sexta-feira, 11 de abril de 2008


UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA





As Universidades e o Saber nos Tempos Modernos (séc. XIV-XVIII)





Grupo: Mário Gouveia Júnior
Mozart Silveira de Aráujo Neto
Noel Teixeira Lopes Neto
Poatylon de Souza Machado
Thiago Pereira Francisco





Trabalho realizado como
avaliação na disciplina de
História Moderna II, ministrada pelo
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva.
.




RECIFE
2008
ÍNDICE




APRESENTAÇÃO 3



PARTE I: TREVAS E LUZ? QUEBRANDO PARADIGMAS 4

OS HOMENS DE SABER

ADVENTO DAS UNIVERSIDADES

A ADMINISTRAÇÃO

O ENSINO E OS GRAUS

AS FACULDADES SUPERIORES:
DIREITO, MEDICINA E TEOLOGIA

O HUMANISMO E A CRISE DA ESCOLASTICA



PARTE II: A INFLUÊNCIA DAS REFORMAS INTELECTUAIS E 18
RELIGIOSAS NAS UNIVERSIDADES

A REVOLUÇÂO CIENTÍFICA E AS UNIVERSIDADES

AS IDAS E VINDAS DO PRESTÍGIO UNIVERSITÁRIO
NA EUROPA MODERNA

CONCLUSÃO 32

ANEXO A 33

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 36
APRESENTAÇÃO




Há um espaço físico específico para a produção do conhecimento, sobretudo o conhecimento científico? A universidade medieval buscou ser esse lugar por excelência. Contudo, nenhuma produção intelectual sobrevive íntegra por muito tempo quando seu modelo de ensino é estagnado. Foi isso que aconteceu na passagem da universidade medieval para a moderna, a produção científica de outrora se deparou com novos raciocínios, os quais muitas vezes eram alheios à academia. A universidade, além disso, sofreu forte pressão das novas condições sociais que, por vezes, desarticularam sua antiga autonomia. Esses são alguns dos fatores que fizeram tal instituição mudar para não desaparecer. Percebeu-se que a mudança trazia frutos novos, cujo conservadorismo não podia oferecer.
Este trabalho almeja discutir alguns pontos importantes sobre o fenômeno universitário, delineando aspectos relevantes de sua origem medieval para entender o que há de distinto nos tempos modernos; não só o que se refere à produção científica, mas também o âmbito sócio-político que a envolve. Por fim, em anexo, há um texto retirado de um artigo de jornal, em que um professor da UFPE destaca o modelo da Universidade de Cambridge fazendo um comparativo com a própria realidade de sua universidade.


TREVAS E LUZ? QUEBRANDO PARADIGMAS


Fruto de uma visão limitada e preconcebida de alguns homens do Renascimento[1], a Idade Média é, por vezes, associada a um tempo de estagnação cultural, na qual o saber se encontrava limitado às bibliotecas dos mosteiros e onde havia uma ínfima produção de conhecimento. Um termo pior, que ainda hoje pode ser encontrado em livros de Ensino Médio, é usado para se referir ao período que geralmente tem como marcos o ano de 476, queda do Império Romano Ocidental, e 1453, quando da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, é Idade das Trevas. A esse tempo mórbido, contrapor-se-ia o Século das Luzes, no qual o instrumento moderno da razão vai de encontro ao pensamento teológico, nutrido pela fé, do medievo retrógrado.
As luzes da razão iluminista, todavia, ofuscaram a complexidade de um período bastante amplo o qual tem as suas particularidades e que é essencial para compreender os tempos modernos. Felizmente a historiografia medieval atual vem superando certos preconceitos e quebrando paradigmas, podendo perceber, além das rupturas, importantes continuidades entre os períodos históricos. Assim, a despeito do termo consagrado pela História, que o período carrega, hoje não se pode vê-lo como simplesmente um tempo intermediário entre o esplendor da Antigüidade Clássica e o Renascimento desse modelo. Historiadores contemporâneos, como Jacques Le Goff e Jacques Verger, continuam produzindo trabalhos que enriquecem os estudos medievalistas, sob a perspectiva da Nova História Cultural.
Que as bibliotecas dos mosteiros eram as grandes depositárias dos livros e que a circulação dos mesmos era ínfima, até pode ser admitido. Mas, de forma alguma, o período histórico medieval pode ser visto como um tempo de estagnação cultural em toda a sua extensão. É tempo, isto sim, de adaptações aos novos desafios que foram sendo apresentados pelas circunstâncias histórico-sociais. É preciso, portanto, observar que desafios foram esses e como foram sendo superados, antes do historiador cogitar a formulação de qualquer juízo tomando como base os valores do seu tempo, sob pena de cair em grave anacronismo, tendo assim uma hipermetropia histórica.

OS HOMENS DE SABER

A expressão gens de savoir foi utilizada pelo medievalista francês Jacques Verger[2], mas não pertence à linguagem medieval. Vir litteratus, clericus, magister, philosofus são alguns dos termos encontrados nos documentos medievais, estando contidos na expressão usada por Verger e adotada neste trabalho. Jacques Le Goff[3], por seu turno, opta por um termo igualmente anacrônico: intellectuels. A palavra intellectuel só se tornaria substantivo ao final do século XIX, mas, com a licença de Le Goff, também pode ser usada aqui. Graduados seria um termo mais fiel à época, já que encontra sua origem em graduati, o qual logo seria corrente com o advento das Universidades. Porém essa palavra restringiria muito o objeto de estudo em questão, porquanto excluiria muitos estudantes que não obtiveram nenhum grau e outros indivíduos que haviam se dedicado aos estudos, mas que não freqüentaram instituições habilitadas a emitir diplomas.
Ao empregar gens de savoir, Verger considera a existência de indivíduos com certo nível de conhecimento teórico, ao qual a sociedade demandava para adquirir competências práticas. Sobretudo no fim da Idade Média, esse perfil individual vai crescer em quantidade e em qualidade, de modo que já se pode enxergar um grupo específico, o qual não somente ficaria restrito na esfera intelectual, mas se faria presente e ativo na sociedade, na política e no âmbito religioso. Quanto a isso, Verger ainda afirma:

Os universitários medievais estavam convencidos de que os estudos não constituíam um fim em si, mas deviam propiciar aos que alcançavam o saber beneficiarem-se pessoalmente dele e colocarem a sua competência à serviço de fins socialmente legítimos[4].

Alain de Libera tem um outro ponto de vista:

A Universidade medieval ocidental não é simplesmente um lugar onde se dispensa um ensino superior, não é lugar de reprodução de saber: é um lugar de produção do saber, um espaço de pesquisa e de confrontação. (...) A Universidade de Paris, a primeira grande universidade do Ocidente para a filosofia e a teologia, não tem como função principal formar altos funcionários [5].

Para ele, portanto, os estudos também constituíam um fim em si mesmo, conquanto a competição existente entre os professores, as formalidades, as comunidades de estudantes, o desenvolvimento da lógica e das técnicas de argumentação fazem das Universidades formidáveis laboratórios de inovação teórica. Afinal de contas, chegava-se a estudar durante 30 anos para conseguir o doutorado em teologia, constituindo o ápice da formação intelectual[6].
De qualquer maneira, o que teria permitido a esses intelectuais se multiplicarem e ocuparem uma posição social prestigiosa? De acordo com Le Goff:

O nascimento do intelectual como tipo sociológico novo pressupõe a divisão do trabalho urbano, da mesma forma que a origem das instituições universitárias pressupõe um espaço cultural comum, onde essas novas catedrais possam surgir, prosperar e confrontar-se livremente[7].

Haveria, portanto, uma relação intrínseca do intelectual com o desenvolvimento do espaço urbano. Com esse desenvolvimento das cidades, logo surgiriam escolas urbanas, as quais se distinguem das escolas monásticas, por terem estudantes que seriam laicos. As Ordens Mendicantes, notadamente os franciscanos e dominicanos, tiveram também uma presença significativa no desenvolvimento das escolas urbanas e, logo em seguida, das Universidades. Já no século XIII, as cidades universitárias contariam com colégios para noviços, fortalecendo o caráter conservador do Ensino Universitário.
A despeito da força conservadora que esteve presente na Universidade, esta também vai ter espaço para o desenvolvimento da criticidade. Abelardo, Tomás de Aquino, Siger de Brabante e Wyclif o comprovam, conquanto seus pensamentos muitas vezes foram vistos como heréticos. Contudo, ignorando as repressões, celeremente as suas idéias se difundiam. Dessa forma, por vezes a Universidade vai abrigar um espírito anticlericalista com tendência à contestação, sendo um espaço de disputa ideológica e florescimento intelectual.

