário em uma rádio que só no Rio de Janeiro é ouvido por mais de um milhão de pessoas por minuto. Em São Paulo, são 800 mil ouvintes. Em Belo Horizonte, outros 300 mil. E esse programa é retransmitido por 118 emissoras de rádio espalhadas pelo Brasil. Aí está a resposta para o meu sucesso .

Hoje, ele está mais envolvido com a arrecadação de recursos para a conclusão do Santuário Mãe de Deus, conhecido como do Terço Bizantino, um dos maiores templos já construídos no Brasil e que rivaliza em dimensão com os templos da Igreja Universal do Reino de Deus em construção no Rio de Janeiro e em São Paulo. O santuário, no distante bairro de Interlagos, terá capacidade para receber cem mil pessoas, duas vezes mais do que a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, e 30 vezes mais do que a Catedral da Sé . Para ele, o catolicismo precisa atualmente de religiosos que entendam a importância de reunir pessoas em um mesmo lugar para celebrar.
Ordenado padre em 1994, rapidamente ele ganhou fama na Diocese de Santo Amaro, na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santa Rosália, por suas missas de libertação. Rapidamente, os fiéis se aglomeravam em busca de curas e de graças. Ele já passou por diversos locais de celebração, cada um maior que o outro, enquanto aguarda a conclusão do novo espaço, prevista para o próximo ano. Atualmente, celebra missas num antigo galpão de fábrica, com capacidade autorizada de dez mil lugares. Dentro e fora destes ambientes, formou-se um comércio de artigos religiosos, incluindo livros, CDs e exemplares do Terço Bizantino, uma espécie de terço mais simples e mais acessível aos fiéis .


4 MODERNO OU TRADICIONAL?


Muitos integrantes do clero católico acreditam que o aparecimento do fenômeno dos padres cantores, em especial o de padre Marcelo, auxiliaram a Igreja a atrair de volta antigos fiéis e também incentivaram a identificação de vocações sacerdotais. Em outras como a do Rio de Janeiro, segundo pesquisa realizada por Sílvia Regina Alves Fernandes, do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) , a influência dos padres cantores é mais sentida entre os vocacionados que se dizem carismáticos. Muitos demonstraram admiração pelo padre Marcelo Rossi, mas criticaram o relacionamento com a mídia e a exposição exagerada que o sacerdote alcançou. Para a pesquisadora, contudo, deve ser considerada a hipótese de que “a presença dos padres na mídia faz despertar na juventude a sensibilização para a presença de um novo ator social, anteriormente relegado às sacristias. Nesse sentido, na medida em que a figura do padre torna-se mais pública, passa a entrar no rol de opções profissionais ou vocacionais de uma juventude proveniente de camadas populares e com baixa capacidade de inserção na vida social”.
De uma forma geral, entretanto, números do CERIS indicam que, nos últimos anos, tem aumentado o número de jovens que ingressam na vida religiosa. Em 1970, havia 4.181 seminaristas diocesanos; em 1980, eram 5.329 seminaristas; em 1990, eram 5.870 jovens nos seminários; enquanto, em 1998, já eram 7.893 jovens freqüentando os seminários. Na Diocese de Santo Amaro, a de padre Marcelo Rossi, o número de seminaristas passou de cinco para 115 em dez anos.
O discurso do padre Marcelo Rossi é simples e se caracteriza pela repetição . Segundo ele, são “coisas rápidas para a sociedade de hoje, que tocam as necessidades da pessoa”. Suas homilias são curtas e se baseiam em exemplos compreensíveis para o católico, especialmente para aqueles que veneram Maria: “Jesus é o caminho, eu sou apenas a seta que aponta para esse caminho”. Ele incentiva a prática das novenas, da reza do terço e a realização das procissões, retomando símbolos do catolicismo tradicional , ao mesmo tempo em que se diz moderno, implementando mudanças na liturgia e ocupando espaço constante na mídia comercial.
Para os progressistas, sua fala, que se baseia na RCC, prega uma nova romanização na Igreja Católica no Brasil, levando a uma ortodoxia cada vez mais espiritualizada deixando de lado a questão política e social. As críticas mais ferozes vieram de teólogos como Frei Betto, Dom Mauro Morelli, Dom Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff e padre José Comblin . Frei Betto, por exemplo, até considera positivo o reavivamento espiritual, o consolo aos aflitos, a cura dos enfermos e o reencontro da fé. Mas, critica o que chama de “fórmula do sucesso”, os momentos de louvor em que há muita emoção, pouca razão e o privilégio do espiritual em detrimento do social.
Já o teólogo Clodovis Boff, embora seja um dos nomes mais ligados à Teologia da Libertação, usa um discurso mais conciliador em relação à RCC . Segundo ele, a RCC “oferece um reforço da espiritualidade católica e conversão pessoal; propicia um reforço institucional através de sua ênfase na pertença comunitária” e “adequa-se à pós-modernidade porque responde às demandas de sentido e sabe falar ao coração do homem pós-moderno”.
O frade Alberto Beckhauser , ligado à CNBB, diz que “a organização litúrgica feita pela RCC é inadequada havendo superficialidade na adaptação da linguagem simbólica da liturgia à linguagem televisiva”. Ele se refere diretamente aos padres Marcelo Rossi, Jonas Abib e Eduardo Dougherty, criticando a exposição midiática, considerado um grave problema, caracterizado pela busca de resultados imediatos como o aumento do número de fiéis e paróquias com mais recursos financeiros.
Fenômenos autônomos um em relação ao outro, a Renovação Carismática e a Teologia da Libertação, na verdade, lutam por ideais que se complementam, na visão de Clodovis Boff . Para ele, enquanto a RCC vive a fé como experiência, enfatiza a oração, busca a transformação pessoal, dá importância à emoção, faz a opção pelos “perdidos”, está centrada na Igreja, liga-se à Igreja universal e visa à afirmação social da Igreja, os adeptos da Teologia da Libertação vivem a fé como prática, enfatizam o serviço, buscam a transformação social, dão importância à reflexão, fazem a opção pelos pobres, estão centrados no mundo, ligam-se à Igreja local e visam à renovação institucional da Igreja, não devendo as duas correntes ser tratadas, portanto, como setores antagônicos dentro da Igreja Católica, mas integrantes de uma só Igreja, voltada para a comunhão do homem com Deus.

