segunda-feira, 16 de junho de 2008

Sertão do Pajeú: uma breve história

Mais um texto produzido por alunos do curso de História, da UFPE, na Disciplina - Problemas de História de Pernambuco





Antonio Cavalcante Tavares Neto
Carlos Diego Marinho
Mozart Silveira de Araújo Neto
Pedro Vinicius Simas Guedes
Renata Valéria de Lucena
Thiago Pereira de Oliveira Alcântara







SERTÃO DO PAJEÚ: UMA BREVE HISTÓRIA






Trabalho apresentado ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, como parte da avaliação da disciplina Problemas da História de Pernambuco.


Orientador: Professor Doutor Severino Vicente da Silva.












Recife- 2008

SERTÃO DO PAJEÚ

O sertão do Pajeú está localizado no Sertão de Pernambuco, em área de 10.828 km2, que representam 8,78% do território estadual e com população de aproximadamente 300.000 pessoas. Dentre as atividades econômicas desenvolvidas nesta região, destacam-se a agropecuária, o setor de comércio e serviços e o turismo, sendo Serra Talhada constituída como a cidade mais importante do Sertão do Pajeú, que detém 31,4% do PIB (Produto Interno Bruto) da região.
Analisando o espaço em que determinada sociedade habita, certamente estaremos mais capacitados para compreendermos outros elementos relevantes para a sua formação e para o modo como se estabelecem as relações entre os vários indivíduos participantes. Não pretendemos defender o discurso da escola geográfica determinista, quando esta afirmava que o homem é produto do meio, mas sim de entrarmos em sintonia com um discurso mais atual, defendido tanto por ambientalistas quanto pelas ciências humanas que apontam para a necessidade de compreensão da interdependência e unicidade da relação natureza-sociedade-indivíduo como sendo aspectos indissociáveis. Por isso, para um melhor entendimento de algumas das características peculiares da micro-região do Pajeú, faz-se necessário apresentar alguns dos seus aspectos geográficos mais significativos.
A Bacia Hidrográfica do rio Pajeú está localizada, em sua totalidade, no Estado de Pernambuco, mais especificamente na região fisiográfica do Sertão pernambucano. Limita-se ao norte com os estados do Ceará e Paraíba; ao sul com o terceiro grupo de bacias de pequenos rios interiores e com a Bacia Hidrográfica do rio Moxotó; a leste com a Bacia Hidrográfica do rio Moxotó e com o estado da Paraíba e a oeste com a Bacia Hidrográfica do rio Terra Nova e o quarto grupo de pequenos rios interiores.
O rio Pajeú nasce na serra do Balanço a uma altitude de 800m nos limites entre os estados de Pernambuco e Paraíba. Até 1963, esta nascente pertencia ao município de Itapetim (Brejinho antes pertencia ao município de Itapetim). Mas, a partir de 1964, Brejinho tornou-se município, e a serra do Balanço passou a fazer parte do seu território. O rio Pajeú possui um regime fluvial intermitente e percorre uma extensão de aproximadamente 353 km. O início do seu percurso é no sentido nordeste-sudeste até a localidade de Pajeú e em seguida, no seu curso inferior, tem direção norte-sul até desaguar no lago de Itaparica, formado pela barragem no rio São Francisco.
Seus afluentes principais pela margem direita são: riacho Cachoeirinha, riacho Tigre, riacho Conceição, riacho Pajeú-Mirim, riacho São João, riacho Boa Vista, riacho Abóbora, riacho Cachoeira, riacho Lagoinha, riacho Pedra Branca, riacho Queimada Redonda e riacho Capim Grosso. O rio São Cristóvão, que nasce na serra da Balança, limite com o Ceará e que drena a cidade de São José do Belmonte é o principal afluente desta margem. Pela margem esquerda destacam-se: riacho do Cedro, riacho Quixaba, riacho Taperim, riacho São Domingos e riacho Poço Negro. O riacho do Navio é afluente mais importante desta margem. Ele nasce a uma altitude aproximada de 750m na serra das Piabas e serve como limite entre os municípios de Betânia e Custódia.
A Bacia Hidrográfica do rio Pajeú é a maior do estado de Pernambuco, com uma área aproximada de 16.685,63km², correspondendo a 16,97% da área do estado.
