quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O Livro de Tombo da Parochia de S.S. Coração Eucharistico de Jeus no Bairro do Espinheiro

O trabalho que lerão é um interessante depoimento sobre as dificuldades que os pesquisadores da história da Igreja estão encontrando atualmente: os vigários e parócos não estão atentos a uma de sua tarefas: a manutenção do Livro de Tombo. Essa exigencia disciplinar canônica vem sendo deixada de lado pelos responsáveis das paróquias. Estejamos atentos a essa questão, como também a guarda das informações nas muitas insitiuições que atendem a população.




UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO SÉCULO XX

Disciplina: A Igreja Católica no Século XX
Professor: Severino Vicente da Silva
Aluno: Paulo Henrique Cadena


O LIVRO DE TOMBO DA PAOCHIA DO S.S. CORAÇÃO EUCHARISTICO DE JESUS NO BAIRRO DO ESPINHEIRO


Paulo Henrique Cadena



Falas e silêncios da documentação paroquial

1.Introdução

Observando o verbete tombar do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, temos a seguinte definição: Fazer o tombo de; inventariar; arrolar; registrar. Assim, podemos tomar por “Livro de Tombo”, a semelhança de Livro de Registros. Pensando em uma paróquia, deveriam estar inscritos nestas páginas os atos da instituição local, pelas mãos de seus administradores. Decreto de Ereção, construção do templo, Exortações, balanço econômico, festividades, falecimento de eclesiásticos, chegada do novo pároco, atas, visitas do Arcebispo, notas de Encíclicas, morte do papa: inscritos no Livro de Tombo. Mas, por quem?
Esta pergunta, no concernente à Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus é difícil de responder. O Livro de Tombo que nos fora apresentado, detém em suas amareladas 210 páginas os anos compreendidos entre 1941 e 1961, portanto, vinte anos de registros. Contudo, são três os sacerdotes correspondentes a essa Paróquia, e mais de seis os tipos de letra testemunhando os fatos documentados.
O padre Silvino Guedes (o qual apresenta grafia por Sylvino ou Silvino em mais de três vezes no livro), pelo que notamos, apenas assinava o Livro. A assinatura diverge em muito do testemunho das páginas de relato. Falecerá em 1950, dando início a uma nova administração do padre Osvaldo Gomes Machado, que hora apresenta a sua mesma letra de assinatura e hora diverge. Em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa assume como pároco ecônomo. Sua letra não vai diferenciar-se da mesma da assinatura até o ano de 1961: último registro do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro. Portanto, não sabemos de quem eram as mãos que registravam os passos da Igreja do Espinheiro, como também não sabemos se há um outro livro que compreenda os espaços entre 1961 – 1999, quando chega o frei Geraldo Araújo, da Ordem Carmelita, para assumir o espaço deixado por padre Arnaldo de Sousa. Sabemos, de certo, a existência de um sendo escrito com os relatos desde 1999, mas não por obra do religioso, mas, pelas mãos de uma paroquiana. Seria também essa resposta às letras divergentes do padre Silvino? Algum paroquiano tomava a sua função de pároco nos registros? Isso não podemos afirmar.
Não pretendemos com esse trabalho escrever uma história da Igreja do Espinheiro. Longe de nós. Nossas pesquisas apenas se restringem aos anos de 1941 a 1961, distribuídos neste Livro de Tombo que nos fora apresentado. Tentaremos, portanto, tomar notas de alguns dados desses registros, como Exortações Apostólicas do senhor Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde durante a Segunda Grande Guerra: alguém tomara o cuidado de copiar tais textos.
Os anos de 1960 para Igreja Católica no Brasil e no mundo foram de grande valor. E porque não foram registrados no Livro de Tombo da Paróquia do Espinheiro? Ou tivera e são guardados sob as voltas de sete chaves? Concílio Vaticano II, chegada de D. Hélder Câmara como Arcebispo de Olinda e Recife, eleição de Paulo VI, período ditatorial. Valoroso de registros seria o velório do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, no ano de 1969, ocorrido nesta Paróquia.
Deixemos, então, as palavras falarem delas próprias e os silêncios retumbarem no infinito. Ecoem e deixem suas marcas nas profundezas da História. Também o silêncio registra, fala.
Então, teremos por obra apresentar esse Livro de Tombo, pleno de silêncios e marcas. Cheio de traços de mãos múltiplas que acordam em um mesmo sentido: registrar o que viram, leram e ouviram. Omitir o que lhes compraz.

