quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ESTRUTURA E DINÂMICA DA CORTE FRANCESA MODERNA

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História Moderna II
Professor: Severino Vicente da Slva

Alunos: Ítalo Almeida
João Vinícius
Raimundo Ferreira














ESTRUTURA E DINÂMICA DA CORTE FRANCESA MODERNA





Recife, outubro de 2008




Sumário
I - Prefácio.............................................................3
II - A sociedade de corte no processo civilizador..............................................................4
III - Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa......8
IV- Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte........11
V - Rei, prisioneiro da etiqueta................................................................15
VI - Sociogênese da revolução...........................................18
VII - Referências Bibliográficas..........................................................22


Estrutura e Dinâmica da Corte Francesa Moderna


Prefácio
Por: Ítalo Almeida

Abordaremos ao longo dessa exposição, baseando-nos principalmente no pensamento do Alemão Nobert Elias, estudar não um rei em particular, mas a sua função de rei; não a ação de um príncipe, mas as redes de pressões na qual ele está inscrito. Trataremos da corte francesa de Luís XIV, o Rei-Sol, que se tornou modelo para toda a Europa. Levando em consideração a estrutura e a dinâmica dessa sociedade, tomando por base os elementos da lógica do prestígio social e suas ressonâncias na nova ótica social que está se estabelecendo com a ascensão da nova classe burguesa.

Os movimentos e articulações da complexa e delicada interdependência que se estabelecia entre o rei, a nobreza e a burguesia e na medida do possível, observar conexões que nossa sociedade tenha herdado e perpetuado até nossos dias desse contexto.

Faremos uma abordagem diferente da que se daria na Escola dos Annales, não é de nosso interesse privilegiar a História da vida privada. Uma vez que focaremos na estrutura e não no indivíduo, fenômenos que mesmo a vontade do príncipe não alteraria o contexto.




A Sociedade de Corte no Processo Civilizador


Por: Ítalo Almeida


Talvez transite no inconsciente coletivo comum, a corte como um lugar de ostentação de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta, inscrita no fausto monárquico. O objetivo aqui é atentar para o duplo sentido do termo, ou seja, por um lado, a corte deve ser considerada como uma sociedade, isto é uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros, gerando códigos e comportamentos originais. Em contrapartida, a sociedade de corte deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma corte, real ou principesca e inteiramente organizada a partir dela, constituindo assim, uma forma particular de sociedade.

Antes que entremos diretamente no processo civilizador no qual a corte exercia sobre seus partícipes, é válido chamar atenção para alguns pontos que serão mais esclarecidos ao longo do trabalho, aqui de forma genérica faremos um rápido sobrevôo nessa possível questão: Como o rei conseguiu atrair em torno dele a nobreza e estender tão fortemente sua influência sobre estes? Ao longo da formação do Estado Moderno, os direitos jurisdicionais pertencentes ao mundo feudal foram sendo incorporados ao aparato estatal. A priori, no momento em que o rei consegue estabelecer-se sobre os nobres mais próximos, achatando as condições destes em torno da sua figura, aos poucos ele recomeça a retomar sobre si seus poderes e influência que foram fragmentados com o Estado Feudal, com a ajuda de alguns nobres e da incipiente burguesia.

No início do século XVI, ocorre uma “refeudalização”1 que gera a Nobreza de Toga. Diferentemente na nobreza feudal, esta detém muito mais o poder administrativo do que militar. O rei, agora como um estrategista, estará mais preocupado com o serviço especializado que lhe será prestado do que com a origem social de quem o presta. Criando inicialmente espaço para uma ascensão social, que outrora na era feudal era praticamente impossível e ao mesmo tempo uma não satisfação dos nobres tradicionais, dando a gênese das articulações que o rei vai manobrar para cada vez mais consagrar-se como soberano.

Tendo iniciado essa lógica, observaremos as ressonâncias entre as partes da sociedade de corte francesa de Luís XIV. A corte foi a estrutura central tanto na constituição do Estado Absolutista quanto do processo civilizador que transformou radicalmente a psicologia do homem ocidental na modernidade. O rei precisaria atrair sobre si não só o poder como também o carisma social, pois a importância da autoridade e da iniciativa individual do líder, não dispõe de nenhum aparelho de dominação fora de seu grupo, está ai a importância do poder manipulativo do rei, permear entre estes meandros e inicialmente barganhar e depois impor sua influência de forma não tão explícita, mas que demonstre sua autoridade.