A área de drenagem da bacia envolve 27 municípios dos quais 7 possuem suas sedes inseridas na bacia (Carnaíba, Carnaubeira da Penha, Floresta, Iguaraci, Itacuruba, Mirandiba e São José do Belmonte). Os municípios totalmente inseridos na bacia são: Afogados da Ingazeira, Betânia, Brejinho, Calumbi, Flores, Ingazeira, Itapetim, Quixaba, Santa Cruz da Baixa Verde, Santa Terezinha, São José do Egito, Serra Talhada, Solidão, Tabira, Triunfo e Tuparetama. Os municípios parcialmente inseridos na bacia são: Belém do São Francisco, Custódia, Ibimirim e Salgueiro. A sua população total está estimada em aproximadamente 373. 925 habitantes. A população rural corresponde a 45,36% deste total, e ela vai se concentrando à medida que cresce em importância a agricultura e decresce a da pecuária.
Predomina em quase toda a micro-região do Sertão do Pajeú o clima semi-árido, sendo a exceção a pequena área do clima sub-úmido, onde está situado, por exemplo, o município de Triunfo. Entretanto, em função das variações ambientais, a micro-região possui uma grande diversidade de solos, e isso é conseqüência da ação combinada dos seus fatores de formação, isto é, do clima, da geologia, dos seres vivos, do relevo e do tempo. Porém, o clima e a geologia assumem destaques importantes.
Na zona úmida costeira do estado pernambucano, nitidamente prevaleceu os efeitos do clima, revelados pelo avançado estágio de intemperismo dos solos mais dominantes. Nessa zona, os solos são formados principalmente através do intemperismo químico, ou seja, eles sofrem conseqüência direta da ação das chuvas e também de outros fatores sobre as rochas. Essa ação é a principal causa dos tipos de solos formadores da Zona da Mata serem mais permeáveis e profundos, e que por isso são bastante férteis e propícios para uma maior variação de culturas agrícolas. Por outro lado, do Agreste para o Sertão, o clima diminui gradativamente a sua influência e os solos passam a expor feições realçando a importância da geologia. Geralmente são formados através do intemperismo físico, ou seja, durante milhares de anos, as rochas sofreram com a ação direta do sol, fazendo com que durante o dia elas se dilatassem, e à noite com um ambiente mais ameno, fragmentarem-se, dando origem aos vários tipos de solos da região. Esse fato, aliado ao clima quente e seco da região, restringiu o desenvolvimento dos solos, bem como a lixiviação de bases. Em função desses fatores, predominam na área as caatingas mais secas (hiperxerófilas) e também os solos pouco profundos ou rasos, com presença marcante de pedregosidade e rochosidade, argilosos e com alta saturação por bases (solos eutróficos). Nessa região a grande variabilidade dos solos está relacionada com o material de origem (geologia). Isso explica porque esses solos são pouco propícios para um melhor aproveitamento econômico e estão mais voltados para culturas agrícolas de subsistência (como a mandioca) ou então para a prática da pecuária extensiva.
Mas a região da serra da Baixa Verde ou Brejo de Altitude, mais especificamente onde está localizada o município de Triunfo, é uma pequena exceção dentro deste ambiente semi-árido característico da micro-região. E isso se deve basicamente à modificação do seu regime térmico, em parte pela altitude (entre 500 a 1.100m), em parte pela própria condensação do vapor d’água presente no ar, o que provoca um aumento considerável da nebulosidade, de sorte a reduzir a insolação e, consequentemente, a temperatura, diminuindo a evotranspiração potencial, que traduz a demanda total de água pelas plantas. Em segundo lugar, o ambiente é beneficiado por um aumento substancial das precipitações pluviais. Com a pluviosidade aumentada, somada às demais influências diretas do relevo (variando entre plano, ondulado e montanhoso), repercute favoravelmente na formação dos solos, que, por influência de um regime pluviométrico menos irregular e mais abundante, são mais profundos. Essas melhorias climáticas repercutem no revestimento florístico, que por sua vez, também influencia os mesoclimas locais, interagindo para uma melhor aprazibilidade desses ambientes serranos espalhados em meio às vastidões secas das caatingas nordestinas e também nas suas lavouras, que passam a expor um maior desenvolvimento e uma maior diversificação de suas culturas, o que condiciona o surgimento de populações adensadas, com seus reflexos sobre a estrutura fundiária e sobre o tipo de organização sócio-econômica. Assim, plantações de canas-de-açúcar, milho e feijão ganham maior destaque nessas verdadeiras ilhas ecológicas. Desse modo, os brejos não são apenas áreas que se distinguem como um tipo de unidade geoecológica. São espaços, não raro microespaços que também se distinguem pelo tipo de economia e de sociedade que abrigam.