2. Os Arcebispos de Olinda e Recife entre os anos de 1941 e 1961: alguns pontos ligados aos registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus

Entre os anos de 1941 e 1961, foram três os Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife: D. Miguel de Lima Valverde (1922 – 1951), D. Antônio de Almeida Morais Júnior (1951 – 1960) e D. Carlos Gouveia Coelho (1960 – 1964).
D. Miguel de Lima Valverde fora sagrado bispo em 1911 e em 14 de fevereiro de 1922, pela bula Hodie Nos, do papa Pio XI, fora designado para o Arcebispado de Olinda e Recife, onde tomou posse em julho de 1922 .
Durante seu arcebispado, manifestou-se politicamente.
Seus pronunciamentos foram sempre no diapasão da ordem e da defesa das instituições, evitando qualquer palavra de apoio a movimentos que contestassem o status quo. Sempre reconheceu as mudanças após elas estarem estabelecidas.

Entre os anos de 1925 e 1949, D. Miguel Valverde estabeleceu 19 novas paróquias na Arquidiocese de Olinda e Recife, acompanhando o movimento populacional da diocese, como orientara o Código de Direito Canônico e o Concílio de Trento . Observemos, então, um fragmento do Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus que confirma essa informação dada na obra do Dr. Severino Vicente da Silva:
O crescimento das cidades e o augmento da população costumam criar novos e serios problemas no tocante à cura das almas exigindo não raro a criação de um novo centro parochial, donde mais facilmente se possa irradiar a acção do Pastor. E ninguém ignora ser este o caso do bairro do Espinheiro nesta cidade do Recife, que desde algum tempo está reclamando a assistência de um Parocho próprio.

Silva ainda expõe as ações de patriotismo ufanista do Arcebispo. Havia a colaboração entre a Igreja e o Estado Novo, em especial ao interventor em Pernambuco, Agamenon Magalhães, homem de confiança de D. Miguel de Lima Valverde. Quando do II Congresso Eucarístico Nacional, em setembro de 1939, os governantes deram o seu auxilio. O prefeito do Recife, Augusto Novais, fez construir o Parque Treze de Maio para o evento . Vejamos o que diz o Arcebispo no Decreto de Ereção Canônica da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus:
O Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães, muito digno Interventor Federal, nem um só momento deixou de prestigiar a obra do Congresso. Providencias acertadas, auxílios oportunos, empenho decidido, nada faltou de sua parte. É que Deus sabe dispor todas as coisas com força e suavidade, para atingir os seus fins. Assim, deu ao Ilustre Interventor Federal um interprete e executor inteligente e fidelíssimo do seu pensamento e de suas ordens, na pessoa do grande Prefeito do Recife, o Sr. Dr. Antonio de Novais Filho. Na consciência do povo está a convicção de que ao esforço, ao carinho e à dedicação do dr. Novais Filho se deve a grandiosidade do Congresso Eucarístico do Recife.

D. Miguel Valverde explicitava a união existente entre o sentimento de patriotismo e o amor ao Brasil com os ideais católicos. O sentimento de religioso patriotismo viria entrelaçado por uma solicitação de obediência às leis. Também pregava contra o Comunismo, seguindo o ensinamento dos papas. A mentalidade demonstrava os males sociais como castigos divinos. Vejamos, então, alguns trechos das Exortações Apostólicas compostas por este Arcebispo:
Qual seja a verdadeira causa da guerra atual, deshumana e total, outra não pode ser senão o pecado, que põe a desordem e o desconcerto nas almas, separando o homem de Deus, a criatura do seu Criador. (...) O materialismo, sob todas suas formas e modalidades invadiu a face da terra, e nós, nem mesmo os que habitam os rincões mais inacessíveis dos nossos sertões, não ficamos livres do contágio. A verdade é que o mundo estava materializado, laicizado, paganizado. Alguns chegaram a negar loucamente a existência da Divindade e formar partido para o fim de arrancarem do coração do homem a crença essencial em um Deus Criador e Soberano Senhor de todas as cousas. Tanto excesso de pecado estava pedindo um corretivo, e ele aí está. É a obra do pecado. (Exortação Quaresmal de 1943 – 10 de março de 1943 – Quarta Feira de Cinzas)