Na corte o rei trata das noções de figuração, interdependência, equilíbrio de tensões, evolução social e do desenvolvimento das figurações. Isso responde possíveis inquietações sobre o porquê que os indivíduos estão ligados entre si constituindo figurações dinâmicas e específicas? Por partes veremos as inter-relações e significados assumidos aqui pelos conceitos postos no início deste parágrafo. Figuração: formação social cujas dimensões são variáveis como jogadores de um carteado, a sociedade de um café, uma classe escolar, uma aldeia, uma cidade, uma nação. Os indivíduos estão ligados por interdependências e a reprodução supõe um equilíbrio móvel entre as tensões, na verdade, sua liberdade depende dos outros, limitando o que decidir e fazer. A imagem que pode representar estas relações em cadeia é o jogo de xadrez: “...como em um jogo de xadrez, cada ação decidida de maneira relativamente independente por um indivíduo representa um movimento no tabuleiro social, jogada que por sua vez acarreta um movimento de outro indivíduo – ou, na realidade, de muitos outros indivíduos...” 2

Estabeleceu-se um equilíbrio de tensões, como já colocamos, nos primórdios da sociedade de corte, resultante da ruptura das relações feudais; foi esta ruptura que remodelou toda a organização social a partir da proeminência conquistadas pelos reis, este que se tornou absoluto à custas de seus concorrentes: a nobreza e a burguesia.

A figuração da sociedade de corte está intrinsecamente ligada à construção do Estado Absolutista, no duplo monopólio do soberano. Primeiro o monopólio fiscal, o rei centraliza os impostos e dá ao príncipe a possibilidade de retribuir em dinheiro, não mais em terras, seus fiéis e servidores sobre a violência. Segundo, o rei, detentor da força militar, senhor e avalista de todo o espaço social, despoja a aristocracia dos antigos fundamentos de poder, obrigando-os a viver na proximidade do soberano dispensador de rendas, pensões e gratificações.

A afirmação do rei absoluto sufoca as diversas unidades de dominação de um determinado espaço. A hegemonia de um soberano na sociedade elimina, progressivamente, os concorrentes em potencial, reduzindo-os a situação de dependentes. Tomemos o exemplo da França, entre os séculos XI e XVI: a livre competição reduziu progressivamente o número de pretendentes a soberania, no início do século XIV, estes grupos eram apenas em cinco, com os reis da França e da Inglaterra, os duques da Borgonha e da Bretanha e o conde de Flandres.

A consolidação do poder pelos Capetos, em seguida pelos Valois e que atingirá seu clímax com os Bourbons. Em princípio, a concorrência se dará dentro da própria casa real: o rei x seus parentes. Em seguida sobrepujando seu rival inglês e reduzindo os concorrentes familiares, o rei da França estabelece sua dominação político-territorial desde o início do século XVI.

A medida que subjuga seus concorrentes externos e internos a unidade de dominação é tornada hegemônica, dando-se a partir do interior, com o rei exercendo o monopólio da dominação.

Na França, entre a aristocracia e o judiciário o equilíbrio de tensões é tal que fomentava não só o estabelecimento como a manutenção do poder absoluto real. Eram interdependentes e rivais a tal ponto que se fez impossível uma aliança contra o soberano. Assim, o rei é, portanto, mais forte do que cada um dos grupos tomados isoladamente.

Esse processo reforça o poder de uma burguesia burocrática e administrativa ao lado do rei. Seu monopólio de dominação que se faz entre as tensões aristocracia x burguesia gera este entrave: a vontade real é de proteger-se e ao mesmo tempo controlar a aristocracia contra o poder burocrático. Para fazer isso, a corte se torna a instituição essencial, de um lado, a vigilância pela proximidade, pelo outro, os jogos de favores monárquicos, criando uma esfera de reprodução de tensões. O monopólio fiscal, militar e a etiqueta de corte são, portanto, três instrumentos de dominação, conjuntamente definem essa forma social e original que é a sociedade de corte.

Não devemos compreender estas relações exclusivamente como lutas de classes, mesmo que ambos, aristocracia e burguesia, estejam sempre na busca por privilégios, o rei não é dependente diretamente de um grupo social, mas da manipulação das tensões, a origem de seu poder.

Entre os séculos XII e XVII, as diferenciações das funções sociais, multiplicaram a interdependência das classes, suscitando os mecanismos de autocontrole individual que caracterizou o homem ocidental da Modernidade. A corte serviu como um laboratório de comportamentos inéditos e lugar de elaboração de novas dinâmicas sociais, convenções mais coercitivas, controle dos impulsos e paixões, domínio mais rígido das condutas, relação menos brutal entre os homens e as mulheres, diferindo fortemente neste ponto da corte do medievo.

Paradoxos na corte absolutista como a maior distância na amplitude social, ao mesmo tempo, na maior proximidade espacial do rei, gera traços fundamentais e originais dessa sociedade, quando muitas vezes a grande confusão é entre a vida pública e privada que se misturam de tal forma a favorecer ainda mais a dominação real, atando os homens pela etiqueta. Não estamos afirmando que o rei está isento da etiqueta muito pelo contrário, entretanto sua manipulação dentro de seus limites em muito o favorecia com relação aos nobres e burgueses.