O ADVENTO DAS UNIVERSIDADES

Inicialmente, o que se chamaria de universidade se denominava Studium Generale, não havendo distinção ainda de nacionalidade. Mais tarde, Studium Generale indicaria o conjunto de ciências, sendo que o termo latino Universitas se aplicava à toda comunidade organizada com qualquer fim. Somente no século XIV é que Universitas suplantaria Studium Generale para definir as corporações que aspiram ao universalismo. [8] Mas já no século XIII Universitas era empregado para designar as corporações de mestres e estudantes que se dedicavam aos estudos das artes liberais, do direito, da medicina, e da teologia.
Quanto ao surgimento das Universidades, Le Goff diz que:

As origens das corporações universitárias são freqüentemente tão obscuras como as de outras corporações de ofício. Organizam-se lentamente, mediante conquistas sucessivas, ao acaso dos incidentes que são outras tantas circunstâncias. (...) Nas cidades onde se formam, as universidades, devido ao número e qualidade de seus membros, manifestam um poder que inquieta os outros poderes. É lutando, às vezes contra os poderes eclesiásticos, outras vezes contra os poderes laicos, que elas adquirem sua autonomia[9].

O poder da corporação universitária se baseia nestes privilégios essenciais que foram a ela concedidos: autonomia jurisdicional (poder de apelação ao Papa), direito de greve e secessão e o monopólio na colação de graus universitários, isenção dos estudantes ao serviço militar. Tais privilégios, obviamente, foram sendo conquistados ao longo da consolidação dessa corporação do saber, mediante, inclusive, algumas mortes de estudantes que lutaram pelos seus direitos e pela sua instituição[10].
Verger, ao debater sobre uma possível crise escolar no fim do século XII, mostra que há justamente uma caminhada oposta e que algumas circunstâncias são importantes a ressaltar. Professores e alunos, por vezes, encontravam dificuldades em seguir carreira em suas aspirações em regiões distintas das de sua formação. As principais escolas, cujas oportunidades eram mais evidentes, situavam-se nas maiores cidades. Nesse ritmo, a ascensão das mais importantes escolas significava o declínio das menores. Muitas vezes, essa relação, quantitativamente, é verificável pelo aumento da demanda pelos saberes, o que também resultou na multiplicação de escolas cuja qualidade de ensino era discutível. “Cada um ensinava à sua maneira, misturando ao mesmo tempo as artes liberais e a teologia, o direito civil e o direito canônico”[11].

Muitos autores,[...] haviam dado o alarme, ao estigmatizar o sucesso das ciências ‘lucrativas’ e ‘profanas’, denunciando os perigos que as almas corriam com o estudo dos autores pagãos e a confusão das disciplinas: simples mestres em artes improvisavam-se como teólogos, ao passo que as sutilezas da filosofia desviavam da Sagrada Escritura os espíritos curiosos pelas novidades[12].

Ademais, o papado, querendo a renovação de suas prerrogativas universais ao passo do recuo dos poderes locais, atinge na figura de Inocêncio III sua plenitudo potestatis entre os poderes leigos e eclesiásticos. Nessa mesma corrida, estão também os interesses de uma reafirmação dos poderes dos príncipes, os quais necessitam de uma legitimação ideológica e de competentes burocratas. Enfim, tanto o centro da Igreja como os governantes laicos necessitavam do produto das escolas, o versado nos saberes clássicos.
São com base nesses antecedentes do século XII que vão se estruturar as possíveis causas da fundação das universidades. Uma das principais vertentes de análise a respeito dessa temática defende que as demandas sociais implicavam numa concorrência aos diplomas, cuja necessidade de uma formação erudita era imprescindível àquele que almejava cargos e, sobretudo, melhorar suas condições de vida e participação social. Essa defesa tem seu representante maior Jacques Le Goff, que relaciona de forma veemente a formação do intelectual medieval com o crescimento citadino; o papa, o príncipe, o grande mercador, todos demandavam os serviços do erudito. Perry Anderson destaca como o direito foi um instrumento para a formação do estado absoluto nos séculos posteriores: "o reflorescimento do direito romano, um dos grandes movimentos culturais da época, correspondeu ambigüamente às necessidades de ambas as classes sociais [...]"[13].
A outra linha segundo Verger, tem enfocado as inovações do conhecimento redescoberto. Não é de se espantar o deslocamento de estudantes de regiões as mais diversas para as principais escolas do século XII e para as mais importantes universidades do século seguinte. O que fica evidente na organização das universidades em nações; em Bolonha, por exemplo, havia os citramontanos (italianos) e os ultramontanos, os quais poderiam ser alunos da Gália, Hispânia, Aragão etc. As aulas de Abelardo deslocavam alunos de pontos igualmente distantes. Enfim, a busca pelo saber ultrapassava os obstáculos da distância.
Entretanto, somente a busca pelo saber e o interesse da formação a fim de vagas no poder são suficientes argumentos para caracterizar os motivos do advento das universidades? Aquela característica de corporação da nomenclatura para os primeiros grupos de lentes e discentes não é por acaso. Afirma Le Goff:

O século XIII é o século das universidades porque é o século das corporações. Em cada cidade em que existe um ofício agrupando um número importante de membros, esses membros se organizam para a defesa de seus interesses, a instauração de um monopólio de que se beneficiem[14].

A reestruturação escolar do fim do século XII implicou numa forma das grandes escolas remanescentes se aglutinarem numa tentativa de evitarem, novamente, a multiplicação das escolas. Com isso, não só asseguravam seu fortalecimento institucional, como também impediam a possibilidade do aparecimento de escolas que viessem a tirar seus alunos. Esse método também podia garantir a concentração de grandes professores em um nome institucional, conseqüentemente, uma procura maior por parte dos estudantes. É esse o espírito corporativo da universidade de Paris.
No caso de Bolonha, a qual tinha seu funcionamento interno regido por alunos, a fundação da universidade garantiu uma maior centralidade de suas necessidades, principalmente por essa despontar nos estudos do direito romano, que como já foi afirmado, atraía contratadores de vários setores, mas também favoreceu na redução da dita confusão de conhecimentos acerca dos vários assuntos. E nessas duas situações, por concentrarem um numeroso corpo discente, importantes docentes e um ensino respeitável. Os diplomas dessas e de outras universidades que surgirão nos mesmos moldes (e que atingirão o mesmo grau de excelência) terão validade por toda a Europa, o que eleva ainda mais o prestígio delas.
Outro fator de igual ou maior relevância, que implicou a constituição universitária, foi a necessidade de obterem privilégios sociais. Como corporação, sua coesão e determinação em busca da autonomia dos poderes leigos e eclesiásticos possibilitou importantes vitórias. A liberdade de determinadas formas de pensamento só teria a oportunidade de discussão dentro da universidade; fora dela, raciocínios complexos sobre a natureza e ação divinas (no caso, as teorias teológicas diversas) talvez não tivessem a mesma aceitação se fossem trabalhadas primeiro na academia; o mesmo para as outras faculdades. Sobretudo, conquistas, como a de Paris, a de retirar e passar a conferir a licentia docendi - meio através do qual as dioceses mantinham sua supervisão do ensino desde 1179 (ano do Concílio de Latrão) - em 1213.
Dessa maneira, disputar forças com os clérigos locais era um meio de se sobrepor a eles e conseguir o apoio papal. As liberdades em Oxford ao longo do século XIII, foram a custo de embates contra reis, a exemplo da travada com Henrique III. As comunas se mostraram fortes obstáculos na autonomia universitária, pois viam os alunos como causadores de desordens e como força paralela, ao quererem negociar as taxas dos aluguéis e gêneros alimentícios. Um recurso muito usado pelas universidades contra esses poderes locais foi o papado, o qual percebeu nas universidades um importante e emergente meio de ressaltar seu espírito universal de controle, além de instrumento de oposição às forças locais que enfraqueciam sua ação.