Entrados em beligerância teremos de dar tudo pela vitória das Nações Reunidas. As conseqüências desse colossal conflito nos atingiram em cheio, sobretudo sob a forma da carestia de vida, numa escala de sofrimentos como nunca jamais ninguém experimentou em terras do Brasil. Esta guerra é bem o flagelo de Deus e com que o mesmo Senhor se vinga das nações previcatórias, punindo-as e depurando, para dar-lhes em seguida a paz na justiça. (...) Só Deus poderá dar-nos a vitória sobre os nossos inimigos. Temos de merece-la de alguma sorte, pela conformação da nossa vontade com a vontade de Deus, tanto na vida publica como na nossa vida privada e domestica. (Exortação Quaresmal do Exmo Sr. Arcebispo ao clero e aos fiéis da Arquidiocese - 23 de fevereiro de 1944)

Todos nós andamos sujeitos a continuas restrições, privações e renuncias. São as conseqüências inevitáveis da guerra. Temos que sofrê-las, e muito se iludem os que se comprasem com a situação atual, pelos grandes proventos que dela estão auferindo. Grandes sacrifícios terão que fazer em futuro bem próximo. Ninguém sabe como vai ser o fim desse cruentissimo sacrifício. Quas dicansados com os horrores de uma guerra que tudo destrói e convulsiona há mais de cinco anos, suspiramos pela pas. E a pas virá no momento marcado pela Providência. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 14 de fevereiro de 1945)

A curiosidade, o sentimentalismo, a ignorância da doutrina cristã, o gosto de novidades levam não poucos, a aceitar, de olhos fechados, as delirantes extravagâncias do espiritismo. (...) Numa campanha astuta e insidiosa, propala-se adrede, entre o nosso povo simples e sem cultura suficiente para discernir a serpente que se oculta por baixo da folhagem verdosa, propula-se, repetimos, que o Comunismo nada tem contra a religião e tão somente procura melhorar, em futuro próximo, as precárias condições de vida do nosso povo pobre e sofredor. As promessas são sedutoras. (...) Saibam todos que o Comunismo é a quinta essência do materialismo. Para ele a única realidade existente é a matéria. (Exortação Quaresmal do Exmo. Sr. Arcebispo – 6 de março de 1946)

Nesses fragmentos das Exortações Apostólicas dos anos de 1943 a 1946, vemos surgirem assuntos diversos. As três primeiras trazem a Segunda Grande Guerra advinda do pecado dos homens. É a vingança de Deus para com as nações que vêm se paganizando. Lembra o discurso da Igreja medieval, onde o pecado era a causa de todos os males. Pregará contra as modernidades, espiritismo; em outras partes, contra o Comunismo.
A pregação anticomunista não era nova. Já com Leão XIII ela não era uma inovação. Era a continuidade do pensamento de Pio IX, condenatório do mundo gerado pelo progresso técnico científico, que desde a sua carta Qui Pluribus, condenara os erros modernos, entre eles a fé em um progresso ilimitado . Pio XI, condena o comunismo em sua Encíclica de 19 de março de 1937, Divini Redemptoris. Vejamos um trecho:
A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos.