Além disso, a representação do indivíduo é essencial; na corte você é o que parece, gerando ostentação. Uma das exigências da posição que se pretende montar é como já tratamos, a hierarquia da etiqueta como modelo das diferenças sociais. Diferentes papéis e lugares no cerimonial de corte corroborando para a condição essencial da competição social, onde o rei como o senhor do tabuleiro, mexe as peças de acordo com sua necessidade. Sua representação está mais ligada a credibilidade dada ou recusada pelos outros do que a própria representação.

Superior socialmente pela submissão política. Aceitando a domesticação pelo soberano e a sujeição às formalidades coercitivas da etiqueta de corte, separando-se por este canal de sua concorrente a burguesia, assim fazia-se a nobreza. Observamos que para participar da sociedade de corte, o indivíduo precisa passar por uma transformação não apenas social, mas também psicológica para sobreviver e barganhar seus privilégios dentro de uma sociedade onde a instabilidade e estabilidade se misturam de tal forma, onde a centrífuga é naturalmente inconstância.



Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa

Por: Raimundo Ferreira

A nobreza que anteriormente encontrava-se por todo o país espalhada vai originar à nobreza de corte reunida ao redor do rei tornando-o centro e poder determinante. A maior parte dos nobres passou de cavaleiros a seigneurs e grands seigneurs da corte, e também o rei passou por transformações. Exemplo de rei cavaleiro, Francisco I que amava os torneios, as caçadas, para ele a guerra era um jogo cavaleiresco, no qual, como o mais corajoso chevalier valia a pena arriscar a vida. Antes cavaleiresco, Henrique IV ao subir ao trono incorporou o tipo rei aristocrático de corte, que foi representado na sua plenitude por Luís XIV. Ao contrário de Henrique IV, ele não segue mais para a batalha à frente de seus nobres, como cavaleiro, desta feita manda seus generais para a guerra com tropas que recebiam soldo. O rei já perdera o costume aos esforços físicos e às atividades no campo de batalha.

Ao longo do século XVI ocorreram mudanças nas estruturas sociais do Ocidente, elas podem ter sido tão importantes quanto as do final do século XVIII. A oferta de metais preciosos originários das terras ultramarinas e o aumento na circulação de bens, espalhando-se por todos os países do Ocidente, apesar de variadas formas, não foi sozinha a causadora das revoluções deste século. No entanto, isso não seria possível se não houvesse na Europa a necessidade e os meios para aproveitá-los.

O aumento da circulação de dinheiro provocou uma inflação exorbitante. Houve uma desvalorização na moeda, na proporção de quatro para um. Com isso, os preços subiram na proporção inversa. O solo e a terra, embora fossem a base de todos os recursos, as pessoas guardavam uma grande quantidade de dinheiro em casa. A inflação provocou um grande abalo na vida dos franceses, os nobres viviam de rendimentos fixos da terra. A elevação dos preços fez com que os rendimentos da nobreza não cobrissem seus gastos. Com a maior parte dos nobres mergulhados em dívidas, após as guerras religiosas, muitas vezes tiveram as terras tomadas pelos credores. Os nobres que perderam as terras buscaram na corte uma vida nova.
O único nobre cuja base econômica, posição de poder e distância social não sofreram reduções, foram sim aumentadas, foi o rei. Há muito tempo sua fonte de renda deixou de ser os produtos das propriedades e passou a ser os impostos ou tributos similares, recolhidos de seus súditos. O rei deixou de distribuir terras e passou a distribuir dinheiro. Ao contrário dos últimos reis do século XVI, a realeza de corte dos séculos XVII e XVIII, economicamente falando é sustentada pelos rendimentos financeiros. Esses rendimentos dos reis eram diferentes dos rendimentos dos comerciantes e dos artesãos, pois não resultavam de um trabalho ou atividade profissional. Mas da renda do trabalho das camadas profissionais através da atividade de funcionários remunerados, os quais tinham suas atividades controladas e coordenadas pelo rei, podendo aumentar seus recursos financeiros sem precisar de uma atividade profissional, apenas com base no enriquecimento do país governado por ele.
A mudança na prática da guerra teve, também, grande influência no destino dos nobres. A nobreza medieval equilibrava as tensões entre ela e os príncipes suseranos, visto que, quando se tratava de guerras eles dependiam de seus nobres. Cabia aos nobres arcar com a maior parte das despesas bélicas – armaduras, cavalos e armas – não importando se o financiamento vinha do lucro da propriedade ou das pilhagens. Se desobedecesse o chamado para os campos de batalha ou desertar-se do exército antes do período determinado e para suas terras, vilas ou cortes retornar-se, podia ser punido por uma expedição comandada por um suserano à frente de uma tropa numerosa de guerreiros e forçado a permanecer na frente de batalha.
Nos exércitos franceses do século XVI misturavam-se elementos os mais diversos. Apenas em casos de necessidade, e sem muito proveito ou êxito militar, fazia-se a convocação da nobreza feudal. Na verdade, o antigo exército feudal estava desfeito. Os nobres em condições de guerrear incorporavam-se às companhias de cavalaria pesada, as companhias de ordenança, que formavam a gendarmerie: os gendarmes forneciam seus próprios cavalos e os equipamentos mais valiosos; os menos abastados eram incluídos nessas companhias como guardas montados ... Nos ataques pesados de cavalaria, mas também nos serviços pessoais, esses guerreiros, que tinham uma formação baseada na honra, eram indispensáveis aos generais. Mas o futuro não pertencia mais a esse tipo de arma. Separada dessa cavalaria, muito abaixo dela em termos de nível social, desenvolvia-se uma cavalaria leve, que se baseava cada vez mais no uso de armas de fogo ... Toda a organização do exército estava fundada no soldo. 3