5 A IGREJA CATÓLICA E O SÉCULO XXI

O anterior e o atual papa tiveram a mesma intransigência em relação a posições doutrinárias da Igreja. Mas, enquanto João Paulo II, ele próprio um comunicador que gostava de eventos de massa, incentivava a RCC e seus líderes, por entender que este poderia ser um caminho de estancar a fuga dos fiéis seduzidos pelos cultos evangélicos, o papa alemão pensa bem diferente. Por enquanto, não houve qualquer censura pública aos movimentos carismáticos, mas até mesmo a pouca participação de padre Marcelo Rossi na visita do papa a São Paulo no ano passado demonstra que a RCC perdeu força neste momento.
Marcelo Rossi concorda com o papa em temas como aborto, homossexualidade, experiências com células-tronco e ordenação de mulheres, mas os ritos que utiliza em suas missas não “combinam” com o estilo ortodoxo do pontífice, que já incentivou o retorno das missas em latim. Bento XVI já disse que” a liturgia não é um show. É completamente contraditório introduzir nela pantomimas em forma de dança, que freqüentemente terminam em aplausos” .
No passado, quando era prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o então cardeal Joseph Ratzinger foi responsável por impor o silêncio a 140 teólogos de todo o mundo, principalmente progressistas. A expectativa agora é que ele, se não incentive como fazia João Paulo II, pelo menos não reprima ou os cale.
Como a RCC se mostrou até agora a resposta mais eficiente da Igreja para combater o avanço dos evangélicos e de outras religiões no País, com suas missas marcadas por uma liturgia coreografada , atraindo de volta para o catolicismo parte do rebanho que se havia desgarrado em busca de uma visão mais mística e menos politizada da religião, acreditamos que seja mantida a tendência de crescimento e o movimento, que congrega cerca de 12 milhões de pessoas no Brasil, seja abençoado pelo novo papa.
A RCC e seus seguidores, entre os quais estão os padres cantores, estão entre os movimentos que buscam reencantar o cristianismo, recuperando elementos antigos de religiosidade, ao mesmo tempo em que interpreta o momento atual da sociedade com base em padrões religiosos. Sua força está na organização do movimento, na sua ligação com os setores conservadores da Igreja (nacional e internacional) e de sua afinidade da sua mensagem religiosa voltada para a recuperação do catolicismo romanizado, mas, principalmente, por ter conseguido falar a língua de muitos que buscam Deus.


BIBLIOGRAFIA



ANDRADE, Péricles. Um artista da fé: Padre Marcelo Rossi e o catolicismo brasileiro contemporâneo. Recife. Universidade Federal de Pernambuco. 2006. Tese de Doutorado.
FERNANDES, Silvia. Diferentes olhares, diferentes pertenças: Teologia da Libertação e MRCC.Revista de Estudos da Religião. N.3.2001 – www.pucsp.br/rever/rv3_2001/p_fernan.pdf
FERNANDES, Silvia. Padres Cantores e a mídia: representações da identidade sacerdotal. 2005.Ciências Sociais e Religião. Porto Alegre. N.7. 2005
SALES, Igor Marlon. A Autocompreensão da Igreja e a Renovação Carismática Católica (1966-2000). Dissertação de Mestrado
SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: Os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2003. Tese de Doutorado.
SOUZA, André Ricardo de. A Renovação Popularizadora Católica. Revista de Estudos da Religião. N. 4. 2001 – www.pucsp.br/rever/rv4_2001/t_souza.htm


REVISTAS:

EPOCA, ed. 362, 22 de abril de 2005 – Nasce uma nova Igreja
ÉPOCA, ed. 468 – 09 de maio de 2007 – O que significa ser católico no Brasil
ÉPOCA, ed. 271 – 24 de julho de 2003 – Os católicos contra-atacam
ÉPOCA, Ed. 469 – 12 de maio de 2007 – Mais perto dos católicos


WEB


http://veja.abril.com.br/especiais/papa/p_052.html#
ÉPOCA – ed. 468 – 10 de maio de 2008 – exclusivo online –

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG77301-5856,00.html

http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid274747,0.htm

http://www.padremarcelorossi.com.br/index.php

http://www.santuariodojaragua.com.br/Internas/PadreAntonioMaria.htm

http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m319/os-embalos-do-padre-zeca

http://veja.abril.com.br/201099/p_150.html

www.redevida.com.br

http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/page/2/

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cuidado do Patrimônio Público ou do patrimônio católico

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX


RENATA REYNALDO ALVES MAIA



ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
Análise de editoriais e reportagens do Jornal do Commercio sobre o investimento do Estado na conservação de imóveis da Igreja Católica com vistas a preservar o patrimônio histórico e cultural brasileiro




Trabalho para conclusão da disciplina:
Panorama da Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva


Recife, dezembro de 2008







Podemos construir obras excelentes enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.

Sérgio Buarque de Holanda,
em Raízes do Brasil









INTRODUÇÃO

Veículos de grande penetração na chamada classe formadora de opinião, os jornais impressos são ao mesmo tempo refletores, geradores e propagadores de idéias e valores. Uma análise criteriosa e pormenorizada de uma série de informações acerca de um só tema publicadas em um desses meios de comunicação pode revelar ou encobrir posturas de uma fatia da sociedade.

A partir da observação dos editoriais e reportagens coletadas no período de um ano (de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008) no Jornal do Commercio, veículo de perfil conservador, de grande inserção em Pernambuco e de maior circulação no Norte e Nordeste do país, por meio de uma busca dirigida aos temas “Igreja Católica” e “Preservação do Patrimônio”, buscamos obter o retrato da posição do jornal e de seu público com relação aos investimentos que o Poder Público faz, a título da preservação do patrimônio histórico e cultural nacional, nas edificações, leia-se, igrejas conventos, basílicas, mosteiros, capelas, entres outros bens da Igreja Católica.








GÊNESIS DA SIMBIÓSE

Para dar efetividade à sua política de preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, o Estado brasileiro, cuja gênesis de sua formação está impregnada predominantemente por influências doutrinárias, sociais e culturais da Religião Católica, se vê ainda hoje, mesmo que desde a Constituição republicana de 1891 tenha suprimido o artigo que o declara, “em nome da santíssima trindade”, um país de religião “Catholica Apostolica Romana”, impelido a investir grandes montantes de recursos em obras de restauração, reforma e manutenção de edificações e objetos pertencentes à Igreja Católica.

Essa relação simbiótica entre os bens católicos e o Poder Público brasileiro, que tem inúmeros exemplos históricos, entre eles o caso da matriz de Nossa Senhora da Paz (no bairro de Afogados, em Recife) a qual “foi reconstruída em 1857 com o auxílio dos cofres públicos” , perdura até os dias de hoje, gozando da mesma condescendência da sociedade e da imprensa. Para sustentar essa prática inercial há razões históricas.

Quando ainda o país era um embrião promissor de uma próspera colônia, como ilustra Gilberto Freyre em seu primordial Casa Grande & Senzala, “o Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza da raça. Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião Católica”. Para os colonizadores, o perigo estava no indivíduo herege. “Soubesse rezar o padre-nosso e a ave-maria, dizer Creio-em-Deus-Padre, fazer o pelo-sinal-da-santa-cruz e o estranho era bem vindo ao Brasil colonial”.

E prossegue o sociólogo pernambucano, ajuizando que a proximidade com o adventício católico também surtia o efeito de fortalecer a solidariedade que em Portugal se desenvolvera junto com a religião católica e, assim, livrar a nação de inimigos políticos. Como que vaticinando, à época do lançamento do CG&S, o futuro muito remoto dos tempos atuais, Freyre deduz “ser tão difícil, na verdade, separar o brasileiro do católico. O catolicismo foi mesmo o cimento da nossa unidade”.
Assim como uma amálgama da nossa identidade, essa estreita relação vai se revelar em outros momentos emblemáticos da história brasileira. Segundo registros quando da chegada da família real para o Brasil, após descer a rampa do cais, em frente à Praça 15 de novembro, o primeiro ato em terras brasileiras ao qual compareceu o imperador e seus descendentes foi de cunho religioso, católico. A família real foi aspergida com água benta, em meio à queima de incensos e rezas.
“(...)D. João beijou a cruz e recebeu as benções do bispo. Depois colocou-se debaixo do pálio de seda vermelha e frisos dourados, que o protegia do sol. (...) À frente do cortejo iam as autoridades do Rio de Janeiro, os oficiais militares, os juízes e os padres, monges e seminaristas dos numerosos conventos. (...)”