Que as multidões seduzidas por idéias falazes... se assemelha com As promessas são sedutoras . As duas falas são contra o Comunismo. A primeira expressão é de Pio XI; a segunda, de D. Miguel Valverde. Assim, podemos ver, que até nas palavras, o Arcebispo se enquadrava nos ensinamentos da Igreja. Fortalecia-se a corrente anticomunista na Igreja Católica e no mundo Ocidental. Pio XII continua a condenação ao marxismo .
D. Miguel Valverde tem longo arcebispado na Arquidiocese de Olinda e Recife, envolvendo-se com a política e demonstrando sempre a sua postura conservadora. Da sua morte, em 1951, assume então o bispo de Montes Claros, D. Antonio de Almeida Morais Júnior.
A partir de 1949, o Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus já não apresenta muitos dados, apenas algumas poucas notícias de balanços econômicos. Por conseguinte, não teremos muitos dados para confrontar com as informações publicadas.
D. Antonio de Almeida Morais Júnior, seguia, assim como D. Miguel Valverde, as indicações propostas pela Santa Sé: combatia as inovações modernas, defendendo os ensinamentos da Igreja na luta contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo . Contra esse último aspecto, já citamos a Exortação Quaresmal de 1946, onde D. Miguel Valverde também o combatia. Vai fazer frente aos comunistas que atuavam nas fábricas e na zona rural . Na eleição de 1955, o Arcebispo chama os católicos para não votarem em Pelópidas Silveira, apoiado pelos comunistas.
Esses dois Arcebispos de Olinda e Recife tiveram as suas posturas conservadoras. Entravam em conformação de interesses entre a Igreja e o Estado, aglutinando as forças conservadoras, pretendendo impedir os movimentos de inconformação social .
O Arcebispo seguinte a D. Antonio Almeida Morais Júnior, foi bispo de Nazaré da Mata, e em 1960, é designado Arcebispo de Olinda e Recife, onde falecerá em 1964. Esse foi D. Carlos Gouveia Coelho. Durante sua administração, foram criadas novas dioceses: Floresta, Afogados da Ingazeira e Palmares. Segundo Severino Vicente da Silva, teria sido a resposta da Igreja à influência dos partidos de esquerda nessas regiões, valendo lembrar que Palmares tinha o maior sindicato rural de Pernambuco .
Fora D. Carlos Coelho o criador, em 1961, do Serviço de Orientação Rural de Pernambuco, o SORPE. Ficara responsável por este serviço o padre Paulo Crespo .
O Arcebispo de que tratamos, também não via a possibilidade do comunismo ser aceito por uma consciência cristã. Ele falece em 1964, decorrente de problemas operatórios .
Falamos, então, dos três Arcebispos os quais contempla o tempo registrado no Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Notamos que durante o arcebispado de D. Antonio de Almeida Morais Junior e D. Carlos Coelho, muito pouco foi escrito, dando conta apenas de assuntos internos da paróquia. Desde de 1947 não são mais registradas as Exortações Apostólicas, por isso, nos servimos da obra do Dr. Severino Vicente da Silva para nos auxiliar quase completamente no que concerne ao período, não trazendo dados do Livro de Tombo. Agora, veremos um pouco dos registros desse livro.


3. Os registros do Livro de Tombo da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um pouco da história contada nas páginas amareladas de um caderno.

Sabemos que muito mais poderia ter sido escrito naquelas páginas. Informações preciosas sobre a Arquidiocese de Olinda e Recife e a Santa Sé. Notas reveladoras da paróquia foram esquecidas ou omitidas pelas mãos dos escritores, que em tintas preta, vermelha e azul, escreveram as páginas hoje amareladas.
Um caderno de 210 páginas. Algumas em branco, com lacunas imensas. Talvez alguém pensou em voltar para aquele ponto, e nunca mais retornou. Esqueceu, lembrou, omitiu. O sacerdote e seu ofício divino não tiveram tempo para registrar o tempo dos homens. Devem ter vivido com total serenidade o tempo de Deus. Esqueceram que “o futuro a Deus pertence”, como dizem muitos, e esquecendo o futuro, esqueceram de registrar os fatos e feitos de seu presente-passado. Quem escreveu essas páginas não sabemos. Algumas delas foram, certamente, escritas por mãos ungidas, outras, talvez não. Mas vamos aos registros que ficaram: aqueles lembrados e não omitidos.
Tais registros tomam aspecto de cronologia. O ano de 1941, o primeiro do Livro de Tombo, é bem relatado. Ocupa quase 50 páginas, com cópias das escrituras de terrenos para a construção da Igreja, Decreto de Ereção Canônica, compras de materiais de construção, lista de pertences encontrados pelo padre Sylvino na Capela dos Aflitos, atas de posse do então pároco, doações diversas, notas de falecimento de sacerdotes, movimento religioso. Os documentos de escritura são os mais longos e os que ocupam a maior parte do livro, além das liberações da construção do edifício pela prefeitura. Vamos, então, tentar organizar algumas informações encontradas no documento.
O Decreto de Ereção Canônica da nova parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro, coloca que a mesma fora dedicada ao Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus a fim de ficar perpetuada a memória do III Congresso Eucarístico de Jesus Nacional, reunido no Recife em setembro de 1939. Esta é a única informação, ao lado da ajuda de Agamenon Magalhães e de Antonio de Novais Filho, que aparece sobre o Congresso.
Desmembrada das paróquias de Nossa Senhora da Graça e de Nossa Senhora de Belém da Encruzilhada, os limites da nova paróquia seriam:
Partindo da rua Fernandes Vieira no ponto onde começa a Avenida Montevidéo, segue pelo lado direito do Parque do Amorim em direção ao Entroncamento e a Avenida Rosa e Silva até encontrar a estrada de Água Fria, antiga estrada da Boiada; e por esta, sempre pelo lado direito, até a Avenida Norte, seguindo por esta Avenida em direção ao Recife até o caminho que leva a uma ponte sobre o Maduro; e subindo o curso desse rio até a boeira de João de Barros e dahi em linha recta até encontrar a Avenida Montevidéo, seguindo-a até o começo da mesma Avenida, ponto de partida.