A ADMINISTRAÇÃO

A estrutura administrativa dessas corporações universitárias adquiriu certa complexidade ao longo da sua consolidação e tem as suas características próprias em cada centro. Verger cita o exemplo de Oxford, em que havia a figura do reitor (chanceler da Universidade de Oxford), o qual era a principal. Com um mandato breve (alguns meses), ele era o guardião dos estatutos e sua atribuição era convocar e presidir as assembléias, bem como gerenciar as finanças, sendo o representante oficial da universidade. Seu trabalho era assistido por um conselho formado de delegados das nações e de funcionários adjuntos. As assembléias de alunos e mestres ainda desempenhavam um papel relevante, no qual por vezes as suas decisões eram executadas pelo reitor. Cabia a esse corpo administrativo defender os privilégios universitários e organizar o ensino, que representava a tarefa primordial da universidade. Le Goff destaca que, diferentemente de Paris, na qual a Universidade era uma corporação de mestres, em Bolonha será uma corporação de estudantes, os quais estão ligados à parte administrativa.

O ENSINO E OS GRAUS

A metodologia de ensino adotada, segundo Verger, pela faculdade de Teologia de Paris pode servir como modelo das demais faculdades. Dessa forma, lá havia dois tipos fundamentais de exercícios: a aula (lectio) e o debate (disputatio). A lectio era o momento dos estudantes conhecerem as autoridades e ganharem certo embasamento para a disputatio [15], na qual o professor gerava um debate para aprofundar com mais liberdade algumas questões, exercitando os princípios da dialética. Havia ainda uma divisão entre aulas ordinárias, em que eram ministradas no início da manhã e envolviam os conteúdos mais importantes do programa, e as aulas extraordinárias, dadas ao final da manhã ou à tarde por bacharéis, a fim de complementação. Em ambas, aplicavam-se os mesmos métodos supracitados.
Um problema enfrentado pelos estudantes, principalmente, aqueles que não eram dotados de grandes recursos, era o acesso aos livros, os quais tinham uma circulação pequena. Por vezes, os estudantes pobres, os quais eram isentos dos pagamentos das taxas, prestavam serviços aos mais abastados, garantindo uma modesta moradia e alimentação, bem como a compra de seu material de estudos. De qualquer maneira, o livro era caro e por isso, muitos estudantes ficavam sem ele, dispondo apenas de resumos ou de fragmentos de obras[16]. pós essa provação, no entanto, o sistema universitário permitia a ascensão social de alguns filhos de camponeses. Embora não conferisse grande riqueza, o diploma universitário atribuía certo prestígio social e, portanto, um novo status.
Não era, porém, tão simples ganhar o título acadêmico. Os exames e graus eram regulados pela própria universidade[17], variando conforme a época e o nível acadêmico pretendido. No geral, tais exames eram muito rigorosos e envolviam dois momentos: o exame propriamente dito e o exame público. A licença (licentia docendi)[18] era o grau mais antigo, no qual o candidato ministrava uma lição e respondia questões perante uma banca de mestres. Se aprovado, logo seria apresentado ao chanceler, que lhe concedia simbolicamente as insígnias de sua atribuição numa cerimônia solene, procedida pela aula inaugural. No século XIII, porém, para ter a licentia docendi, o candidato devia antes ter o grau de bacharel, o qual era obtido dentro da própria escola. Já com a licenciatura conquistada, o universitário podia se candidatar ao mestrado ou doutorado, que, de acordo com Verger:

Não se tratava mais de um exame, mas de atos inaugurais (aula solene, presidência de uma disputa) por meio das quais o recém-promovido, tendo recebido as insígnias de sua função, era admitido no seio do colégio dos mestres e habilitado, se o quisesse, para ensinar[19].

AS FACULDADES SUPERIORES: DIREITO, MEDICINA e TEOLOGIA

Inicialmente, o ensino do Direito dizia respeito ao Direito Civil, isto é, ao Corpus juris civilis, o qual já no século XII era usado em Bolonha. Sua autoridade estava alicerçada nas suas origens romanas e nos grandes princípios jurídicos que eram apreendidos para uma reflexão sobre a ética, contrapondo-se aos antigos costumes bárbaros e feudais. Ao longo do século XII, ainda se desenvolveu o Direito Canônico (com o Corpus juris canonici), o qual ganhou o trabalho de compilação de Graciano (Decreto, por volta de 1140), bem como diversas coleções de decisões pontificais (Decretais) promulgadas até o início do século XIV. Com o Direito Canônico, portanto, a instituição eclesiástica se viu reforçada, firmando ainda mais o primado pontifical.
Durante o período em que o direito romano teve seus estudos concentrados em Bizâncio, no ocidente, os costumes foram a forma principal de se resolver as questões sociais. "Um bom acordo vale mais que a lei, e os laços de amizade valem mais que a justiça: no tempo do costume, é possível limitar o papel da lei e da justiça, promovendo valores que não pertencem, a priori, à esfera jurídica”[20]. O império do costume dos séculos XI e XII, já não é tão claro no século XIII, pois sua força parece subordinada ou contestada. É com a Igreja que a lei será gradativamente introspectada na sociedade. Durante os séculos XI e XII, os reflexos da reforma gregoriana em tornar a Igreja uma instituição à parte fomentaram os estudos do direito romano e do direito canônico, a fim de dar mais legitimidade à instituição católica e de dar maior autonomia às ações papais em relação aos poderes laicos, além de ser sua principal arma intelectual para seu programa de integração territorial e administrativo. O reencontro com o corpus juris civilis de Justiniano deu impulso a esses estudos em elevação.
Os formados em direito vêm crescendo em número desde os últimos decênios do século XII. Começam a ficar mais ativos nas práticas políticas, econômicas e sociais. Tornam-se um grupo organizado capazes de pressiona forças locais para decidirem medidas de seu interesse. Chiffoleau destaca ainda a influência do direito canônico sobre as algumas novas formas de legislação, as quais o direito romano não se encaixa mais às regras da época. Outro elemento condiz ao fato de apesar dos príncipes usarem as formulações legislativas ao seu favor seu poder é limitado pelas próprias leis que promulga. Contudo, a expansão do uso do direito ainda não era efetiva em todos os lugares; em muitas regiões o direito consuetudinário ainda desempenhava forte papel nas relações sociais. É interessante a semelhança que as audiências têm com o método da disputatio, cuja troca de argumentos de acusação e defesa são mediadas por um juiz, aproximadamente como se fazia nas escolas e universidades.
A Medicina, por seu turno, para se firmar como disciplina superior e ser reconhecida socialmente, pois teve que superar o empirismo simples que caracterizava o ofício do cirurgião ou do curandeiro. Para tanto, recorria à autoridade de Aristóteles, com sua filosofia natural, complementando com outros tantos tratados médicos gregos inspirados no referido filósofo, com os aforismos de Hipócrates, com as teorias de Galeno (notadamente a dos quatro humores) e ainda com alguns trabalhos árabes de autoridades como Rhazès, Avicenas e Averróis. Com isso, pretendia-se apresentar a Medicina como uma disciplina racional, distinta das artes mecânicas. Não obstante, segundo Verger:

As faculdades de Medicina verdadeiramente ativas foram pouco numerosas (Montpellier, Bolonha, Pádua, Paris) e a maioria da população só travava contato com simples práticos (cirurgiões, barbeiros) formados fora das faculdades, embora controlados por elas no exercício da profissão.[21]

A medicina medieval esteve por muito tempo estereotipada como simplesmente livresca e que pouco evoluíra desde a Antigüidade. Contudo, como já foi dito, havia uma idéia da formação teórica e prática. Le Goff cita uma fala de Adelardo de Bath (século XII) em que ele critica a falta de aceitação dos modernos de práticas médicas que não fossem baseadas nas autoridades, e que quando se queria lançar algo inovador alegava-se que foi retirado dos estudos árabes ou de Galeno.
A cirurgia, após o Concílio de Tours (1163) desvincula-se da medicina, passando a ser relacionada como um ofício manual. Contudo, os maiores cirurgiões da época eram requisitados por reis e papas, como Guy de Chauliac (c.1298-1368), médico dos papas de Avignon, formado pela universidade de Montpellier, cujo tratamento cirúrgico foi um referencial por mais de dois séculos. Muitos das operações cirúrgicas envolviam a trepanação e a redução das fraturas, ambas inovações técnicas medievais. A medicina do corpo era antes a da alma, pois o corpo é só um receptáculo dela, a alma que é passível de tratamento. Essa distância do corpo retardou muito o estudo com dissecações, as quais só se iniciaram em Bolonha, já em 1340, em Montpellier, em 1407, e em Paris, somente no ano de 1477. Depois, a dissecação do corpo virou uma prática pública e didática.
No mais alto grau da hierarquia das disciplinas superiores estava a Teologia.[22] Ensinava-se, por um lado, a partir de comentários da própria Bíblia e era feito também um estudo dos dogmas Católicos, fundamentados nos ensinamentos da Patrística e nos recursos da filosofia. Os quatro Livros de Sentenças de Pedro Lombardo, feitos em meados do século XII, permaneceriam como manual de base dos estudos teológicos até o século XV. Sobre o prestígio do teólogo, Verger diz o que ”eles tinham a imagem de especialistas intelectuais altamente qualificados, cujo papel era cultivar e enriquecer uma disciplina cujo valor não era contestado por ninguém”.[23]
O curso de Teologia envolvia os estudos da sacra pagina e da sacra doctrina, ou seja, uma exegese dos textos bíblicos e uma análise sistemática dos dogmas católicos, fundamentados nos Pais da Igreja. Estudar teologia não significava de fato ocupar uma posição na alta hierarquia católica, pois o que se evidencia é que os juristas tiveram essa função, principalmente, no que tange à formulação do direito canônico. Esse seleto grupo de teólogos, devidamente capacitados em todos os graus, adquiria uma imagem de profundos e irrefutáveis conhecedores dos textos sagrados. Aos dominicanos, que com a instalação da inquisição se tornaram os cães do Senhor, aqueles que defenderiam a fé cristã acima de tudo, os conhecimentos teológicos foram um importante instrumento na sua irrefutabilidade da acusação.