Ainda com base na mesma publicação histórico-literária do jornalista Laurentino Gomes, que credita a informação ao historiador Luiz Felipe Alencastro para ilustrar o “ataque ao cofre” da colônia, a família real mantinha no Brasil, além de 276 fidalgos e dignatários régios que recebiam verbas anuais de custeio e representação, ao custo das moedas de ouro e prata retiradas do tesouro real do Rio de Janeiro, setecentos padres, um deles recebendo um salário fixo anual de 250 mil réis – equivalente hoje a 14 mil reais , – apenas para confessar a rainha. Embora não seja uma grande quantia, denota certo mercantilismo na relação.

Outros hábitos, dentre inúmeros que poderíamos citar, indicam a consciência de igreja que tinha a sociedade no Brasil. Ao contextualizar o papel da Igreja Católica na colônia entre 1808 e 1840, período que compreendeu movimentos de descolonização e insurreições, além da própria independência do Brasil, João Fagundes Hauck revela que era normal a vigilância policial com que o Governo controlava a prática religiosa. “A ereção de um cruzeiro em lugar público, de uma capela, não dispensava a licença que tinha que fazer longa caminhada burocrática”, destaca, no livro História da Igreja no Brasil.

CONDESCENDÊNCIA

A prática de o Estado destinar recursos para Igreja Católica, agora com o argumento de preservação do seu patrimônio, embora fundamentada também em sucessivas cartas magnas do país, quando estas atribuem ao Poder Público, cada uma com termos próprios, a função de proteger e oferecer cuidados especiais aos monumentos históricos, artísticos e naturais da Nação, se concretiza repetidamente com atenção muitíssimo especial ao patrimônio da Igreja Católica, sobretudo no que diz respeito aos bens edificados, como igrejas, capelas, conventos, matrizes, basílicas, seminários.

A análise nas publicações oficiais dos órgãos de execução ou de fomento à preservação desses bens e nos registros da imprensa revela que esta relação de primazia é bem absorvida tanto pela burocracia estatal quanto pela sociedade.
Há indicativos da neutralidade com que a sociedade encara esse “privilégio” dos bens culturais católicos, algumas vezes em detrimentos de equipamentos históricos, sejam laicos ou ligados a outras religiões e às manifestações mais espontâneas como as oriundas dos quilombolas e indígenas, estas também partícipes da formação da cultura brasileira.

Um desses sintomas é a condescendência e repetição com que, no exemplo escolhido para esta observação, o Jornal do Commercio (veículo pernambucano, de maior circulação do Norte e Nordeste do país), não apenas noticia como conclama e cobra, a partir do espaço de opinião institucional do próprio jornal (o editorial), entidades públicas e privadas a arcar com os custos da preservação desta ou daquela igreja no Recife.

Em um período de um ano, de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, dos 20 editoriais que o JC destinou a abordar os temas da Preservação do Patrimônio histórico e cultural ou de Igrejas, seis deles foram explícitos no tom de denúncia de “abandono”, na cobrança de providências urgentes para evitar o desmoronamento de templos católicos, ou no enaltecimento das iniciativas com o propósito de salvaguardar igrejas, basílicas, azulejos de capelas, telhados de matrizes. Em alguns dos artigos, o editorialista, cuja função em uma redação de jornal é expressar a opinião do dono da empresa ou grupo econômico que banca o veículo, afirma que “é triste, por exemplo, saber que a paróquia (da Matriz da São José, com seus 144 anos) não possui recursos e pede ajudar para consertar as rachaduras do estuque e nas esquadrias empenadas” .

Em outro editorial, intitulado “Um exemplo da Igreja de Roma”, e publicado em 1º de agosto de 2008, o Jornal do Commercio enaltece uma ação de caridade que a priori afirma ser mantida pela Arquidiocese de Olinda e Recife, o Movimento Pró-Criança, mas cuja manutenção “se dá através de doações da sociedade, provenientes de pessoas físicas e jurídicas engajadas na responsabilidade social”. Entenda-se que parte é de empresas que contam com o incentivo fiscal (público) para ajudar a ação social da Igreja Católica.

Ao expressar sua opinião no editorial “O Convento e seus azulejos”, do dia 30 de junho de 2008, o jornal trata como uma remissão de dívida histórica dos pernambucanos o fato de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), instituição financeira que, como diz seu enunciado, tem como missão promover o desenvolvimento econômico e social do país, ter investido por meio de convênio com a Fundação de Apoio ao Desenvolvido da UFPE (Fade), a quantia de R$ 2 milhões na restauração dos azulejos do Convento de Santo Antônio (de 1616), na Rua do Imperador, em Recife. E explica o artigo:
“Como nossa igreja do Recife é dedicada ao glorioso Santo – diz Frei Bonifácio Mueller, em seu livro o Convento de Santo Antônio, editado em 1956 – é de se esperar que seus azulejos façam lembrar a vida ou os milagres do santo, tanto mais que este amigo de Deus é milagroso por excelência”

O veículo também conclama, em seu editorial de 18 de abril de 2008, intitulado “A salvação da Basílica”, àquelas “mãos dos que têm meios e podem ser estimulados pela fé ou pelo prazer do mecenato”, a contribuir com recursos para ajudar “esse majestoso” templo da Igreja de Nossa Senhora da Penha. E “aquelas mãos”, como de costume, vêm do Poder Público, como atesta o mesmo artigo, onde consta que o a Fundação de Cultura do Estado de Pernambuco (Fundarpe) liberou R$ 850 mil para a reforma emergencial, cuja obra de restauração completa está orçada em R$ 4,2 milhões.

A IMPOSIÇÃO DOS FATOS

No mesmo período de tempo delimitado para análise desses editoriais (nov./07 a nov./08), observamos o comportamento das reportagens publicadas no Caderno de Cidades do mesmo Jornal do Commercio. Aqui é importante que se esclareça que, embora o espaço destinado a reportagens paute sua seleção de notícias pela imposição dos fatos do cotidiano, cabe ao editor e em última instância aos seus superiores na estrutura da redação, com base em critérios subjetivos, eleger o que de fato vai ser editado para a publicação.

Nesta análise dos textos publicados a partir da apuração de fatos externos à redação, identificamos que 13 deles trazem no título a expressão “igreja pede ajuda”, “busca apoio”, “campanha para financiar restauração” ou tratam da reabertura de templos católicos após as obras restauração, sempre com o apoio de recursos do Poder Público. A considerar esta lente de observação, a matéria mais notável delas, publicada em 4 de agosto de 2008, tem como argumento a Igreja de São José do Ribamar (Século XVIII), no centro do Recife, cujas instalações apresentam desgastes no piso, paredes e trechos de madeira infestados de cupins.

Instado a se pronunciar sobre a situação de abandono da igreja, o representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional (Iphan), cujo nome não é informado na reportagem, que atribui à entidade o poder de expressar informação, informa que em 1997 (portanto, há 11 anos) havia realizado obra de restauração do prédio. E completa: “a precariedade do imóvel se deve à falta de conservação, pois a igreja passou alguns anos fechada e isso contribui com a deterioração do piso, parede, teto e adorno, nos último anos”.