De início, serviu por Igreja Matriz a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos, até que fosse concluída a construção da Igreja dedicada ao Coração Eucarístico de Jesus, cuja primeira pedra fora colocada à rua Conselheiro Portela, no Espinheiro. E assim, o arcebispo D. Miguel Valverde declarava aos 13 de janeiro de 1941: Declaramos inamovível a nova parochia do S.S Coração Eucharistico de Jesus no bairro do Espinheiro desta cidade.
O primeiro pároco, padre Sylvino Guedes , tomaria posse no dia 19 de janeiro do mesmo ano, sendo a cerimônia presidida pelo monsenhor Ambrósio Leite na matriz provisória dos Aflitos.
Em março de 1941, D. Miguel Valverde executa a instalação da Congregação da Doutrina Cristã na nova paróquia, e no mesmo mês, era escolhida a diretoria e as catequistas: as senhoras e senhoritas D. Maria Albertina de Siqueira, D. Maria da Glória Vanderlei, D. Alice Guedes. O Apostolado da Oração é instalado em 3 de outubro de 1941.
Aos 10 de dezembro de 1941, o então Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife transforma padre Sylvino Carneiro da Cunha Guedes em pároco inamovível do Espinheiro.
Depois de diversas páginas tratando da compra do terreno, escritura, e inicio das obras do novo templo, temos as informações do Movimento Religioso da Paróquia em 1941, primeiro ano de atividades:
Movimento Religioso da Paróquia em 1941
78 batizados
40 casamentos
54.868 comunhões
33 viáticos
46 confissões de enfermos
204 extremas unções
15 encomendações
20 óbitos registrados
7 crismas

Interessante é um dado de 1942, onde é registrado o enterro do cônego Benigno Lira, barbaramente assassinado, donde o féretro saíra da Matriz de Santo Antônio para a necrópole de Santo Amaro. Mais tarde, em 1969, teremos o velório do padre Antonio Henrique, assassinado, na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus: um dos grandes silêncios de um fato marcante para a Igreja e para a sociedade brasileira, que encontraremos na omissão de um possível segundo volume do Livro de Tombo dessa paróquia.
Em 1942, damos vista de um documento assinado no Rio de Janeiro por 17 bispos, dentre eles, D. Miguel, falando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. É interessante, por sua importância de conteúdo, tomarmos nota de alguns trechos do mesmo em nosso trabalho:
A guerra que há três anos assola nações e continentes destruindo e matando em proporções nunca vistas, acaba de envolver-nos nos vértices de sua voragem fatal. (...) Antes de tudo, disciplina e obediência ao Chefe de Governo, a quem a Providência confiou, nesta hora de tão pesadas responsabilidades aos destinos do Brasil. (...) Lembrem-se estes combatentes valorosos que, feito com intenção sobrenatural, o oferecimento da própria vida para salvar a vida e a liberdade de seus irmãos é um dos mais sublimes atos de caridade cristã. Com eles estarão as orações e gratidão de todo o Brasil. Pensamos ainda no sofrimento das mães e das esposas. Terna e carinhosa na santidade das afeições domésticas, a mulher brasileira soube ser também heróica nas horas trágicas da vida nacional. Que Deus lhes dê generosidade, grandeza de alma e dedicação inesgotável para corresponder nobremente à sua missão de sacrifício. O clero merece também um apelo muito sincero da nossa solicitude pastoral. O patriotismo acendrado e puro dos nossos sacerdotes é tradição ininterrupta na história do Brasil, e só poderia pôr em dúvida quem de todo desconhecesse. Continuai fiéis à honra e às obrigações desta digna tradição.