O HUMANISMO E A CRISE DA ESCOLÁSTICA

Fome, pestes, guerras. Tais calamidades foram as grandes protagonistas do século XIV, ocasionando um grave declínio demográfico nos novos centros urbanos. Nesse contexto, a insatisfação popular era latente e se expressaria através dos inúmeros levantes dos camponeses. Isso tudo, é claro, não poderia deixar de fazer parte dos temas presentes na arte renascentista que se esboçava. Na literatura, por exemplo, Boccaccio, em sua relevante obra Decameron, situa a sua narrativa na Florença de 1348, ano da incidência de uma devastadora epidemia de peste. No prólogo de sua obra, Boccaccio faz uma descrição aterradora da doença que se espalhava rapidamente, impondo o medo às pessoas da iminência da morte horrenda que a peste trazia.
O ensino universitário dos grandes centros de saber que se desenvolveram ao longo do século XIII vai também estar em consonância com o clima de crise. Numerosas faculdades vão ser paralisadas, vítima de censura, pelo controle eclesiástico. Como já foi apresentado, a universidade era um lugar propício para a fomentação de idéias que seriam consideradas heréticas e que, portanto, tinham que ser reprimidas. A escolástica clássica e notadamente a Teologia caem, dessa maneira, em estagnação. A oposição muito difundida entre a escolástica e o humanismo, no entanto, está sendo revista[24].
A despeito da crise que ocorreu nos antigos centros de saber, o mundo universitário se expande pela Europa Central e Oriental. Assim, em regiões germânicas, as principais cidades ganham centros de excelência universitária, muitos dos quais ainda hoje têm uma proeminência acadêmica: Viena (1383), Erfurt (1379/1392), Heidelberg (1385), Colônia (1388). Na Boêmia, logo se notabilizaria a Universidade de Praga (1347); na Polônia, Cracóvia (1364/1400) não tarde teria a sua Universidade. Tão logo ainda houve um novo florescimento universitário, englobando a Escócia, a Espanha, Portugal, França, Itália etc, baseando-se no modelo das Universidades de Paris e Bolonha. Ao final do século XIV, surge a idéia que toda universidade deveria ter as quatro faculdades tradicionais (Artes, Medicina, Direito e Teologia), embora eram freqüentes aquelas que existiam apenas no papel, funcionando na prática.

A INFLUÊNCIA DAS REFORMAS INTELECTUAIS E RELIGIOSAS NAS UNIVERSIDADES

Parte integrante das mudanças ocorridas no ambiente universitário europeu do século XVI foi a irrupção de reformas intelectuais e religiosas no plano social e que repercutiram no campo do saber e da produção de conhecimento. Sabendo que tais acontecimentos não podem ser analisados isoladamente, faz-se importante destacar a ação política no direcionamento pelos quais as universidades passaram. É comum que o príncipe ou a autoridade local tenham tanta influência quanto o papa para escolher os funcionários de determinada instituição de ensino, assim como para estabelecer uma pedagogia aplicada aos interesses sócio-políticos, isto é, de finalidade prática.
Com relação à Reforma intelectual, incorporada pelo Renascimento italiano originado no século XIV, difundido em tempos posteriores ao resto da Europa Ocidental. O humanismo, surgido neste contexto, exercerá grande influência na mentalidade moderna nascente, ao promover a busca pelo retorno à Antiguidade, em contraposição à Idade Média – época das trevas e do imobilismo. Porém, percebe-se que as concepções clássicas defendidas pelo humanismo são vivenciadas ainda no período cronológico denominado como Idade Média. Sendo assim, o saber produzido e valorizado neste momento é caracterizado como pertencente a uma época de transição, para que o Renascimento seja entendido enquanto, nas palavras de Jean Delumeau, “promoção do Ocidente numa época em que a civilização da Europa ultrapassou, de modo decisivo, as civilizações que lhe eram paralelas”[25].
Segundo Rossato[26], o humanismo é impulsionado pela transferência, para a Itália, de inúmeros textos de origem grega, árabe e oriental, que estavam armazenados na Constantinopla dos acontecimentos de 1453. Assim, os homens puderam se apropriar de alta quantidade de autores que narravam a supremacia da Roma antiga num contexto contemporâneo, ao mesmo tempo em que exaltam valores como o individualismo, a glória pessoal e a autonomia do homem enquanto ser do Universo. Tal revolução cultural expandiu-se sem demora para outras partes da Europa, ajudado também pelos líderes das incipientes monarquias nacionais, que incorporam à vida cotidiana o estudo de línguas como grego e latim, além de outras ciências. No entanto, as universidades deste período, possuidores de caráter extremamente rígido e receoso da perda de controle sobre si mesmo, como a universidade de Paris, por exemplo, resistem às novas tendências. No entanto, é importante salientar, de acordo com o Delumeau, que não houve ruptura entre o ensino medieval e o clássico: paulatinamente ocorre a inclusão de disciplinas que, de certa forma, estão inseridas no contexto de transição entre a Idade Média e o período clássico.
Porém, ao contrário do que se imagina, as faculdades de artes liberais não se opuseram à penetração do espírito humanista. Em fins do século XV, tais faculdades tinham como intuito a preparação de estudantes para posterior inclusão nas faculdades de Teologia, Direito ou Medicina, constituindo como uma espécie de ensino secundário; ocorre a perda de prestígio de algumas disciplinas das Artes Liberais (como a dialética, por exemplo, em contraposição com a Lógica aristotélica), que acabam por promover a evasão de alunos dos seus cursos e a posterior decadência desta instituição. Paulatinamente, “os colégios da época clássica saíram gradualmente, durante os séculos XV e XVI, das antigas faculdades de artes”[27]. Estes colégios eram patrocinados por pessoas ricas com o fim de permitir o estudo de pessoas pobres nas universidades, sendo comum a concessão de bolsas para alguns membros (mormente aqueles que cursavam Teologia). Aos poucos, os estudantes que compõem estes colégios se constituem como um corpo autônomo, pois não dependem mais da faculdade de artes para obter os conhecimentos preparatórios, ao mesmo tempo em que os próprios colégios já dispõem de disciplinas como grego, hebraico, latim antigo, entre outros. Outro fator que compete para o sucesso dos colégios, a partir do século XV, é a busca do conhecimento sem a obrigatoriedade da posse do diploma, o que acarreta, positivamente, num aumento do contingente de estudantes. Assim, involuntariamente, o humanismo promove a decadência das faculdades de Artes Liberais; para Verger e Charle, “muitas dessas faculdades ficaram vazias de seus estudantes, mantendo apenas um papel formal para a colação do mestrado em Artes” [28], ao mesmo tempo em que promoviam uma formação excessivamente especializada, característica não desejada pelos estudantes deste período.
É comum que as lideranças políticas deste período promovam a difusão de centros de ensino no qual é ensinada a cultura humanista, em parte devido à reação negativa de implantação destes saberes nas universidades tradicionais. Como exemplo, temos a Faculdade de Alcalá, originada em 1498; a Universidade de Louvain (Colégio das Três Línguas), fundado em 1517; Sapiência, em Roma, fundado em 1515 por Leão X e o Colégio Real (futuro Colégio da França), financiado por Francisco I e auxiliado por Guilhaume Bude, em 1530. Assim, estes estabelecimentos de ensino representam pontos localizados num contexto de decadência do modelo universitário vigente.
As universidades também sofreram grande influência das Reformas Religiosas ocorridas no século XVI, pois ocasionaram a criação de modelos pedagógicos distintos e adaptados às necessidades de cada ramo da cristandade. A reformulação imposta por Lutero e Melanchton, a partir de 1524, teve como objetivo um ensino baseado nas concepções religiosas do protestantismo, ou seja, baseado no estudo do latim, grego, hebraico, alemão, escritores antigos, Bíblia, entre outros, na tentativa de evitar, segundo Lutero, a paganização das universidades existentes naquele momento; são criadas novas universidades, como Wittenberg, Tübigen, Leipzig, Rostock, entre outras. O estudo das línguas antigas, segundo Durant[29], tinha como finalidade a leitura das Sagradas Escrituras. Assim, nas universidades alemãs temos faculdades de Direito, Medicina, Filosofia, além da Exegese Bíblica (excomungando a Teologia Escolástica, em voga nas universidades católicas). Adotando a ortodoxia da doutrina evangélica, tal programa de ensino tem como intuito a formação de pastores; sendo assim, de acordo com o próprio Frederick Eby, o “abandono da lei canônica e dos tribunais eclesiásticos deu um novo ímpeto à busca da jurisprudência civil”[30], criando uma imagem negativa do papel da universidade para a sociedade em geral, como veremos adiante. Esta postura inicialmente reformadora foi acompanhada de pedagogia conservadora, ato que acarretou em constantes conflitos entre grupos ligados ao calvinismo e ao luteranismo, além da expulsão de professores que não aderiram à Reforma. Conseqüentemente, percebemos, a partir de meados do século XVI, a criação de universidades anglicanas, calvinistas e luteranas, que constituem como centros de propagação dos costumes religiosos. Na Inglaterra, durante o reinado de Henrique VIII, foram criados vários colégios, como o Corpus Christi College, Christi Church College, Trinity College, em Oxford, entre outros. Nestes centros de ensino, diferentemente dos colégios acima citados, não houve a substituição das universidades pelos colégios, como responsáveis pelo ensino secundário: a separação entre estas instituições persistiu. Nos centros católicos, impulsionados pela Contra-Reforma, houve, de acordo com Verger[31], a implantação de universidades nas zonas de fronteira da cristandade, além da atuação dos jesuítas: criando colégios na Alemanha e na Áustria e incorporando as Faculdades de Artes e Filosofia.
No debate anteriormente proposto, o pensamento humanista não teve dificuldades para se incorporar no contexto das Faculdades de Artes Liberais. Porém, a Faculdade de Teologia, imbuída de caráter conservador, impõe barreiras à expansão desta nova etapa da existência do homem moderno. Analisada sob o prisma das Reformas Religiosas, percebe-se que o acirramento ideológico e político ocasionado pelas disputas teológicas, segundo Delumeau, foi fator de perda de prestigio das universidades, pois “o ensino superior tendeu a restringir-se à Teologia”[32]: portanto, o choque da cultura humanista na cultura laica fez com que um número menor de estudantes despertasse o interesse pela Teologia. Somam-se a isso algumas medidas políticas adotadas no contexto internacional, como a Paz de Augsburgo (1555) e o princípio do cuius rex, eius religio – a religião do rei é a religião do povo – que imprimiu a redução das peregrinatio acadêmica e a evasão de estudantes e professores dos centros universitários, já que as pessoas estavam agora confinadas a participar da vida acadêmica apenas nas universidades ligadas à sua própria concepção religiosa; outro ato deste período são as perseguições religiosas, principalmente de figuras importantes no cenário intelectual.