No caso da Matriz de São José, que foi tema da reportagem “Matriz de São José pede ajuda”, em 19 de outubro de 2008, outra curiosidade. O templo, erguido em 1844, no centro do Recife, com a nave central interditada devido às infiltrações e risco de desabamento do telhado está realizando suas missas no corredor. Ante a situação, o pároco que conduz a igreja há 37 anos, José Augusto Esteves, afirma categoricamente: “não temos a menos condição de executar o trabalho. A paróquia não possui recursos”. E completa: “a responsabilidade pela manutenção da igreja é da comunidade, a arquidiocese não dispõe de verbas para isso”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora seja de suscitar maiores e mais profundas análises o fato de um jornal atual e de grande influência reproduzir um pensamento oriundo nas arcaicas raízes da formação do Estado Brasileiro, a mera observância quantitativa e qualitativa dos conteúdos pinçados para esta observação revela uma absoluta falta de isenção ou de elaboração de juízo de valor contraditório sobre tema tão presente na nossa sociedade, haja vista a reincidência dos registros sobre Igreja Católica e Preservação do Patrimônio nas páginas do matutino eleito para objeto deste trabalho.
Ressalve-se que o conceito de juízo de valor contraditório aqui introduzido não seria, necessariamente, uma postura de condenação às práticas do Estado de investir na preservação do patrimônio da Igreja Católica, como fruto dessa incessante confusão entre o privado e o público na relação Estado x Igreja Católica. O que aqui observamos, sentimos falta, a rigor, é a não-abordagem isenta e crítica quanto a esta questão. Enfim, em nenhum dos registros que seguem em anexo encontra-se uma opinião dissonante da que se reproduz desde os idos do povoamento do Brasil.






ANEXOS


1. EDITORIAIS
Este material foi colhido dentre todos os editoriais publicados pelo Jornal do Commercio no período de 10 de novembro de 2007 a 10 de novembro de 2008, tendo como temas os verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”.
Dos 20 selecionados, seis se enquadravam nos critérios pré-estabelecidos por este trabalho, que pretendia analisar apenas a relação entre a Igreja Católica e a política pública de preservação do patrimônio histórico e cultural nacional.

2. MATÉRIAS
A mesma abordagem foi dada na seleção das matérias a seguir anexadas. Todas as que atenderam à busca pelos verbetes “Igreja Católica” ou “Preservação do Patrimônio”, isto é 13 reportagens foram alvo da análise.










BIBLIOGRAFIA
• BOJADSEN, Angel (coord. editorial) – Cartas de uma Imperatriz. São Paulo. Editora Estação Liberdade, 2006
• FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. – 36ª ed. – Rio de Janeiro, Editora Record, 1999.
• GALVÃO, Sebastião de Vasconcelos. Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco. – 2ª ed. – Recife, CEPE, 2006.
• GOMES, Laurentino. 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta conseguiram enganar Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2007;
• HAUCK, João Fagundes; FRAGOSO, Hugo; BEOZZO, José Oscar; GRIJP, Klaus van der; BROD, Benno. História da Igreja no Brasil – Ensaio de interpretação a partir do provo – Segunda Época – Séc. XIX. Petrópolis – RJ. Editora Vozes, 2008
• HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. – 16ª ed. – Rio de Janeiro, J. Olympio, 1983.

CONSULTAS
• Constituições Federais do Brasil (1824 a 1988)
• Versão eletrônica das edições do Jornal do Commercio (Nov./07 a Nov./08)
www.jc.com.br, a partir das rubricas “Igreja”, “Preservação” e “Católica”
• Entrevista ao superintendente do Iphan/Regional NE, Frederico Almeida
• Entrevista à advogada Auxiliadora Beltrão – Programa Monumenta–BID

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O Livro de Tombo da Parochia de S.S. Coração Eucharistico de Jeus no Bairro do Espinheiro

O trabalho que lerão é um interessante depoimento sobre as dificuldades que os pesquisadores da história da Igreja estão encontrando atualmente: os vigários e parócos não estão atentos a uma de sua tarefas: a manutenção do Livro de Tombo. Essa exigencia disciplinar canônica vem sendo deixada de lado pelos responsáveis das paróquias. Estejamos atentos a essa questão, como também a guarda das informações nas muitas insitiuições que atendem a população.




UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX

Disciplina: A Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Aluno: Paulo Henrique Cadena


O LIVRO DE TOMBO DA PAOCHIA DO S.S. CORAÇÃO EUCHARISTICO DE JESUS NO BAIRRO DO ESPINHEIRO


Paulo Henrique Cadena



Falas e silêncios da documentação paroquial

1.Introdução

Observando o verbete tombar do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, temos a seguinte definição: Fazer o tombo de; inventariar; arrolar; registrar. Assim, podemos tomar por “Livro de Tombo”, a semelhança de Livro de Registros. Pensando em uma paróquia, deveriam estar inscritos nestas páginas os atos da instituição local, pelas mãos de seus administradores. Decreto de Ereção, construção do templo, Exortações, balanço econômico, festividades, falecimento de eclesiásticos, chegada do novo pároco, atas, visitas do Arcebispo, notas de Encíclicas, morte do papa: inscritos no Livro de Tombo. Mas, por quem?
Esta pergunta, no concernente à Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus é difícil de responder. O Livro de Tombo que nos fora apresentado, detém em suas amareladas 210 páginas os anos compreendidos entre 1941 e 1961, portanto, vinte anos de registros. Contudo, são três os sacerdotes correspondentes a essa Paróquia, e mais de seis os tipos de letra testemunhando os fatos documentados.
O padre Silvino Guedes (o qual apresenta grafia por Sylvino ou Silvino em mais de três vezes no livro), pelo que notamos, apenas assinava o Livro. A assinatura diverge em muito do testemunho das páginas de relato. Falecerá em 1950, dando início a uma nova administração do padre Osvaldo Gomes Machado, que hora apresenta a sua mesma letra de assinatura e hora diverge. Em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa assume como pároco ecônomo. Sua letra não vai diferenciar-se da mesma da assinatura até o ano de 1961: último registro do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro. Portanto, não sabemos de quem eram as mãos que registravam os passos da Igreja do Espinheiro, como também não sabemos se há um outro livro que compreenda os espaços entre 1961 – 1999, quando chega o frei Geraldo Araújo, da Ordem Carmelita, para assumir o espaço deixado por padre Arnaldo de Sousa. Sabemos, de certo, a existência de um sendo escrito com os relatos desde 1999, mas não por obra do religioso, mas, pelas mãos de uma paroquiana. Seria também essa resposta às letras divergentes do padre Silvino? Algum paroquiano tomava a sua função de pároco nos registros? Isso não podemos afirmar.
Não pretendemos com esse trabalho escrever uma história da Igreja do Espinheiro. Longe de nós. Nossas pesquisas apenas se restringem aos anos de 1941 a 1961, distribuídos neste Livro de Tombo que nos fora apresentado. Tentaremos, portanto, tomar notas de alguns dados desses registros, como Exortações Apostólicas do senhor Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde durante a Segunda Grande Guerra: alguém tomara o cuidado de copiar tais textos.
Os anos de 1960 para Igreja Católica no Brasil e no mundo foram de grande valor. E porque não foram registrados no Livro de Tombo da Paróquia do Espinheiro? Ou tivera e são guardados sob as voltas de sete chaves? Concílio Vaticano II, chegada de D. Hélder Câmara como Arcebispo de Olinda e Recife, eleição de Paulo VI, período ditatorial. Valoroso de registros seria o velório do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, no ano de 1969, ocorrido nesta Paróquia.
Deixemos, então, as palavras falarem delas próprias e os silêncios retumbarem no infinito. Ecoem e deixem suas marcas nas profundezas da História. Também o silêncio registra, fala.
Então, teremos por obra apresentar esse Livro de Tombo, pleno de silêncios e marcas. Cheio de traços de mãos múltiplas que acordam em um mesmo sentido: registrar o que viram, leram e ouviram. Omitir o que lhes compraz.