OCUPAÇÃO DO SERTÃO DO PAJEÚ PELO ESTRANGEIRO

A ocupação da área que atualmente compreende o Sertão do Pajeú, pelo colonizador europeu, teve inicio a partir de meados do século XVI, com as incursões da Casa da Torre (sob administração de Garcia D’ Ávila). O processo de interiorização destas extensas terras se deu tomando como ponto de partida Salvador. Assim, percebe-se um fator característico dos habitantes do Sertão do Pajeú: povoado por baianos e não por pernambucanos. Aproveitando as vantagens proporcionadas pela disposição hidrográfica existente, tais exploradores atingem o Rio São Francisco, primeiramente ocupando sua margem direita. Através de expedições de reconhecimento das terras e aprisionamento dos índios, a Casa da Torre paulatinamente se constituiu como principal representante de controle político local.
A Casa da Torre, Bahia – morgadio de Francisco Garcia D' Ávila – compreendia na margem pernambucana, segundo Capistrano de Abreu, uma testada de aproximadamente 250 léguas de extensão. Nesta faixa de terra conhecida como Sertão de Rodelas, existiu mais de 800 currais, cuja maioria pertencia à Casa de Torre. Dentre essas propriedades tiveram destaques na região, hoje designada de Sertão do Pajeú, dois currais (curral do sopé da Serra do Cariri – Pajeú das Flores -, e o curral pertencente ao arrendatário Agostinho Nunes de Magalhães – Fazenda Serra Talhada) que deslindaram imbricadas trajetórias históricas.
Para facilitar ainda mais a expansão destes colonizadores, era comum que a Casa da Torre recebesse extensos lote de terras, doados em grande número pelas autoridades metropolitanas. Assim, estes espaços foram efetivamente ocupados, pois os territórios acima citados já estavam sob posse dos colonizadores portugueses, devido à expansão do gado e à busca de riquezas minerais. É através desta pujante economia que a área do Sertão do Pajeú manteve contato com outras regiões do Norte brasileiro (não só com Olinda e Recife, mas principalmente com áreas de intenso comércio na Paraíba e no Ceará, transformando-se em entrepostos de currais e encontro de mercadores). Percebe-se, portanto, que o interior do atual estado de Pernambuco somente construiu laços mais fortes com os centros do poder a partir do século XIX.
É preciso recordar que antes da chegada do colonizador europeu, povoavam nesta região várias populações autóctones. Destacam-se os tapuias-cariris, que habitavam largas porções do agreste e do sertão. Os confrontos com os invasores não deixaram de acontecer, tornando-se um grande problema a ser resolvido. Durante o período de dominação holandesa no Norte brasileiro, os grupos indígenas acima citados eram aliados dos interventores batavos. Assim, o processo de expulsão dos mesmos, em 1654, ocasionou na migração forçada destas populações para regiões mais afastadas, devido ao programa repressivo exercido pela Coroa portuguesa: no mesmo ano, Pernambuco tornou-se realengo, ou seja, os donatários perderam a autonomia política que detinham nos assuntos relacionados à capitania, ao mesmo tempo em que Pernambuco foi incorporado à Coroa, cabendo a este nomear os comandantes da dita capitania. Conseqüentemente, um processo vivenciado desde esse período na história do Sertão do Pajeú é a busca, por parte da autoridade central, em coibir a ação de grupos que pudessem interferir na política oficialmente adotada, porém não conseguida na prática. Exemplo disto é a consolidação do poder da Casa da Torre em Pernambuco, aproximadamente em 1670, que estabelece leis e costumes próprios, em detrimento das disposições jurídicas elaboradas por El – Rei.