A REVOLUÇÂO CIENTÍFICA E AS UNIVERSIDADES

O grande desenvolvimento da ciência nos séculos XVI e XVII deveu-se ao Renascimento, ao surgimento das universidades e, sobretudo, à iniciativa particular de homens do saber que fundaram academias de ensino desligadas do controle estatal e eclesiástico direto, se bem que não estivessem imunes às intervenções tanto por parte da Igreja Católica, no caso dos países católicos, como por parte do Estado e dos eclesiásticos protestantes, no caso das nações protestantes. Homens de renome, que deixaram marcas indeléveis no desenrolar da trama científica, embora que, para isso, tenham sofrido com as vicissitudes inerentes do seu tempo, sendo forjados dentro desses laboratórios do conhecimento. A ciência deu importantes passos, regida por Copérnico, Galileu, Torricelli, Tycho Brahe, Johann Kepler e outros estudiosos e entusiastas da razão.
A sociedade, porém, na qual se deu esse prodigioso espetáculo estava envolta em antigos paradigmas medievais. As superstições e a caça às bruxas dominavam o íntimo das aldeias e cidades então em pleno florescimento. O arraigado interesse pela astrologia, até mesmo por parte de clérigos e, para ser ainda mais emblemático, do papa Paulo III, o qual não realizava nenhuma reunião com os bispos sem antes consultar a posição dos astros, era uma característica marcante da população da Europa ocidental no período em questão. Um mundo dividido, uma cristandade dividida há bem pouco tempo, desde a publicação das 95 teses de Lutero, sem mencionar, claro, o cisma de 1054, que não foi contemporâneo das gerações desse momento. Um mundo marcado pela ferrenha atuação da Inquisição, que agora começava a se voltar, com olhares altivos e ciumentos, contra o progresso científico que tinha lugar nas faculdades, bibliotecas, observatórios astronômicos, laboratórios de pesquisa, jardins botânicos e criações particulares de animais, não apenas, como outrora, contras as heresias religiosas que poderiam macular a sã doutrina do catolicismo oficial.
A transmissão do saber oriundo em grande parte do interesse individual de homens sedentos de conhecimento, que estudavam por conta própria ou custeados por nobres que se dispunham a suprir a necessidade de que careciam para desenvolver suas pesquisas, deveu-se, em primeiro lugar, aos grandes impressores e editores que, nas palavras de Will Durant, “alimentaram a corrente de tinta na qual ele [o saber] fluiu de espírito a espírito e de geração a geração”[33]. Tais editores foram os responsáveis e patrocinadores das grandes obras publicadas por Copérnico, Brahe, Galileu, Newton, dentre outros. As bibliotecas se constituíam nos novos centros de conservação do conhecimento antigo e de acumulação da ciência nova que fervilhava e se multiplicava com vigor sob o impulso apaixonado de seus amigos e amantes. O desenvolvimento dos jornais também foi notável, porém as publicações de notícias e fatos inadequados e tendenciosos favoreceram a disseminação de dados irrelevantes que impediam que o público, em geral, participasse da política e acompanhasse os acontecimentos relativos ao desenvolvimento da ciência.
A grande parte da população européia nos séculos XVI e XVII era, na verdade, analfabeta. A censura nas publicações, principalmente de livros, era quase universal na cristandade, tanto católica como protestante. Mais ferrenha e implacável, sem dúvida, por parte da Igreja Romana, que criou a Congregação do Index em 1571 com esse objetivo específico, mas de igual modo persistente como a protestante. A variedade de dogmas, entretanto, acabou por frustrar as expectativas das censuras inquisitoriais, pois obras proibidas num determinado país eram publicadas no estrangeiro e depois importadas clandestinamente.
Sobre o alto índice de analfabetismo (oitenta por cento, segundo estimativa de Will Durant), tentativas de reformar o ensino e a educação e estimulá-los, promovê-los e oferecê-los de modo igualitário e eficaz para todos foram feitas por homens como o bispo da Confraria da Morávia, João Comenius, o qual expressou seu projeto pedagógico em sua obra Didactica Magna (1632). Segundo Comenius, a educação deveria passar por um primeiro nível elementar e universal, no qual toda aldeia deveria possuir uma escola, toda cidade um colégio e toda província uma universidade, não sendo proibido o acesso às mulheres. Caberia ao Estado separar os que se mostrassem capazes de ingressar no ensino superior e investir neles com dedicação. Em segundo lugar a educação deveria ser realista, sempre mantendo as idéias em contato com a realidade, os objetos, a natureza, sendo as palavras aprendidas por meio dos sentidos (tato, visão, olfato, audição e paladar), passando depois para o estudo da gramática. Terceiro, a educação também deveria ser física, mantendo as crianças na prática de exercícios regulares que visassem à saúde e ao vigor do corpo. Em quarto lugar a educação, segundo o referido bispo, necessitava ser prática, acompanhada de ações que externassem o aprendizado a fim de que este não permanecesse enclausurado no conhecimento adquirido. Em quinto lugar as instituições de ensino teriam que ensinar cada vez mais matérias a medida que o estudante fosse atingindo idade maior; escolas de pesquisas científicas deveriam ser criadas em toda cidade ou província. Por fim, toda a educação deveria ter como finalidade última aperfeiçoar o caráter e a religiosidade do indivíduo, o que contribuiria para a ordem e a felicidade no Estado.
Esforços foram realizados, nesse sentido, na Alemanha a fim de criar escolas elementares em todas as aldeias. As escolas secundárias eram ainda vedadas às mulheres, mas multiplicaram-se e melhoraram. Abriram-se, nessa época, vinte e duas novas universidades[34]. É interessante destacar o prestígio de que gozavam os professores universitários e a confortável posição social que ocupavam em Oxford, na Inglaterra, em detrimento da lastimável situação dos da Alemanha, que tinham que vender cerveja e vinho para sobreviver.
As universidades espanholas, por sua vez, sofreram declínio depois de Felipe II, o que se acentuou com a Inquisição. Já os holandeses prosperaram e organizaram seis universidades nesse período. Em quase todas essas instituições de ensino exigia-se que os estudantes e professores seguissem a religião oficial do Estado e a Igreja limitava bastante a liberdade das academias, pelo que o gênio inventivo tendia a desaparecer das universidades e, como já foi dito, migrar para academias particulares e iniciativas próprias de estudo fora das instituições oficiais. Exemplo disso foi a fundação em Roma, no ano de 1603, da Academia dos Olhos de Lince e outras sociedades similares na Inglaterra, França e Alemanha. O grande desenvolvimento científico dos séculos XVI e XVII deu-se, pois, no interior dessas academias e faculdades.
Diversos estudiosos foram responsáveis pela criação de novos instrumentos cada vez mais sofisticados que favoreceram outras pesquisas e observações, tanto macroscópicas como microscópicas. Telescópios, microscópios, termômetros, barômetros, hidrômetros, melhores relógios, balanças mais delicadas, cada um desses equipamentos foi aparecendo paulatinamente. A invenção do microscópio, em particular, revolucionou a Biologia, pois permitiu o estudo mais minucioso das células e bactérias e o efeito destas últimas no ser humano e em plantas e animais. O telescópio ampliou a visão dos céus e seu constante aperfeiçoamento foi a causa de observações e cálculos detalhados que culminaram com a elaboração de novas teorias as quais foram de encontro com a doutrina oficial da Igreja Católica Romana, a de que a Terra seria o centro do universo e para onde tudo convergia. Por causa disso, foi Nicolau Copérnico estigmatizado e suas obras condenadas pelo Santo Ofício e censuradas pelo Index. Galileu também não escapou dos tentáculos da Inquisição, tendo enfrentado duros processos até sua velhice.
A matemática era, agora, o objetivo e o instrumento necessários a todas as demais ciências. Sobre ela, assim se referiu Galileu:

A filosofia acha-se escrita neste grande livro do universo, que permanece continuamente aberto para nossa contemplação. O livro, porém, não poderá ser compreendido a menos que aprendamos, em primeiro lugar, a língua e leiamos as letras nas quais está composto. Está escrito na linguagem da matemática[35].

A ciência começou a se libertar de sua placenta, a filosofia aristotélica. Virou o rosto à metafísica e voltou-se para a natureza, criando métodos próprios e tratando de melhorar a qualidade da vida do homem na terra. Matemática, Física, Biologia, Medicina, Química, Geografia, Botânica, Zoologia e outros ramos do conhecimento foram se aperfeiçoando notavelmente. Multiplicavam-se as invenções à medida que a indústria crescia, pois eram elas, freqüentemente, menos devidas às pesquisas dos cientistas que à habilidade de artífices ansiosos em economizar tempo. A Geografia progrediu à medida que missionários, exploradores e mercadores se esforçavam por estender sua fé, seus conhecimentos ou suas vendas. Os cartógrafos esforçaram-se para não ficar muito atrás dos exploradores. Gerardus Mercator estudou em Louvain e lá criou uma oficina para fazer mapas, instrumentos científicos e globos celestes.
Os herbários particulares dos médicos iam-se, então, transformando em jardins botânicos públicos, mantidos pelas Universidades ou pelos governos. A Zoologia recebeu menos atenção que a Botânica, pois oferecia poucas curas. Na luta contra a enfermidade e a dor, opunham-se muitos inimigos do homem moderno, tais como a falta de higiene pessoal e saneamento básico, os místicos “científicos”, dissolventes de pedras da bexiga, “especialistas” em tratamento de cataratas, arrancadores de dentes, etc. Novas doenças apostavam corrida com novos processos de cura. O ensino médico começava a assumir uma forma mais rigorosa, embora ainda se pudesse exercer a medicina sem diploma. Bolonha, Pádua, Basiléia, Leiden, Montpellier e Paris possuíam escolas famosas que atraíam estudantes de toda a Europa Ocidental. Certas especialidades de remédios eram bastante caras e o povo, no século XVII, queixava-se mais dos preços cobrados pelos farmacêuticos que das contas dos médicos.
O desenvolvimento crescente da astronomia provocou, como já foi dito, uma manifestação de indignação por parte da Igreja Católica. A principal de todas as questões residia na teoria heliocêntrica formulada por Copérnico e defendida e ainda mais fundamentada por Galileu. Tal teoria ia de encontro direto com a teoria geocêntrica defendida por Roma. Nas palavras de Will Durant:

Que aconteceria com a crença fundamental dos cristãos em que Deus havia escolhido a terra para Sua morada humana – esta terra ficando agora destituída de sua primazia e dignidade, deixada livre entre planetas muitas vezes maiores que ela e entre uma infinidade de estrelas? [36].

As universidades e academias foram os palcos nos quais essas tramas científicas aconteceram. O desenvolvimento dessas instituições de ensino superior causou rupturas ainda maiores que aquelas iniciadas com o humanismo dos séculos XIV e XV.

AS IDAS E VINDAS DO PRESTÍGIO UNIVERSITÁRIO NA EUROPA MODERNA

Durante um considerável espaço de tempo, as universidades da época moderna, aparentemente, perderam o status de centros de criação e produção de conhecimento e cultura. Aliás, de acordo com Ricardo Rossato[37], as universidades não constituíam a única forma de ensino. Contudo tal desvalorização, em hipótese alguma, significou a impossibilidade de fundação de novas instituições de ensino superior universitário, sobretudo na Espanha, na Itália e na França. É bem verdade que esses novos espaços eram, em estrutura e excelência, bem inferiores aos templos do saber medievais.
Quanto a um certo movimento de multiplicação das universidades, devemos destacar que a desconfiança – muito provavelmente gerada pelo medo do novo, que, em certas instâncias, transgride e assusta – dos governos e também das elites burguesas de grandes capitais, tanto políticas quanto econômicas, como Londres, Amsterdã, Bruxelas, Lyon, Madri, Milão, São Petersburgo, atuou no sentido de repelir, ou mesmo demover, as idéias de instalações universitárias nas mencionadas cidades. A referida multiplicação das universidades é explicada tanto pelo cisma religioso, fomentado pelas Reformas do século XVI, quanto pelo advento e ereção dos Estados Nacionais, ou dos principados territoriais, no caso da Alemanha e da Itália.
Nesse sentido, é válido enfatizar que a evolução institucional das universidades, em contrapartida, conferiu-lhes a perda de sua autonomia, visto que estas, na modernidade, passaram a sofrer, paulatinamente, um controle mais estrito por parte dos poderes políticos. Apesar disso, as instituições mais antigas e importantes mantiveram relativa autonomia. Indicam Christophe Charle e Jacques Verger que, “a interferência do Estado nas universidades foi facilitada pelo fato de este tomar cada vez mais para si os salários dos regentes e a construção dos prédios, algumas vezes suntuosos”[38].
Há de se notar que o supramencionado crescimento dos centros de ensino superior se dá, fundamentalmente, nas faculdades de Direito e Medicina, uma vez que as de Teologia, em virtude da forte laicização posta em voga pela Ilustração, parecem ter recuado nessa época.
Um outro ponto interessante para debates é a existência, em dado momento, mais especificamente ao longo do século XVII, de universidades cujas cobranças de proficiência de seus alunos mostram-se muito abaixo do mínimo tolerável por uma academia de qualidade. A procura por um doutorado fácil – aliás, como ainda hoje, lamentavelmente, ocorre, inclusive no Brasil – de fato existiu; no entanto, felizmente, tais atitudes, dignas de reprovação, não predominaram, tendo em vista que relativamente poucas faculdades se prestavam à tamanha falta de compromisso, e mesmo de recusa à improbidade epistemológica.
Esse crescimento não apenas em qualidade, mas também em quantidade – e neste caso, entenda-se inchaço – dos centros de formação superior denotou o ressurgimento ou a recuperação do prestígio dessas instituições. Esse novo fôlego das universidades, alcançado ainda na modernidade, pode muito bem ser corroborado quando analisamos os seguintes apontamentos acerca da gradual mudança da origem social dos estudantes a partir do século XVI: “[…] a chegada à universidade de uma proporção considerável de jovens nobres, da pequena, média ou mesmo alta nobreza”[39].
E tal citação só parece pertinente quando ressaltamos que desde as universidades medievais até o século XVI uma significativa parcela dos estudantes universitários era composta pelos chamados filhos dos “plebeus”, ou seja, filhos de camponeses ricos, artesãos, comerciantes e barbeiros, entre outros. Em Oxford, por exemplo, mais da metade do corpo discente era composta por estudantes de origens humildes.
Entretanto desde o século XVI até o século XVIII notamos um substancial aumento da população universitária, proveniente das elites, que progride de modo inversamente proporcional à diminuição do contingente dos “plebeus”. Por sinal, é conveniente sublinharmos que também vão se dilatar as funções e encargos totalmente vetados aos não-graduados e monopolizados pelas classes altas da sociedade, cujos membros mais parecem criar verdadeiras dinastias em torno de seus postos, já que as sucessões a determinados postos são semi-hereditárias.
Nesse sentido, a partir do século XVII, há denúncias quanto a um “excesso” de diplomados na Europa. O interessante é que quadro semelhante a este se configurou no Brasil do século XIX, chegando tal prática a ser denunciada pelo que Sérgio Buarque de Holanda [40] cognominou de “praga do bacharelismo”. Todavia devemos lembrar certas práticas censuráveis como a parca assiduidade tanto por parte dos mestres quanto da parte dos alunos. Numa escala de comportamento ainda mais execrável, universidades como, por exemplo, as de Avignon, Orange, Orléans, Nantes e Reims chegavam a comercializar graduações.