2. Os Arcebispos de Olinda e Recife entre os anos de 1941 e 1961: alguns pontos ligados aos registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus

Entre os anos de 1941 e 1961, foram três os Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife: D. Miguel de Lima Valverde (1922 – 1951), D. Antônio de Almeida Morais Júnior (1951 – 1960) e D. Carlos Gouveia Coelho (1960 – 1964).
D. Miguel de Lima Valverde fora sagrado bispo em 1911 e em 14 de fevereiro de 1922, pela bula Hodie Nos, do papa Pio XI, fora designado para o Arcebispado de Olinda e Recife, onde tomou posse em julho de 1922 .
Durante seu arcebispado, manifestou-se politicamente.
Seus pronunciamentos foram sempre no diapasão da ordem e da defesa das instituições, evitando qualquer palavra de apoio a movimentos que contestassem o status quo. Sempre reconheceu as mudanças após elas estarem estabelecidas.

Entre os anos de 1925 e 1949, D. Miguel Valverde estabeleceu 19 novas paróquias na Arquidiocese de Olinda e Recife, acompanhando o movimento populacional da diocese, como orientara o Código de Direito Canônico e o Concílio de Trento . Observemos, então, um fragmento do Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus que confirma essa informação dada na obra do Dr. Severino Vicente da Silva:
O crescimento das cidades e o augmento da população costumam criar novos e serios problemas no tocante à cura das almas exigindo não raro a criação de um novo centro parochial, donde mais facilmente se possa irradiar a acção do Pastor. E ninguém ignora ser este o caso do bairro do Espinheiro nesta cidade do Recife, que desde algum tempo está reclamando a assistência de um Parocho próprio.

Silva ainda expõe as ações de patriotismo ufanista do Arcebispo. Havia a colaboração entre a Igreja e o Estado Novo, em especial ao interventor em Pernambuco, Agamenon Magalhães, homem de confiança de D. Miguel de Lima Valverde. Quando do II Congresso Eucarístico Nacional, em setembro de 1939, os governantes deram o seu auxilio. O prefeito do Recife, Augusto Novais, fez construir o Parque Treze de Maio para o evento . Vejamos o que diz o Arcebispo no Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus:
O Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães, muito digno Interventor Federal, nem um só momento deixou de prestigiar a obra do Congresso. Providencias acertadas, auxílios oportunos, empenho decidido, nada faltou de sua parte. É que Deus sabe dispor todas as coisas com força e suavidade, para atingir os seus fins. Assim, deu ao Ilustre Interventor Federal um interprete e executor inteligente e fidelíssimo do seu pensamento e de suas ordens, na pessoa do grande Prefeito do Recife, o Sr. Dr. Antonio de Novais Filho. Na consciência do povo está a convicção de que ao esforço, ao carinho e à dedicação do dr. Novais Filho se deve a grandiosidade do Congresso Eucarístico do Recife.

D. Miguel Valverde explicitava a união existente entre o sentimento de patriotismo e o amor ao Brasil com os ideais católicos. O sentimento de religioso patriotismo viria entrelaçado por uma solicitação de obediência às leis. Também pregava contra o Comunismo, seguindo o ensinamento dos papas. A mentalidade demonstrava os males sociais como castigos divinos. Vejamos, então, alguns trechos das Exortações Apostólicas compostas por este Arcebispo:
Qual seja a verdadeira causa da guerra atual, deshumana e total, outra não pode ser senão o pecado, que põe a desordem e o desconcerto nas almas, separando o homem de Deus, a criatura do seu Criador. (...) O materialismo, sob todas suas formas e modalidades invadiu a face da terra, e nós, nem mesmo os que habitam os rincões mais inacessíveis dos nossos sertões, não ficamos livres do contágio. A verdade é que o mundo estava materializado, laicizado, paganizado. Alguns chegaram a negar loucamente a existência da Divindade e formar partido para o fim de arrancarem do coração do homem a crença essencial em um Deus Criador e Soberano Senhor de todas as cousas. Tanto excesso de pecado estava pedindo um corretivo, e ele aí está. É a obra do pecado. (Exortação Quaresmal de 1943 – 10 de março de 1943 – Quarta Feira de Cinzas)

Entrados em beligerância teremos de dar tudo pela vitória das Nações Reunidas. As conseqüências desse colossal conflito nos atingiram em cheio, sobretudo sob a forma da carestia de vida, numa escala de sofrimentos como nunca jamais ninguém experimentou em terras do Brasil. Esta guerra é bem o flagelo de Deus e com que o mesmo Senhor se vinga das nações previcatórias, punindo-as e depurando, para dar-lhes em seguida a paz na justiça. (...) Só Deus poderá dar-nos a vitória sobre os nossos inimigos. Temos de merece-la de alguma sorte, pela conformação da nossa vontade com a vontade de Deus, tanto na vida publica como na nossa vida privada e domestica. (Exortação Quaresmal do Exmo Sr. Arcebispo ao clero e aos fiéis da Arquidiocese - 23 de fevereiro de 1944)

Todos nós andamos sujeitos a continuas restrições, privações e renuncias. São as conseqüências inevitáveis da guerra. Temos que sofrê-las, e muito se iludem os que se comprasem com a situação atual, pelos grandes proventos que dela estão auferindo. Grandes sacrifícios terão que fazer em futuro bem próximo. Ninguém sabe como vai ser o fim desse cruentissimo sacrifício. Quas dicansados com os horrores de uma guerra que tudo destrói e convulsiona há mais de cinco anos, suspiramos pela pas. E a pas virá no momento marcado pela Providência. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 14 de fevereiro de 1945)

A curiosidade, o sentimentalismo, a ignorância da doutrina cristã, o gosto de novidades levam não poucos, a aceitar, de olhos fechados, as delirantes extravagâncias do espiritismo. (...) Numa campanha astuta e insidiosa, propala-se adrede, entre o nosso povo simples e sem cultura suficiente para discernir a serpente que se oculta por baixo da folhagem verdosa, propula-se, repetimos, que o Comunismo nada tem contra a religião e tão somente procura melhorar, em futuro próximo, as precárias condições de vida do nosso povo pobre e sofredor. As promessas são sedutoras. (...) Saibam todos que o Comunismo é a quinta essência do materialismo. Para ele a única realidade existente é a matéria. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 6 de março de 1946)

Nesses fragmentos das Exortações Apostólicas dos anos de 1943 a 1946, vemos surgirem assuntos diversos. As três primeiras trazem a Segunda Grande Guerra advinda do pecado dos homens. É a vingança de Deus para com as nações que vêm se paganizando. Lembra o discurso da Igreja medieval, onde o pecado era a causa de todos os males. Pregará contra as modernidades, espiritismo; em outras partes, contra o Comunismo.
A pregação anticomunista não era nova. Já com Leão XIII ela não era uma inovação. Era a continuidade do pensamento de Pio IX, condenatório do mundo gerado pelo progresso técnico científico, que desde a sua carta Qui Pluribus, condenara os erros modernos, entre eles a fé em um progresso ilimitado . Pio XI, condena o comunismo em sua Encíclica de 19 de março de 1937, Divini Redemptoris. Vejamos um trecho:
A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.