No processo de disputa entre a maioria da nobreza guerreira e o príncipe suserano quanto à prática da guerra, ele acabou levando vantagem. A disponibilidade de recursos financeiros proporcionou-lhe a contratação de tropas para lutar a seu favor, equipando exércitos recrutados nas camadas inferiores liderados por comandantes de tropas. O desenvolvimento das armas de fogo facilitou o recrutamento dessas camadas inferiores em detrimento das camadas superiores. Visto que as armas de tiros mais antigas eram tradicionais de camponeses ou de tropas que não pertenciam a nobreza, elas serviam de auxílio nas batalhas de cavalaria, dado o fato que as armaduras de cavaleiros e cavalos limitavam o efeito das flechas disparadas. As armaduras não resistiam mais as novas armas desenvolvidas o que provocou a decadência da antiga nobreza guerreira e aos príncipes a guerra com exércitos de mercenários.

Ao contrário do período anterior, no qual a sociedade tinha pouco comércio e conseqüentemente menos moeda, fazendo-se o pagamento com a doação de feudos, agora a remuneração dos serviços militares era feita com o pagamento em moeda. A possibilidade da contratação de mercenários ou soldados pelos príncipes, diminuiu a dependência dos mesmos para com a nobreza feudal.

O mesmo não pode ser aplicado com relação às questões financeiras que se tornavam cada vez maiores. Enquanto a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo ganhava importância, a guerra tradicional de cavaleiros era desvalorizada. Esse fator diminuía a dependência do soberano quanto à nobreza e produzia o inverso. Enquanto valorizava-se a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo, a guerra tradicional de cavaleiros perdia seu valor. Surgem, dessa forma, relações de dependência, nas quais, o desenvolvimento do comércio é favorecido pelo aumento da proteção nas suas vias e à garantia legal do seu direito, pelo Estado, o qual, representado na figura do rei, não teria um rendimento regular oriundo do pagamento de impostos, com tropas insuficientes, por sua vez os rendimentos permitiam financiar exércitos com poderes ao nível das necessidades.

São fatores que aumentavam a dependência da nobreza em relação ao soberano e o deixavam cada vez mais, menos dependente dela.


Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte

Por: João Vinícius


A partir de agora, na leitura deste trabalho, é preciso ter em mente que estamos tratando de um Estado Absolutista consolidado, onde as relações na corte estão num grau de complexidade elevado. A maioria dos exemplos e das reflexões que serão expostas se refere à França Absolutista do século XVIII, especialmente sob o reinado de Luís XIV. Tentaremos expor como esta realidade não pode ser compreendida se não forem feitas as devidas contextualizações. Nossas prioridades hoje, no que se refere ao que nos é importante, foi em grande parte formada pela burguesia dita “iluminista” que conseguiu impor seu projeto de sociedade ao antigo projeto do Ancien Régime, ridicularizando em muito aquilo que no projeto anterior era a prioridade. O ethos ou o status burguês está muito preocupado com as nuances financeiras, com o dinheiro. Já o ethos aristocrata de corte, do século XVIII, está preocupado com as nuances de comportamento, sua prioridade é zelar por uma honra difícil de ser compreendida a partir dos paradigmas atuais, pois as chances de prestígio era o fim a ser buscado e não o acumulo de riqueza.

Depois das guerras religiosas, que ocorreram na segunda metade do século XVI, as finanças da França se estabilizaram durante algum tempo. Daí as grandiosas construções palacianas em estilo barroco e classicista, e a formação de um exército profissional francês, vale lembrar que tudo isto foi feito à custa de pesados impostos e da venda de cargos públicos, além da pirataria e do comércio mercantilista. Enfim, o que é importante para iniciar este trabalho é a compreensão que o rei, no início do século XVIII, tinha em torno de si uma corte de nobres que dependia dele para existir e vice-versa.

Esta estrutura é rígida e coerente para os parâmetros da época, e o rei não aprovava a fragmentação dos círculos que constituíam a corte, a vida social deveria ser a própria corte – o exemplo clássico é o do Palácio de Versailles, que em 1744 abrigou cerca de 10 mil pessoas4. No entanto, evitar completamente isto era impossível, já no reinado de Luís XV o centro de gravidade desloca-se dos palácios para os hôtels, residência de aristocratas da corte que não eram príncipes. Com a expansão da corte, por assim dizer, surge um fenômeno conhecido como cultura de salão5.