A fraude revestia-se de múltiplas formas […] [chegando ao ponto de] determinados abusos [serem] algumas vezes sancionados […]. As dispensas de todo tipo eram facilmente concedidas. O próprio Estado resignava-se a isso, e tanto que, em 1682, autorizou os alunos de Direito com mais de 24 anos, ‘em virtude da idade, a conseguir licença em seis meses, ao invés dos cinco anos exigidos[41].

Tais práticas evidenciam o quase nenhum compromisso com a formação profissional dos estudantes universitários por parte de algumas instituições, o que nos leva a acreditar que a verdadeira aprendizagem fosse conquistada fora da universidade, com a prática do ofício no limiar da carreira.
Voltando à análise da Europa moderna, entendemos que os certificados de conclusão de curso passavam a assegurar e representar para o graduado, ou graduando, nada mais do que seu acesso a um status socialmente apreciado e reconhecido. Isso vai gerar, no fim do chamado Antigo Regime, a “crise da universidade”.
No entanto talvez a crise mais forte e mais evidente nas universidades tenha se formado, a partir do século XVI, em torno dos seus conteúdos e ensinamentos, que foram apontados por muitos como ultrapassados. Baseando-se nas sumidades medievais da Filosofia, do Direito, da Medicina, por exemplo, a maioria dos centros de ensino superior da Europa, por algum tempo, marginalizavam os avanços de Descartes e Newton, entre outros.
Porém devemos considerar as faustas exceções como a grande parte das universidades italianas, que, desde meados do século XVI, passaram a acatar as contribuições do Humanismo. Da mesma forma, identificamos nos centros de Artes ingleses e franceses a assimilação – entre o fim do século XVII e o limiar do século XVIII – das idéias de Locke, Newton ou Descartes. Contudo é fato que nas faculdades de Direito e Teologia, muitas vezes administradas pelos governos e pelas igrejas, prezou-se pelo conservadorismo, que, por conseguinte, acarretou sérias restrições aos arrojos da modernidade.
Com relação ao Humanismo, que, assim como as universidades, originou-se na Itália, devemos lembrar que este

[…] se expandiu por toda a Europa ocidental, servindo para acalmar em parte o mal-estar dos intelectuais; porém, as universidades mais antigas, presas a quadros extremamente rígidos, foram as que mais resistiram a esse espírito novo […] Seria preciso tempo […] para que o Humanismo acabasse por forçar as portas das grandes universidades [42].

Mas nessa trajetória houve fortes resistências que geraram muitas conseqüências negativas para a universidade, já que, em uma primeira etapa, a referida instituição ficaria muito empobrecida, e os centros de ensino superior formados entre os séculos XVI e XVIII não desfrutariam de grandes conceitos e prestígios, conforme teria indicado Rossato. E tal situação caminhou a ponto de, em dado momento, filósofos do porte de Leibniz, colocarem em dúvida a própria existência da universidade; na Espanha de Carlos IV esses centros de ensino foram dissolvidos e na França pós-revolucionária, em 1793, a Convenção “aboliu as universidades sob o pretexto de que representavam a aristocracia”[43].
Apenas no século XIX a universidade reencontraria seu espaço, evidentemente, mediante a aceitação de mudanças e reformas mais que necessárias, as quais ocorreriam na universidade na Europa.






CONCLUSÃO



O fenômeno universitário, assim, tem as suas raízes no que se chamou de Idade Média, mas continua a produzir os seus frutos na Modernidade e vem se perpetuando como um espaço não só de ensino, mas também de produção de conhecimento. Muitas das Universidades surgidas ao longo do final da Idade Média atualmente são centros de excelência, possuindo um rigor científico extraordinário e preservando muitas das suas tradições e valorizando a sua história.
Paralelamente, ao se estudar o papel das Universidades, as necessidades político-culturais exigidas pela sociedade não podem ser negligenciadas, pois o saber construído reflete as percepções que alguns homens possuem do meio em que vivem, adquirindo tal conhecimento para utilizá-lo de acordo com suas conveniências. Como conseqüência, o estudo das Universidades nos Tempos Modernos é de grande importância para se entender exatamente os motivos que promoveram certo obscurantismo destas instituições, para que em períodos posteriores a mesma adquira o status que conseguiu atingir nos dias atuais; ao mesmo tempo, analisa-se de que forma o conhecimento produzido é recebido pela sociedade em geral: a partir da Idade Moderna, a Universidade é privilegio para poucos, perdendo, de certa forma, o caráter ao qual se propôs a fazer (sob influência da pedagogia cristã da Idade Média): universalização do conhecimento com a finalidade de crescimento espiritual (e no nosso caso, também social e individual). É a partir de tal análise que podemos entender o processo histórico que culminou no papel que a Universidade detém nos dias atuais: ascensão social, aquisição de conhecimentos científicos e novas perspectivas para o futuro; processo aquele que pode ser útil para posterior reformulação do que realmente significa o termo Universidade num contexto social mais apropriado.