Que as multidões seduzidas por idéias falazes... se assemelha com As promessas são sedutoras . As duas falas são contra o Comunismo. A primeira expressão é de Pio XI; a segunda, de D. Miguel Valverde. Assim, podemos ver, que até nas palavras, o Arcebispo se enquadrava nos ensinamentos da Igreja. Fortalecia-se a corrente anticomunista na Igreja Católica e no mundo Ocidental. Pio XII continua a condenação ao marxismo .
D. Miguel Valverde tem longo arcebispado na Arquidiocese de Olinda e Recife, envolvendo-se com a política e demonstrando sempre a sua postura conservadora. Da sua morte, em 1951, assume então o bispo de Montes Claros, D. Antonio de Almeida Morais Júnior.
A partir de 1949, o Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus já não apresenta muitos dados, apenas algumas poucas notícias de balanços econômicos. Por conseguinte, não teremos muitos dados para confrontar com as informações publicadas.
D. Antonio de Almeida Morais Júnior, seguia, assim como D. Miguel Valverde, as indicações propostas pela Santa Sé: combatia as inovações modernas, defendendo os ensinamentos da Igreja na luta contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo . Contra esse último aspecto, já citamos a Exortação Quaresmal de 1946, onde D. Miguel Valverde também o combatia. Vai fazer frente aos comunistas que atuavam nas fábricas e na zona rural . Na eleição de 1955, o Arcebispo chama os católicos para não votarem em Pelópidas Silveira, apoiado pelos comunistas.
Esses dois Arcebispos de Olinda e Recife tiveram as suas posturas conservadoras. Entravam em conformação de interesses entre a Igreja e o Estado, aglutinando as forças conservadoras, pretendendo impedir os movimentos de inconformação social .
O Arcebispo seguinte a D. Antonio Almeida Morais Júnior, foi bispo de Nazaré da Mata, e em 1960, é designado Arcebispo de Olinda e Recife, onde falecerá em 1964. Esse foi D. Carlos Gouveia Coelho. Durante sua administração, foram criadas novas dioceses: Floresta, Afogados da Ingazeira e Palmares. Segundo Severino Vicente da Silva, teria sido a resposta da Igreja à influência dos partidos de esquerda nessas regiões, valendo lembrar que Palmares tinha o maior sindicato rural de Pernambuco .
Fora D. Carlos Coelho o criador, em 1961, do Serviço de Orientação Rural de Pernambuco, o SORPE. Ficara responsável por este serviço o padre Paulo Crespo .
O Arcebispo de que tratamos, também não via a possibilidade do comunismo ser aceito por uma consciência cristã. Ele falece em 1964, decorrente de problemas operatórios .
Falamos, então, dos três Arcebispos os quais contempla o tempo registrado no Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Notamos que durante o arcebispado de D. Antonio de Almeida Morais Junior e D. Carlos Coelho, muito pouco foi escrito, dando conta apenas de assuntos internos da paróquia. Desde de 1947 não são mais registradas as Exortações Apostólicas, por isso, nos servimos da obra do Dr. Severino Vicente da Silva para nos auxiliar quase completamente no que concerne ao período, não trazendo dados do Livro de Tombo. Agora, veremos um pouco dos registros desse livro.


3. Os registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um pouco da história contada nas páginas amareladas de um caderno.

Sabemos que muito mais poderia ter sido escrito naquelas páginas. Informações preciosas sobre a Arquidiocese de Olinda e Recife e a Santa Sé. Notas reveladoras da paróquia foram esquecidas ou omitidas pelas mãos dos escritores, que em tintas preta, vermelha e azul, escreveram as páginas hoje amareladas.
Um caderno de 210 páginas. Algumas em branco, com lacunas imensas. Talvez alguém pensou em voltar para aquele ponto, e nunca mais retornou. Esqueceu, lembrou, omitiu. O sacerdote e seu ofício divino não tiveram tempo para registrar o tempo dos homens. Devem ter vivido com total serenidade o tempo de Deus. Esqueceram que “o futuro a Deus pertence”, como dizem muitos, e esquecendo o futuro, esqueceram de registrar os fatos e feitos de seu presente-passado. Quem escreveu essas páginas não sabemos. Algumas delas foram, certamente, escritas por mãos ungidas, outras, talvez não. Mas vamos aos registros que ficaram: aqueles lembrados e não omitidos.
Tais registros tomam aspecto de cronologia. O ano de 1941, o primeiro do Livro de Tombo, é bem relatado. Ocupa quase 50 páginas, com cópias das escrituras de terrenos para a construção da Igreja, Decreto de Ereção Canônica, compras de materiais de construção, lista de pertences encontrados pelo padre Sylvino na Capela dos Aflitos, atas de posse do então pároco, doações diversas, notas de falecimento de sacerdotes, movimento religioso. Os documentos de escritura são os mais longos e os que ocupam a maior parte do livro, além das liberações da construção do edifício pela prefeitura. Vamos, então, tentar organizar algumas informações encontradas no documento.
O Decreto de Ereção Canônica da nova parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro, coloca que a mesma fora dedicada ao Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus a fim de ficar perpetuada a memória do III Congresso Eucarístico de Jesus Nacional, reunido no Recife em setembro de 1939. Esta é a única informação, ao lado da ajuda de Agamenon Magalhães e de Antonio de Novais Filho, que aparece sobre o Congresso.
Desmembrada das paróquias de Nossa Senhora da Graça e de Nossa Senhora de Belém da Encruzilhada, os limites da nova paróquia seriam:
Partindo da rua Fernandes Vieira no ponto onde começa a Avenida Montevidéo, segue pelo lado direito do Parque do Amorim em direção ao Entroncamento e a Avenida Rosa e Silva até encontrar a estrada de Água Fria, antiga estrada da Boiada; e por esta, sempre pelo lado direito, até a Avenida Norte, seguindo por esta Avenida em direção ao Recife até o caminho que leva a uma ponte sobre o Maduro; e subindo o curso desse rio até a boeira de João de Barros e dahi em linha recta até encontrar a Avenida Montevidéo, seguindo-a até o começo da mesma Avenida, ponto de partida.