Posteriormente, a autoridade metropolitana estimulou a povoação do Sertão, ao longo do rio Pajeú, através da concessão de sesmarias (em terras já ocupadas pela Casa da Torre), que ocasionaram em graves conflitos entre poderosas famílias, gerando pontos localizados de influência política. É comum encontrar na documentação da época relatos de abuso do poder pela Casa da Torre, praticado através do confronto com jesuítas (estes em missão catequizadora) e da dificuldade do cumprimento das normas jurídicas.
Neste contexto está inserida a criação dos primeiros núcleos populacionais do Sertão do Pajeú, dentre as quais se destaca Flores. O Sítio de Flores pertencia à Casa da Torre, na área compreendida como a do Sertão de Rodelas. A região do Sítio de Flores tem sua origem relacionada à cultura do gado e representa o primeiro núcleo de povoamento do homem branco. Posteriormente, com o desenvolvimento do local, esta povoação se transformou no Arraial de Flores, à margem do rio Pajeú. A constituição como freguesia se deu devido à migração de vigários da paróquia de Cabrobó, que neste momento estava assolada pela moléstia de nome carneiradas, que encontraram em Flores clima agradável para a ocupação destes religiosos. A fundação da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em 11/09/1783, representa um importante marco na história do Sertão do Pajeú. Porém, desde o fim do século XVII, já se encontravam indícios de ocupação branca, devido à formação de povoado indígena naquele Arraial, em 1696, que tinha como intuito promover a catequização das populações que ali habitavam (um exemplo é a Aldeia Santo Antônio do Pajeú).
Já no período de estabelecimento dos vigários advindos de Cabrobó, Flores era uma das localidades mais movimentadas do Pajeú: havia muitas fazendas de gado, terras férteis e vasta produção de culturas (frutas, legumes, café, arroz, entre outras), que faziam muita gente rica na região. Conseqüência do desenvolvimento do povoado foi a proposta de criação, pelas autoridades de Olinda e Recife, de vilas no Sertão, entre as quais a do povoado do Pajeú; este projeto não foi de interesse de Portugal, sendo somente aplicado no começo do século XIX. Em 1809/1810, através da ação de Caetano Pinto de Montenegro, Flores tornou-se centro da Comarca do Sertão de Pernambuco (para tal governante, Flores deveria ser oficializada com tal por causa de sua sólida e dinâmica economia). Tal fato estava relacionado à tentativa de solução dos conflitos existentes na área limítrofe entre Pernambuco e Bahia: como forma de facilitar a administração e a prática da justiça, a fundação de uma comarca em área de tamanha influência tinha como principal objetivo coibir as infrações cometidas por grupos que possuíam a primazia política na região e instalar representantes do poder central em áreas mais afastadas. Cria-se, assim, a Comarca do Sertão de Pernambuco, que traz consigo Flores com vila, com direito à pelourinho e Câmara de Vereadores e que se apresentava como centro de influência no Sertão do Pajeú.
Pajeú das Flores tornou-se importantíssima, para a região, devido ao fato de que foi declarada Comarca do Sertão Pernambucano. Assim como Serra Talhada, Pajeú das Flores está localizada às rotas que interligam o estado Pernambucano à Paraíba e ao Ceará, o que se torna imensuravelmente decisivo à manutenção da ordem – vigente – nos arredores dessa região, principalmente, quando o “tempo” que concebe esta historicidade se dá através de “ventos” convulsivos à política nacional, destarte local. Porém, Flores foi paulatinamente acometida de decadência político-administrativa, tendo como principal causa a migração do centro de poder para outras localidades, como Serra Talhada; tais mudanças ocorreram em meados do século XIX e se constituíram na predominância de Serra Talhada como principal cidade da região (fato visível atualmente).