Aqui neste trabalho já falamos da questão do patriotismo em D. Miguel Valverde, o que neste texto confirma não ser apenas uma prática particular desse Arcebispo, mas dos Bispos do Brasil.
A partir de 1943 até 1946, a maior parte das páginas do Livro Tombo é ocupada pelas Exortações Quaresmais do Arcebispo de Olinda e Recife. Referimo-nos às mesmas no tópico anterior. A partir de 1947, o livro se torna bastante resumido, e nos anos de 1948 e 1949, as páginas encontram-se em branco, tomando apenas o cabeçalho de início do ano.
Em 1943, é celebrada a primeira missa de Natal na Matriz do Espinheiro por D. Miguel Valverde , estando a mesma ainda em construção, seguindo-se o mesmo ato nos anos conseqüentes.
O ano de 1947 apresenta uma breve notícia, mas de grande importância: Carta de Pio XII aos bispos sobre o Dogma da Assunção , e no Livro de Tombo está transcrito o texto.
Em 1950, o documento registra o falecimento do Cônego Silvino Guedes aos 19 de maio. Aos 14 de janeiro de 1951, assume o padre Osvaldo Gomes Machado como vigário ecônomo. Ainda neste ano, aos 7 de maio, ocorre a morte do Arcebispo D. Miguel de Lima Valverde .
Celebrou sua primeira missa na Matriz do Espinheiro, aos 8 de dezembro de 1951, o padre Arnaldo de Sousa, paroquiano. No ano seguinte, aos 14 de março, toma posse o novo Arcebispo D. Antônio de Almeida Morais Júnior, que em agosto de 1953, transfere o padre Osvaldo Machado para o Seminário, dando posse, em 8 de setembro de 1953, ao padre Arnaldo Cabral de Sousa como pároco ecônomo, que ficaria na mesma paróquia até o ano de 1999, quando da sua aposentadoria.
Os anos que se seguem de 1948 a 1961 trazem informações pontuais e breves, escritas pelo punho do padre Arnaldo Cabral de Sousa. Porém, no dia 22 de dezembro de 1956, acontece a Dedicação da Matriz do Coração Eucarístico de Jesus do Espinheiro, que desde 1941 vinha sendo construída. Um outro registro de suma importância é em 9 de outubro de 1958, o falecimento do papa Pio XII, onde a paróquia celebra as exéquias de sétimo dia. Contudo, aos 4 de novembro, cantam Te Deum pela eleição de João XXIII aos 28 de outubro de 1958.
O padre Arnaldo Cabral de Sousa registra que soube pela imprensa, aos 24 de abril de 1960, da transferência do bispo D. Antônio de Almeida Morais para Niterói, sendo nomeado D. Carlos de Gouveia Coelho, tomando posse em 21 de agosto do mesmo ano.
Os doze meses que contemplam 1961 são os últimos a serem registrados no Livro de Tombo. Em 1º de janeiro, padre Arnaldo Cabral de Sousa é provisionado pároco do Espinheiro, sendo o segundo pároco, assinando a ata em 5 de fevereiro de 1961. O livro termina com palavras reveladoras:
- Comemoramos em toda a plenitude a festa do Natal com missa “versus populum” dialogada pela comunidade que também cantou salmos apropriados para a cerimônia litúrgica.
- O relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade .

Vejamos que já em 1961, o padre Arnaldo celebra a missa voltado para o povo e dialogando com a comunidade. Porém, o que nos intriga é a ultima frase: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Desde então, o que se registra no Livro pelo pároco são esses movimentos espirituais e algumas referências às festas. Aparece, então, a grande probabilidade deste livro compreendendo os anos entre 1962 e 1999 não existir.
Sabemos da existência de um Livro de Tombo sendo escrito desde 1999 até os dias hodiernos, não pelo pároco, frei Geraldo Lima, O. Carm., mas por uma fiel. Silenciam-se várias décadas, muitas celebrações e muitas histórias. Uma, pelo menos, tentaremos trazer em nosso trabalho: o assassinato do jovem padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, crime sem solução até hoje. Calado até no Livro de Tombo da paróquia onde fora velado o seu corpo. A ditadura calou o assassinato e a voz do padre Henrique. O Livro de Tombo silenciou diante dos fatos.