De início, serviu por Igreja Matriz a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, até que fosse concluída a construção da Igreja dedicada ao Coração Eucarístico de Jesus, cuja primeira pedra fora colocada à rua Conselheiro Portela, no Espinheiro. E assim, o arcebispo D. Miguel Valverde declarava aos 13 de janeiro de 1941: Declaramos inamovível a nova parochia do S.S Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro desta cidade.
O primeiro pároco, padre Sylvino Guedes , tomaria posse no dia 19 de janeiro do mesmo ano, sendo a cerimônia presidida pelo monsenhor Ambrósio Leite na matriz provisória dos Aflitos.
Em março de 1941, D. Miguel Valverde executa a instalação da Congregação da Doutrina Cristã na nova paróquia, e no mesmo mês, era escolhida a diretoria e as catequistas: as senhoras e senhoritas D. Maria Albertina de Siqueira, D. Maria da Glória Vanderlei, D. Alice Guedes. O Apostolado da Oração é instalado em 3 de outubro de 1941.
Aos 10 de dezembro de 1941, o então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife transforma padre Sylvino Carneiro da Cunha Guedes em pároco inamovível do Espinheiro.
Depois de diversas páginas tratando da compra do terreno, escritura, e inicio das obras do novo templo, temos as informações do Movimento Religioso da Paróquia em 1941, primeiro ano de atividades:
Movimento Religioso da Paróquia em 1941
78 batizados
40 casamentos
54.868 comunhões
33 viáticos
46 confissões de enfermos
204 extremas unções
15 encomendações
20 óbitos registrados
7 crismas

Interessante é um dado de 1942, onde é registrado o enterro do cônego Benigno Lira, barbaramente assassinado, donde o féretro saíra da Matriz de Santo Antônio para a necrópole de Santo Amaro. Mais tarde, em 1969, teremos o velório do padre Antonio Henrique, assassinado, na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um dos grandes silêncios de um fato marcante para a Igreja e para a sociedade brasileira, que encontraremos na omissão de um possível segundo volume do Livro de Tombo dessa paróquia.
Em 1942, damos vista de um documento assinado no Rio de Janeiro por 17 bispos, dentre eles, D. Miguel, falando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. É interessante, por sua importância de conteúdo, tomarmos nota de alguns trechos do mesmo em nosso trabalho:
A guerra que há três anos assola nações e continentes destruindo e matando em proporções nunca vistas, acaba de envolver-nos nos vértices de sua voragem fatal. (...) Antes de tudo, disciplina e obediência ao Chefe de Governo, a quem a Providência confiou, nesta hora de tão pesadas responsabilidades aos destinos do Brasil. (...) Lembrem-se estes combatentes valorosos que, feito com intenção sobrenatural, o oferecimento da própria vida para salvar a vida e a liberdade de seus irmãos é um dos mais sublimes atos de caridade cristã. Com eles estarão as orações e gratidão de todo o Brasil. Pensamos ainda no sofrimento das mães e das esposas. Terna e carinhosa na santidade das afeições domésticas, a mulher brasileira soube ser também heróica nas horas trágicas da vida nacional. Que Deus lhes dê generosidade, grandeza de alma e dedicação inesgotável para corresponder nobremente à sua missão de sacrifício. O clero merece também um apelo muito sincero da nossa solicitude pastoral. O patriotismo acendrado e puro dos nossos sacerdotes é tradição ininterrupta na história do Brasil, e só poderia pôr em dúvida quem de todo desconhecesse. Continuai fiéis à honra e às obrigações desta digna tradição.

Aqui neste trabalho já falamos da questão do patriotismo em D. Miguel Valverde, o que neste texto confirma não ser apenas uma prática particular desse Arcebispo, mas dos Bispos do Brasil.
A partir de 1943 até 1946, a maior parte das páginas do Livro Tombo é ocupada pelas Exortações Quaresmais do Arcebispo de Olinda e Recife. Referimo-nos às mesmas no tópico anterior. A partir de 1947, o livro se torna bastante resumido, e nos anos de 1948 e 1949, as páginas encontram-se em branco, tomando apenas o cabeçalho de início do ano.
Em 1943, é celebrada a primeira missa de Natal na Matriz do Espinheiro por D. Miguel Valverde , estando a mesma ainda em construção, seguindo-se o mesmo ato nos anos conseqüentes.
O ano de 1947 apresenta uma breve notícia, mas de grande importância: Carta de Pio XII aos bispos sobre o Dogma da Assunção , e no Livro de Tombo está transcrito o texto.
Em 1950, o documento registra o falecimento do Cônego Silvino Guedes aos 19 de maio. Aos 14 de janeiro de 1951, assume o padre Osvaldo Gomes Machado como vigário ecônomo. Ainda neste ano, aos 7 de maio, ocorre a morte do Arcebispo D. Miguel de Lima Valverde .
Celebrou sua primeira missa na Matriz do Espinheiro, aos 8 de dezembro de 1951, o padre Arnaldo de Sousa, paroquiano. No ano seguinte, aos 14 de março, toma posse o novo Arcebispo D. Antônio de Almeida Morais Júnior, que em agosto de 1953, transfere o padre Osvaldo Machado para o Seminário, dando posse, em 8 de setembro de 1953, ao padre Arnaldo Cabral de Sousa como pároco ecônomo, que ficaria na mesma paróquia até o ano de 1999, quando da sua aposentadoria.
Os anos que se seguem de 1948 a 1961 trazem informações pontuais e breves, escritas pelo punho do padre Arnaldo Cabral de Sousa. Porém, no dia 22 de dezembro de 1956, acontece a Dedicação da Matriz do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro, que desde 1941 vinha sendo construída. Um outro registro de suma importância é em 9 de outubro de 1958, o falecimento do papa Pio XII, onde a paróquia celebra as exéquias de sétimo dia. Contudo, aos 4 de novembro, cantam Te Deum pela eleição de João XXIII aos 28 de outubro de 1958.
O padre Arnaldo Cabral de Sousa registra que soube pela imprensa, aos 24 de abril de 1960, da transferência do bispo D. Antônio de Almeida Morais para Niterói, sendo nomeado D. Carlos de Gouveia Coelho, tomando posse em 21 de agosto do mesmo ano.
Os doze meses que contemplam 1961 são os últimos a serem registrados no Livro de Tombo. Em 1º de janeiro, padre Arnaldo Cabral de Sousa é provisionado pároco do Espinheiro, sendo o segundo pároco, assinando a ata em 5 de fevereiro de 1961. O livro termina com palavras reveladoras:
- Comemoramos em toda a plenitude a festa do Natal com missa “versus populum” dialogada pela comunidade que também cantou salmos apropriados para a cerimônia litúrgica.
- O relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade .

Vejamos que já em 1961, o padre Arnaldo celebra a missa voltado para o povo e dialogando com a comunidade. Porém, o que nos intriga é a ultima frase: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Desde então, o que se registra no Livro pelo pároco são esses movimentos espirituais e algumas referências às festas. Aparece, então, a grande probabilidade deste livro compreendendo os anos entre 1962 e 1999 não existir.
Sabemos da existência de um Livro de Tombo sendo escrito desde 1999 até os dias hodiernos, não pelo pároco, frei Geraldo Lima, O. Carm., mas por uma fiel. Silenciam-se várias décadas, muitas celebrações e muitas histórias. Uma, pelo menos, tentaremos trazer em nosso trabalho: o assassinato do jovem padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, crime sem solução até hoje. Calado até no Livro de Tombo da paróquia onde fora velado o seu corpo. A ditadura calou o assassinato e a voz do padre Henrique. O Livro de Tombo silenciou diante dos fatos.