SERRA TALHADA

Serra talhada apresenta sua história compreendida de diversos acontecimentos, de abrangências concomitantes aos processos de ordem nacional. As diversas incursões e manobras efetuadas por seus agentes históricos dão – à este Município – aspectos peculiares com relação à Formação histórica da Micro Região em que se encontra – Sertão do Pajéu.
Esta cidade teria sido formada geologicamente a partir de uma hecatombe cósmica – atingida por um asteróide chamado de “Pedra do Sino” -, o que acabou por ilustrar o calor sentido por muitos, quando presente nesta localidade. Fazenda Serra Talhada foi ponto de partida do “deslindar” histórico desta que é uma das maiores forças do Sertão. Tradicionalmente, segundo Luiz Lorena, a Fazenda Serra Talhada teve seu processo de povoamento iniciado a partir da chegada de Agostinho Nunes, em 1700. Historiadores afirmam, como o autor, objetiva reiterar, tendo seus estudos embasados em documentos tributários (arrecadação de impostos referentes aos arrendamentos das propriedades pertencentes à Casa da Torre), que o início da “regulamentação habitacional” desta região se deu na segunda metade do séc. XVIII, o que contesta – oficialmente – a data expressa na Bandeira do Município.
Luiz Lorena, revelará que o enceto ao desenvolvimento de Serra Talhada se deu a partir da edificação de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Penha. Este fato propõe traços decisivos ao teor de religiosidade presente neste local, o tom de amálgama cultural e, sobretudo a concisa participação desta cidade (Serra Talhada) na política nacional.
As respostas para os “porquês” dessa devoção à Santa “ibérica” (N. Senhora da Penha), em pleno sertão estão ligadas diretamente ao processo de colonização encetado pelos Portugueses.
“(...) o culto de Nossa Senhora da Penha foi trazido por marujos portugueses e aqui tomou grande impulso, devido a devoção dos lusitanos emigrados que transpuseram para a nossa pátria os seus costumes e devoções.” (Nilza Botelho Megale, “Invocações à Virgem Maria no Brasil.”)
Nossa Senhora da Penha que foi vista por Antônio Pedro Simão, em meados do Séc. XVI – ao monte Penha de França, região dos Pirineus – e que libertou um devoto do veneno funesto de uma serpente, tornou-se símbolo à esperança do retorno de D. Sebastião – possivelmente morto na Batalha de “Alcácer Quibir” - que poria em vigência uma possível libertação dos laços de subjugo da Espanha. Alimentou diversas “cenas” quase míticas em solo colonial americano que vieram justificar as diversas edificações propunham como topônimo o nome da Santa.
A padroeira de Serra Talhada teve seu primeiro templo pernambucano construído no ano de 1656 em Recife – num terreno doado por Belchior Alves e sua esposa Joana Bezerra[1] à Capuchinhos vindos da França, no período flamengo, sob o governo de Maurício de Nassau. Em 1709, D. João V – após a expulsão dos monges franceses em 1701 – destina essa construção à monges capuchinhos italianos.
Em Serra Talhada a primeira capela erigida com o nome de Nossa Senhora da Penha se deu por iniciativa de Filadélfia Nunes de Magalhães – filha de Agostinho Nunes de Magalhães – em 1790. Construída por escravos, esta ermida era pertencente à paróquia de N. Senhora da Conceição – localizada em Flores.
Nota-se, através destas informações, a forte influência que não só Serra Talhada, mas também grande parte (restante) do sertão pernambucano sofreram quanto ao processo de colonização por parte dos europeus e o quão esses fatores podem ser apontados como sólidos constituintes da cultura sertaneja (exemplificando a presença de traços europeus no comportamento dos sertanejos do Pajéu - como afirma Raul Fernandes, em seu estudo que retrata as décadas de vinte e trinta do séc. XX, nesta região) para tais comportamentos.
“O catecismo editado na Maison de la Bonne Presse, de Paris traduzido em português pela Juventude Católica de Lisboa, era a Bíblia das famílias sertanejas.” (Raul Fernandes)

“O Incêndio no Sertão.”