No que se refere à residência do rei, o sentido abstrato se impõe sobre o sentido prático, ou seja, não bastam dimensões úteis para a habitação, mas o tamanho da casa deve condizer com o prestígio social do nobre que ali habita. Nobert Elias diz que o próprio rei jamais dormiria em um lugar previamente construído segundo um cálculo racional e prático. Mas o quarto teria que ser feito sob encomenda de acordo com o gosto do monarca, e é claro com dimensões gigantescas6. Figurativamente o rei era tanto dono de todo o grandioso palácio como de todo o país, e esta grandiosidade tem de se fazer notar.

Antes de começarmos a falar das mentalidades que sustentavam este modelo de sociedade é preciso dar um exemplo do que era uma das maiores atividades que ocorriam em torno do rei: “Le lever du roi”7.

Todos os dias por volta das oito horas, ou do horário que o rei determinasse, o primeiro criado de quarto, que dormia aos pés da cama do rei, acordava a majestade e abria as portas para os pajens. Os pajens espalhavam a notícia de que o rei tinha acordado, um deles ficava na porta regulando a entrada e a saída de pessoas no quarto. Iniciava-se então, obedecendo uma rígida hierarquia, as seis entrées (entradas) no quarto do rei; vários grupos de nobres autorizados entravam no quarto do rei de acordo com sua hierarquia na corte. Na primeira entrada, ou entrée familière, entravam os filhos legítimos do rei, príncipes de sangue, além do primeiro médico, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem. Na segunda entrada, ou grande entrée, entravam os oficiais do quarto e do guarda-roupa, junto com senhores e nobres que tinham a honra de entrar concedida pelo rei. Esta entrada servia, sobretudo, para vestir o rei, e os nobres tinham o privilégio ou a obrigação de vestir a blusa do rei de acordo com seu nível hierárquico. Nobert Elias conta que certa vez quando a rainha acabara de ser despida por suas damas, a criada de quarto deu a blusa à dama de honra que deveria vesti-la quando entra no quarto a duquesa de Orléans. Então a blusa é passada novamente para a criada de quarto de acordo com o cerimonial para ser entregue à duquesa que deveria vestir a rainha, mas logo em seguida entra no quarto a condessa de Provence. Então a blusa tinha que ser passada novamente para a criada de quarto que deveria entregá-la a condessa que era de um nível hierárquico mais alto. A rainha teve que esperar nua por toda esta cerimônia até ser vestida. Na terceira entrada, ou première entrée, entravam os leitores do rei, intendentes de divertimento e festividades para entreter o rei. Na quarta entrada, ou entrée de la chambre, entravam os ministros, secretários, conselheiros de Estado, oficiais da guarda e marechais. Na quinta entrada senhores e senhoras da nobreza ainda poderiam entrar com o consentimento do pajem e a permissão do rei. A sexta entrada era a mais disputada, não era feita pela porta principal, e por ela vinham os filhos ilegítimos e o superintendente do edifício.

Mas qual era o porquê das pessoas se submeterem a este tipo de comportamento? O próprio Nobert Elias diz que durante o período de reinado de Luís XV os nobres já faziam de muito mal grado estas funções, terminadas esta cerimônia saiam depressa do quarto do rei como uma horda selvagem, no entanto, não as deixavam de fazer.

Entendamos então esta frágil estrutura que tende a se perpetuar, a se congelar, e sofre o mínimo de alterações, mesmo assim é frágil, é tensa. Todas estas funções são cedidas como privilégios pelo rei, ou seja, de uma forma ou de outra o rei tinha que estar muito próximo de todos e tudo o que se passava ao seu redor. Os que recebiam este privilégio por mínimo que fosse – calçar as sandálias do rei, por exemplo – já olhava com desprezo a massa de pessoas que não tinha privilégio algum. No entanto, dentro da própria corte havia um clima de tensão entre todos os nobres, pois eles poderiam ascender ou perder sua função de acordo com a vontade do rei. Daí a frieza e o automatismo das relações, o estilo classista é a representação desta relação fria que não pode ter espaço para a expressão do sentimento. A frieza do olhar também é percebida nas pinturas de nobres da época, até hoje se fala muito da frieza dos franceses em seu cotidiano. Na verdade tudo isto faz parte de um cotidiano em que o outro não pode saber o que você está pensando, qual será seu próximo passo. Como as expressões corporais e faciais dizem muito do que se está sentido, isto tem que ser evitado ao máximo, a sua existência social como nobre depende disto. Até mesmo os espetáculos de teatro da corte não serviam para extravasar ou entreter seus sentimentos, mas servia como mais um encontro de nobres. Comportamento muito diferente tem os comerciantes burgueses, já que no comércio expressar-se extravagantemente é até mesmo uma qualidade à medida que isto chama a atenção dos clientes.