ANEXO A


DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMENTO**

Clóvis Cavalcanti


Qual a diferença entre desenvolvimento e subdesenvolvimento? Os economistas falam em renda per capita. Mas essa é uma visão discutível. Melhor parece ser comparar estilos de vida, níveis de civilização. Mestre Nelson Saldanha, sempre arguto, em lúcido artigo aqui no Diário no dia 5.3.08 trata da questão: “Nenhuma nação se desenvolveu sem uma base cultural sólida, e isto inclui o saber universitário, o nível de aprendizado (nos vários escalões) e o conteúdo ‘cultural’ geral [...]. Subdesenvolvimento é sinônimo de baixo nível de exigências; e a cultura, que é um processo cumulativo, progride por conta de exigências crescentes”. Pude perceber mais uma vez a verdade desse raciocínio passando a Semana Santa em visita a meu filho Tiago, em Cambridge, Inglaterra, onde ele, como professor efetivo, ensina economia (sua mulher, Juliana é professora visitante). Uma das cinco melhores universidades do planeta, Cambridge tem mais nomes premiados com o Nobel do que toda a Alemanha ou França. É claro que toda essa gente vai para lá atraída pelo ambiente ímpar que a instituição oferece. Ambiente de “exigências crescentes”, como a do silêncio para o bom desenrolar da atividade acadêmica. Enquanto isso, na UFPE, o professor tem que ser rigoroso para que, na sala de aula, os alunos mantenham algum silêncio, sem contar barulhos de corredor, de carros de som nas proximidades, de obras em andamento...
Entristece perceber esses contrastes, sobretudo porque a cultura “é um processo cumulativo”. São muitas coisas que convergem para qualificar o ambiente. Na Quinta-Feira Santa, almocei no vetusto e belo St. John`s College, o que pertenceu o pai da economia moderna, Alfred Marshall, convidado por um fellow de lá – e um dos principais nomes da economia do meio ambiente da atualidade, o professor Sir Parthas Dasgupta. Na maioria dos colleges, aliás, era impressionante a programação da Semana Santa deste ano: concertos, música sacra, oratórios, recitais, além, claro, dos serviços religiosos. Andas pela Universidade de Cambridge, em si mesmo, é uma experiência enriquecedora. Aliás, nela se anda muito, pois os espaços para carros são limitados. E isso é muito bom. Por todo lado, impressionam os gramados verdes bem cuidados, os prédios de linda arquitetura, a conservação dos espaços (que diferença de Olinda). Não existem letreiros bregas nem de mau-gosto em lugar nenhum. Na cidade de Cambridge e arredores, na verdade, não há qualquer outdoor, o que enriquece sobremodo a paisagem e mostra a inutilidade desse instrumento da publicidade que tanto enfeia o Brasil, o Recife, Olinda.
Bem diferente do que acontece na UFPE, os alunos em Cambridge não faltam às aulas – nem tampouco os professores. Estes, com antecedência, enviam por e-mail o roteiro das aulas aos estudantes. A prática é obrigatória.
Aliás, faço isso também, espontaneamente, desde que voltei a dar aulas, em 2004, como bem o sabem meus alunos na UFPE. Os professores de Cambridge são obrigados a escrever exercícios (provas) com muita antecedência e a entregá-los, com a resolução das questões, à chefia do departamento. Uma prova não tem que ser corrigida pelo mesmo professor que a confeccionou. Outra característica de Cambridge é que, quando o professor chega à aula (o que deve fazer pontualmente), os alunos já estão lá sentados a sua espera (ah! O brail!). Cada aula dura 50 minutos e os alunos não a interrompem. Nos colleges, os professores orientam os estudantes de sua área, mesmo nas disciplinas que não lecionam. E passam exercícios, que não valem nota, mas que os alunos fazem com a maior seriedade, procurando o melhor desempenho possível. O trabalho torna-se grande, mas o ano letivo termina ficando leve porque é dividido em três trimestres e não dois semestres. O trimestre de outubro a dezembro tem 8 semanas de aulas; o de janeiro a março, também; o de abril a junho, apenas 4 semanas. Ou seja, 20 semanas de aula, com férias de junho a setembro (há um trimestre de verão, de junho a agosto, não obrigatório.
Que esse sistema funciona de modo perfeito se percebe do respeito de que Cambridge desfruta no mundo inteiro. Quem não gostaria de estudar ali? Quem não teria todos os motivos para se sentir honrado ao ser selecionado para integrar o corpo docente de Cambridge? Aliás, em 1973, estive pela primeira vez nessa universidade para fazer uma visita a Celso Furtado, que nela era então professor visitante. Voltei agora lá para encontrar meu filho Tiago e minha nora Juliana na condição de docentes da mesma instituição.




















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Atribui-se a origem do termo Idade Média (Medio Evo) a Flávio Biondo (1392-1463), historiador italiano da época renascentista, sendo usado depois por Cellarius.
[2] VERGER, Jacques. Les Gens de Savoir dans l`Europe de la fin du Moyen Age. Paris: PUF, 1997.
[3] LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. 4ª ed. São Paulo: brasiliense, 1995.
[4] VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. P. 30.
[5] DE LIBERA, Alain. A Filosofia Medieval. 2ª.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. P. 368.
[6] Considerando que para tanto era preciso ter a idade mínima de 35 anos e que os estudos das artes liberais começavam aos seis anos.
[7] LE GOFF, Jacques. Op Cit. p. 8.
[8] Esse universalismo se refere tanto às diversas origens dos estudantes e professores universitários quanto ao conhecimento que era almejado, de caráter universal.
[9] LE GOFF, Jacques. Op. Cit. P. 60.
[10] Le Goff, dentre outros casos, cita o do enforcamento de dois estudantes em Oxford, por burgueses exasperados. Pág. 62.
[11] VERGER In LE GOFF;SCHMITT, 2006, p.576.
[12] VERGER, 2001, pp.183-184.
[13] ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

[14] LE GOFF, J. Intelectuais na Idade Média. 2006, p.93.
[15] Segundo Le Goff, a disputatio teria sido uma mudança da quaestio, a qual no século XIII se sobrepõe mesmo inteiramente ao texto. Antes a quaestio estava intrinsecamente vinculada ao texto (obra de um clássico ou o seu respectivo comentário). Havia ainda a quodlibet, uma disputatio que poderia se desenvolver a partir de uma quaestio feita por qualquer universitário. Tratava-se de um evento especial que reunia muitos estudantes e mestres e poderiam durar semanas.
[16] Procurando facilitar o acesso ao livro, as universidades estimulavam o sistema do exemplar e da pecia que permitia verificar a qualidade dos textos postos em circulação e facilitar o uso por vários copistas de um mesmo exemplar dividido em cadernos (pecia) separados.
[17] Privilégio conquistado já no começo do século XIII.
[18] Já havia no século XII, conforme assevera Verger.
[19] VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. p. 36.
[20] CHIFFOLEAU In LE GOFF;SCHMITT, 2006, p.340.
[21] VERGER, J. Op. Cit. p. 34.
[22] Somente a partir do Século XIII é que a sacra pagina ou a sacra doctrina passou a ser conhecida como Teologia.
[23] VERGER, Jacques. Homens e Saber na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 1997. p. 48.
[24] Nesse aspecto, os trabalhos de Verger são bem elucidativos.
[25] DELUMEAU, Jean. A Civilização do Renascimento. 2 vols. Lisboa: Estampa, 1994. p. 298.
[26] ROSSATO, Ricardo. Universidade: nove séculos de história. Passo Fundo: Ediupf, 1998.

[27] DELUMEAU, J. Op. Cit. Pág. 68.
[28] CHARLE, C.; VERGER, J. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. Pág. 44.
[29] DURANT, Will. História da Civilização: A Reforma. 6° Parte, Tomo III. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.

[30] EBY, Frederick. História da Educação Moderna: Teoria, Organização e Práticas Educacionais. Porto Alegre: Globo, 1976. p. 75.
[31] CHARLE, C.; VERGER, J. Op. Cit. p. 44.
[32] DELUMEAU, J. Op. Cit. p. 72.
[33] DURANT, Will. História da Civilização. 7ª p., t. III. Companhia Editora Nacional: São Paulo, 1964. p. 199.

[34] Jena (1558), Genebra (1559), Lille (1562), Estrasbrugo (1567), Leiden (1575), Helmstedet (1575), Wilno (1578), Würzburg (1582), Edinburg (1583), Franeker (1585), Graz (1596), Dublin (1591), Lublin (1596), Harderwijk (1600), Giessen (1607), Groninga (1614), Amsterdã (1632), Dorpat (1632), Budapest (1635), Utrecht (1636), Turku (1640), Bambert (1648).
[35] GALILEU apud DURANT, Op. Cit. p. 210.
[36] DURANT, W. Op Cit., p. 237.
[37] ROSSATO, Ricardo. Universidade: nove séculos de história. Passo Fundo: Ediupf, 1998.
[38] CHARLE, Christophe, VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. p. 45.

[39] CHARLE, C.; VERGER, J. Op Cit. p. 52.
[40] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1939.
[41] CHARLE, C. VERGER, J. Op Cit., pp. 60-61.
[42] ROSSATO, R. Op. Cit, p. 44.
[43] ROSSATO, R. Op.Cit., p. 55.
* Economista e pesquisador social.

Um comentário:

cleiton disse...

gostaria de parabenizar o prof: Biu Vicente pela seu estudo e resumo sobre o surgimento e desenvolvimento das universidades. como estudante de teologia tive bom proveito destes textos para uma melhor explanação da minha monografia, que tem como objetivo estudar o papel das universidades, e dos homens de saber na reforma protestante.agradeço pelos esclarecimentos.
Cleiton Friedrich.
bacharel em Teologia.