4. O silêncio de um Livro de Tombo: o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto

Dentre tantos silêncios, poderíamos eleger diversos pelo estilo do documento. Uma nota sobre o Concílio Vaticano II, outra sobre a morte de D. Carlos Coelho, trazendo a notícia da posse de D. Hélder Câmara como novo Arcebispo de Olinda e Recife. Contudo, uma página não lavrada neste livro precisa ter voz: o assassinato do padre Henrique. Não que os outros eventos não tenham a sua importância: eles são de extrema valia para a Igreja Católica, porém, o crime cometido contra esse jovem padre chocou a Arquidiocese de Olinda e Recife, e seu velório fora na Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus. Não é nossa intenção estudar aqui esse assassinato junto ao velório. Deixar passar em branco tal evento ocorrido na Matriz do Espinheiro seria esquece-lo uma segunda vez.
O Diário de Pernambuco trazia, no dia 28 de maio de 1969, uma pequena notícia:
Padre é assassinado na Cidade Universitária
O padre Antônio Henrique Pereira Neto, 28 anos de idade, professor de Sociologia do Juvenato Dom Vital e do Colégio Marista, foi encontrado morto, ontem, às 6 e 30, na Cidade Universitária, desconhecendo-se as causas do homicídio.
A propósito do fato, o diretor do Departamento de Investigações da Secretaria de Segurança Pública do Estado, sr. Bartolomeu Gibson, fez as seguintes declarações:
“Na manhã de ontem, foi encontrado numa das projetadas ruas que ladeiam a Cidade Universitária, no acostamento da pista, o cadáver de um desconhecido de cor morena, trajando esportivamente, mais tarde identificado como sendo o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, do clero pernambucano.
Foram procedidos no local, pelo Instituto de Polícia Técnica, os exames necessários e, posteriormente, já no Necrotério, pelo Instituto de Medicina Legal, o exame necroscópico.
Continua o Departamento de Investigações através da Delegacia de Homicídios e de outros órgãos da Secretaria de Segurança, em intenso diligenciamento, visando à completa elucidação de tão lamentável ocorrência”.

Esta notícia do Diário de Pernambuco, em si, nos diz nada. Apenas informa a morte do padre e que as investigações foram feitas. Porém, é sabido: na manhã do dia 27 de maio de 1969, um vigilante de 62 anos encontrava, nos matagais da Cidade Universitária, um corpo torturado: padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto .
O padre morto era recifense, nascido aos 28 de outubro de 1940. O período de formação do padre Henrique compreende os anos entre 1956 - quando entra no Seminário da Várzea – até 1965, quando é ordenado padre por D. Hélder Câmara. Nesse tempo, como vimos a Arquidiocese passa pelo governo de três bispos: Antonio Almeida de Morais Júnior, Carlos Gouveia Coelho e Hélder Câmara. O Brasil passava por um período bastante conturbado politicamente . Os anos de atuação pastoral do padre Henrique foram marcados pelo gradual fechamento do regime e, em relação à Arquidiocese de Olinda e Recife, pelo também gradual afastamento e aumento de atritos entre D. Hélder e os militares .
Tal sacerdote, logo após sua ordenação, assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife. Desenvolvia trabalhos junto aos jovens com encontros e reuniões. Trabalhava juntamente com pais e filhos, tentando uma aproximação entre gerações, que pela década de 1960, estavam em conflito .
O enterro do padre Henrique reuniu entre dez e vinte mil pessoas, tendo um cortejo que fora da Igreja Matriz do Espinheiro ao cemitério da Várzea .
Dado em 1969, o crime, até hoje, não teve resolução. Várias foram as versões apresentadas. E impune, ficou no silêncio. Assim como as páginas de um Livro de Tombo, que poderiam ter deixado registrado por quem viu, as memórias e relatos de um velório calado pelas Forças Militares do Brasil.