4. O silêncio de um Livro de Tombo: o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto

Dentre tantos silêncios, poderíamos eleger diversos pelo estilo do documento. Uma nota sobre o Concílio Vaticano II, outra sobre a morte de D. Carlos Coelho, trazendo a notícia da posse de D. Hélder Câmara como novo Arcebispo de Olinda e Recife. Contudo, uma página não lavrada neste livro precisa ter voz: o assassinato do padre Henrique. Não que os outros eventos não tenham a sua importância: eles são de extrema valia para a Igreja Católica, porém, o crime cometido contra esse jovem padre chocou a Arquidiocese de Olinda e Recife, e seu velório fora na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Não é nossa intenção estudar aqui esse assassinato junto ao velório. Deixar passar em branco tal evento ocorrido na Matriz do Espinheiro seria esquece-lo uma segunda vez.
O Diário de Pernambuco trazia, no dia 28 de maio de 1969, uma pequena notícia:
Padre é assassinado na Cidade Universitária
O padre Antônio Henrique Pereira Neto, 28 anos de idade, professor de Sociologia do Juvenato Dom Vital e do Colégio Marista, foi encontrado morto, ontem, às 6 e 30, na Cidade Universitária, desconhecendo-se as causas do homicídio.
A propósito do fato, o diretor do Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança Pública do Estado, sr. Bartolomeu Gibson, fez as seguintes declarações:
“Na manhã de ontem, foi encontrado numa das projetadas ruas que ladeiam a Cidade Universitária, no acostamento da pista, o cadáver de um desconhecido de cor morena, trajando esportivamente, mais tarde identificado como sendo o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, do clero pernambucano.
Foram procedidos no local, pelo Instituto de Polícia Técnica, os exames necessários e, posteriormente, já no Necrotério, pelo Instituto de Medicina Legal, o exame necroscópico.
Continua o Departamento de Investigações através da Delegacia de Homicídios e de outros órgãos da Secretaria de Segurança, em intenso diligenciamento, visando à completa elucidação de tão lamentável ocorrência”.

Esta notícia do Diário de Pernambuco, em si, nos diz nada. Apenas informa a morte do padre e que as investigações foram feitas. Porém, é sabido: na manhã do dia 27 de maio de 1969, um vigilante de 62 anos encontrava, nos matagais da Cidade Universitária, um corpo torturado: padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto .
O padre morto era recifense, nascido aos 28 de outubro de 1940. O período de formação do padre Henrique compreende os anos entre 1956 - quando entra no Seminário da Várzea – até 1965, quando é ordenado padre por D. Hélder Câmara. Nesse tempo, como vimos a Arquidiocese passa pelo governo de três bispos: Antonio Almeida de Morais Júnior, Carlos Gouveia Coelho e Hélder Câmara. O Brasil passava por um período bastante conturbado politicamente . Os anos de atuação pastoral do padre Henrique foram marcados pelo gradual fechamento do regime e, em relação à Arquidiocese de Olinda e Recife, pelo também gradual afastamento e aumento de atritos entre D. Hélder e os militares .
Tal sacerdote, logo após sua ordenação, assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife. Desenvolvia trabalhos junto aos jovens com encontros e reuniões. Trabalhava juntamente com pais e filhos, tentando uma aproximação entre gerações, que pela década de 1960, estavam em conflito .
O enterro do padre Henrique reuniu entre dez e vinte mil pessoas, tendo um cortejo que fora da Igreja Matriz do Espinheiro ao cemitério da Várzea .
Dado em 1969, o crime, até hoje, não teve resolução. Várias foram as versões apresentadas. E impune, ficou no silêncio. Assim como as páginas de um Livro de Tombo, que poderiam ter deixado registrado por quem viu, as memórias e relatos de um velório calado pelas Forças Militares do Brasil.

5. Conclusão

Desde sua chegada ao Espinheiro, em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa esteve à frente da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus, até o ano de sua aposentadoria, 1999, no governo de D. José Cardoso Sobrinho como Arcebispo de Olinda e Recife. Assumem a paróquia os frades da Ordem Carmelita. Desde então, já passaram os frades João Costa, Dennys Nunes Pimentel, Antonio Muniz. Esse último é o Arcebispo de Maceió. Atualmente, estão à frente da paróquia os frades Joaquim Ferreira da Luz (Vigário) e o pároco frei Geraldo de A. Lima.
Várias são as letras que testemunham o Livro Tombo. Três são os padres os quais deveriam ter escrito. Assim, possivelmente, os sacerdotes não assumiram sua função de redatores do documento, o repassando aos fiéis. Percebemos que desde 1953, o padre Arnaldo escreve até 1961, pelo seu próprio punho. A última frase de livro é: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Possivelmente, não se tomou mais registros a um novo caderno por Tombo. Sabemos, então, de uma redação de novo volume do Livro Tombo, relatando os processos paroquiais desde 1999. O mesmo não é redigido pelos frades, mas pela paroquiana Juliana Maria de Oliveira, que periodicamente escreve no jornal da Paróquia, intitulado A Partilha, fundado em maio de 2001.
Se realmente não houver sido escrito, este silêncio se dissolve na História. Páginas desfeitas de realidades não apenas de um templo, mas de pessoas que por ali passaram e deixaram suas marcas, de eventos notáveis perdidos na solidão do esquecimento.
Foi preciso de 1941 a 1956 para que fosse construída a Igreja dedicada ao Sagrado Coração Eucarístico de Jesus. A igreja que conheceu as pregações conservadoras de D. Miguel de Lima Valverde e D. Antônio de Almeida Morais Júnior, escuta hoje guitarras e baterias, unidas às palmas inflamadas dos fiéis: os tempos mudaram. O templo mudou. Hoje, encontra-se entre luzes rochas, vermelhas, verdes, amarelas o Santíssimo Sacramento adorado na matriz que tem por padroeiro ele próprio.
O Livro de Tombo calou os anos entre 1961 e 1999. Concílio Vaticano II, todo o governo de D. Hélder Câmara à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife, o velório do padre Antonio Henrique e muitos outros fatos internos da paróquia.
Tentamos o máximo ser fiéis aos dados revelados na documentação eclesiástica da Matriz do Espinheiro. Não foi a nossa intenção escrever a história da paróquia, mas, mostrar os registros do Livro de Tombo, conhecer os poucos dados que lá foram registrados e a história deixada nos mesmos.
Falamos um pouco dos Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife que contemplam os anos de 1941 a 1961, como forma de alargar as margens daquilo que estava inserido no silêncio. Trouxemos para o nosso texto o conteúdo do Livro de Tombo, além de um fato não expresso nele: o assassinato do padre Henrique.
Poderíamos ter ido muito mais longe, mas nosso campo é limitado e nossos pés pisam caminhos incertos. As probabilidades são muitas, contudo, temos o receio de pisar em falso, e fazer calar ainda mais as vozes que se ocultam nas páginas amareladas produzidas por mãos desconhecidas que registraram aquilo concernente a si próprios. As páginas em branco podem ser reflexo do esquecimento, e ali, a memória não deixou seu traço, apenas as marcas de um passado que passou sem registro, ficando apenas o pó e a lembrança naqueles que viveram os momentos apagados pelo silêncio da caneta e pela omissão do olhar.


6. Bibliografia:
Fontes Primárias:
- Diário de Pernambuco (Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – APEJE)

- Livro de Tombo da Parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no Bairro do Espinheiro

Obras:
- CUNHA, Diogo. Estado de Exceção, Igreja Católica e Repressão: O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.

- SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da Igreja Progressista na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Editora Universitária UFPE / Editora Associação Reviva, 2006.