Um fator decisivo para a “emancipação” de Serra Talhada foi a presença dos liberais praieiros – com finalidade de desarticular a base conservadora – no estado de Pernambuco. Segundo Pe. Pinto Campos, Pajeú das Flores – então comarca do sertão pernambucano - não oferecia segurança para a manutenção da estabilidade “conservadora” que garantia uma política concernente com o a praticada e defendida pelo Estado (Central), no sertão, o que possivelmente deslindaria a aquecida Revolução Praieira.
Em projeto proposto à Assembléia Provincial Pernambucana, em cinco de abril de 1851, tornava-se necessária a mudança da comarca da cabeça do sertão para a localidade de Baixa Verde. Posteriormente, em novo pronunciamento, Pinto de Campos, reitera a necessidade da transferência, porém sugere, diferentemente de sua primeira, proposta, que a sede da comarca seja transferida para a localidade de Serra Talhada – o que lhe valeu acusações de comportamento contraditório dúbio. Porém, muitos parlamentares reiteraram a proposta do padre, o que tornou-a votável.
“Flores está colocada em tal posição que não tem mais proporções para aumentar, nem progredir; desde que é vila, até hoje, não tem diferença alguma, e isto sucede não só porque o seu terreno é mau, é um cascalho, como porque não há proporções no lugar para ter aumento de prédios.” (Castro Leão)
“(...) Serra Talhada, apesar de não ser a comarca, tem aumentado em casas, e flores, apesar de ser a sede da comarca tem estado estacionária.” (Sr. Batista)
Em defesa da transferência da supracitada comarca para as terras de Serra Talhada, foram lançados vários discursos, e o que parecia ser um leque de argumentos embasados apenas em âmbitos político tornou-se ulterior, a sua essência. É fundamental ter uma liderança com capacidade de abarcar um acentuado crescimento econômico, sobretudo estando, sua população, em legalidade. Um lugar seguro, “uma comarca onde” não chegou “o incêndio da revolta" (adaptação de discurso do Pe. Pinto Campos) e que, por corolário, foi de grande contribuição para o projeto de manutenção dos conservadores.
Após intensos esclarecimentos e embates políticos, o presidente da Província de Pernambuco (José Idelfonso de Souza Ramos) sanciona em seis de maio de 1851 a Lei de número 280, que instituía:
“Art. 1 - a transferência da sede do município de Flores do Pajeú para a povoação de Serra Talhada, elevada à Vila com a denominação de Villa Bella”.
Art. 2 - Transferida para Villa Bella a sede da comarca do Pajeú das Flores.”
Com essas decisões – que retirava-se da mão de Flores o controle da comarca e a sua territorialidade oficial - houve um clima de derrota para a então principal localidade do Pajeú. Esses fatores acarretaram um emaranhado de articulações que proporcionaram atender aos dois centros, porém Villa Bella (antigo povoado de Serra Talhada) teve seu crescimento político em detrimento da importância de Pajeú das Flores, o que lhe rendeu ser a principal instância decisória desta região.
A reparação – que visava atender as elites da então (hoje) Flores – se deu em forma da lei nº 437 de 26 de maio de 1858. A sua vigência determinava à Freguesia de Flores do Pajeú ascender ao status de Município, o que significativamente determinou o findar da direta ligação histórico-territorial (imbricadamente) pertencente aos dois municípios.
Em 07 de maio de 1872 é sancionada a Lei 1057, determinando que Villa Bella deixasse de ser a comarca de Flores, passado assim – através deste desligamento – à situação de comarca do próprio Município. Neste mesmo momento de reconfiguração político-territorial da região, Baixa Verde passou ao termo de Triunfo.
Em nova divisão territorial, promovida em 1939, Villa Bella tem no topônimo Serra Talhada – com que surgiu o curral dos grandes senhores da Casa da Torre, do outro lado do São Francisco – a sua última Nomeação como Município, estando até hoje designada dessa forma.
Serra Talhada, hoje, é o centro comercial do Pajeú, localizado à uma região em franca ascensão econômica. O estudo da história deste Município torna-se necessário para quem pretende compreender melhor não apenas o processo de colonização do Brasil (a interiorização no nordeste), o caráter de religiosidade presente nesta região; mas também como se refletiu – gradualmente - políticas nacionais, estaduais e locais que visavam manter a ordem e ou estruturar novos projetos. Serra Talhada é, indubitavelmente, um campo aberto para aqueles – historiadores - que tem como desiderato um rico acervo de possibilidades.