Então o que importava nesta sociedade era o valor de uma pessoa, e não o valor da conta bancária, o próprio dinheiro era um meio para se conseguir se inserir na corte, ele não era um fim, muitas vezes ascender socialmente em algum cargo da corte implicava perda de condições financeiras. O valor de uma pessoa é a medida de sua honra, ao ingressar no círculo dos nobres ela perde parte de suas características pessoais, mas ao mesmo tempo se distingue da imensa massa de pessoas sem privilégios que está fora da corte. Podemos notar que neste contexto, existe ainda uma preocupação muito grande com a opinião coletiva. A um nobre era preferível morrer a ver a honra da família desmoralizada, ou desprezada. A existência do indivíduo não está dissociada da existência do grupo, não valeria a pena viver sem estar inserido em uma rede de privilégios que caracteriza a nobreza. Outro parâmetro de comportamento vai ser trazido pelos burgueses iluministas, e pelos revolucionários, ou seja, do individualismo, o indivíduo será bem sucedido de acordo com suas capacidades individuais, independente da vontade de outras pessoas. Há uma separação nítida entre a esfera particular, a esfera pública e a esfera profissional no modelo burguês, tudo isto está misturado no modelo aristocrata, a lendária frase de Luís XIV “o Estado sou eu” tem de ser vista para além da aparente soberba do rei, de fato é difícil dizer nesta estrutura até onde vão os interesses do rei e do Estado, o Estado não é visto como algo autônomo, mas algo que depende da existência do rei e dos nobres para também existir. Enquanto para o nobre a honra é o seu orgulho pessoal, para o burguês a propriedade privada exerce esta função.

A família também exerce um papel profundamente importante nesta sociedade de corte, pois quanto maior for sua antiguidade genealógica como nobre, maiores são suas chances de prestígios. Pois equivale mostrar que desde a infância você teve uma educação adequada para um nobre, e que você tem aquele tipo de comportamento. Além de que havia certa recusa na aceitação de novas famílias no círculo da nobreza, pois a entrega de cargos importantes era feita com base na antiguidade da família na corte. Muitas famílias por vitórias militares se tornavam importantes e entravam nos círculos aristocráticos, e queriam passar instantaneamente na frente de outras na linha sucessória por causa disto, o que causava sempre muita confusão.

Ora, todas as relações entre os homens se convertiam em chances de prestígio nesta sociedade:

O nível social, o cargo herdado e a antiguidade da “casa”. Convertia-se em chances de prestígio o dinheiro que alguém possuía ou ganhava. O favorecimento do rei, a influência sobre a sua amante ou sobre os ministros, a participação em uma determinada “panelinha”, a liderança no exército o esprit, as boas maneiras, a beleza do rosto etc., tudo isso convertia-se em chance de prestígio8.

Saint-Simon dizia que na corte não interessava o que a coisa era, mas sim o que ela significava para determinadas pessoas. O modelo de sociedade burguês tende a coisificar, ou objetivar, as pessoas e as relações, a sociedade cortesã fazia o inverso personificava ao máximo as relações e até mesmo as coisas, pois interessava as pessoas e suas inter-relações. “No âmbito da etiqueta, eles não se reuniam ‘em função de uma coisa’”9. Interessava que cada indivíduo, e antes de todos o rei, tenha sua posição de prestígio legitimada pelos outros. A etiqueta, portanto, não é mera formalidade, mas obedece a uma rígida estrutura e a identidade coletiva e individual do cortesão.

Todo o ritual, e a etiqueta, que cerca uma corte não podem ser entendidos, portanto, conforme o exposto, em seu sentido prático, ou pragmatístico que geralmente atribuímos a todas as relações profissionais hoje em dia, estas relações são um fim em si mesmas, são o próprio sentido de ser. “Aquilo que é ‘racional’ depende sempre da estrutura da sociedade”10. A racionalidade industrial dá origem a uma coerção econômica, mas a racionalidade cortesã tenta em primeiro lugar tornar calculáveis as pessoas e as suas chances de prestígio.


Rei, prisioneiro da etiqueta

Por: João Vinícius


O rei talvez tenha uma situação um pouco melhor, pois se todos os outros nobres sofriam pressão de todos os lados, o rei era o único que não sofria pressão de cima, pois era ele quem estava no topo. No entanto, o rei também é prisioneiro da etiqueta, ele talvez mais do que todos os outros deveria mostrar porque era nobre. Quando alguém dentro da corte destoava do comportamento cortesão se dizia “ou ele é louco ou o rei não é nobre”11. Ou seja, permitir a ruína da nobreza, para o rei, é permitir a ruína de sua própria casa.

Sobre isto o próprio Luís XIV escreveu:
Estão enganados aqueles que imaginam tratar-se aí apenas de questões de cerimônia. Os povos sobre os quais reinamos, não podendo penetrar o fundo das coisas, pautam em geral seu julgamento pelo que vêem exteriormente, e o mais freqüentemente é pelas primazias e posições que medem seu respeito e sua obediência. Como é importante para o público ser governado apenas por um único, também é importante para ele que este que exerce essa função seja elevado de tal maneira acima dos outros que não haja ninguém que possa confundir ou compara-se com ele, e podemos, sem sermos injustos para com o corpo do Estado, retirar-lhe as menores marcas de superioridade que o distingue dos membros12.