5. Conclusão

Desde sua chegada ao Espinheiro, em 1953, o padre Arnaldo Cabral de Sousa esteve à frente da Paróquia do Coração Eucarístico de Jesus, até o ano de sua aposentadoria, 1999, no governo de D. José Cardoso Sobrinho como Arcebispo de Olinda e Recife. Assumem a paróquia os frades da Ordem Carmelita. Desde então, já passaram os frades João Costa, Dennys Nunes Pimentel, Antonio Muniz. Esse último é o Arcebispo de Maceió. Atualmente, estão à frente da paróquia os frades Joaquim Ferreira da Luz (Vigário) e o pároco frei Geraldo de A. Lima.
Várias são as letras que testemunham o Livro Tombo. Três são os padres os quais deveriam ter escrito. Assim, possivelmente, os sacerdotes não assumiram sua função de redatores do documento, o repassando aos fiéis. Percebemos que desde 1953, o padre Arnaldo escreve até 1961, pelo seu próprio punho. A última frase de livro é: o relatório anual do movimento espiritual se encontra em uma pasta própria a esta finalidade. Possivelmente, não se tomou mais registros a um novo caderno por Tombo. Sabemos, então, de uma redação de novo volume do Livro Tombo, relatando os processos paroquiais desde 1999. O mesmo não é redigido pelos frades, mas pela paroquiana Juliana Maria de Oliveira, que periodicamente escreve no jornal da Paróquia, intitulado A Partilha, fundado em maio de 2001.
Se realmente não houver sido escrito, este silêncio se dissolve na História. Páginas desfeitas de realidades não apenas de um templo, mas de pessoas que por ali passaram e deixaram suas marcas, de eventos notáveis perdidos na solidão do esquecimento.
Foi preciso de 1941 a 1956 para que fosse construída a Igreja dedicada ao Sagrado Coração Eucarístico de Jesus. A igreja que conheceu as pregações conservadoras de D. Miguel de Lima Valverde e D. Antônio de Almeida Morais Júnior, escuta hoje guitarras e baterias, unidas às palmas inflamadas dos fiéis: os tempos mudaram. O templo mudou. Hoje, encontra-se entre luzes rochas, vermelhas, verdes, amarelas o Santíssimo Sacramento adorado na matriz que tem por padroeiro ele próprio.
O Livro de Tombo calou os anos entre 1961 e 1999. Concílio Vaticano II, todo o governo de D. Hélder Câmara à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife, o velório do padre Antonio Henrique e muitos outros fatos internos da paróquia.
Tentamos o máximo ser fiéis aos dados revelados na documentação eclesiástica da Matriz do Espinheiro. Não foi a nossa intenção escrever a história da paróquia, mas, mostrar os registros do Livro de Tombo, conhecer os poucos dados que lá foram registrados e a história deixada nos mesmos.
Falamos um pouco dos Arcebispos da Arquidiocese de Olinda e Recife que contemplam os anos de 1941 a 1961, como forma de alargar as margens daquilo que estava inserido no silêncio. Trouxemos para o nosso texto o conteúdo do Livro de Tombo, além de um fato não expresso nele: o assassinato do padre Henrique.
Poderíamos ter ido muito mais longe, mas nosso campo é limitado e nossos pés pisam caminhos incertos. As probabilidades são muitas, contudo, temos o receio de pisar em falso, e fazer calar ainda mais as vozes que se ocultam nas páginas amareladas produzidas por mãos desconhecidas que registraram aquilo concernente a si próprios. As páginas em branco podem ser reflexo do esquecimento, e ali, a memória não deixou seu traço, apenas as marcas de um passado que passou sem registro, ficando apenas o pó e a lembrança naqueles que viveram os momentos apagados pelo silêncio da caneta e pela omissão do olhar.


6. Bibliografia:
Fontes Primárias:
- Diário de Pernambuco (Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano – APEJE)

- Livro de Tombo da Parochia do S.S. Coração Eucharistico de Jesus no Bairro do Espinheiro

Obras:
- CUNHA, Diogo. Estado de Exceção, Igreja Católica e Repressão: O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.

- SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da Igreja Progressista na Arquidiocese de Olinda e Recife. Recife: Editora Universitária UFPE / Editora Associação Reviva, 2006.

Um comentário:

ALYSSON disse...

Olá Professor! Muito Interessante sua pesquisa.
Um dos refereidos párocos citados, o Monsenhor Oswaldo Gomes Machado, foi meu tio-avô. Abraços