AFOGADOS DA INGAZEIRA

A partir de Flores, outras cidades adquirem progressiva independência, dentre as quais destacamos um pouco da história de Afogados da Ingazeira, Itapetim, Tabira e São José do Egito, que possuem proeminência até os dias atuais.
A região era ocupada por índios da tribo Cariri que falavam o tupi. Por volta do século XVII, colonizadores vindos, principalmente, da Bahia penetraram no sertão pelos rios São Francisco, Moxotó e Pajeú e tiveram os primeiros contatos com esses índios, que foram posteriormente foram escravizados, mortos e evangelizados por Carmelitas Franceses. Assim se deu a chegada européia na região.
O Município de Afogados da Ingazeira teve sua origem numa fazenda, denominada "Barra da Passagem". O proprietário da fazenda, Manoel Francisco da Silva, construiu em 1836, uma capela para Bom Jesus dos Remédios. A fazenda prosperou e cresceu: as pessoas que trabalhavam nela passaram a morar ao redor, transformando-se numa comunidade,
Muito tempo atrás um jovem casal, tentando atravessar o rio Pajeú que na ocasião se encontrava numa enchente, muito caudaloso, foram arrastados pela forte corrente e desapareceram, só foram encontrados dias depois, os corpos deles, muito abaixo do local do acidente onde foram afogados. Daí então o local ficou conhecido pelo nome de Passagem dos Afogados, depois esse nome Passagem foi abandonado e passaram a chamar somente Afogados.
A Lei provincial de 5 de maio de 1852 criou o município de Ingazeira. Desmembrado de Flores. Ingazeira tinha um distrito chamado de Afogados.
A sede municipal ficava em Ingazeira e em 1879, a sede foi transferida para Afogados junto com a sede paroquial, em 1883 voltou para Ingazeira, e em 1884 voltou para Afogados, nessa ocasião ela retornou para Afogados porque nem o vigário nem o povo retornaram para Ingazeira. Em 1892 o distrito foi transformado em Vila através de uma Lei Municipal, e finalmente em 1909 a Vila foi elevada à cidade, passando a ser chamado de Afogados da Ingazeira. Não ficou se chamando somente Afogados porque em Recife já existia uma freguesia chamada de Afogados e porque a população já estava acostumada a chamar Afogados da Ingazeira.
Vale ressaltar que essa mudança administrativa entre Afogados e Ingazeira foi devido à influência política que Ingazeira possuía na região, entretanto Afogados possuía uma melhor qualidade da terra, propício à plantação e acabou por conseguir a administração.

ITAPETIM

O município de Itapetim, localizado a 423 Km da capital do estado, na região do sertão do Pajeú, recebe a denominação de cabeça do Pajeú, que intitula o livro de Marcos Roberto Nunes Costa. Este apelido se deve ao fato de Itapetim estar localizada na nascente do rio Pajeú. Antigamente se falava que o rio nascia em São José do Egito, visto que até 1953, Itapetim pertencia a este município, porém hoje, pode-se dizer que o rio Pajeú nasce em Itapetim, na serra do Teixeira, sendo que do lado pernambucano.
O significado do nome Itapetim também é interessante. “Ita” significa pedra e “Petim”, solta, ou seja, “pedra solta”, devido a grande quantidade de pedras soltas na região montanhosa de Itapetim. Este nome foi sugerido por Mário Melo, o qual atribui-se a característica de gostar de mudar os nomes das localidades pernambucanas, apoiado por Agamenon Magalhães.
O primeiro nome de Itapetim foi Umburanas. Faz-se necessário a explicação deste nome, que está ligado a história da origem de Itapetim.
No contexto da penetração do interior de Pernambuco pelos exploradores surge a grande sesmaria dos “Sertões de Rodelas”, pertencente a Francisco Dias D’Avila, sediada em Cabrobó, que foi desmembrada da “Capitania do São Francisco”, ou “Casa da Torre”. Posteriormente em 1695, depois de apresentar certa prosperidade, a sesmaria dos “Sertões de Rodelas” dá origem a uma nova sesmaria, a do Aimbó, ou Sertões do Pajeú.
Devido a uma lei provincial que passa a vigorar em 1758, o sistema de distribuição de terras nos sertões muda, sendo com isso, fragmentadas as terras do sertão do Pajeú em pequenas propriedades, devendo haver uma faixa de uma légua entre estas terras, a fim de usa-las para utilidade pública. Destas faixas de terras devolutas, nascia no ano de 1788, o patrimônio de São Pedro das Lages (Itapetim).
A partir dos grandes caminhos e pequenas veredas que surgiram no sertão para o escoamento da produção sertaneja de extração de minérios, para a condução do gado para o mercado dos grandes centros litorâneos e para exportação, surge no século XVI, o tráfego dos primeiros comboios pela região da nascente do Pajeú.
Já no século XVII, andavam pela região da “cabeça do Pajeú”, os tropeiros ou Almocreves, profissionais que se especializaram no transporte de mercadorias pelas longas veredas do sertão. A região onde atualmente se localiza Itapetim era ponto de referência entre viajantes e tropeiros devido às boas características naturais que lá se apresentavam, como a planície de vegetação rasteira e dispersa, a agradável sombra proporcionada pelas umburanas, árvore típica da região, além de estarem numa área às margens do rio Pajeú, ou seja, água todo o tempo para repor as energias dos tropeiros, bem como de seus animais.
Enfim, pelo fato de naquela região se encontrar muitas árvores umburanas, a região da atual Itapetim ficou inicialmente conhecida como Umburanas.
Em 31 de março de 1938, pelo Decreto-lei n° 92, o município passou a chamar-se São Pedro das Lages. Posteriormente chama-se Itapetininga, porém, devido ao fato de já existir no estado de São Paulo, um município com este mesmo nome, o mesmo foi alterado para Itapetim através do Decreto-lei n° 952, de 31 de dezembro de 1943. Itapetim foi desmembrada de São José do Egito, já como Vila, elevando-se a categoria de cidade somente em 29 de dezembro de 1953 pela Lei n° 1818.