Está aí o sentido da etiqueta para o próprio rei, não é simplesmente cerimônia, como ele mesmo diz, mas é algo que cumpre até mesmo com as formalidades aparentes que a própria sociedade exige, é preciso ver para crer. Além das aparências é preciso manter também a distância do povo. O rei não é mais um ser humano, por assim dizer, mas é a própria personificação do Estado, para cumprir este papel é preciso manter certa distância do povo, e também o luxo. Além da honra, que todos os nobres devem ter, o rei tem a glória e é ela que garante o seu prestígio máximo. Não somente tem o rei a legitimação civil como tem também a religiosa, o poder dele é formalmente absoluto. Ou seja, para o rei não é suficiente apenas exercer o poder, mas demonstrá-lo constantemente. Ele precisa ser o paradigma, ele é o primeiro de todos os nobres.

O rei também é quem mantém e regula as disputas entre os nobres. De certa forma o rei deve jogar os nobres uns contra os outros e anular assim as suas forças contra ele. Embora a mobilidade social na corte seja muito difícil de ser conseguida ela tem que permanecer como paradigma a ser buscado, é isto que motiva os nobres a disputarem entre si. Saint-Simon dizia que as festividades eram uma forma de punir ou bonificar publicamente os nobres, pois ali todos viam quem foi convidado e quem não foi. Além dos ciúmes, as invejas e os agrados cotidianos serviam de reguladores para o poder dos nobres, Saint-Simon dizia que ninguém sabia fazer isto melhor do que Luís XIV. A sagacidade de Luís XIV era tanta que ele mais beneficiava quem mais lhe devia favores e que sem ele nada seriam, é uma forma muito eficiente de dominação. Por isto Saint-Simon dizia que os preferidos eram observados mais de perto.

Neste contexto o rei assume características de um líder carismático, ele precisava ser a cola social da corte. As pessoas que ingressam na nobreza devem ter a sensação de estarem pertencendo a algo especial. Ao mesmo tempo elas devem ter o mesmo interesse, as ações deste seleto grupo têm que ser, em tese, a extensão da ação do rei, e esta tensão é canalizada para as chances de prestígio, ou seja, as disputas entre os nobres. Com o desejo dos nobres de ascender, e um disputando mutuamente com o outro este objetivo, eles acabam agindo como o rei deseja, pois é ele quem concede os benefícios, é ele a própria encarnação viva do grupo, e é ele quem determina de certa forma o padrão de comportamento que ele deseja. Seja do cargo mais alto ao mais baixo o rei precisa sempre estar pessoalmente intervindo, regulando as ações, e alimentando as disputas. No entanto, estas disputas têm que serem feitas na medida correta, pois fazê-las demasiadamente satura e convulsiona as instituições. Luís XIV não era um gênio inventivo e intelectual, mas sabia como ninguém a justa medida em conceder benefícios, alimentar disputas e monitorar seus súditos, enfim, sabia como administrar um Estado Absolutista de corte. Não é o que se percebe com seus sucessores, Nobert Elias diz que os demais soberanos não souberam fazer este jogo político e saturaram o Estado, de forma que ele estava praticamente insustentável na época da Revolução Francesa.

Mas não podemos esquecer que quanto maior for o poder do rei, maior é a corte que o cerca. E quanto maior for a corte, mais interesses o rei vai ter que satisfazer. Então, não podemos ver o rei como uma figura que “apenas manda” descompromissadamente, ele também sofre uma pressão muito forte por parte de todos os grupos que o cercam. Como não existe uma separação entre o privado, o público e o profissional, o rei tinha que cumprir com as normas de etiqueta sempre, sem folga alguma. Talvez nos seja inimaginável pensar a pressão que estas pessoas estavam submetidas todo o tempo. “Nada falta a um rei, salvo as delícias de uma vida privada”13. Vale lembrar que a vida do rei estava calculada nos mínimos detalhes, não havia um só momento em que ele não deixava de ser assistido. É por isto que o rei é também um prisioneiro da etiqueta, mas está numa posição diferenciada, já que todos os nobres sofriam pressões de todos os lados, e o rei não sofria pressão de cima, pois ele estava no topo da hierarquia. Além de equilibrar as tensões o rei também tem que ser um paradigma de nobreza a ser seguido, ele também é vigiado por todos os bajuladores e desejosos de ascender ao poder. Ele tem que ser um símbolo carismático que ligue toda a corte em torno de um interesse comum, e mais ainda, ele tem que cumprir com as expectativas populares, pois ele é o próprio Estado. Vemos quanto é complicado todo este complexo jogo que o rei tem fazer. Ele age como um jogador de xadrez que deve mover as peças de forma coerente, mas é evidente que ele não faz isto de forma arbitrária como só um deus poderia fazê-lo, ele também é pressionado por cada peça numa teia de interesses que somente com muito talento ele pode manipular. Cada jogada é pacientemente demorada e fria, o próprio jogador, no caso o rei, pode perder a partida por um movimento errado, pois muitos desejam estar em seu lugar. Não estamos falando de uma sociedade burguesa onde todas as funções estão muito bem divididas e são exercidas por diferentes cargos dentro de uma empresa onde o dono apenas assume também mais cargo, no mais das vezes, um cargo burocrático. O rei tinha que regular pessoalmente, ou ao menos simbolicamente, todos os nobres que viviam em sua corte, ao mesmo tempo em que ele também era regulado por todos os outros.


Sociogênese da Revolução

Por: João Vinícius


Nobert Elias faz um pequeno ensaio ao final de seu livro falando sobre as origens da Revolução Francesa. Para o autor, nos enganamos quando atribuímos apenas ao momento imediatamente anterior a Revolução as causas de sua gênese. Ele chama a atenção para o processo de democratização que vem surgindo desde o mercantilismo no século XVI, e com isto a conseqüente tomada de poder e importância por parte dos comerciantes burgueses, ou seja, devemos ver este fato como um processo de longa duração. A democratização não ocorreu abruptamente com a Revolução Francesa, ela foi um processo que já estava acontecendo lentamente há alguns séculos.

O que acontece é que vários grupos de burgueses entraram nos círculos da nobreza, acumularam influência e poder bastante para isto. A um burguês não bastava ter um poder social, mas também um nível social. A burguesia desejava se enobrecer. Mas a aristocracia, como já foi dito, não absorve instantaneamente estes novos grupos, muito pelo contrário, dificultam ao máximo o ingresso destes novos grupos no círculo cortesão, pelos motivos das chances de prestígio.

Como os mais altos cargos do governo pertenciam à aristocracia, além de grandes lotes de terra, a burguesia começou a ver a aristocracia, e o rei, seu representante máximo, como os principais responsáveis pelas condições que eles combatiam, os aristocratas eram responsáveis por impedirem a elevação dos lucros, o desenvolvimento do individualismo e da ascensão da burguesia a cargos governamentais. A utilização da violência era um monopólio do Estado, neste momento ainda aristocrático e cortesão, mas a burguesia também começou a se utilizar da violência para conquistarem os seus objetivos. Nobert Elias chama a atenção para um fato importante, a Revolução acabou, de fato, com muitos privilégios da maior parte da aristocracia do Ancien Régime, mas destruiu de forma muito mais radical e definitiva as camadas privilegiadas da burguesia que se beneficiavam com o antigo sistema.

Temos ainda que pintar neste quadro a saturação da corte, que aumentava de tamanho, ainda que lentamente, e com isto aumentavam também os jogos de interesses, que Luís XV e Luís XVI não tinham tanto talento de conduzir como Luís XIV. Também não eram feitas reformas na corte, pois uma reforma sempre beneficiaria uma parcela da nobreza e prejudicaria outra, e isto era inaceitável para os nobres que seriam lesados, ou seja, o sistema de corte tende para a imobilidade, enquanto a sociedade está em constante mudança. No final do século XVIII a pressão vinda de baixo era tão forte que não havia como a corte responder a tais expectativas tentando manter o velho modelo.

A burguesia se une às massas de grupos excluídos, não para partilharem com eles o poder, mas para conquistá-lo para si através do uso generalizado da violência. Neste contexto, Nobert Elias diz que existem três alternativas para os monopolistas detentores do poder tomar com relação aos grupos excluídos. A primeira seria a admissão institucional e regulada destes grupos no poder. A segunda seria fazer concessões a estes grupos, sobretudo, econômicas, mas sem acesso ao monopólio do poder central. A terceira é não admitir que as relações mudam e não alterar o sistema vigente. No caso francês, a aristocracia foi incapaz de fazer qualquer mudança, ou seja, foi pela terceira opção proposta na analise de Nobert Elias. Nestas condições, o uso da violência foi a escolha tomada por parte dos revolucionários, mudando assim definitivamente as forças de diversos quadros sociais e suas relações mútuas. Dentro do sistema de corte somente uma força externa e violenta poderia alterá-lo, já que por si só o sistema de corte tende a imobilidade.



Referências Bibliográficas
ELIAS, Nobert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte; tradução – Pedro Süssekind; prefácio – Roger Chartier. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
DUBY, Georges. A Sociedade Cavaleiresca; tradução – Telma Costa. Lisboa: Sanfil Ltda, 1989.
LANDURIE, Emmanuel Le Roy. Saint-Simon ou o sistema da Corte/ com colaboração de FITOU, Jean-François; tradução GUIMARÃES, Sérgio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Um comentário:

Jéssica disse...

Olá... muito obrigada por esse post, me ajudou muito em uma prova sobre Luis XVI e sua relação com a corte...
Valeu mesmo!!!