SÃO JOSÉ DO EGITO E TABIRA

Por decorrer do ano de 1830 alguns fazendeiros da cabeceira do Rio Pajeú – na antiga região de Queimadas – resolveram estabelecer sua residência. Em seguida iniciaram a edificação de uma Capelinha bastante simplória, feita com madeira e palha – para a adoração de São José, visto que eles eram devotos do santo de mesmo nome. Este fato determinou a formação de uma povoação no sítio, que ficou conhecida como Queimadas, devido a práticas da coivara.
Há três léguas na antiga fazenda de São Pedro, já havia outra antiga capela de devoção a São Pedro, que também dera origem ao referido povoado. Os habitantes desse povoado não viram com bons olhos a prospera capelinha de São José, diziam que está poderia trazer a decadência daquela. Com ciúmes, as pessoas de São Paulo foram e derrubaram a capelinha de São José, porém, sem muito êxito, visto que por três vezes consecutivas, esta foi reconstruída. Depois do ocorrido, um dos fazendeiros resolveu edificar uma capela com materiais mais sólidos, que não fossem tal fácil de derrubar, e assim, foi feito.
Em 1838, Inácio do Nascimento de Souza, que era um proprietário local fez doação de um terreno que permitisse a construção de uma Igreja que comportasse um número maior de fiéis. Em 1839 chegou a região um missionário capuchinho que auxiliou economicamente a construção, edificando um igreja bem maior que o esperado. Este templo só ficou pronto em 1865.
Nesse mesmo ano a povoação de Queimadas passou a ser chamada de São José das Queimadas, devido a existência da referida Igreja. Em 1872 ascendeu ao status de Vila, mudando seu nome para São José da Ingazeira, já que aquela passou a pertencer a cidade de Afogados da Ingazeira.
Em 1886 esta vila alcança sua independência e muda seu nome para São José do Egito.
Em relação à Tabira, esta se localiza próxima ao Rio Pajeú, que habitou, em tempos remotos, a tribo Tabajara que tinha por líder o guerreiro Tabira, ele viveu no século XVI. Na época da conquista do interior do Nordeste, Tabira se aliou aos portugueses contra os Potiguar e franceses. No fim a sua existência ele se converteu ao catolicismo.
Nesse mesmo local, em 1865, surgiu uma fazenda de propriedade do senhor Gonçalo Gomes. Este teve a iniciativa de formar uma feirinha que beneficiaria sua fazenda e seu povo, já que estes não precisariam se deslocar em buscas de alimentos. Ao redor dessa feira foi se estabelecendo um povoado, denominado de Madeira, devido a existência de um tronco que se localizavam no centro da feira, cuja utilidade era o corta da carne para a venda. Esta feira passou a ser conhecida como o Toco do Gonçalo Gomes.
Em 1911 o povoado para o ser considerado uma vila, mudando o seu nome de Tabira para Espírito Santo, que pertencia a cidade de Afogados da Ingazeira. Só em 1948 que a referida vila é desmembrada da cidade de Ingazeira, ganhado sua independência e o retorno a origem, visto que voltou a ser chamada de Tabira, devido a existência da tribo Tabajara nos primórdios de sua história.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Descendente de uma rica família detentora de grandes terras no nordeste. Foi homenageada com o topônimo de uma ilha que tripartia o Recife (Ilha de Joana Bezerra), segundo dados lançados por Virgínia Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco

2 comentários:

Ellen disse...

gostei,,,,muito bom....pelo menos de bem ou mal falaram bastante da minha cidade. Elenilda -Flores/PE.

genealogia disse...

Minha familia é originaria de Pajeu das flores. Procuro dados de Miguel dos Anjos casado com Maria Rosa e João Manoel Caldas casado com Joaquina Correia
Gileno caldas barboza
lenob2001@yahoo.com.br